8 de fevereiro de 2017

Capítulo 52

O sol tinha se ocultado sob o horizonte ocidental e o anoitecer começava a cobria toda a paisagem. Maddie andava adiante, pastoreando as crianças à sua frente. Ela tinha desistido a um longo tempo de tentar mantê-las correndo. Elas não podiam fazê-lo. Ela riu sarcasticamente ao pensamento. Ela não podia continuar correndo, muito menos as crianças. Ela procurou, contando-as. Tinha desenvolvido um medo mórbido de que uma delas cairia para fora da estrada, no meio do matagal, e ela não notaria. Todos eles estão aqui, ela pensava. Depois hesitava. Ela tinha contado dez ou nove? Sua mente brincava com ela, percebeu. Ela estava exausta demais para pensar direito. E se ela estava tão mal, como dirigiria as crianças? Ela relembrou das palavras do Will: Se você ainda estiver à frente deles ao pôr do sol, procure um bom esconderijo fora da estrada.
Mais fácil falar do que fazer, ela pensou. Onde eles poderiam se esconder neste lugar aberto? Ela virou e olhou para a estrada atrás deles. Não havia qualquer sinal de perseguição. Também não havia sinal de Will. Seus olhos se enchiam de lágrimas quando ela se relembrava de como o havia deixado para enfrentar Ruhl e seus homens sozinho.
— Eu deveria ter ficado com você — ela sussurrou, apesar de saber que ele nunca teria permitido que ela fizesse isso.
Com os olhos de sua mente, ela podia ver os escravagistas espalharem-se numa longa fileira para cercar Will, possivelmente esperando até que seu suprimento de flechas esgotasse, então se aproximariam e o matariam.
Se fosse tão simples assim, pensou. Pelo que as crianças tinham lhe falado, Jory Ruhl seria capaz de atos selvagens de vingança contra aqueles que pensava tê-lo frustrado. E Will certamente fizera isso. Possivelmente eles o torturariam antes de matá-lo. Poderia ser isso o que faziam agora.
Ela olhou à esquerda e viu os pequenos penhascos que notara quando eles passaram pela primeira vez na estrada. Ela parou, tentando forçar sua mente a pensar claramente. Ela tinha notado algo sobre esses penhascos, mas o que seria? Poderia ser sobre a instrução de Will para ela – algo sobre o esconderijo. Ela percebeu que estava bamboleando de exaustão. As crianças haviam parado também. Muitas delas se afundaram na estrada e imediatamente caíram no sono na terra batida e cascalho fino. Puxão e Bumper pararam no lugar, olhando para ela curiosamente, esperando instruções.
Os penhascos. Esconderijo após o pôr do sol. O que era? Depois lembrou. Ela tinha visto o que pareciam ser cavernas na base dos penhascos. Cavernas e rochas caídas onde eles poderiam se esconder e procurar abrigo e descanso para o resto da noite. No escuro, eles estariam invisíveis se Ruhl e seus homens passassem pela estrada.
De repente, ela estava reenergizada e caminhou entre as crianças, agitando e estimulando aqueles que tinham se deitado.
— Levante-se! Acorde! Nós temos que sair da estrada! — ela gritou para eles.
Previsivelmente, Julia tinha sido uma daquelas a entrar em colapso e cair dormindo. Ela choramingou quando Maddie a cutucou nas costas com a ponta do seu arco.
— Pare com isto! Isso dói! Deixe me em paz!
— Vai doer mais se eu usar uma flecha — Maddie respondeu severamente. — Agora levante-se! — ela enfatizou a ordem chutando Julia levemente na lateral do joelho – não o suficiente para prejudicá-la, somente para causar dor.
Julia berrou em protesto. Mas ela começou andar, como os outros.
Maddie apontou para a linha de penhascos.
— Tem cavernas lá e nelas poderemos passar a noite — ela falou. — Vocês poderão dormir o quanto quiserem uma vez que chegarmos lá. Mas por agora, devem fazer um último esforço. Agora vamos lá!
Ela começou a sair da estrada e eles cambalearam atrás dela. De repente, consciente de que o rastreador de Ruhl ainda poderia estar vivo, ela parou. Dez deles caminhando um atrás do outro deixaria uma inconfundível trilha no meio da grama, visível mesmo no escuro.
— Espalhem-se — ela falou para eles. — Não andem todos atrás de mim. Espalhem-se para os lados.
Eles obedeceram entorpecidos. A promessa de que poderiam descansar em breve levaram-nos para um último esforço e eles abriram caminho através da grama para a linha escura de penhascos, tropeçando, ocasionalmente caindo estirados ao chão, mas de alguma forma conseguiram forças para continuar.
Finalmente, eles chegaram ao abrigo de rochas caídas ao pé dos penhascos. Maddie tinha escolhido uma abertura na face de um penhasco – um largo buraco que prometia ser a entrada para uma caverna considerável. Mas acabou sendo nada mais que uma depressão, com não mais de dois metros de profundidade. Ela teve um momento de pânico. O que faria se todas essas entradas de cavernas se provassem ser parecidas com esta última? Ela tentou outra e ficou igualmente desapontada. A caverna tinha apenas quatro metros de profundidade e era muito estreita. Não havia nenhuma câmara para dez crianças, dois cavalos e uma aprendiza de arqueiro esgotada.
Ela inspecionou outras três com resultados similares. Curiosamente, foi um dos menores buracos que provou ser a escolha correta. Era pouco mais que uma fenda estreita na base do penhasco com pouco mais de dois metros de altura. Mas dentro, abria-se para um espaço largo e alto. O chão estava coberto por areia macia e havia espaço para todos eles.
Bumper e Puxão tiveram dificuldade e demoraram para se espremer e passar pela entrada, mas eles conseguiram. Maddie olhou ao redor e ficou satisfeita. Ali ainda havia a chance de os perseguidores, caso houvesse algum, ignorassem esta abertura insignificante completamente após terem verificado as maiores,
— Sinto muito, não temos nada para comer — ela falou.
Então percebeu que estava falando sozinha. Seus companheiros não estavam interessados em comida. Cada um deles tinha escolhido um lugar e já estava esparramado na areia macia, e dormiam de completo esgotamento.
— Suponho que eu deveria ficar de vigia — ela continuou, sabendo que não haveria ninguém exceto ela mesma para manter a guarda.
Bumper bufou para ela. Durma. Nós vamos alertá-la se alguém estiver chegando.
— Suponho que sim — ela respondeu.
Ela tirou a capa, dobrou-a e a usou como travesseiro. Então deitou-se na areia e suspirou satisfeita. Antes que o suspiro tivesse morrido, ela já estava dormindo.


Não havia mais flechas. Will observou que os homens que o rodeavam começaram a se mover para mais perto, tornando-se gradualmente mais ousados quando perceberam que ele não podia mais atirar – que ele não tinha mais nada para atirar. Ele balançou a cabeça desesperadamente. Jogou o jogo o máximo de tempo que podia, na esperança de dar a Maddie tempo suficiente para fugir. Agora que isto estava acabado, ele desconhecia que caminho seguir.
Eles o tinham flanqueado, depois começaram a se aproximar por todos os lados. Ele os mantinha tão longe quanto era possível, atirando neles sempre que via a chance de fazê-lo. E agora ali estavam oito homens ao redor dele, aproximando-se lentamente. Dois deles tinham feridas de flechas, mas ainda capazes de lutar. Tudo o que ainda lhe restava era a sua faca de caça e a de arremesso.
Ele enfiou seu arco dentro do laço de couro na parte de trás da bota, então se inclinou para a frente e, usando o corpo e os músculos das costas, tirou a corda do arco. Ele havia feito o próprio arco e era um dos melhores que ele já tinha feito. De alguma maneira, não queria que uma arma tão boa caísse nas mãos de traficantes de escravos. Ele atirou o arco para longe, na grama longa.
Ruhl estava de frente para ele, a menos de cinquenta metros de distância. Ele podia enxergar os traços do outro homem no crepúsculo, podia ver a raiva e também o ódio ali.
Chegue um pouco mais perto, Jory, ele pensou. Sua mão pairou sobre a faca de arremesso na bainha. Todos os homens ao redor dele carregavam lanças e um deles tinha uma besta apontada para ele. Ruhl, consciente de suas limitações como atirador, passara a besta para outro. Sua arma de longa distância era o dardo, e ele tinha três lanças leves em um tubo de couro em suas costas. A espada estava na sua mão quando ele se aproximou.
Apenas mais um passo, Will pensou. Seus músculos estavam tensos enquanto se preparava para puxar faca de arremesso e enviá-la girando para o coração de Ruhl.
Ele ouviu um leve ruído atrás dele. Algo passou rapidamente por seus olhos e de repente uma corda apertou-se em torno de seus braços, fixando em torno de seus cotovelos. Ele se virou, furioso por ter esperado tempo demais e a chance para matar Ruhl ter passado. O Ladrão riu, adivinhando o que estava se passando na mente de Will.
— Bom trabalho, Anselmo — ele disse.
O ibérico rapidamente deu mais voltas de corda ao redor dos braços de Will, puxando-os firmemente.
— Você matou meu amigo — ele rosnou, enquanto se movia para ficar na frente de Will, empurrando seu rosto barbudo para perto do arqueiro.
Will levantou uma sobrancelha com ironia.
— Fico feliz em ouvir isso — respondeu. — Pena que eu errei você.
Sem aviso, Anselmo ricocheteou a cabeça para frente e deu uma cabeçada no rosto de Will. Will cambaleou, incapaz de recuperar o equilíbrio com os seus braços amarrados, e caiu no campo. Ruhl adiantou-se rapidamente, visando um pontapé enquanto ele estava indefeso. Então estendeu a mão, agarrou a frente da sua jaqueta e puxou-o mais ou menos de pé. Eles se encararam durante vários segundos.
— E sinto duplamente por ter errado você — Will continuou.
O rosto de Ruhl contorceu-se de raiva e ele recuou o punho para bater em Will. O arqueiro encarou-o com calma, esperando o golpe. Mas Ruhl hesitou, franzindo a testa enquanto olhava para o rosto barbudo na frente dele.
— Eu conheço você — ele falou.
Ele buscou em sua memória, tentando lembrar aonde tinha visto aquele rosto antes. A recordação chegou. Ele tinha estado em um bote – um barco movido a remo – deslizando para a outra margem do rio. E este homem estava na frente para ele, a apenas cinco metros de distância.
— Você é Will Tratado — ele falou suavemente. Então, com raiva do arqueiro, ele continuou: — Você foi um dos que matou ou capturou meus homens. Nos perseguiu por todo o país e destruiu meus negócios. Agora está tentando fazer isto novamente. O que eu fiz para você, por que isso?
— Você matou minha esposa — Will falou para ele.
Sua voz estava sem emoção, seus olhos estavam frios como pedra.
Ruhl acenou com a cabeça, lembrando e compreendendo.
— Sim. A diplomata, não era ela? Bem, na verdade, se eu me lembro bem, ela mesma fez isso. Correu de volta para a pousada que estava queimando e ficou presa, garota boba. Não fui eu. Foi ela.
— Você foi o responsável — Will observou.
Ruhl inclinou a cabeça, considerando a acusação.
— Bem, suponho que algumas pessoas possam colocar desta maneira. Mas agora é tudo águas passadas, não é? Ou, devo dizer, fumaça sobre a pousada?
Ele riu. Estudou Will cuidadosamente, procurando sinais de uma explosão de raiva. Em vez disso, havia apenas ódio naqueles frios olhos castanhos.
— Eu vou matar você, Ruhl. Acredito que você deva saber.
Ruhl sorriu para ele, balançando a cabeça.
— É bom você me avisar, mas não acho que você o fará — ele apontou para a corda amarrada ao redor dos braços e do corpo de Will. — Afinal de contas, você está um pouco desamparado, não é?
— Vou tratar disso. Acredite em mim — Will respondeu.
Mas novamente o Ladrão balançou a cabeça ironicamente.
— Eu acredito que você quer. Acredito que você o faria se eu te desse a chance. Mas não darei. Eu farei uma coisa completamente diferente — ele apontou para o ibérico que tinha segurado Will. — Amarre-o direito, Anselmo. Certifique-se de que ele não possa fugir. Depois traga-o de volta para o acampamento.
Ele esperou até que o marinheiro tivesse amarrado Will habilmente, prendendo seus braços e pulsos, e amarrando os tornozelos juntos, deixando um pedaço curto de corda entre eles para que o arqueiro só conseguisse andar mancando, sem jeito. Will testou os nós, testando a força de seus braços e pulsos contra eles. Mas a corda era nova e o marinheiro ibérico sabia fazer seu trabalho. Will não podia movê-las um centímetro. Ruhl ficou para trás, observando o processo com um sorriso satisfeito. Depois, quando Will ficou em silêncio, ele se aproximou de novo.
— Você não quer saber o que planejo fazer com você? — ele perguntou.
Will deu de ombros.
— Na verdade, não.
— Bem, eu vou te falar de qualquer forma. Em memória da sua amada esposa, acho que vou queimá-lo até a morte.

Um comentário:

  1. Pode tentar otario nunca vai conseguir e no final ele vai por uma flexa no seu ra...

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Boa leitura :)