8 de fevereiro de 2017

Capítulo 50

— Eu terei que lhes dar um verdadeiro descanso em breve — Maddie murmurou para si mesma.
Ela acabara de anunciar uma pausa de dez minutos, e as crianças afundaram cansadas e com gratidão para o chão, ao lado da estrada. Maddie ajudou Rob a descer da sela. Ele agradeceu e saiu mancando para a estrada, sentando-se com cuidado para evitar sacudir a perna latejante.
Mesmo ele estava exausto, e estava montado o tempo todo.
Os outros ficaram em silêncio, quase catatônicos. Durante horas, eles se concentraram em colocar um pé na frente do outro, até que parecia não haver mais nada em suas vidas. Maddie foi buscar o cantil da sela de Bumper. De repente, o esforço parecia muito para ela e ela apoiou a cabeça contra o pelo preto e branco por alguns segundos preciosos. Suas pernas doíam. Seus pés estavam doloridos. Havia uma bolha se formando em seu calcanhar direito e, no momento, ela não poderia ir mais longe.
Por que você não monta por um tempo?
Ela olhou para cima. Bumper tinha virado a cabeça para olhar para ela. Seu grande olho castanho estava cheio de simpatia e preocupação com seu bem-estar.
Ela balançou a cabeça.
Não posso. Eu tenho que seguir com eles ou eles pensarão que podem parar.
Bumper tremeu a pele e os músculos de seu ombro, como cavalos costumam fazer. Para Maddie, pareceu suspeito como um encolher de ombros – e ela sabia que os cavalos não podiam dar de ombros. Mais uma vez, ela estendeu a mão para o cantil. Estava com menos da metade agora, embora ela estivesse distribuindo a água com moderação desde que tinham estado na estrada. Havia outro cantil pendurado na sela de Puxão, mas ela tinha usado aquele primeiro e estava praticamente vazio.
Ela tomou um gole d’água morna com sabor de couro, em seguida, atirou o cantil por cima do ombro e começou a se mover entre as crianças exaustas, passando a água para eles, certificando-se de que ninguém bebia mais do que sua parte justa.
Ela tinha acabado de pegar a água de volta de uma das meninas mais jovens quando Tim Stoker, que estava de pé no meio da estrada, no ponto mais alto, a chamou baixinho.
— Maddie. Alguém está vindo.
Seu coração perdeu uma batida e ela correu para ficar ao lado dele.
Ele estava protegendo os olhos com a mão direita, olhando para o sul, e ela começou a procurar na mesma direção.
Havia apenas uma figura marcando o horizonte. Essa seria a direção que ela poderia esperar que Ruhl e sua gangue viesse – se tivessem desistido da perseguição depois de Will.
Seria também a direção de onde Will viria.
Mas ela estava consciente de seu ensino – sempre espere o pior e você não vai se decepcionar.
Ela olhou para as crianças. Nenhuma delas, além de Tim, mostrou algum interesse na figura distante. Sentaram-se na beira da estrada, de cabeça baixa, os cotovelos sobre os joelhos.
Eles estavam no fim de suas forças, ela sabia. Se aquela figura à distância fosse um batedor enviado na frente, se os homens de Ruhl estivessem apenas um pouco atrás, ela nunca conseguiria fazê-los se mover rápido o suficiente para evitar a recaptura.
Ela esquadrinhou o horizonte novamente. Não havia sinal de qualquer outro homem após o primeiro e a esperança começou a crescer em seu coração. No entanto, ela soltou seu arco e esticou um pouco os braços para aliviar seus músculos. E empurrou para trás a aba em sua capa que protegia suas flechas do mau tempo.
— Quem é? — perguntou Tim.
Ela apertou os olhos, tentando ver a figura mais claramente. Ela estava com a cabeça nua, Maddie viu, e isso não era um bom sinal. Will normalmente teria o capuz de sua capa puxado para cima. Sua mão se moveu em um gesto automático e selecionou uma flecha de sua aljava e a pôs na corda de seu arco com facilidade praticada.
— Eu não sei — ela respondeu.
Mas quando a figura se aproximou, ela pôde ver mais detalhes. Ela carregava um arco longo e Maddie podia ver as penas de um feixe de flechas visíveis acima do seu ombro direito. O nó que se formou em seu estômago começou a afrouxar, e quando a figura parou e acenou, segurando o arco por cima da cabeça, ela começou a rir.
— É Will — disse ela, com uma enorme sensação de alívio. Ela chamou as crianças. — É Will Tratado. Ele está aqui para levá-los para casa!
A maioria deles estava muito esgotada para mostrar qualquer reação. Um ou dois ergueram as cabeças na palavra “casa”. Mas Tim sorria para ela, o alívio evidente em seu rosto. Só ele tinha conhecimento de seu medo de que eles poderiam ser seguidos pelos sequestradores e ele ficou aliviado quando ela reconheceu a figura caminhando na direção deles.
Maddie se aproximou de Tim e colocou o braço ao redor de seus ombros magros. Ela balançou a cabeça e riu de novo. Will estava aqui e agora que tudo ficaria bem.


— Você fez bem em trazê-los tão longe —Will disse-lhe aprovação.
Ela deu de ombros.
— Eu não penso assim. Ainda temos um longo caminho a percorrer.
Eles concordaram em dar os ex-prisioneiros um descanso mais longo para ajudá-los a recuperar alguma energia. Eles fizeram uma refeição simples de pão prensado, carne salgada e frutas secas, partilhando entre as crianças com fome e usando todo o seu suprimento no processo.
— Nós sempre podemos conseguir mais em Ambleton — Will falou.
Maddie suspirou feliz. Ela estava feliz por estar livre da responsabilidade de orientar as crianças para a segurança. Will era tão capaz, tão experiente. Tudo estava bem agora que ele estava aqui. Ela sentiu um enorme peso sair de seus ombros quando passou a responsabilidade para ele.
— Você tem certeza de que Ruhl e os seus homens não estão por perto? — ela perguntou.
Ele balançou a cabeça.
— São quilômetros de distância. Da última vez que os vi, eles ainda estavam perseguindo suas caudas e em direção ao sul.
Ele mordeu um pedaço duro de carne seca e mastigou pensativamente para amaciá-la.
— A não ser que um deles seja um rastreador — acrescentou. — Mas do jeito que estavam tropeçando pela noite, duvido que haja alguém entre eles que poderia seguir uma trilha. Eu tinha que continuar me mostrando para que eles soubessem onde eu estava.
Maddie se acomodou, o último vestígio de dúvida apagado por sua declaração confiante.
— Assim, podemos ter calma? — ela perguntou.
Ele a olhou por alguns instantes.
— Podemos tornar a caminhada um pouco mais fácil — ele corrigiu. — Não vale a pena conceder muito. Vamos deixar as crianças descansar por mais uma hora, em seguida, seguiremos novamente.


— Jefe! Aqui! Aqui é o lugar onde ele fez a volta!
O ibérico estava sobre um joelho, estudando o solo. Ele apontou para uma linha de depressões quase invisíveis na grama longa. Os talos já estavam começando a se recuperar e ficar de pé mais uma vez.
Ruhl mal podia ver a diferença que o olho experiente do rastreador tinha reconhecido. O ibérico estendeu a mão para um arbusto raquítico, onde uma linha cinzenta de tecido tinha ficado presa. No escuro, e confiante de que sua saída tinha passado despercebida, Will fora um pouco descuidado.
Ruhl sorriu. Não era uma visão agradável.
— Muito bem, Enrico — disse ele. — Mantenha-nos atrás dele e haverá ouro para você quando pegá-lo.
Enrico sorriu de volta, seus dentes brancos contra a pele oliva.
— Sí, Jefe — respondeu ele. — Enrico vai encontrá-lo. Apenas siga-me.
Ruhl acenou com um braço e seus homens fizeram fila atrás dele. Enrico ia na frente deles agachado como um cão de caça, dobrado em dois, estudando o chão, seguindo os traços quase invisíveis que a presa tinha deixado para trás. O homem não fez nenhuma tentativa de cobrir seus rastros, o perseguidor pensou. Embora na grama longa como esta, houvesse pouco que ele poderia ter feito. E só um rastreador especialista teria notado os ligeiros vestígios que ele deixou.
Por um momento, ele perdeu o rastro. Então, pegou-o novamente. O homem tinha virado para a esquerda. Ele acenou para Ruhl.
— Aqui, Jefe. Eu o peguei!


— É hora de fazê-los se mover novamente — disse Will.
Eles haviam descansado na lateral da estrada por mais de uma hora, comendo e bebendo. Maddie e Tim encheram os cantis mais uma vez em um pequeno riacho que corria um pouco estrada abaixo, e não havia mais a necessidade de racionar a água.
Se eles ficassem muito mais tempo, Will pensou, com o calor do dia crescendo e o sol alcançando seu apogeu, eles nunca conseguiriam fazer as crianças andarem novamente.
Como era, houve resmungos e reclamações enquanto ele e Maddie se moviam entre eles, despertando-os e levando-os de volta para a estrada mais uma vez. Como antes, as crianças menores e Rob montaram em Puxão e Bumper.
Enquanto eles montavam na estrada, um jovem rapaz que andava em Puxão chamou Will.
— Will Tratado, você matou o Ladrão? — ele quis saber.
Will olhou para Maddie, uma pergunta em seus olhos.
Ela deu os ombros.
— Eu lhes disse que você ia fazer isso. Ele é um pouco sanguinário e quer mais detalhes.
Will virou-se para o menino, olhando para ele onde estava, na parte da frente da sela de Bumper, na frente de Rob.
— Ainda não — ele respondeu, e, vendo o rosto desapontado do rapaz, acrescentou: — Mas eu pretendo. Qualquer dia.
— Posso assistir?
Mais uma vez Will olhou de soslaio para Maddie.
— Eu te disse. Ele é um garotinho sanguinário — disse ela em voz baixa.
Will balançou a cabeça e olhou para o menino.
— Eu não acho que seria apropriado. Mas vou te contar tudo sobre isso.
— Oh... tudo bem então — o menino pareceu adequadamente cabisbaixo.
Will balançou a cabeça, em seguida, chamou o grupo reunido na estrada.
— Vamos lá, vamos nos mexer!
Ainda sonolentos do cochilo sob o sol quente, eles começaram a ir na direção norte. Will foi até a frente da fila, cutucando as crianças com a ponta de seu arco.
  —Vamos! Você pode se mover mais rápido do que isso! Mexam-se! Mexam-se! Mostrem um pouco de velocidade!
Maddie sorriu para si mesma. Eram as mesmas exortações que ele tinha usado nela quando ela estava correndo na pista de obstáculos antes, no feudo Redmont. E a cutucara com seu arco mais de uma vez, também. Foi estranhamente agradável ver outras pessoas sofrendo o mesmo tratamento.
Mas foi eficaz. As crianças gradualmente sacudiram seu torpor e começaram a andar mais propositadamente no caminho. Will se moveu ao longo da fila, repetindo suas demandas por maior velocidade.
Havia ainda alguns que resmungavam ou se queixavam. Previsivelmente, Julia era a principal.
— Não é justo — ela lamentou. — Meus pés doem. Eu tenho andado todo o dia e tenho uma bolha.
Ela fungou alto e artisticamente enxugou uma lágrima. Mas se achava que Will estaria mais inclinado a ter pena dela porque ele era um homem, ela estava enganada.
— Seque os olhos, princesa! — ele exortou-a. — Não há tempo para lágrimas aqui. Ou você quer que eu a deixe para trás?
Por acaso, eles estavam passando em uma área onde havia mais morros e corcovas no solo circundante, semelhante ao que Maddie tinha apontado para ela mais cedo. Julia lançou um olhar para eles, ficou pálida e acelerou, marchando rapidamente para a cabeça da coluna e caminhando à frente dos que lideravam a fila. Will ficou um pouco intrigado com a reação rápida dela. Maddie não disse nada. Ela ainda se sentia culpada pela forma como tinha assustado Julia e pensou que Will poderia pensar mal dela por fazê-lo.
À medida que a tarde avançava, sua velocidade inicial e entusiasmo gradualmente diminuíram e Maddie e Will se mantiveram ocupados instando-os junto, exigindo maior velocidade.
— Quanto tempo podemos continuar a empurrá-los assim? — perguntou Maddie, enquanto ela e Will ficavam ao lado da estrada, observando as crianças passarem. Mais uma vez, as cabeças estavam para baixo e os ombros caídos. — Eles parecem quase prontos para cair.
Will balançou a cabeça.
— Eles ainda têm muita energia de reserva. São todos filhos de fazendeiros e estão acostumados com o trabalho duro. O ponto é, não sentem qualquer urgência mais. Não há nenhuma ameaça para que eles tentem arrastar a fila para ter uma vida mais fácil.
— Crianças — disse ela criticamente, sacudindo a cabeça.
Ele olhou para ela, divertindo-se com sua atitude. Ela era apenas um ano mais velha do que o mais velho deles, pensou. Ela realmente não era muito mais do que uma criança. No entanto, estava mostrando níveis de resistência, determinação e responsabilidade que lhe davam crédito.
Não lhe ocorreu que seu comportamento também era um testemunho da forma como ele a treinou e seu respeito por ele.
— Vamos! — ele rugiu. — Mexam-se, seus preguiçosos!
Aqueles mais próximos dos dois arqueiros olharam de mau humor. Mas a fila começou a se mover um pouco mais rápido, liderada por Tim Stoker na linha de frente. Will assentiu em direção a ele com aprovação.
— Ele é um bom garoto — ele comentou e Maddie concordou.
— Ele foi de grande ajuda antes que você aparecesse — ela falou. — Ele foi o único que enfrentou o Roteirista quando ele nos alcançou.
Ela contara a Will os fatos do confronto com o Roteirista, mas não tinha entrado em detalhes. Não queria insistir no fato de que o havia matado. Ou no prazer selvagem que sentira na hora. Tais sentimentos ainda a deixavam vagamente desconfortável.
— Maddie! Will Tratado!
Era Rob, montado em Bumper. Ele virou-se para trás quando Will tinha gritado para uma maior velocidade. Agora ele estava olhando além dos dois arqueiros, para o horizonte, ao sul.
— O que foi, Rob? — perguntou Maddie. Mas havia uma nota estridente em sua voz que a fez temer o pior.
— Alguém está vindo — disse ele.

3 comentários:

  1. Maravilha,nada como um rastreador espanhol pra causar arruaça.

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    Respostas
    1. Kkkkkkk não é incrível, anônimo?
      Ass: Lua

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Boa leitura :)