8 de fevereiro de 2017

Capítulo 5

Não havia se passado nem 10 minutos desde que Halt retornara ao seu quarto quando Kane bateu na porta.
— O Comandante está livre agora — ele informou. — Ele pergunta se podem se juntar a ele em seu escritório.
Halt e Pauline seguiram o jovem arqueiro enquanto ele os levava vários níveis abaixo para o setor administrativo na torre. Os níveis superiores eram de acomodações e suítes.
O escritório de Gilan na torre era iluminado e arejado, com as persianas bem abertas para admitir o ar fresco. Arqueiros odiavam ficar confinados, Pauline sabia. Embora algumas vezes o amor deles por ar fresco pudesse ser um pouco extremo. Ar fresco era tudo muito bom. Ar frio era outra coisa. Mas ela estava ciente desta peculiaridade e por isso estava usando um cachecol por sobre o vestido.
Gilan cumprimentou alegremente Halt e Pauline, abraçando os dois e aceitando um beijo na bochecha de Pauline. Ela olhou-o com carinho. Não podia deixar de olhar para os dois antigos aprendizes de Halt como filhos. Ela notou que o seu rosto normalmente alegre possuía mais algumas rugas do que da última vez que ela o havia visto. O peso da responsabilidade, pensou.
Ao contrário de Halt e Will, Gilan estava sempre barbeado. Isso dava a ele uma aparência mais jovem que ficava em desacordo com sua posição no Reino.
— Gilan — disse ela — você parece bem.
E, além daquelas rugas, ele estava.
Ele sorriu para ela.
— E você parece mais bonita a cada dia, Pauline — ele respondeu.
— E eu? — Halt perguntou, simulando gravidade. — Eu fico mais bonito a cada dia? Mais impressionante, talvez?
Gilan observou-o criticamente, com a cabeça tombada para um lado. Então anunciou seu veredicto.
— Desleixado — ele apontou.
Halt ergueu as sobrancelhas.
— Desleixado? — ele perguntou.
Gilan assentiu.
— Eu não sei se você está ciente dos recentes avanços tecnológicos, Halt — disse. — Mas há uma nova e maravilhosa invenção chamada tesoura. As pessoas a utilizam para cortar o cabelo e fazer a barba.
— Por quê?
Gilan apelou a Pauline.
— Ainda usando a faca de caça para fazer a barba, não é?
Pauline assentiu, deslizando a mão pelo braço do marido.
— Pelo menos quando eu o apanho.
Halt olhou para ambos com um olhar fulminante. Ambos se recusaram a ceder, assim ele abandonou a expressão.
— Você mostra multa falta de respeito para o seu antigo mentor — ele falou para Gilan.
O jovem encolheu os ombros
— Isso vem da minha elevada posição como seu Comandante.
— Não meu — Halt apontou. — Estou aposentado.
— Então posso esperar pouco em termos de respeito de você? — Gilan sorriu.
— Não. Mostrarei respeito apropriado... no dia em que você treinar o seu cavalo para voar para ao redor das torres do castelo.
Pauline sabia que esses insultos de boa índole poderiam continuar por algum tempo. Ela decidiu interromper o fluxo.
— Por que você nos queria ver, Gil? Está planejando levar meu marido para longe? — ela perguntou.
Gilan estava a ponto responder outro insulto ao seu antigo mentor. A pergunta direta pegou-o de surpresa.
— O quê? Oh... não. Longe disso. Eu queria falar com você. Com os dois.
Pauline indicou uma mesa baixa, com quatro cadeiras confortáveis colocadas em torno, dispostos perto da lareira.
— Então, vamos sentar e conversar? — ela sugeriu.
Mas Gilan objetou.
— Aqui não. Quero falar com vocês dois, e Cassandra e Horace. Eles estão nos esperando nos aposentos reais.
Como Comandante dos Arqueiros, Gilan poderia convocar Halt e Pauline para Araluen. Mas ele não podia fazer o mesmo com a Princesa Regente e seu consorte, velhos amigos ou não. Ele abriu o caminho para a porta, segurou-a aberta para Halt e Pauline, e em seguida, liderou o caminho para as escadas.
— Subindo... descendo... subindo novamente. Você tem alguma piedade para com os meus velhos ossos? — Halt reclamou.
Gilan estava caminhando rapidamente em direção a uma das escadas em espiral que levava aos níveis superiores.
— Nem um pouco — ele respondeu com alegria por cima do ombro.
Horace e Cassandra estavam esperando na sala de estar da suíte real. Gilan bateu na porta e, quando ouviu a resposta de Cassandra, a abriu e conduziu seus dois companheiros para dentro.
Quando entraram, Cassandra se levantou da cadeira para abraçar os dois.
— É tão bom ver vocês! — exclamou ela.
Ela não poderia falar mais. A responsabilidade de governar o Reino era um fardo pesado e Halt e Pauline eram mais do que amigos. Eles eram companheiros para toda a vida. Halt, em particular, passou muitos anos como conselheiro dela e protetor em situações perigosas, da Escandinávia até as montanhas de Nihon-Ja. Horace esperou até a sua mulher lhes dar as boas vindas, em seguida, abraçou os dois.
Halt estudou-o com cuidado.
— Como é a vida no Castelo Araluen? — perguntou ele.
O rosto honesto de Horace pareceu um pouco triste.
— Está tudo bem — disse ele. — Mas eu sinto falta dos velhos tempos.
— Você quer dizer os velhos tempos, quando você podia correr afora com este tratante para todos os cantos da terra e evitar as responsabilidades? — Sua esposa colocou.
— Exatamente — Horace respondeu num tom tão sincero que todos riram. Halt virou seu olhar sobre a Princesa. — Eu me lembro de você fugindo também de vez em quando.
Ela acenou com a mão em um gesto negativo.
— Não vamos discutir isso agora — ela opinou.
Houve uma leve batida na porta que levava aos aposentos de Madelyn.
— Entre — Cassandra respondeu, e a porta se abriu para admitir a jovem Princesa.
— Halt. Lady Pauline. Como é maravilhoso ver vocês.
Madelyn hesitou por um segundo, então, parecendo chegar a uma decisão, atravessou a sala e abraçou os dois. Enquanto abraçava Pauline, Halt passou a olhar para seus pais. Quando fez isso, ele sentiu a tensão inconfundível na sala. Cassandra, que nunca tinha sido capaz de esconder seus sentimentos de Halt, tinha um ligeiro franzir na testa, e Horace parecia desconfortável.
Madelyn parou de abraçar Pauline e acenou com a cabeça uma saudação para Gilan.
Horace limpou a garganta, sem jeito.
— Muito bem, Madelyn — ele disse. — Você fez seus cumprimentos. Agora temos que ir.
Ele fez um gesto em direção à porta que dava para o quarto dela. Maddie sorriu para os recém-chegados, e refez seus passos.
— Conversaremos mais tarde — Halt falou para ela.
Ele tinha um relacionamento fácil com Maddie, e serviu para ela muitas vezes como confidente no passado.
  Ela lhe deu um sorriso triste.
— É claro — ela respondeu, e fechou a porta.
Halt olhou com curiosidade para seus dois velhos amigos.
— Problemas no paraíso? — ele perguntou gentilmente.
Cassandra mexeu os ombros, irritada.
— Oh, ela é tão irritante, Halt! Ela é teimosa e irresponsável, e tão irritante. E se você tentar falar com ela sobre isso, ela bufa, suspira e revira os olhos, de modo que você simplesmente quer estrangulá-la!
Halt esfregou a barba, pensativo.
— Parece sério — disse ele. — Bufando, suspirando e revirando os olhos, você diz? Nunca ouvi falar de um adolescente que se comportasse assim.
— Você pode brincar com isso, Halt — Horace falou. — Não tem que aguentar. Ela deixou Cassandra doente de preocupação. Ela foge para a floresta no meio da noite, sozinha. Nós a prendemos em seus aposentos por duas semanas como castigo. Talvez isso a faça aprender uma lição.
A expressão de Halt disse a seu velho amigo que ele duvidava. Uma garota teimosa como Maddie só se tornaria mais teimosa com esse tipo de restrição.
Horace viu a expressão cética e sentiu que tinha de acrescentar algo mais.
— Ela está assumindo riscos e diz que pode cuidar de si mesma. A floresta pode ser perigosa!
— Mas, basicamente, ela é uma garota sensível, não é? — Halt perguntou. — E eu imaginando que ela pudesse cuidar de si mesma. Ela é boa com uma faca de caça. Eu a ensinei, depois de tudo. E ouvi dizer que ela é muito boa com o estilingue dela.
— Quem lhe disse isso? — Cassandra perguntou abruptamente.
Halt ergueu as mãos em um gesto defensivo.
— Seu pai poderia ter mencionado isso. Eu estava conversando com ele há uma hora.
— O pai fala demais — disse Cassandra, franzindo o cenho.
Halt sorriu com tolerância para ela. Ao longo dos anos, ele aprendeu que pais tendiam a ser os críticos mais duros de seus próprios filhos.
Avós e tios – e classificando-se como um tio honorário de Maddie – tendiam a ver o quadro mais completo, e eram capazes de descontar quaisquer oscilações menores de comportamento, avaliando-os contra a natureza razoável global da criança. Pauline também sabia disso. Mas também sabia que nada poderia ser mais irritante para os pais do que uma pessoa de fora dizendo-lhes que uma criança teimosa não era nem de longe tão ruim quanto eles estavam fazendo parecer.
— Talvez não seja da nossa conta, Halt... — ela começou.
— Não. Está tudo bem — disse Cassandra.
— O que ela faz na floresta? — Halt perguntou.
— Ela rastreia animais. E caça.
— Ela é boa?
Cassandra deu de ombros, incerta. Horace respondeu antes que pudesse parar para pensar.
— Aparentemente, sim. Ela nunca volta de mãos vazias. Mas ela dá aos guardas do castelo.
Cassandra olhou para ele.
— Como você sabe disso? — ela exigiu.
Horace pareceu confuso. Ele baixou o olhar do dela.
— Eu... err... posso ter ouvido alguns dos guardas conversando.
— E você escolheu não compartilhar isso comigo?
— Não achei que precisava. Eu sabia que você iria ficar com raiva.
— E você estava certo! Se tivesse escolhido...
Pauline bateu palmas rispidamente. Era uma prova de sua personalidade e de sua autoconfiança chamar a Princesa Regente e pedir ordem de uma forma tão imperativa. E uma prova de respeito de Cassandra em relação à diplomata alta e loira que ela aceitaria tal rispidez.
— Horace! Cassandra! Isso é o suficiente! — Ambos pararam e olharam para Pauline, e ela continuou em um tom mais suave. — Vocês não são os primeiros pais a serem levados à loucura por uma filha adolescente. E vocês não serão os últimos. É difícil, eu sei. Mas não deixem isso se tornar muito grande. Mantenham-se em perspectiva. Vocês precisam se manter unidos, não brigar entre si.
Os dois olharam humildemente para baixo em seus sapatos. Halt sorriu para si mesmo novamente. Pareciam crianças desobedientes repreendidas por uma mãe severa.
— E parece-me — ele apontou — que ela não é a primeira Princesa a sair para a floresta durante a noite à procura de aventura.
Cassandra franziu o lábio.
— Oh, você não vai começar.
— Basicamente, Maddie é uma boa garota — ele continuou. — Ela é inteligente, valente e engenhosa. Porque essa é a maneira como vocês a criaram.
— Bem — disse Gilan, um pouco impaciente — se isso está resolvido pelo momento, talvez possamos discutir a razão pela qual pedi para vê-los.
Todos se viraram para ele, perguntando-se o que ele ia dizer.
Eles não precisaram esperar muito.
— É Will. Estou muito preocupado com ele.

2 comentários:

  1. Essa menina vai dar uma ótima aprendiz. Acho que a primeira ArqueirA.

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  2. Cassandra mexeu os ombros, irritada.
    — Oh, ela é tão irritante, Halt! Ela é teimosa e irresponsável, e tão irritante. E se você tentar falar com ela sobre isso, ela bufa, suspira e revira os olhos, de modo que você simplesmente quer estrangulá-la!

    Pera, você tá falando de si mesma, Cassandra? Sério, é exatamente ela mais jovem.
    Will, querido Will. Me lembro de você jovem, valente e energético. Agora, um adulto, amargo e vingativo. Como os anos mudam as pessoas, não é mesmo?

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Boa leitura :)