8 de fevereiro de 2017

Capítulo 49

O sol nascera há varias horas atrás deles e das crianças cansadas ao longo da estrada. Eles andaram com a cabeça e o olhar baixo, olhando apenas para o próximo metro da estrada dura e poeirenta que estava à frente deles.
Maddie tinha abandonado a tentativa de alternar entre correr e caminhar. Eles simplesmente não poderiam manter esse ritmo e quando ela as mandou correr, os mais fracos ficaram para trás, até que eles estavam se movendo em uma fila longa e irregular que se estendia por centenas de metros ao longo da estrada. E quanto mais tempo eles corriam, mais longa se tornava a fila, com as crianças ao fundo ficando mais e mais para trás. Em pouco tempo, ela percebeu, sem ela em seus calcanhares para incitá-los juntos, eles começaram a diminuir e desmoronar na beira da estrada.
Ciente da possibilidade de perseguição, ela continuou lançando olhares ansiosos para o horizonte ao sul, procurando o primeiro sinal dos escravagistas vindo atrás deles. Embora tivesse uma confiança imensa na capacidade de Will para levá-los para longe, ela estava consciente de algo que ele tinha dito várias e várias vezes durante a sua formação.
Qualquer plano pode dar errado, ele dizia, e na maioria das vezes dá, cedo ou tarde. Sempre esteja preparada para que as coisas deem errado. Se acontecer, você estará pronta. Se não, você estará agradavelmente surpresa.
Era por causa do medo da perseguição que ela os queria perto, onde podia vê-los e protegê-los se o perigo se aproximasse. Então agora eles caminhavam, marchando juntos, arrastando os pés. E ela se moveu continuamente ao redor do pequeno grupo, pedindo aos membros mais lentos um esforço maior, implorando por isso, bajulando-os, ameaçando-os – qualquer coisa para mantê-los colocando um pé na frente do outro. Ela mesma estava cansada, mas estava tensa demais para perceber isso.
— Vamos, Julia — disse para uma das meninas mais velha talvez pela centésima vez. — Se os menores podem continuar, você também pode.
Julia, previsivelmente, começou a chorar e parou de andar, a cabeça para baixo, com as mãos tampando seus olhos lacrimejantes.
— Não é justo — ela lamentou. — Eu quero montar. É minha vez de montar.
Maddie tinha alternado os que montavam, dando a cada criança a oportunidade para descansar no cavalo durante quinze minutos por vez. Julia, ela sabia, tinha estado no grupo anterior e tinha desmontado, reclamando sobre isso, apenas cinco minutos antes. Não seria sua vez novamente por mais vinte e cinco minutos, pelo menos.
Maddie olhou para ela.
— Continue andando — ela ordenou.
Julia fez beicinho.
— Por que Rob não pode andar? Ele tem montado o tempo todo. Não é justo.
Maddie pensou sombriamente que se ela ouvisse Julia proferir a frase não é justo mais uma vez, daria um tapa nela. Rob era o garoto com a perna queimada. Ele se ofereceu para tomar o lugar com os caminhantes, mas ele mancava muito e era tão lento que segurava o grupo todo para trás. Ela havia decidido que ele deveria continuar a cavalo, enquanto os outros nove alternavam de lugares.
— Rob tem uma perna ruim — ela ressaltou.
Julia olhou para ela.
— Bem, as minhas duas pernas estão doendo, por isso eu quero montar também.
Rob ouvira a conversa. Todo mundo tinha. Ele se inclinou para Maddie.
— Eu caminho por um tempo — ele falou. — Ela pode pegar o meu lugar.
Maddie olhou para ele, seu rosto sombrio.
— Não. Ela não pode — ela disse com firmeza. — Não tem nada de errado com as pernas dela. Ela só está sendo egoísta.
Julia fungou. As lágrimas estavam para começar de novo, Maddie pensou. Ela se aproximou da menina e falou em voz baixa que só Julia pode ouvir.
— Está vendo aquele monte lá, além dos arbustos com folhas roxas? — ela falou, e Julia virou-se e olhou para o local que ela havia indicado. O monte não era extraordinário. Era apenas um a pequena elevação. A menina balançou a cabeça, franzindo um pouco a testa, perguntando-se por que Maddie tinha apontado para lá. — Bem, aquele é um antigo tumulo. Há um monte deles nessas partes.
Os olhos de Julia se arregalaram com as palavras “antigo túmulo”. Ela olhou para o monte, depois para Maddie.
— Há — Maddie procurou pela assustadora palavra correta e se lembrou de sua conversa à beira do rio em Denvers Crossing — criaturas dos túmulos lá. Você sabe o que são as criaturas dos túmulos, não sabe?
Julia balançou a cabeça. Ela não sabia, mas não gostou de como soou.
— As criaturas são espíritos malignos que vivem nos túmulos. Elas têm longos dentes e terríveis garras e atacam as pessoas que passam e as arrastam para o túmulo para se tornar zumbis como elas — sua imaginação estava voando agora. Assim como a de Julia. Seu rosto estava pálido. — Mas zumbis têm medo de apenas uma coisa... — ela fez uma pausa, então, acenou com a cabeça para Bumper e Puxão. — Cavalos. Eles não podem ficar perto de cavalos. Por isso, enquanto Bumper e Puxão estiverem conosco, estamos a salvo.
— Tem certeza? — Julia finalmente encontrou a sua voz. Era uma voz bem baixa.
Maddie assentiu com confiança.
— Eu tenho certeza — ela disse. — Mas aqui está o fato. Se você não parar de choramingar e reclamar, e querer tratamento especial, vou deixar você aqui sozinha. E uma vez que os cavalos estiverem fora de vista, as criaturas dos túmulos sairão atrás de você.
Julia deu um guincho choramingado de medo. Lágrimas desciam por seu rosto de novo. Mas estas não eram as mesmas lágrimas de autopiedade. Agora ela estava realmente com medo. Maddie suspirou com tristeza. Sentia-se incrivelmente culpada por usar táticas de intimidação para manter Julia andando e se desprezou por fazê-lo.
Eu não sou melhor que o Roteirista, pensou. Mas ela mesma era apenas uma garota, alguns anos mais velha que Julia, e também estava próxima da exaustão. Com isso, ela estava no final de suas ideias para encontrar uma maneira de manter a outra garota andando. Ao longo do dia, ela implorou e persuadiu e suplicou. Mas Julia estava no fundo de sua confusão de autopiedade e nada do que Maddie tinha tentado pôde motivá-la. Ela viu que suas táticas de intimidação tinham finalmente funcionado e, com relutância, ela decidiu continuar. Poderia ser uma questão de salvar a vida da menina, depois de tudo.
— Agora é melhor você continuar — disse ela. — É melhor você continuar caminhando. E é melhor você parar de reclamar ou eu vou deixá-la para trás, para os zumbis. Entendeu?
Julia olhou nos olhos de Maddie. Ela não viu sinal de piedade lá, apenas a determinação dura de fazer o que estava ameaçando. Julia enxugou os olhos com as costas da mão e acenou com a cabeça.
— Então MOVA-SE! — Maddie gritou para ela.
Aterrorizada pelo grito e medo das criaturas dos túmulos, Julia correu de forma inteligente, ultrapassando a fila de crianças andando e fazendo seu caminho muito a frente. Ela ficava olhando repetidamente por sobre o ombro para o monte de terra, como se esperasse ver formas espectrais saindo dela a qualquer momento. Mas ela continuou andando, e com energia renovada.
O rapaz Tim tinha sido uma audiência interessada à conversa entre Maddie e Julia. Ele deu um passo para mais perto de Maddie agora. Seus olhos estavam vermelhos de cansaço, e seu rosto estava coberto com uma fina camada de pó onde grudara em seu suor, que secara em seguida. Mas apesar disso, ele sorriu.
— Túmulos e zumbis? — ele falou suavemente. — Parece com uma antiga história de terror para mim.
Maddie balançou a cabeça, cansada.
— Ela pediu por isso.
Tim assentiu.
— E ela recebeu.


Era uma hora depois do amanhecer quando Jory Ruhl percebeu que tinha sido enganado.
Não tinha havido nenhum avistamento da figura escura desde bem antes da primeira luz. Eles haviam ido às cegas em direção ao sul procurando por outro vislumbre dele. Durante as horas de escuridão, tinham visto com frequência suficiente para que pudessem acompanhar a direção que ele estava tomando. Ele raramente tinha ido a mais de cento e cinquenta metros à frente deles, às vezes mais perto.
Agora ele tinha desaparecido. Havia um campo aberto diante deles, coberto com essa grama longa e onipresente, e Ruhl poderia ver por três quilômetros. Mas não havia sinal do homem que estava perseguindo.
Ruhl começou a praguejar violentamente. O homem tinha, obviamente, fugido deles após aquela aparição final, incentivando-os a se manterem apresados na direção sul enquanto ele fugia para o outro lado. Um de seus capangas, o homem de manto escuro que tinha acompanhado Ruhl na invasão em Willow Vale, correu.
— O que há de errado? — ele perguntou.
Ruhl se voltou para ele furioso.
— Aquele maldito arqueiro nos enganou! Ele nos conduziu e em seguida voltou e seguiu outra direção, maldito seja!
O homem encapuzado olhou em volta, incerto.
— Você tem certeza? — ele indagou, e instantaneamente sofreu a punição por duvidar de Jory Ruhl. O Ladrão balançou seu punho e atingiu o homem, deixando-o cambaleando.
— É claro que eu não tenho certeza, idiota! Se tivesse, saberia onde encontrá-lo! — ele gritou, salpicos de saliva voaram de seus lábios.
Instintivamente, seu seguidor recuou. Ele tinha visto o que Ruhl poderia fazer com uma raiva como essa.
— Tudo bem, Jory, vá com calma — ele pediu, suas mãos para cima num sinal apaziguador.
Mas Ruhl estava além de qualquer calma.
— Por que estou cercado de incompetentes? — ele exigiu. — Será que nenhum de vocês pensou que ele poderia ter escapado? Será que ninguém notou que não vimos nenhum fio de cabelo dele por mais de uma hora?
E você? O homem encapuzado pensou. Mas ele era sábio o suficiente para não fazer a pergunta.
Ruhl olhou ao redor e percebeu que um de seus seguidores estava faltando. Não havia sinal do Roteirista.
— E onde no inferno está Victor? Aposto que ele se esquivou de volta para o acampamento e está bebendo cerveja sem fazer nada! É a única coisa que o porco preguiçoso faria! Típico! Típico de todos vocês, seus montes de incompetentes.
Ninguém pôde dizer a ele o que tinha acontecido com o Roteirista, e Ruhl atacou de cima a baixo, gritando ofensas e insultos aos seus homens, xingando-os por não perceber sua ausência, e por não perceber que sua presa tinha escorregado. Todos tinham visto quão imprevisível Ruhl poderia ser nesse tipo de humor. Todos lhe deram espaço, se afastando dele. E evitaram fazer contato visual.
Todos exceto um – um dos marinheiros ibéricos que tinham se juntado ao grupo quando o La Bruja deslizara na maré baixa. Ele se adiantou, encontrando o olhar de Jory sem desviar.
— Jefe, acho que talvez você esteja certo — ele falou.
Ruhl se virou para ele com um desprezo fulminante.
— Oh, você acha, não é? Como você é perspicaz. E o que propõe fazer sobre isso?
O homem deu de ombros, ignorando o sarcasmo e a raiva.
— No meu país, antes de ser marinheiro, eu era caçador.
— Bem, vamos dar três vivas para você, seu ignorante camponês ibérico! — Ruhl respondeu.
Ele continuou a se virar com raiva, mas o homem ergueu um pouco a voz e continuou.
— Eu era um perseguidor, um... — ele procurou pela palavra araluense, e encontrou — um rastreador. Eu podia seguir as trilhas que os animais faziam — ele indicou seus pés, o chão sob eles. — E os homens — ele adicionou.
A raiva de Ruhl se dissipou tão rapidamente quanto tinha começado. Ele se virou, olhando para o homem com olhos apertados.
— Você é um bom... rastreador? — ele perguntou com cuidado.
O homem deu de ombros.
— Eu era o melhor na minha província — ele disse simplesmente. — Acho que posso encontrar onde esse homem passou.
Lentamente, muito lentamente, um sorriso começou a se abrir no rosto de Ruhl. O homem de manto escuro sacudiu a cabeça. O sorriso era possivelmente mais desagradável do que os gritos de rosto vermelho e os cuspes de raiva que havia precedido. Não pela primeira vez, ele se encontrou querendo saber sobre as mudanças repentinas de humor de seu líder, a maneira que ele poderia ir de gritos de fúria à alegria total em um piscar de olhos – e vice-versa.
Havia algo muito errado em sua mente, ele pensou.

3 comentários:

  1. Como será que Will vai enfrentar o Jory

    ResponderExcluir
  2. ai q meda
    deixa eu ver se entendi
    1-will desistiu de matar ruhl- só pra constar ele poderia ter feito isso e os outros continuariam a seguí-lo
    2-agr will está indo atrás de meddie- sendo q ela por sí só pode chegar na outra cidade com as crianças e deixar q as autoridades as levem para suas respectivas casas ou seja ele é meio q desnecessário agr
    3- ruhl tem um rastreador- q irá seguir will, q está atrás das crianças e por sua vez vai colocá-las em perigo outra vez
    é isso mesmo?
    é, eu acho q elas vão ver como ruhl vai morrer

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)