8 de fevereiro de 2017

Capítulo 48

Maddie alcançou o topo da trilha da falésia para encontrar os dez ex-prisioneiros amontoados, esperando por ela. Ela recuperou seu arco da grama aonde havia deixado mais cedo naquela mesma noite. Balançou a cabeça com o pensamento. Parecia ter sido há dias que ela tinha começado a descer a trilha, e não horas.
— Vamos para longe da borda do penhasco — disse ela.
Ela estava consciente que a qualquer momento Ruhl poderia desistir de sua busca por Will e retornar para o acampamento e descobrir que seus prisioneiros tinham sumido. Não havia sentido em ficar contra a linha do horizonte para que eles pudessem ser vistos da praia.
As crianças se arrastaram alguns metros da falésia, em seguida, formaram em um semicírculo, observando-a com expectativa. Havia seis meninos e quatro meninas. Ela julgou suas idades em cerca de dez a quatorze anos. Examinou seus rostos e viu uma mistura de medo, perplexidade e alívio.
Ela respirou fundo algumas vezes. A adrenalina ainda corria em suas veias após seu encontro com o Roteirista e ela sabia o que acontecia quando estava animada ou tensa – sua voz tendia a ficar estridente. Ela teve o bom senso de perceber que seria tudo, menos encorajador, as crianças a virem assim.
— Tudo bem — ela falou, quando estava calma o suficiente. — Aqui está o que está acontecendo. Vocês foram capturados por um bando de comerciantes de escravos.
— Nós fomos levados pelo Ladrão na Noite. Ele é um fantasma — uma das jovens garotas a corrigiu.
À menção do nome, os outros olharam ao redor. Inconscientemente, eles se moveram para mais perto.
Maddie balançou a cabeça e continuou num tom paciente.
— Ele não é um fantasma e vocês não precisam mais ter medo dele. Ele é apenas um homem – mas é um homem muito mau e é um comerciante de escravos. Ele ia vendê-los todos como escravos.
— Ele disse que ia nos trancar num calabouço escuro e os ratos comeriam os nossos dedos e o bicho papão beberia o nosso sangue de noite e ele arrancaria os nossos olhos se desobedecêssemos — um dos meninos mais jovens falou.
Todos os outros murmuraram em acordo. Maddie fez um gesto calmante.
— Ele apenas disse isso para assustá-los — ela explicou. E funcionou, pensou consigo mesma. Ela fez uma pausa, lembrando o poder calmante que o nome de Will trouxe quando ela o usou mais cedo naquela noite. A luta de um fantasma contra uma lenda, pensou ela.
— Agora, me digam, qual de vocês já ouviu falar de Will Tratado?
Dez mãos se levantaram juntas e, apesar da gravidade da situação, ela teve que sorrir. Todo mundo tinha ouvido falar de Will Tratado.
— Bem, Will Tratado é meu mentor, e ele vai nos ajudar — previsivelmente, todos olharam ao redor para procurá-lo e ela acrescentou, um pouco áspera: — ele não está aqui agora. Ele foi perseguir o Ladrão e seus homens.
Isso não era exatamente verdade, ela pensou, mas era perto o suficiente por agora. Ela decidiu que a verdade exata poderia ser um pouco colorida.
— E quando ele pegar o Ladrão, ele vai matá-lo — ela disse a eles.
Isso pareceu lhes dar uma certa quantidade de encorajamento. Eles gostaram da ideia do famoso Will Tratado matar o Ladrão que lhes tinha causado tanta dor e terror.
— Como ele vai matá-lo? — perguntou o menino que tinha falado antes.
Ela olhou para ele, percebendo que, sendo um garoto, ele queria os detalhes sórdidos e amargos. Mas ela não achava que era o momento certo para isso.
— Não se preocupem. Ele vai encontrar um modo.
— Eu espero que ele o machuque! — o menino disse cruelmente. — Espero que ele o machuque muito, muito.
— Tenho certeza de que ele vai, e nós vamos perguntar sobre tudo isso quando o virmos — ela respondeu. Então bateu palmas para desviar a atenção deles do Ladrão e sua morte iminente e dolorosa. — Agora! — ela disse rapidamente. — Temos que nos mexer. Não podemos ficar aqui e temos de chegar a Ambleton tão rápido quanto possível. Os maiores vão a pé. Mas as crianças menores podem montar.
Ela colocou seus dedos na boca e deu um assobio baixo. Ouviu um breve relincho em resposta, então Puxão e Bumper trotaram para fora do escuro. Ela e Will os tinham trazido para perto mais cedo naquela noite, sentindo que algumas crianças menores poderiam precisar montar.
Will tinha se recusado a levar Puxão com ele.
— Eu vou querer que Ruhl me veja quando estiver levando-o para longe. Se eu estiver montando, ele vai desistir. Ou vai perceber que estou fingindo se eu não fizer uma fuga limpa. Melhor deixar os dois cavalos com você. Eles podem ajudar com as crianças.
Ela avaliou o grupo agora, selecionando os mais novos das crianças.
— Vocês três — ela falou, apontando para um menino e duas crianças que pareciam ter cerca de dez anos. — Vocês querem montar no famoso cavalo de Will Tratado, Puxão?
Puxão sacudiu sua crina e olhou com aprovação para ela. Eu sempre soube que gostava de você.
Mas é claro, Maddie não o ouviu. As três crianças olharam de volta para o encorpado cavalinho cinza e assentiram com a cabeça.
— Vamos lá então.
Ela levantou a primeira garota e para colocá-la na sela. Ela então teve outros pensamentos. Baixou a menina de novo e mudou-se para ficar de cara com Puxão, buscando em sua memória a frase-código que Will tinha dito a ela casualmente no dia em que ela ganhou Bumper. Finalmente, lembrou.
— Tudo bem? — ela falou suavemente.
Ela esperava que a frase fosse aceitável para um terceiro cavaleiro, em vez dela. Os olhos inteligentes de Puxão encontraram os dela. Sua cabeça subiu e desceu duas ou três vezes.
Ela tinha quase certeza de que ele não derrubaria uma criança pequena, mas esperou para ter certeza. Ela pegou a menina de novo e a impulsionou para a sela. Mas manteve uma mão em seu braço enquanto olhava cautelosamente para Puxão.
— Não faça nada bobo, ok?
Puxão virou a cabeça para olhá-la nos olhos. Ela quase pôde jurar que se pudesse levantar uma sobrancelha, o cavalinho o teria feito. Mas ele não se escoiceou ou mergulhou. Encorajada, ela pegou a segunda criança, um menino dessa vez, e levantou-o nas costas do cavalo também. Mais uma vez, Puxão se manteve de forma constante e ela sabia que estava tudo bem. Ela impulsionou a terceira criança. Até mesmo o seu peso combinado era uma carga leve para o resistente cavalinho, ela sabia. Ela assentiu para agradecer a Puxão e se moveu para ficar perto de Bumper.
— Você quer montar este cavalo? — ela perguntou a outro dos mais jovens.
A pequena garota balançou a cabeça, em seguida perguntou:
— De qual famoso é esse cavalo?
Bumper relinchou. O som parecia surpreendentemente como um risinho. Ela pensou rapidamente.
— Você já ouviu falar do famoso amigo de Will Tratado, Sir Horace, o Cavaleiro da Folha de Carvalho?
A menina assentiu.
— Este é o cavalo dele.
Eu certamente não sou! E eu não gostaria de ter alguém grande como ele montando em mim.
Ela se aproximou de Bumper e sussurrou:
— Basta levá-lo, tudo bem? E como você sabe que meu pai é grande?
Ele é um cavaleiro. Eles são todos grandes. Mas tudo bem, coloque-a.
— Não me arrebente com ela em cima de você, certo? — ela não tinha certeza se Bumper precisava ouvir a frase código também, mas ela falou de qualquer maneira.
Oh, francamente!
Ela levantou a menina na sela e olhou em volta para outra criança pequena. Tim Stolker levantou a mão para chamar sua atenção.
— Srta. Maddie?
Ela revirou os olhos. Sentia-se realmente velha.
— Maddie está bom, Tim. O que é?
— Rob tem uma perna ruim. O Roteirista o queimou com um ferro quente.
Ele indicou outro rapaz, com mais ou menos a idade dele. Rob era menor que Tim, e um pouco atarracado. Se ele montasse Bumper, ela não seria capaz de pôr nele uma terceira criança. Mas ela deu de ombros. O restante das crianças era mais velha e maior. Ela apontou para Rob.
— Para cima você então, Rob. Tome cuidado com sua perna.
Ela o ajudou a colocar o pé no estribo. Sua perna direita, ela viu agora, estava fortemente enfaixada. Ele se balançou cautelosamente para a sela, sentando atrás da garota.
Ela se virou para as cinco crianças restantes.
— Tudo bem, temos que ir agora. E rápido. Eu sei que alguns de vocês não estão se sentindo bem e que não são alimentados direito há dias – ou até mesmo semanas. Mas peço que se esforcem. Se ficarem muito cansados, me digam, e vocês poderão montar um dos cavalos por um tempo. Tudo bem?
Em silêncio, todos eles concordaram.
— Então vamos lá. Vamos correr por dez minutos, depois andaremos por vinte. Temos um grande terreno para cobrir e vamos fazer tão mais rápido quanto possível. Preparados? Vamos.
Ela foi na frente, movendo-se constantemente, com Bumper à sua direita e Puxão do outro lado dele. As crianças hesitaram, então seguiram em uma formação irregular. Seus pés farfalhavam e arrastavam através da grossa grama. Em seguida, eles chegaram à estrada e o curso foi mais fácil. Eles tinham sido maltratados e mal alimentados, ela sabia, mas eram crianças e ela sabia que as crianças normalmente estavam em forma. Eles conseguiriam. Eles tinha que conseguir. Ela estava consciente de alguém se aproximando de seu lado direito. Ela olhou e viu Tim correndo. Ele estava franzindo a testa.
— Maddie? — ele chamou, sua voz irregular enquanto seus pés batiam no chão.
— O que é, Tim?
— Se Will Tratado está perseguindo o Ladrão, por que temos de fugir daqui?
Ela abriu a boca para responder, então hesitou, olhando ao redor. Nenhum dos outros parecia ter ouvido a pergunta.
— Apenas guarde esses pensamentos para si mesmo, ok? — ela respondeu.
Ela viu a compreensão surgindo em seus olhos. Ele acenou com a cabeça uma vez, então voltou ao seu antigo lugar.


A noite avançou, e Will continuou seu jogo de gato e rato com os traficantes de escravos, deixando-os se aproximar, tentando-os com um vislumbre rápido dele, então movia-se em silêncio e sorrateiramente para longe. Era uma linha fina para se pisar, mantê-los no anzol sem deixar Ruhl saber que ele fazia isso intencionalmente. Mas uma vez que o padrão foi definido e Ruhl aceitou, não havia riscos de ele desistir da busca.
Ele se lembrou de tudo o que sabia sobre Ruhl. Nos dias seguintes à morte de Alyss, ele havia entrevistara todas as suas ex-vítimas que podia. E interrogara os membros de sua gangue que ele tinha apanhado.
Construíra uma imagem de um homem cruel, cruel e impiedoso. Inteligente, mas com uma falha fatal. Ele não podia ser atrapalhado ou frustrado. Se isso acontecesse, Ruhl seria cegado por uma raiva irracional e um desejo de vingança.
— Assim como eu estava — ele murmurou para si mesmo.
A raiva muitas vezes prejudicava o julgamento de Ruhl e o levava a decisões precipitadas e irrefletidas.
Era assim que Will acreditava poder estregar o plano de Ruhl de levar as crianças longe, o traficante de escravos o perseguiria implacavelmente, única e exclusivamente, com a intenção de vingança. E foi assim provado.


À medida que as horas escuras passavam, Will levou a busca mais longe e mais ao sul, sabendo com satisfação sombria que Maddie levava as crianças na direção oposta tão rápido quanto suas pernas, e os dois cavalos, poderiam levá-los.
Ele olhou para o céu a leste. Os primeiros indícios de luz apareciam acima do horizonte. Aqui e ali, ocasionalmente um pássaro começava a cantar, prevendo a aurora que chegava.
— Hora de me tornar invisível — disse ele.
Uma vez que a luz do sol viesse, isso seria mais difícil, com a falta de uma real cobertura disponível na área. Ele se deixou ser visto mais uma vez, ouvindo os gritos de seus perseguidores. Então se agachou, ficando abaixo da grama longa e grossa, e fez a curva para a direta. Ele cobriu duzentos metros dessa forma, em seguida caiu no chão, puxando a capa em torno de si. Sacou a faca de caça da bainha e a segurou pronta, ouvindo o farfalhar dos traficantes de escravos à sua esquerda. Ele tinha feito isso tantas vezes que sabia que poderiam passar a alguns metros dele e nunca perceberem sua presença. A única maneira de o descobrirem seria se um deles pisasse por sorte nele. Ele agarrou a faca com um pouco mais de firmeza.
Se isso acontecesse, seria uma má sorte para o escravagista.
Ele ouviu quando eles pisavam através da grama longa e dos arbustos baixos, passando por ele. O perseguidor mais próximo passou a vinte metros de distância. Ele esperou até que o ruído de sua passagem diminuísse, depois sumisse. Então se distanciou, ainda agachado, e começou seu caminho de volta para o norte.

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