8 de fevereiro de 2017

Capítulo 47

Maddie chegou ao portão gradeado que fechava a entrada para a
caverna. Ela atrapalhou-se com as chaves, procurando a que se encaixaria. Dentro da caverna, ouviu uma voz choramingante gritar. Obviamente, os prisioneiros pensaram que tinha chegado o momento em que eles seriam levados para o navio. Eles podiam ver apenas uma figura encapuzada escura na entrada. Um deles começou a chorar.
— Silêncio! — ela sussurrou. — Está tudo bem! Estou aqui para ajudá-los.
Ela tornou-se ciente de pés correndo atrás dela e girou. Ruhl e os seus homens estavam correndo de volta até a areia da praia. Por um momento, ela pensou que tivesse sido descoberta e enfiou a mão na bolsa de tiro para carregar seu estilingue. Então ouviu Ruhl dar uma série de ordens.
— Peguem suas armas! Brad, traga sua besta! Eles estão nas rochas na base do penhasco. Espalhem-se, usem a as armas tanto quanto puderem!
Maddie apertou-se contra a superfície da rocha escura ao lado do portão. No interior, uma das crianças ainda chorava. Ela podia ouvir alguém tentando acalmar e consolar o companheiro. Desejou ardentemente que eles se calassem. Tudo o que ela não precisava agora era Ruhl ou um de seus homens chegando para ver o que estava acontecendo. O Ladrão ainda estava gritando ordens e ela se virou para o caverna, esperando que os traficantes de escravos não a ouvissem acima de sua gritaria.
— Quieto! — ela sussurrou novamente.— Quieto ou eu vou aí chicoteá-lo!
Ela relutou em ameaçar os garotos claramente aterrorizados dessa forma, mas pareceu ter o feito desejado. O choro parou, embora ainda houvesse alguns soluços abafados e desesperados. Ela deu de ombros. Ela compensaria a criança infeliz depois.


Nas rochas na base das falésias, Will estudava seu trabalho com satisfação sombria. O navio negro estava agora a meio caminho saindo da baía, à deriva na maré vazante, enquanto sua reduzida tripulação se esforçava para descer alguns pares de remos na água. Ele teve um momento de pânico quando Ruhl levou seus homens de volta para as tendas. Nesse momento, temeu que alguém tivesse avistado Maddie.
Em seguida, ele ouviu o traficante de escravos gritando ordens e percebeu que estavam indo buscar suas armas antes de vir atrás dele.
— Deveria ter pensado nisso — ele murmurou.
Essa era uma dos coisas imprevisíveis que podiam estragar um plano. Ele esperava que não tivessem pego Maddie no ato. Então viu os traficantes de escravos voltando até a praia novamente, correndo de pedra em pedra. Pensou em diminuir um pouco os seus números, mas rejeitou a ideia. Se ele tornasse as coisas muito arriscadas agora, eles poderiam ficar na cobertura perto do acampamento, e isso arruinaria as chances de Maddie para levar as crianças para fora. Ele precisava deixá-los alcançar as rochas, precisava que o seguissem para q pudesse conduzi-los para longe.
— Haverá tempo suficiente para reduzir os números deles amanhã — disse para si mesmo e começou a fazer o seu caminho na subida acidentada da falésia.
Sem pensar, começou a se mover silenciosa e rapidamente, como tinha praticado durante tantos anos. Então percebeu que esse não era o momento para a discrição. Ele queria que o vissem e o seguissem. Havia uma pequena pilha de pedras à beira do caminho e ele cutucou-as com sua bota, fazendo barulho e deixando-as rolar pela face do penhasco. Ruhl ouviu o barulho, olhou para cima e viu a figura escura no meio do caminho até a falésia.
— Lá vão eles! — ele gritou, apontando o caminho. Em seguida, liderou uma corrida em direção à base do penhasco.
Um de seus homens, armados com uma besta, parou e ajoelhou-se para mirar. Ele apontou a arma para a figura escura na subida e acionou o gatilho. Will ouviu o som bastante reconhecível de uma besta sendo acionada e caiu esticado no chão. Um segundo depois, uma pesada sete zumbiu cima e acertou as rochas, a sua impressionante ponta de ferro soltando faíscas onde atingiu.
O besteiro tinha visto o seu alvo cair para a terra quando atirou.
— Eu o peguei! — ele gritou em triunfo.
Ruhl rosnou para ele.
— Você o perdeu, seu idiota! Lá vai ele de novo!
A figura escura estava de volta em seus pés, movendo-se rapidamente para a crista do penhasco. Enquanto Ruhl impelia seus homens adiante, o besteiro fez uma pausa para recarregar. Colocou o pé no estribo em frente ao arco curto e grosso e puxou a corda grossa com os dois braços.
Will virou quando chegou ao topo da trilha. O besteiro estava parado em um campo limpo, puxando a corda de sua arma. Will odiava besteiros. Ele encaixou uma flecha, puxou e liberou, enviando uma seta para baixo da face do penhasco. Ele acertou o besteiro em cheio no peito.
O homem deu um grito de dor, então cambaleou para trás e tombou, deixando cair sua arma. Ruhl fez uma pausa para tirá-la de suas mãos sem vida, e puxou a aljava de pequenas setas pesadas para si. Então, olhou para trás até o topo da falésia. Mas a figura escura, que havia sido brevemente uma silhueta quando se virou para atirar, se fora.
— Vamos! — ele gritou, sentindo uma onda renovada. — Há apenas um homem!
Enquanto eles iam até a trilha, ocorreu-lhe que poderia ser apenas um homem, mas a facilidade casual com que ele havia tirado seu besteiro do jogo podia vir a ser um problema.


A fechadura da porta estava dura e Maddie lutou com ela pelo o que pareceu uma vida antes de repente ela se abrir. Ela empurrou a porta aberta e foi recebida por um coro de vozes assustadas. Na escuridão, sentiu um pouco do que viu as crianças avançando para trás – para longe dela.
— Está tudo bem. Sou uma amiga. Estou aqui para ajudá-los.
Ela tentou fazer sua voz soar calma e reconfortante. Mas a tensão e a emoção a fizeram soar como um grito estridente e nervoso. Ela percebeu que eles só podia vê-la como uma silhueta encapuzada contra as luzes na praia. Puxou a capa para fora e estendeu os braços.
— Olhem! Eu sou uma menina! Sou uma arqueira e estou aqui para ajudá-los. Venham agora.
Seus olhos foram se acostumando à escuridão na caverna e ela podia vê-los agora – um grupo de formas obscuras amontoados. Um deles, um menino que era mais alto do que os outros, adiantou-se, desconfiado.
— Você não é uma arqueira. As meninas não são arqueiras — disse ele.
Ela tomou uma respiração profunda. Ela queria segurá-lo pelo nariz e arrastá-lo para fora da caverna. Mas sabia que se fizesse isso, nunca conseguiria que o resto deles se movesse. Eles se amontoaram e começaram a chorar. Ela obrigou-se a ficar calma, forçou sua voz para um tom mais baixo, mais normal e calmo.
— Bem, eu sou uma. Meu nome é Maddie e eu sou aprendiza de Will Tratado — houve um murmúrio de reconhecimento. Todo mundo tinha ouvido falar de Will Tratado. Ela percebeu o poder do nome e o invocou novamente. — Will quer que vocês venham comigo e subam a falésia. Ele vai encontrar-se conosco amanhã, depois que acabar com o Ladrão e seus amigos, agora vamos — ela ainda hesitou e segurou o braço do rapaz alto. — Qual é o seu nome?
— Tim. Tim Stoker.
— Bem, me escute, Tim. Preciso de você para me ajudar. Assuma o comando dos menores e leve-os até a trilha. Vou ficar na retaguarda e me certificar de que ninguém nos siga. Tudo bem?
Ela fez sua voz tão calma e reconfortante quanto podia, olhando firmemente em seus olhos. Ela viu as costas dele se endireitarem quando aceitou o trabalho que lhe era passado.
— Tudo bem — ele concordou. Então ele se virou para os outros. — Sigam-me, todos. Façam como diz a arqueira. Está tudo bem. Ela vai cuidar de nós.
Nervosa e relutantemente, eles começaram a se mover para fora da caverna, o rapaz alto liderando o caminho. Maddie ficou de lado, conduzindo-os para fora, apontando-lhes a trilha da falésia, empurrando-os delicadamente para o lugar certo. Movendo-se com uma enlouquecedora falta de velocidade, eles começaram a subir a trilha rústica atrás de Tim Stoker.


O Roteirista era um covarde.
Ele estava mais do que feliz em assustar as crianças à noite com contos sobre o Ladrão e as coisas terríveis que se seguiriam se eles contassem a seus pais uma palavra sobre ele. Mas quando se tratava de um atirador habilidoso em um penhasco escuro, o assunto era completamente diferente.
Ele também tinha notado a facilidade casual com que Will derrubara o homem com a besta. Tinha visto outro membro do bando cair duro no convés do navio, e uma terceira flecha que acertou o seu braço. Ele não tinha ideia de quem seria a próxima vítima. Uma coisa era aterrorizar crianças indefesas. Enfrentar um guerreiro habilidoso e determinado era algo completamente diferente.
Ele hesitou na base da falésia. Olhou para trás com incerteza para o acampamento, então estreitou os olhos. Algo se movia no caminho pela caverna onde os prisioneiros estavam confinados. Ele apertou os olhos e proferiu uma maldição em voz baixa. Havia uma linha de figuras se dirigindo para a trilha.
Voltou-se para alertar seus companheiros. Mas o mais próximo estava na metade da falésia, e o próprio Jory já estava escalando ao longo da crista. Ele chegou a uma decisão. Deixarei Jory e os outros cuidarem do arqueiro solitário. Ele recapturaria os prisioneiros, que tinham escapado de alguma forma. Ele se virou e começou a correr de volta para o acampamento.


Will viu a primeira figura escalar a crista da falésia, agachando-se para evitar uma seta. Ele bufou com desdém. Se quisesse, podia derrubar o homem facilmente, agachado ou não. Mas essa não era a sua tarefa no momento. Ele tinha que levá-los para longe para dar uma chance a Maddie.
Ele começou a correr pelo mato na altura da cintura. Então parou, pegou um arbusto próximo e sacudiu-o violentamente, chutando seus galhos mais baixos para movê-los. Ruhl o ouviu. Ele olhou na direção do som e viu o vulto escuro se afastando.
— Por aqui! — o Ladrão gritou, em seguida, acrescentou: — Espalhem-se! Não se tornem um alvo fácil!
Will assentiu com satisfação. Ele ficaria fazendo barulho e os deixaria vê-lo até o amanhecer. Então, quando os levasse ao sul, começaria a se mover com mais cautela e voltaria num arco para encontrar Maddie.


Maddie ouviu passos na praia enquanto o Roteirista se aproximava. Ela estava a poucos metros da caverna, pronta para interceptar qualquer um. A última das crianças estava a meio caminho antes da primeira curva acentuada da trilha, a cerca de cinco metros acima da praia. Maddie encolheu-se contra a face denteada da falésia, puxando a capa sobre si. Ela pegou um chumbinho de sua bolsa e carregou o estilingue.
O Roteirista surgiu correndo de trás das barracas e passou por ela sem vê-la, movendo-se rápido demais para ela reagir. Ele mergulhou na trilha depois das crianças, encurtando a distância com seus passos largos. Elas começaram a gritar de terror ao verem a figura assustadora de manto azul perseguindo-as. A última da fila, um menina, tentou correr e escorregou no xisto solto. Em seguida, o Roteirista estava sobre ela, seu manto um turbilhão azul ao redor dele como as asas de uma criatura malévola da noite. Ele puxou-a de pé, gritando furiosamente para ela. A menina berrou de terror, mas ele manteve firme o seu aperto.
Maddie hesitou. Se ela atirasse agora, poderia muito bem acertar a garota.
— Eu não disse o que aconteceria se você desobedecesse? Hein? Eu não disse? — o Roteirista sacudiu a menina violentamente e ela gritou ainda mais alto enquanto o terror crescia.
— Deixe-a em paz! Solte-a, seu covarde!
Um jovem gritou acima das palavras do Roteirista e dos soluços da menina. Era Tim Stoker, o rapaz alto que Maddie tinha mandado liderar o caminho. Ele voltou a desscer pela trilha da falésia, abrindo caminho pelas outras crianças, deslizando e escorregando nas rochas soltas. Desequilibrado e incapaz de parar, ele tropeçou desajeitadamente no Roteirista, que largou a menina, jogando-a contra a face da falésia. Ele agarrou o colarinho de Tim desta vez, desembainhando com sua mão livre uma faca de lâmina longa de seu cinto.
— Desafiando-me, não é? Vamos ver quão corajoso você fica quando eu lhe cortar, seu porco!
Seu braço se ergueu, preparando-se para trazer a lâmina até a garganta do garoto em um arco longo. Maddie sabia que tinha que arriscar um tiro agora. Se ela hesitasse, Tim iria morrer. Ela chicoteou o estilingue para trás e para frente. A bola de chumbo refletiu a luz da lua, brilhando enquanto se dirigiria ao seu alvo. Depois ela acertou o ponto abaixo do braço direito erguido do Roteirista.
Ele engasgou com o choque e a súbita dor selvagem quando a maciça bola de chumbo quebrou uma costela. Ele deixou cair a faca e soltou o colarinho de Tim. Puxou ar para gritar e a ação levou mais agonia em seus nervos enquanto as extremidades pontiagudas da costela fraturada raspavam uma na outra. Ele gritou ainda mais alto, as duas mãos apertando seu ferimento. Ele se virou, tropeçou na superfície irregular, em seguida, percebeu que não havia nada além de ar sob seu pé direito. Por um momento, ele pareceu vacilar, cambaleando fora de equilíbrio quando lentamente se inclinou ainda mais sobre a queda. Em seguida ele caiu, aterrissando com um som doentio nas rochas abaixo.
Maddie já estava se movendo para cima na trilha. Ela gentilmente pegou a jovem e a ajudou a se levantar.
— Vamos, querida. Você está segura agora — ela falou.
A menina olhou para ela, os olhos arregalados. Então, lentamente, um sorriso espalhou-se por seu rosto quando ela percebeu que o Roteirista aterrorizante tinha ido embora.
— Eu estou. Estou segura agora — ela repetiu.
Maddie deu um tapinha no ombro dela e gentilmente a empurrou em seu caminho subindo a falésia mais uma vez. As outras crianças, que tinham congelado no lugar, começaram lentamente a se mover novamente.
— Mais rápido! — Maddie pediu, com um tremor em sua voz. — Vocês tem que se mover mais rápido.
Ela se virou para ajudar Tim Stoker a levantar. Ele tinha caído esparramado sobre as rochas quando o Roteirista o largara. Seu rosto estava branco de medo ao lembrar-se do quão perto ele esteve de morrer.
— Você é um garoto corajoso — ela lhe disse. Não lhe ocorrera que ele era apenas alguns anos mais jovem do que ela. — Você está bem?
Ele acenou com a cabeça, não confiando em si mesmo para falar, sabendo que sua voz tremeria incontrolavelmente. Ela colocou a mão em seu ombro e levou-lhe a caminhar atrás dos outros.
— Mexa-se, Tim. Temos que sair daqui — ela percebeu que poderia ajudar se lhe desse uma tarefa. — Mantenha-os em movimento. Faça-os se mover mais rápido. Você pode fazer isso por mim?
Os olhos dele estavam arregalados, o medo ainda estampado neles. Então ele gradualmente trouxe-se sob controle e assentiu.
— Onde está o Roteirista? — perguntou.
Ele ainda não tinha certeza do que tinha acontecido. Em um momento ele estava olhando para aquela faca comprida, que estava prestes a matá-lo. Depois, estava estendido na trilha rochosa.
Maddie apertou seu ombro tranquilizadoramente.
— Você não precisa mais se preocupar com ele — disse ela. — Ele está morto.
— Morto? — ele repetiu, querendo ter certeza.
Ela assentiu com a cabeça enfaticamente.
— Tão morto quanto uma pedra — disse ela, de repente, consciente da ironia involuntária.
Tim estudou seu rosto por alguns segundos, em seguida, virou-se para subir a trilha da falésia.
— Vou mantê-los em movimento — ele falou.
Ela o observou ir e soltou o ar que segurava por muito tempo. Então, só para ter certeza, moveu-se para a borda da falésia e olhou lá de cima. O Roteirista era uma forma escura nas rochas abaixo. Sua capa tremulava ao vento. Ele caíra de costas através do ar e agora seu corpo estava torcido em um ângulo não-natural. Não havia nenhum sinal de movimento.
— Conte uma das suas histórias agora — ela falou ferozmente.
Em seguida, Maddie começou a subir a trilha após as crianças.

2 comentários:

  1. bem feito por roterista.
    super fâ da Maddie

    ResponderExcluir
  2. Kkkkkk amei a ironia da penúltima frase.
    Ass: Lua

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)