8 de fevereiro de 2017

Capítulo 46

Maddie estava agachada no topo da trilha que levava até a praia.
Os sequestradores e tripulação do navio estavam reunidos na tenda-refeitório, terminando o jantar. A mesa estava brilhantemente iluminada por meia dúzia de lanternas. Isso tornaria mais fácil manter-se invisível, pensou. Se os homens estivessem olhando para o halo de luz das lanternas, quando olhassem para o escuro não enxergariam nada.
A maioria deles estava sentada em volta da mesa. Donald e Thomas, os dois homens que estavam no acampamento quando ela e Will chegaram pela primeira vez, preparavam e serviam a refeição. Eles, então, sentaram-se no chão com a sua própria comida, a poucos metros de distância do fogo. Os sequestradores e os marinheiros pareciam estar de bom humor.
A conversa era barulhenta e animada, e o riso reverberava com frequência. Ela achou que eles tinham boas razões para estarem contentes. Estavam com dez prisioneiros para levar ao mercado de escravos em Socorro. A lua subiu sobre o oceano, banhando a água em luz prateada.
O contorno preto do navio se destacava em contraste. A água banhava o casco, e o navio não estava mais inclinado para um dos lados.
Não havia nenhum sinal de que os cativos na caverna tinham sido alimentados. Presumivelmente, eles recebiam apenas uma refeição por dia. Ruhl não era do tipo que desperdiçaria dinheiro alimentando seus prisioneiros mais do que eles precisavam para se manterem vivos.
Ela esperou, mirando a lua com a mão estendida e o braço esticado, até que ela estava a quatro dedos acima do horizonte. Esse foi a hora que tinha concordado com Will. Nesse momento, ele estaria fazendo o seu caminho até as falésias do promontório norte da baía.
Ela se moveu apoiada nas mãos e joelhos até o início da trilha. Fez uma pausa, verificando os homens na tenda mais uma vez. Mas eles estavam ocupados em comer. E, a julgar pelas gargalhadas que vinham com mais frequência a cada minuto que passava, estavam bebendo também.
Ela colocou seu arco de lado. Seria apenas um obstáculo enquanto fazia o seu caminho para baixo pela trilha, e no escuro, ela provavelmente precisaria das duas mãos livres. Ela enrolou o estilingue em torno de sua mão direita e começou a descer a trilha para a praia.
Os passos eram desiguais e lentos. Ela ia devagar, testando cada passo. Uma vez que estivesse abaixo do nível do topo da falésia, ela veria tudo, mas seria invisível contra a face escura do penhasco. Mas se ela escorregasse e caísse, as chances eram altas de que ela seria ouvida. E alguém podia vir olhar o que causara o barulho. Seu pé escorregou quando ela pisou em uma camada solta de pedras. Várias delas bateram sobre a borda da trilha, saltando nas rochas abaixo. Ela congelou, seu coração na boca. Para ela, a pedras deslizando soaram tão altas quanto uma avalanche. Sua mão esquerda foi para a bolsa de projéteis, pronta para selecionar e carregar uma bola de chumbo no estilingue.
Ela esperou um minuto inteiro. Mas não houve nenhum sinal de que alguém a tivesse ouvido. Tomando ainda mais cuidado, ela partiu novamente, uma sombra preta desigual deslizando lentamente para baixo, quase invisível contra o fundo escuro da falésia.
Ela alcançou a primeira volta, onde a trilha se curvava para trás sobre si. O terreno era acidentado e repleto de pequenas pedras, ela escolheu o seu caminho com cuidado em torno da curva. Olhou por cima do ombro para a tenda-refeitório. Os traficantes de escravos ainda focavam sua atenção sobre a comida e a bebida. Uma explosão de risos altos ecoou.
— Continuem a fazer barulho — ela falou sob sua respiração. — Dessa forma, vocês não vão me ouvir.
O segundo trecho da trilha estava mais estável sob seus pés. Antes ela estava meio agachada no chão áspero para manter o equilíbrio, mas agora se endireitou e andou mais rápido até que chegou à segunda volta. Ela fez seu caminho com cuidado em torno dela. Apenas mais vinte metros e ela estaria na parte inferior. Maddie obrigou-se a se concentrar. Com o fim da trilha à vista, era tentador relaxar e correra. No entanto, ela continuou seu caminhar lento, seu ritmo cuidadoso, agachando-se mais uma vez e sentindo o chão torcer sob seus pés enquanto pisava em rochas maiores, ocasionalmente afundando em mergulhos inesperados e buracos no chão. Um deles era mais profundo do que parecia e ela bateu seu calcanhar enquanto entrou nele. Ela grunhiu de surpresa, então congelou. Mas não houve reação dos homens na mesa do refeitório e ela continuou, finalmente chegando ao nível do solo, ao pé da trilha.
Agora, ela teve que esperar mais uma vez. Como Will certa vez descrevera, um dia de arqueiro era composto de horas de espera seguidas por alguns minutos de ações frenéticas e assustadoras.
Esperou agora os minutos frenéticos virem. Seu estômago era um nó apertado. A tensão era quase insuportável. Ela não tinha ideia se Will tinha atingido as rochas na base do norte do penhasco ainda. Ele poderia ter caído e se machucado. Se a trilha que ele tinha encontrado fosse parecida com a que ela tinha atravessado, um passo imprudente poderia tê-lo deixado caído com um tornozelo quebrado, ou inconsciente. Quanto mais tempo ela esperava, pior tornava-se a imagem em sua mente. O que ela faria se Will não cumprisse sua parte do plano? Se ele estivesse incapacitado em algum lugar daquela trilha na falésia, como ela poderia levar as crianças para longe?
Era tarde demais para pedir ajuda. Ambleton era o povoado mais próximo em qualquer direção. No momento em que ela chegasse lá e voltasse com ajuda para a Baía Hawkshead, as crianças estariam longe há muito, indo para o mercado de escravos em Socorro e para uma vida de miséria. Será que ela de alguma forma, poderia atear fogo ao navio, em seguida voltar para a praia para libertar as crianças? Ela descartou a ideia quase tão logo pensou nela. As chances de que ela poderia chegar ao outro lado da praia aberta sem ser vista eram quase nulas. E ela precisava de Will para levar a busca para o sul enquanto ela levava as crianças para uma distância segura.
Ela pensou em outra opção. Ela tinha duas dúzias de flechas em sua aljava e havia dezoito homens sentados em volta da mesa. Ela poderia simplesmente começar a disparar contra eles, pegá-los de surpresa e possivelmente expulsá-los em pânico.
Em seguida, considerou o plano de forma realista. Ela podia acertar dois eles, mesmo três, se fosse rápida o bastante. Mas eles não eram simples aldeões a ser assustados por um ataque surpresa da escuridão. Eram homens impiedosos com um investimento para proteger. Eles estavam armados e, ela assumiu, eram experientes lutadores. Tinham como ir para o chão, usando a mesa ou os grandes afloramentos rochosos que pontilhavam a praia como cobertura. Então eles começariam a flanqueá-la, e mais cedo ou mais tarde, ela estaria cercada.
Além disso, ela pensou amargamente, tinha deixado seu arco na parte superior da falésia.
Ela suspirou. Não havia nada que pudesse fazer se Will não aparecesse nas rochas no lado sul da enseada. Ela teria que assistir impotente enquanto as crianças eram levadas à bordo do navio e iam embora.
Então ela viu. Um flash de luz brevemente visível entre o amontoado escuro de rochas distantes. Will devia ter aberto o obturador em sua lanterna escura para acender uma das flechas de fogo. Em seguida, ele se foi quando o obturador foi fechado.
Mas agora ela percebeu que podia ver um pontinho de luz entre as rochas. Imaginou que fosse a ponta brilhante de uma das flechas de fogo. Ela olhou para trás temendo os traficantes de escravos. Mas eles estavam sentados em um círculo brilhante de luz e não notaram o breve flash nas rochas.
Enquanto ela observava, o pontinho amarelo arqueou no céu noturno, em seguida, curvou-se para o navio preto. Pareceu atingir perto da base do mastro. Lá permaneceu, ainda visível, mas sem crescer. A flecha deve ter acertado uma seção limpa do convés, onde não havia nada inflamável para pegar fogo.
A flecha queimaria e o navio permaneceria ileso. Ela amaldiçoou silenciosamente.
Outro pontinho de luz subiu, então desceu. Este viajou num arco maior que pareceu terminar no meio da vela frouxamente enrolada. E desta vez, ele foi visto por um dos traficantes de escravos.
— O que foi isso? — a figura coberta de azul do Roteirista, que estava sentada de frente para o mar, de repente se endireitou, apontando para o navio.
Ruhl olhou para ele com curiosidade.
— O quê? — ele exigiu.
Ele estava cheio de boa comida e vinho e não estava com vontade de ser perturbado. O Roteirista continuou apontando e os outros se viraram, casualmente, olhando na direção q ele estava indicando.
— Era uma luz — ele falou. — Parecia uma estrela cadente. E desceu sobre o navio. Há outra! — ele acrescentou as duas últimas palavras em um grito quando uma terceira flecha de fogo apareceu brevemente do outro lado da enseada.
Enquanto ela atingia perto da base do mastro, a chama amarela de repente queimou na vela, quando o tiro anterior de Will finalmente acendeu a canva.
— Flechas de fogo! — O capitão ibérico gritou. — Alguém está tentando queimar o La Bruja!
Cadeiras caíram para trás quando os homens saltaram de pé.
A tripulação ibérica foi os primeiros a reagir, correndo pela areia para salvar seu navio. Outra fonte de chamas era visível na base do mastro, e agora um quarto ponto de luz subiu pelo céu e atingiu a lateral do casco.
Os incêndios na vela e na base do mastro estavam queimando de forma constante. Mas ainda estavam para atingir a ferocidade incontrolável que significaria o fim do navio.
Uma memória de suas aulas da língua ibérica surgiu espontaneamente na mente de Maddie enquanto ela observava.
— La bruja. A bruxa — ela murmurou. Esse era o nome do navio.
— Ajude-nos! — o capitão ibérico parou e gritou para os traficantes de escravos que estavam de pé, hesitante ao lado da mesa.
Ele acenou furiosamente com o braço, incitando-os a seguir. Já sua própria equipe já havia chegado ao navio e estavam apressadamente jogando água do mar sobre as chamas na base do mastro. A vela, que começava gradualmente a queimar com mais intensidade, estava fora de seu alcance.
— Se perdermos o navio, perdemos tudo! — ele gritou, o que pareceu penetrar na estagnação que tomara conta de Ruhl e seus homens.
— Vamos! — o Ladrão gritou, e os levou correndo para o navio.
O capitão estava gritando com os seus homens, ordenando-lhes que fossem para a verga e baixassem a vela que queimava, então abafassem as chamas com baldes de água. Quando eles o fizeram, outra flecha fogo assobiou para baixo, pousando na proa do navio, onde rolos de corda alcatroada estavam estendidos prontos para uso. A chama subiu, lambendo o alcatrão, derretendo-o, em seguida, acendendo-o.
— Joguem isso para fora! — o capitão gritou para Ruhl e os seus homens.
Sua própria tripulação estava quase com a vela queimada sob controle. Enquanto Maddie observava, ele jogou um ponto remanescente de fogo por sobre a lateral do barco. Houve um imenso silvo e uma nuvem de vapor.
Percebendo que ninguém prestava atenção ao acampamento, ela correu para fora das sombras e foi na direção da tenda-refeitório com a sua mesa abandonada e cadeiras viradas. Em sua pressa, foi para o poste errado e teve um momento de pânico quando viu que não havia chaves penduradas lá. Em seguida, ela se reorientou e as viu penduradas no poste seguinte. Ela agarrou-as e virou-se para a caverna.
Na proa do navio, o rolo de corda tinha começado a queimar ferozmente, e as chamas se espalharam para uma vela de reposição enrolada e arrumada ao longo do baluarte. Ruhl e os seus homens estavam tentando abafar as chamas com suas jaquetas e casacos. Não familiarizados com a planta do navio, eles não sabiam onde pegar os baldes que os marinheiros estavam usando. O capitão percebeu isso e mandou dois de seus homens ajudá-los, carregados com meia dúzia de baldes. Os homens começaram a atirar água do mar sobre as chamas, lentamente trazendo-as sob controle.
Ruhl procurou freneticamente a fonte das flechas.
— Quem está atirando em nós? — ele gritou em fúria.
Enquanto dizia as palavras, outra flecha assobiou e desceu. Mas esta não era uma flecha de fogo. Era uma flecha de guerra e se enterrou no peito do homem ao lado dele.
O traficante de escravos cambaleou sob o impacto do eixo pesado, então caiu sobre a vela queimando, extinguindo algumas das chamas. Ruhl olhou em volta a tempo de ver outra flecha de fogo subindo acima do rochas. Era a última flecha de fogo de Will, mas não havia como os homens em pânico à bordo do navio saberem disso.
— Eles estão nas rochas na base do penhasco! — Ruhl gritou, apontando para o local onde ele tinha visto a luz começar.
Ele sentiu o convés do navio guinar debaixo dele e olhou em volta para ver o capitão cortando a corda da âncora com um pequeno machado. O La Bruja começou a se mover. Ruhl correu pelo convés, agarrando o capitão pelo braço.
— O que você está fazendo? Você está louco?
O capitão olhou para ele. Seu rosto estava manchado de cinzas da vela queimada e seu braço estava vermelho e empolado, onde as chamas lhe haviam queimado quando ele tinha ajudado a jogá-la ao mar. Ele não estava disposto a discutir com Ruhl. Ele sabia como o fogo poderia reivindicar rapidamente seu navio.
— Vou levá-la fora de perigo. Ela é como um pato sentado aqui e eu não vou correr o risco de ela afundar!
A maré vazante estava se movendo o navio cada vez mais rápido. Ruhl olhou em volta em desespero.
— Eles estão nas rochas! — ele gritou. — Os arqueiros estão nas rochas! Podemos pegá-los!
— Então faça-o! Vou deixar dois dos meus homens com você — o capitão olhou para o convés, avaliando sua tripulação. — Enrico! Anselmo! Vão com o senhor Ruhl! — ele olhou para Jory Ruhl. — É melhor você ir se quer fazer isso mesmo. Voltaremos amanhã.
Ruhl hesitou por um momento, então chegou a uma decisão. Saltou sobre o baluarte, aterrissando na água da altura da cintura, e gritou para seus homens o seguirem. Ele ouviu uma série de splashs atrás dele enquanto nadava para a terra. Olhando para trás, viu os seus homens e os dois marinheiros ibéricos forçando seu caminho contra a corrente atrás dele.
Ele cambaleou para areia seca, em seguida, tropeçou, salvando sua vida. Uma flecha cortou o ar pouco acima de sua cabeça. Ele olhou para as rochas. Não tinha idéia de quantos arqueiros estavam escondidos lá, mas percebeu que ele e os seus homens estavam armados com nada além de facas.
— Peguem suas armas! — ele gritou quando uma flecha acertou o braço do homem mais próximo dele.
O traficante de escravos gritou de dor, mas foi um golpe de raspão e a flecha rasgou livre. Um de seus companheiros rapidamente cobriu a ferida na carne com seu lenço do pescoço.
— Ele está bem! — ele gritou para Ruhl.
O Ladrão balançou a cabeça, em seguida, agachando-se em uma tentativa inconsciente de evitar novas setas, levou seus homens até o acampamento na praia.

4 comentários:

  1. Karina, um erro aqui:
    " Ae (SE) perdermos o navio, perdermos tudo,"

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    1. Corrigido também, Lucas! Obrigada por todas as observações que fez ao longo do livro :)

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  2. Tem gente que não intende o sentido da palavra IRONIA. 0.o

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Boa leitura :)