8 de fevereiro de 2017

Capítulo 44

Maddie acordou pouco antes do amanhecer. Ela olhou para o saco de dormir de Will, mas viu que estava vazio. Ele ainda estava na falésia, de vigília sobre a enseada. Ela saiu de seus próprios cobertores, jogou água fria de seu cantil no rosto e calçou as botas.
Bumper viu seu movimento e fez um ruído baixo. Maddie olhou para ele e viu que suas orelhas estavam em pé. Ele sentira que ela ia para algum lugar e queria acompanhá-la. Ela balançou a cabeça e pôs o dedo nos lábios.
— Agora não, menino. Temos que nos manter em silêncio.
Ele sacudiu a crina e abaixou a cabeça novamente, voltando a pastar na grama curta. Maddie imaginou que ele parecia um pouco desapontado, em seguida, perguntou-se se estava fantasiando demais. Um cavalo pode expressar decepção?, ela pensou. Em seguida, descartou o pensamento, percebendo que poderia ficar ali o dia todo debatendo e nunca obter uma resposta satisfatória.
Ela pegou seu arco, em seguida, vestiu seu cinto contendo a bainha dupla para suas facas de caça e de arremesso. O peso das lâminas foi contrabalançado pela bolsa de chumbo do outro lado de seu quadril. Finalmente, ela deslizou a aljava sobre sua cabeça, ajustando-a para que as flechas ficassem fáceis de pegar sobre o ombro direito. Em seguida, vestiu sua capa, abrindo a pequena aba no ombro direito que permitia o acesso às setas.
Ela moveu-se para a borda do bosque de árvores, parou e desceu sobre um joelho enquanto examinava o terreno ao seu redor. Fez como Will havia lhe ensinado: primeiro conseguir uma visão ampla, em seguida, observar uma pequena parte de cada vez, até que ela tivesse certeza de que não havia ninguém à vista. Permaneceu agachada. Maddie planejou seu caminho por onde a raquítica cobertura do solo era maior, e se dirigiu para a falésia, onde Will vigiava.
Moveu-se lenta e suavemente, colocando cada pé com cuidado, testando o chão antes de colocar peso sobre ele. Se sentisse um galho ou um ramo, passaria o pé com cuidado para uma área limpa, e então prosseguia.
A velocidade é inimiga da discrição, Will tinha dito a ela. É melhor você se mover lenta e silenciosamente do que se apressar e fazer barulho.
Ela viu a grama alta se movimentar para a esquerda. O ar ainda era o da madrugada, sem nenhum sinal de brisa. No mesmo instante ela congelou no lugar.
Confie na capa, ela pensou. Isso e permaneça completamente imóvel eram os dois principais mantras do movimento invisível da Corporação de Arqueiros.
Ela nem sequer virou a cabeça, girando os olhos em vez de focar no local onde tinha visto o movimento. Depois de cerca de trinta segundos, uma grande raposa saiu da grama longa e caminhou para longe, a barriga grudada no chão, a longa cauda espessa fluindo atrás dela. O animal não tinha sequer notado a garota.
— Eu devo estar ficando melhor nisso — ela disse para si mesma.
Desejou que Will pudesse ter visto como a raposa não tomou conhecimento de sua presença.
Ela poderia contar a ele sobre isso, é claro. Mas não seria o mesmo. Ela pareceria estar se gabando.
É se gabar, ela percebeu.
Quando estava a quarenta metros da borda da falésia, ela apoiou-se em silêncio em suas mãos e joelhos, ficando abaixo da grama alta. Mesmo que ela soubesse onde Will estava vigiando, ela não podia ver nenhum sinal dele. Levantou a cabeça para fazer a varredura do terreno à frente dela. Quando fez isso, colocou a mão descuidadamente em uma moita de capim duro e seco, causando um leve crac de quando um galhinho se quebrou. Ela congelou. O som tinha sido tão baixo que ela tinha certeza que ninguém teria notado. Então, a dez metros de distância, no local onde sabia que Will estava vigiando, ela viu sua mão aparecer brevemente acima da parte superior da relva.
Ele a tinha ouvido. Sabia que ela estava chegando. E sinalizou para deixá-la saber.
Maddie se arrastou para frente, com cuidado para não fazer mais ruídos desnecessários. Quando estava a dois metros da posição de Will, foi capaz de discernir a capa camuflada que o cobria. Ele se virou e ela pôde ver seu rosto barbudo na sombra de seu capuz. Era estranho como ele ainda podia permanecer invisível, ela pensou. Se ela não o tivesse reconhecido pela capa, provavelmente nunca o teria visto, mesmo tão perto.
— Alguma coisa aconteceu? — ela sussurrou.
— Além de você andar desajeitada como um elefante perdido? — ele perguntou, no mesmo tom baixo.
Ela assentiu com a cabeça, aceitando a repreensão.
— Fora isso.
Ele inclinou a cabeça em direção à borda da falésia, um metro ou mais longe deles.
— Dê uma olhada — disse ele. Em seguida, ele acrescentou desnecessariamente, pensou ela: — Cuidado.
Ela verificou a direção do sol. Estava baixo sobre o mar, um pouco para esquerda. Ela puxou o capuz para frente e se certificou de que seu rosto estava bem na sombra, em seguida, avançou em direção à borda da falésia.
Mantendo a cabeça abaixo do nível da vegetação ao redor, ela cuidadosamente separou os caules e espiou.
Havia um navio na praia.
Ele tinha cerca de quinze metros de comprimento, era estreito. Fora construído para ser veloz, Maddie imaginou. O casco era pintado em um maçante preto. E construído para ser discreto, ela acrescentou mentalmente.
Ele era perfurado por seis remos, três de cada lado. A vela quadrada estava vagamente enrolada na verga. Pelo o que ela podia ver, era feita de lona preta. Atrás do mastro, no centro da plataforma, estava uma gaiola de madeira. Estendia-se por cerca de um terço do comprimento do navio, encerrando a poucos metros da plataforma do leme.
Will subiu ao seu lado, movendo-se tão silenciosamente que ela não tinha ideia de que ele estava lá até que o viu em sua visão periférica.
— Vê a gaiola? — ele sussurrou. — É ali que eles manterão os escravos. Haverá argolas de ferro e algemas lá para prendê-los — garantiu.
— Quando chegou? — perguntou Maddie.
— Cerca de duas horas atrás. Entrou na mudança de maré. Está começando a diminuir agora.
Ela percebeu que o navio estava inclinado levemente de um lado, como se não houvesse água suficiente para flutuar. A água estava retrocedendo rápido e a marca na areia já era longa.
— Nós precisamos começar a agir, se queremos pará-los — disse ela, mas Will balançou a cabeça.
— Eles vão precisar de maré alta para sair de novo, e isso não vai acontecer até seis ou sete horas após o meio-dia. O navio vai sair na maré vazante, uma vez que não há água suficiente para flutuar. E vai esperar até que esteja escuro, para o caso de existirem navios patrulhando.
 Mesmo enquanto eles conversavam, Maddie percebeu que a água tinha recuado até a última portinhola do remo no casco preto.
— Quantos na tripulação? — perguntou ela.
— Sete. Seis nos remos e um timoneiro. Eles estão no refeitório.
Ela mudou a direção de seu olhar. Até agora, sua atenção estava totalmente focada no navio.
— Você mesma deveria ter notado — Will a censurou gentilmente.
Ela mordeu o lábio. Ele lhe ensinara que quando estivesse vigiando, deveria verificar toda a área em primeiro lugar e evitar focar em um objeto só.
Agora, a primeira vez que importava, ela tinha esquecido de fazer uma varredura por toda a área da praia e concentrou-se apenas no navio preto.
O refeitório era o abrigo de lados abertos na praia. Ela estudou e pôde ver as pernas de uma quantidade de homens sentados na mesa tosca. A parte superior de seus corpos estavam sombreadas pelo teto de lona. Ela podia ouvir um murmúrio de vozes e risos ocasionais. A fogueira para cozinhar estava acesa, e uma coluna de fumaça espiralava preguiçosamente no ar.
Ela franziu o cenho. Eu terei que fazer melhor, pensou. Ela percebeu que havia mais em ser um arqueiro do que ser um expert em tiro com arco ou ser capaz de mover-se silenciosamente. O principal trabalho de um arqueiro era observar e relatar. Sentindo seu aborrecimento, Will tocou em seu braço.
— Não se preocupe — disse ele. — Aprenda com isso. Por enquanto, observe bem a disposição do acampamento, e onde a caverna e a trilha da falésia estão. Estude-os até que tenha certeza que que você pode reproduzir tudo em sua mente. Então voltaremos para o nosso próprio local de acampamento.
Ela concordou com a cabeça, em seguida, estabeleceu-se a estudar a praia abaixo dela, tendo cuidado especial com a caverna de porta trancada e o caminho rochoso que descia da falésia. Ela observou distâncias, ângulos e a cobertura disponível entre a trilha e a caverna, depois fez o mesmo com a caverna e as tendas. Finalmente, definiu a posição relativa do navio em sua mente. Quando estava convencida de que tinha fixado tudo firmemente em sua memória, ela se contorceu afastando-se da beira da falésia e acenou para Will.
— Pronto — disse ela.
Ele a olhou por um momento, a cabeça inclinada ligeiramente para um dos lados.
— A que distância da caverna a tenda-refeitório fica? — perguntou ele.
Ela viu novamente a imagem da praia que tinha gravado em sua memória.
— Trinta e cinco, talvez quarenta metros.
Ele acenou com a cabeça.
— E das barracas de dormir?
— Outro dez.
— A que distância do navio?
— Cento e dez metros. E ele está um pouco à direita do acampamento.
— Você pode ver o navio a partir da entrada da caverna?
Ela fez uma pausa, franzindo a testa. Ela não esperava essa pergunta. Em seguida, respondeu com cuidado:
— Acho que não. A tenda-refeitório e as barracas de dormir estão entre estes dois pontos.
— Boa menina — ele tocou em seu braço, em seguida, fez um gesto para trás. — Vamos voltar para onde nós podemos falar confortavelmente e trabalhar no plano para esta noite.
— Nós temos um plano para esta noite?
— Nós certamente teremos um.
— É um bom plano? Será que vou gostar? — ela perguntou, sorrindo descaradamente.
Will a olhou solenemente durante vários segundos.
— É um grande plano. Você vai adorá-lo.
Ela pensou sobre a situação. Havia dois deles, e agora que a tripulação do navio havia acrescentado outros sete homens ao inimigo, eram dois contra dezoito. As chances não eram muito boas, não importava quantas flechas eles pudessem ter.
Seja qual fosse o plano, duvidava que fosse adorá-lo.

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