8 de fevereiro de 2017

Capitulo 41

Ele os ouviu antes de vê-los.
Houve um som fraco de movimento através da grama longa e os arbustos baixos atrás dele. Instantaneamente, ele congelou. Baixou sua taxa de respiração, de modo que nenhum movimento ou som era perceptível.
Ele resistiu à tentação quase irresistível de se virar e olhar. Em vez disso, apurou os ouvidos, prestando atenção ao farfalhar fraco e sibilante de roupas através da grama. Há dois deles, ele pensou. Ele não podia dizer como sabia disso. Era apenas o resultado de anos de experiência, anos de perseguição à espera de uma presa.
Os homens, assumindo que eles fossem homens, estavam a apenas alguns metros atrás dele agora, e vários metros para o lado. Suas atenções estariam focadas na casa de Carter, ele sabia. As chances de não o verem eram boas, sentado encolhido na capa. O vento estava empurrando as nuvens no céu, revelando alternadamente a lua.
Os homens fizeram uma pausa durante alguns segundos, presumivelmente estudando a casa e a própria vila.
— Ninguém por perto — disse uma voz. Estava surpreendentemente perto de Will, e apenas a sua disciplina e treinamento o impediram de se mover em surpresa. A voz não podia estar a mais de dois metros de distância.
Eles se moveram novamente e passaram por ele, quase perto o suficiente para se esticar e tocar. Havia dois deles, como Will tinha adivinhado. Um estava vestindo um manto escuro. O outro estava todo de preto. Enquanto se movia, Will viu que havia várias tiras longas e desiguais de pano preto leve soltando-se de seus braços e ombros. Elas giravam agitadas ao vento, dando-lhe a aparência de um ser sobrenatural esfarrapado – uma criatura vinda do cemitério.
À medida que o homem encapuzado se agachou, a figura esfarrapada segurou uma touca e puxou-a sobre sua cabeça. Ele olhou de soslaio para o companheiro e Will podia ver que a máscara cobrindo seu rosto era marcada por linhas de tinta branca, delineando o que parecia uma caveira. Finalmente, ele vestiu um chapéu preto de abas largas, parecendo para o mundo como um espantalho esfarrapado e fantasmagórico. Ele se abaixou e começou a se mover através da grama longa para a casa. Seria uma visão terrível para qualquer criança que acordasse e o visse. Will imaginava o medo de fechar a garganta que assaltaria a jovem Violet nos próximos minutos. Ele estava tentado a acabar com este rapto e salvá-la do horror de tudo isso. Mas sabia que se ele pegasse esses dois, o resto do bando desapareceria – com as crianças que já haviam sequestrado. Por mais que ele odiasse a ideia, teve que deixar a pobre Violet suportar as próximas poucas horas. A quadrilha escravagista devia ter um esconderijo em algum lugar. Se ele pudesse rastreá-la, ele e Maddie poderiam liberar todos os cativos e destruir a gangue de uma vez por todas.
A figura negra estava na casa agora, quase perdida nas sombras. Will quis saber se Maddie tinha visto os dois homens e esperava que, se tivesse, ela não tentasse sinalizar para ele. Eles haviam planejado um método de sinalização simples, mas poderia ser usado apenas quando os sequestradores estivessem onde não pudessem ver Will ou Maddie.
O intruso de aparência maligna estava de pé na janela ao lado da casa. Mentalmente Will assentiu, embora não houvesse real movimento de sua cabeça. Ele havia observado a casa na noite anterior à procura de possíveis pontos de entrada. A janela lateral era o mais adequado. A tranca era fraca e primitiva e a janela em si era protegida da vista de qualquer transeunte na rua da aldeia.
O homem encapuzado agachou-se a apenas cinco metros de distância de Will e moveu nervosamente, deslocando seu peso de um pé para o outro. Obviamente ele estava tenso, observando e esperando que algo desse errado.
A figura esfarrapada de preto aliviou tranca da janela e a abriu. Ele passou uma perna sobre o parapeito e caiu dentro da casa. Mais uma vez, o seu companheiro se deslocou nervosamente, à espera de um grito, um grito de susto, um barulho da casa escura. Mas não havia nada.
Minutos se passaram. Will estava focado na janela aberta – agora um buraco quadrado e escuro na lateral da casa. Então ele viu o movimento. A pequena figura em uma camisola branca subiu sobre o peitoril, seguida pelo espantalho predatório preto. Ele a segurava por um braço, nunca soltando-a. Enquanto eles faziam o seu caminho através do campo para onde Will e o companheiro do Ladrão esperavam, Will a viu tropeçar. Seu sequestrador puxou a garota de pé e Will pôde ver que ela tinha um saco sobre sua cabeça.
O homem encapuzado foi recebê-los. Ele soltou uma risada baixa quando viu a garota assustada tropeçando desajeitadamente nas garras da figura esfarrapada.
— Tire esse saco da cabeça dela — o Ladrão disse a ele. — Nós vamos nos mover mais rápido se ela puder ver aonde está indo.
— Como foi? — perguntou a seu amigo.
A figura negra deu de ombros.
— Ela tinha um irmão que acordou quando entrei no quarto. Mas uma vez que ele viu quem eu era, calou-se rapidamente e fingiu voltar a dormir. Eu disse que se ele desse o alarme ou contasse a alguém o que tinha visto esta noite, eu voltaria por ele e arrancaria seus olhos. Assustei a vida para fora dele.
O homem encapuzado estava ocupado desfazendo o nó do saco e removendo-o da cabeça de Violet. Ela era uma menina de rosto fino, com cabelo castanho mal cortado. Ela estava amordaçada com um pedaço de pano grosso e Will pôde ver lágrimas escorrendo pelo seu rosto. Mas ela permaneceu em silêncio, seus grandes olhos assustados se deslocavam de um homem para o outro.
O Ladrão estava tirando sua máscara de caveira agora. Ele soltou um suspiro de alívio quando balançou a cabeça para soltar seu cabelo, que estava emaranhado sob a máscara apertada.
— Assim é melhor — disse ele. — Devo dizer, Victor faz um bom trabalho deixando essas crianças com medo do Ladrão. Essa é a terceira vez que tive um que acorda e apenas congela em terror.
Ele riu suavemente.
Escória, Will pensou. Victor, ele assumiu, era o nome do Roteirista, que semeava tanto terror nos corações das crianças destas aldeias.
— Tudo graças a você. A ideia sobre o Roteirista é sua, depois de tudo. Ele está apenas fazendo o que você disse a ele para fazer, Jory.
Apesar de toda a sua disciplina e treinamento, a cabeça de Will girou à menção do nome. Felizmente, os dois homens estavam de costas para ele e o movimento passou despercebido. Mas, então o Ladrão virou-se, correndo os dedos pelos cabelos e arranhões em seu couro cabeludo. No mesmo instante, uma nuvem que estava obscurecendo a lua foi levada para longe com o vento e a luz pálida recaiu sobre sua face.
Era um rosto Will nunca esquecera. Ele o tinha visto apenas uma vez antes, quando estava de pé, impotente e com raiva, na beira de um rio, e assistiu o barco levar para longe da margem. Mas fora queimado em sua memória como se com um ferro quente.
O Ladrão da Noite era Jory Ruhl.
Sob as dobras escondidas da capa, a mão de Will moveu-se para o punho de sua faca de caça, fechando os dedos em torno dele. A raiva selvagem encheu seu coração e ele queria pular de pé, jogar a capa para trás e atacar o homem que tinha sido responsável pela morte de Alyss, mas ele se conteve com um enorme esforço. Deliberadamente, ele abrandou sua respiração e controlou a fúria irracional e cega que ameaçava dominá-lo. Ele tinha finalmente encontrado Ruhl – ironicamente, quando já não estava procurando por ele. E Ruhl não tinha ideia de que tinha sido descoberto.
Mas se Will matasse Ruhl, aqui e agora, nunca encontraria as crianças desaparecidas de Danvers Crossing, Boyletown, Esseldon e, pelo o que sabia, muitas outras aldeias do feudo. Will sabia que podia acompanhar o sequestrador de volta à sua base. Presumivelmente, seria em algum lugar na costa, onde um navio ibérico poderia embarcar as crianças capturadas e levá-las para o mercado de escravos em Socorro.
Will seguiria Ruhl para a costa, soltaria as crianças e, se possível, destruiria o navio.
Então ele mataria Ruhl.
Enquanto a fúria selvagem lentamente diminuía, ele tornou-se consciente do que Ruhl e seu assistente estavam dizendo.
— Bem, ela é a última — Ruhl falou, apontando o polegar para a menina que chorava. — Isso dá dez, que foi o que combinamos com Eligio. Vamos recolher os outros e ir para Baía Hawkshead. O navio deve chegar em três dias.
Seu companheiro assentiu concordando.
— Tem sido um mês de sucesso — ele disse. — Nós só deixamos duas aldeias de fora.
— Teria sido um mês melhor se aquele arqueiro não tivesse começado a bisbilhotar. Isso desperdiçou quatro dias de nosso tempo.
O Ladrão puxou uma corda do bolso, puxou as mãos da menina para as costas e começou a amarrar seus pulsos juntos.
Liam, Will pensou. Se ele tivesse alguma dúvida de que os escravagistas eram os responsáveis pela morte do jovem arqueiro, ela foi dissipada pelas palavras de Ruhl. Isso é outra coisa pela qual você vai pagar, ele prometeu.
— E eu ainda me pergunto o que aconteceu com Benito. Ele deveria assustar a garota, mas ele desapareceu — Ruhl continuou.
O homem encapuzado deu de ombros.
— Eu sempre achei que ele não era confiável. Ele provavelmente está bêbado em algum lugar, ou na cadeia. Ele estava sempre se metendo em apuros.
— Bem, é um a menos para dividir os lucros — disse Ruhl. Ele puxou a corda em torno dos pulsos de Violet, testando o nó. A menina deu um pequeno grito de dor. — Fique quieta — ele ordenou a ela. Então, continuou para seu companheiro: — Vamos. Já ficamos aqui por muito tempo.
Ele agarrou o braço da jovem e a arrastou ao lado dele enquanto corria por todo o campo gramado para a linha escura de árvores. O outro homem o seguiu.
Will esperou até que eles desapareceram na floresta. Ele não teria problemas para segui-los e, além disso, sabia que eles estavam indo para um lugar chamado Baía Hawkshead. Perguntou-se brevemente sobre o homem que chamavam por Benito.
— Provavelmente o que tentou matar Maddie — disse para si mesmo.
Quando teve certeza de que eles foram embora, e que não podia mais ser visto, Will levantou-se de seu esconderijo. Seus joelhos doíam com o movimento, por terem ficado dobrados na mesma posição por várias horas.
— Estou ficando velho demais para isso — ele murmurou.
Ele não tinha ideia de que estava repetindo um sentimento que Halt tinha expressado muitas vezes.
Ele puxou sua pederneira do bolso. Dando as costas à direção que Ruhl havia tomado, ele esticou sua capa para formar uma tela. Em seguida, bateu a pederneira duas vezes em rápida sucessão, formando faíscas.
Era o sinal de que ele tinha combinado com Maddie antes de começarem sua vigília. Mesmo que a faísca fosse pequena, ela mostrava-se claramente na escuridão. A capa protegia a luz, caso acontecesse de Ruhl ainda estar à vista e olhar para trás na casa.
Alguns momentos depois, ele viu uma forma escura deslizando para fora do beco onde Maddie tinha estado escondida. Permanecendo nas sombras projetadas pelos beirais dos edifícios do outro lado da rua, ela moveu-se rapidamente para a esquerda por cerca de vinte metros. Nesse ponto, ela sumiu de sua visão. Minutos depois, ela rastejou silenciosamente para fora de outro beco, paralelo àquele ao lado da casa de Carter. Ela fez seu caminho para onde Will estava de pé, esperando.
— Eu os vi — ela falou. — Será que eles levaram a menina?
Will assentiu.
— Sim. E agora eles estão voltando para seu covil. Fica em um lugar chamado Baía do Falcão.
— Você sabe onde fica?
Ele balançou a cabeça.
— Ainda não. Vamos verificar o mapa e ver se está marcado lá. Se não, vamos simplesmente seguir os rastros de Ruhl.
Ela olhou para ele um pouco confusa, a cabeça inclinada para um lado.
— Ruhl? Quem é Ruhl?
— Ele é o Ladrão — Will respondeu. Mas algo na voz dele chamou a atenção dela.
— Você o conhece? — ela perguntou.
Will assentiu tristemente.
— Ele é o homem que matou a minha mulher.

4 comentários:

  1. Rhul, aproveite seus últimos momentos.

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  2. kkkkkkkkkkkk, quem manta mexer com um arqueiro! Quer dizer, quem manta matar a mulher de um arqueiro!
    Ass: Bina.

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  3. Bem feito pra esse bandido. Chorei novamente a menção de Alyss.
    Ass: Lua

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Boa leitura :)