8 de fevereiro de 2017

Capitulo 40

Fernald Creasy, o proprietário do Duck Tubby, a pequena pousada de Willow Vale, esfregou os olhos e bocejou. Ele tinha imprudentemente passado tempo demais fazendo companhia a seus clientes na noite anterior.
Em outras palavras, ele tinha bebido cerveja demais. Como um resultado, cambaleara para a cama sem se preocupar em limpar os pratos sujos e canecas meio cheias que cobriam sua pia. Nem tinha esfregado as panelas na cozinha.
Claro, seu ajudante de cozinha devia ter feito isso. Mas ele era um garoto astuto e uma vez que viu Fernald levantando a sua quinta caneca com um grupo na mesa central, tinha tomado a oportunidade para escapar. Agora era de manhã cedo, logo após o nascer do sol, e Fernald foi confrontado com a tarefa de limpar a bagunça da noite anterior.
Ele empilhou uma bandeja com travessas sujas, facas, colheres e canecas e voltou para a cozinha, bocejando continuamente. Sua cabeça latejava dolorosamente e ele jurou que nunca beberia novamente. Ele olhou ao redor da cozinha com um olhar de desgosto. A mesa de trabalho estava cheia de restos de comida e mais pratos e panelas sujas. Havia muito trabalho a ser feito antes que ele pudesse voltar a cama. E a pia não estava nem metade arrumada ainda, pensou melancolicamente.
Ele murmurou com raiva de si mesmo. Não havia espaço na pia para a bandeja que carregava. O banco já estava empilhado com detritos da noite anterior.
Virou-se para colocar a bandeja sobre a mesa da cozinha por algum tempo.
Uma figura encapuzada estava a menos de um metro de distância dele, silenciosa e sinistra na penumbra da madrugada.
Fernald largou a bandeja no susto, mandando seu conteúdo estrondosamente para o chão. Tinha certeza de que não havia ninguém na cozinha quando ele entrou. E não tinha ouvido nenhum som de chegada.
— Pelo Troll Negro de Balath! — exclamou, colocando a mão sobre seu coração, que estava trabalhando horas extras com medo. — De onde você veio?
— Uma praga interessante — Will comentou. — Não acho que eu tenha ouvido o Troll Negro ser invocado faz muitos anos. Você deve seguir a velha religião.
Fernald esfregou o rosto com uma das mãos enquanto sua frequência cardíaca abrandava para um galope. Ele olhou para baixo e viu uma caneca meio vazia de cerveja sobre a mesa. Ele a pegou e tomou, fazendo uma careta ao sabor rançoso.
— Eu não concordo com esses novos deuses — ele murmurou vagamente. Em seguida, sacudindo a distração, ele continuou. — Quem é você? E como entrou aqui?
— Eu sou um Arqueiro do Rei, como você possivelmente deve ter adivinhado. E aquela fechadura da porta não impediria a entrada de um garoto de três anos determinado. Agora sente-se. Nós precisamos conversar.
Will empurrou Fernald para um banco e sentou o hospedeiro – ciente de que seus joelhos ainda tremiam com o choque do aparecimento súbito do arqueiro.
Por que eu, ele pensou. O que eu fiz?
E a resposta era muito, na verdade. Fernald era adepto de dar aos seus clientes pouco de comida e bebida. Ele não era relutante em aguar a cerveja de vez em quando. E ocasionalmente, deslizava para clientes incautos alguns discos de chumbo sem valor entre o troco. Ele se perguntou como o arqueiro sabia dessas coisas.
— Preciso de informações — disse Will. — Primeiro de tudo, alguma criança desapareceu da aldeia recentemente?
Fernald franziu a testa, sem entender a pergunta.
— Desapareceu? O que você quer dizer?
— Desaparecido. Fugitivo. Não ter sido visto por aí.
— Oh... — Fernald pensou por alguns segundos, então balançou a cabeça. — Não. Não posso dizer que ouvi falar de nada parecido com isso — ele falou finalmente.
Will sentiu uma onda rápida de satisfação. Eles tinham chegado a tempo. A menos... Ele hesitou antes da pergunta seguinte. Era crucial.
— Você pode pensar em alguma criança que poderia fugir, se tivesse oportunidade? Alguém cujos pais tendem a maltratar?
Antes que ele tivesse terminado, Fernald assentiu ansiosamente.
— Oh, sim. A jovem Violet Carter. Coisinha simpática. Apenas treze anos de idade. Mas seus pais estão sempre brigando e eles descontam em Violet. Pobre menina, não consegue fazer nada direito às vezes. Até mesmo a deixo ficar aqui algumas noites, de tão mal.
Certo, pensou Will. Tudo estava se encaixando.
— Onde ela mora? — perguntou ele.
Fernald fez um gesto vago em direção à rua do lado de fora.
— Terceira casa contando do final da rua. É a casa com uma porta azul – apesar de que poderia usar uma demão de pintura. O pátio dos fundos tem pilhas de pedaços quebrados de antigos carrinhos – rodas, eixos e chicote. Não dá para errar.
— Você está indo bem, Fernald — Will disse a ele.
Como ele sabe meu nome?, o estalajadeiro se perguntou, esquecendo que estava pintada na placa pendurada do lado de fora de sua porta da frente.
— Agora eu tenho mais uma pergunta. Houve um viajante diferente em Willow Vale nos últimos dias?
— Quer dizer o Roteirista? — Fernald disse, e o coração de Will acelerou. — Manto azul e sapatos vermelhos? Sim, ele estava aqui. Foi embora há dois dias. Por quê? O que ele fez?
Will ignorou a pergunta. Ele tinha um profundo sentimento de satisfação por seu palpite estar certo. Willow Vale estava na lista. O Roteirista tinha estado aqui. Mas o Ladrão ainda estava por vir. E tinha um candidato provável para sequestro na pessoa de Violet Carter.
Ele tinha tomado um risco ao revelar sua verdadeira identidade e fazer essas perguntas de forma tão direta. Mas o tempo era curto e ação direta era necessária. Agora ele tinha que garantir que Fernald permanecesse em silêncio sobre este encontro pelos próximos dias. Ele não podia esperar muito além disso. Mas, então, o Ladrão poderia muito bem ter ido.
— Fernald, você me disse o que eu precisava saber. Mas ninguém mais pode saber que estive aqui. E não há necessidade de ninguém saber o que estamos discutindo. Isso está claro?
Fernald assentiu ansiosamente, sentindo que esta figura sinistra estava prestes a deixá-lo com sua limpeza. Que história isso daria no bar, pensou. Em seguida, as próximas palavras do arqueiro dissiparam esse pensamento.
— Estou falando sério. Você não vai contar a ninguém que estive aqui. Você não dirá a ninguém o que conversamos. Entendeu?
— Hã? Ah, sim. Claro! Nem precisa dizer!
Will deu um passo um passo mais perto, encarando os olhos de Fernald. Fernald instantaneamente deixou cair o olhar.
— Não faça isso! — Will estalou e Fernald sacudiu como se tivesse sido picado. — Olhe para mim. Olhe nos meus olhos!
Fernald o fez. Ele não gostou do que viu lá. Os olhos castanhos eram escuros, quase pretos. E eles estavam perfurando os seus sem qualquer sinal de piedade ou compaixão. Eram buracos escuros e ameaçadores.
— Se eu achar que você sussurrou uma palavra sobre isto a alguém – mesmo uma dica para quem quer que seja – eu vou prendê-lo e colocá-lo no pior, no mais fundo e úmido calabouço fedorento do Castelo Trelleth. Entendeu?
Fernald pronunciou a palavra “sim”. Mas nenhum som saiu. Arqueiros, ele pensou. Você nunca deve mexer com arqueiros.
— Além disso — Will continuou: — Eu vou mantê-lo lá pelos próximos cinco anos e, nesse meio tempo, terei a sua licença de estalajadeiro revogada — ele viu um lampejo de dúvida nos olhos de Fernald. O estalajadeiro não sabia o que a palavra significava. — Cancelada — Will explicou. — Tirada.
Entendimento e medo amanheceram nos olhos de Fernald enquanto ele visualizava um futuro em que ele estava sem dinheiro, incapaz de ganhar a vida. Tomar conta de uma pousada era tudo o que sabia fazer. Sem O Pato Atarracado, o que ele faria? As próximas palavras de Will tornaram o possível futuro ainda mais sombrio.
— Então eu voltarei aqui e farei este edifício ser demolido, tijolo por tijolo, tábua por tábua, derrubado. Então quando finalmente sair da prisão, não haverá nada aqui para você. Você duvida que eu tenha autoridade para fazer tudo isso?
Fernald balançou a cabeça. Arqueiros podiam fazer qualquer coisa que quisessem, ele sabia. Não seria nada para um arqueiro atirá-lo em um calabouço e demolir sua pousada, sua linda pousada.
— Não, senhor — ele conseguiu responder em uma voz baixa.
— Então, lembre-se do que eu disse.
Fernald não confiava em si mesmo para falar. Ele podia sentir as lágrimas brotando ao pensar que sua bela pousada poderia ser destruída por um capricho desta figura implacável.
Will olhou para ele por alguns segundos. Na verdade, ele odiava intimidar o homem assim. Mas era essencial que não houvesse nenhuma palavra da presença de Will, ou de suas perguntas, sendo cogitadas em torno da aldeia. Mesmo agora, o Ladrão poderia ter homens assistindo Willow Vale, para ouvir o menor sinal de perigo. Afinal, de algum modo souberam que Maddie tinha começado a fazer perguntas. Se ele pudesse manter sigilo por alguns dias assustando Fernald, então estava disposto a fazê-lo.
Por um momento, ele se perguntou se estaria disposto a levar a cabo sua ameaça se o estalajadeiro falasse sobre sua visita. Ele decidiu que, considerando tudo, ele o faria.


Era meia-noite. Will sentou-se confortavelmente na grama longa atrás da casa de Carter. Como Fernald lhe tinha dito, o pátio dos fundos era cheio de carroças quebradas e respectivos acessórios. Tinham formas estranhas à luz de uma lua baixa.
Maddie estava do outro lado da rua, observando a frente da casa. Will esperava que, se o Ladrão fizesse uma aparição, iria fazê-lo a partir dos campos de trás da aldeia, onde o arredor cheio de árvores lhe daria uma abordagem conveniente, escondida e com rota de fuga. Era pouco provável que descesse a própria rua principal. Mas para ter certeza, Maddie estava posicionada onde ela podia ver a parte da rua que estava escondida do ponto de observação de Will.
Apoiou as costas contra um toco de árvore. Seu capuz estava posicionado de modo que seu rosto estava na sombra, e sua capa reunida em torno dele. Ele permaneceu imóvel, sabendo que a capa e absoluta quietude eram seus aliados contra ser visto. A mais de três metros de distância, ele era totalmente invisível. Mesmo de perto, ele se misturava com o próprio tronco de árvore, parecendo uma pilha de ramos caídos, ou um arbusto grande e irregular.
Esta era a segunda noite que haviam mantido vigília sobre a casa Carter. De dia, eles ficavam para trás das árvores, escondidos da vista. Depois da primeira noite, Maddie tinha ficado impaciente, preocupada nas longas horas de inatividade.
— Ele não está vindo — ela falou. — Nós o perdemos.
Will balançou a cabeça.
— Esta é uma grande parte do que fazemos — ele disse a ela. — Assistir e esperar. Seja paciente. Foi apenas uma noite. Ele poderia vir amanhã. Ou na noite seguinte. Mas ele virá.
— Como você pode ter tanta certeza? — perguntou Maddie.
Ele considerou a questão em silêncio por alguns instantes, em seguida, lançou-lhe um olhar sem piscar.
— Eu não sei. Eu apenas sei. É o instinto de um caçador, suponho.
Agora, enquanto ele estava sentado aqui esperando, o instinto lhe dizia que esta noite seria a noite.

4 comentários:

  1. Um pequeno erro
    "Mas o tempo era curto e ação direta ra( era ) necessária. Agora ele tinha que garantir que Fernald permanecesse em silêncio sobre este encontro pelos próximos dias. Ele não podia esperar muito além disso. Mas, então, o Ladrão poderia muito bem ter ido."

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  2. Nossa Will nunca tinha te visto tão intimidador antes =3

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Boa leitura :)