8 de fevereiro de 2017

Capítulo 4

Halt e Pauline guiaram seus cavalos para uma parada quando a estrada surgiu das árvores sob o castelo de Araluen. Nenhum deles sugeriu isso, nem mesmo trocaram um olhar. Foi simplesmente uma resposta natural à visão repentina do castelo, com suas torres e pináculos, e bandeiras tremulando bravamente no vento em diversos pontos em torno do muro.
— É impressionante, não? — Pauline falou suavemente.
Halt olhou de lado para ela, um meio sorriso em seu rosto.
— Sempre foi — ele concordou. — Ainda assim, eu não o trocaria por Redmont.
Por comparação, o castelo de Redmont era sólido e funcional, sem nada da graça e beleza que Araluen oferecia. Mas era seu lar. Era onde Halt e Pauline tinham passado grande parte de suas vidas e era onde eles finalmente haviam revelado seu amor eterno um pelo outro.
A vida em Redmont também era muito menos formal, o que era mais condizente com a ideia de Halt de como as coisas deveriam ser. Ele tinha descaso por rotinas estritamente ordenadas e ocasiões no palácio real, com sua rígida aderência a protocolos e posição social. Ele achava que esse comportamento era desnecessário e tolo e ficava sombrio cada vez que era obrigado a estar em qualquer tipo de evento formal. Felizmente a mensagem que eles receberam de Gilian indicava que não haveriam formalidades envolvidas nessa visita.
Eles instaram seus cavalos avante em um trote lento, seus cascos criando pequenas nuvens de poeira que pairavam no ar quente. Eles estavam viajando sozinhos, com apenas um cavalo de carga e nenhuma escolta. Não que eles precisassem de uma. Mesmo Halt já estando aposentado, e seu cabelo ter se transformado de um cinza pimenta com sal para prata, ele ainda era o arqueiro mais famoso do Reino, e um oponente formidável para qualquer ladrão em potencial. O enorme arco que ele carregava em sua sela evidenciava o fato.
— Você acha estranho — Pauline perguntou — ser convocado pelo seu antigo aprendiz?
Halt franziu os lábios.
— Não foi tanto uma convocação — ele a corrigiu. — Foi mais um pedido.
Fazia três anos que Crowley tinha falecido. O Comandante dos arqueiros morreu pacificamente em seu sono. Foi um fim irônico para o seu velho amigo. Após uma vida de batalhas, intrigas e perigo, ele simplesmente parou de respirar numa noite. Foi encontrado com os olhos abertos e um sorriso zombeteiro no rosto. Pelo menos aquilo foi apropriado, pensou Halt. Crowley tinha sido famoso pelo seu senso de humor travesso. Ele obviamente tinha morrido pensando em algo que o divertia e Halt encontrou conforto com o fato. Com a morte de Crowley, muitas pessoas imaginaram que Halt assumiria o posto de Comandante. Porém ele reagiu com horror diante da sugestão.
— Papeladas, relatórios, organização, ficar sentado atrás de uma mesa escutando os problemas e reclamações de todo mundo. Você consegue me imaginar fazendo isso? — disse a Pauline naquela época.
Sua esposa sorriu, olhando para sua expressão severa.
— Creio que não consiga — ela havia concordado.
Assim, a posição foi oferecida a Gilan. Para sua surpresa, ele acreditava ser de longe muito jovem para o cargo. Mas a nomeação havia sido recebida com aprovação unânime pelos outros arqueiros. Gilan era, junto com Will Tratado, um dos jovens mais conceituados do Corpo – e um dos mais experientes, principalmente em termos de assuntos internacionais. Gilan tinha viajado mais e visto mais ação do que muitos arqueiros. E ele estava acostumado a estar perto dos bastidores do poder. Seu pai era o Mestre de Guerra do Reino e Gilan tinha um relacionamento próximo com a Princesa Cassandra e Sir Horace, o principal cavaleiro do Reino. Ainda mais a seu favor, aos olhos dos arqueiros, ele fora treinado pelo próprio Halt.
Will poderia ter sido considerado para o cargo, embora fosse mais novo que Gilan. Mas enquanto ele e Halt eram muito respeitados, até mesmo reverenciados como indivíduos, era-se amplamente reconhecido que eles preferiam agir independentemente e tinham uma inclinação para quebrar as regras. Gilan, por outro lado, era mais disciplinado e organizado, e mais adequado para a tarefa de comandar e controlar a elite e distinto grupo dos cinquenta arqueiros de Araluen.
— Você acha que ele vai pedir-lhe para ir a outra missão? — Pauline perguntou, após cavalgarem por alguns minutos em silêncio.
De tempos em tempos, mesmo estando aposentado, Halt concordava em aceitar missões para Gilan.
Ele considerou a questão, mas balançou a cabeça.
— Ele teria dito na carta — Halt respondeu. — Não me pediria para vir até aqui se houvesse a chance de eu dizer não. Além disso, se ele quisesse que eu fosse em uma missão, por que me pediria para vir até o Castelo Araluen? Tenho a impressão de que é algo pessoal.
— Você não acha que Jenny finalmente concordou em se casar com ele? — disse Pauline, sorrindo.
Tinha sido outra surpresa quando nos últimos anos Jenny decidira que ela não tinha nenhum desejo de arrancar a si mesma e seu próspero restaurante de Redmont para seguir Gilan até o Castelo Araluen. Ela o amava, todos sabiam disso. Mas ela queria manter sua individualidade e sua carreira.
— Nos casaremos um dia — Jenny tinha dito a Gilan. — Mas no momento você está completamente ocupado com os negócios dos arqueiros ou está em uma missão em algum lugar. Eu não tenho desejo de ser esposa do Comandante.
Gilan tinha ficado um pouco chocado por suas palavras francas.
— E se eu encontrar outra pessoa? — ele perguntara, com um pouco de malícia.
Jenny dera de ombros.
— Então você será livre pra fazer o que quiser. Mas você não encontrará ninguém como eu.
Ela tinha razão. Então eles continuaram seu namoro à longa distância, com Gilan tomando todas as oportunidades que encontrava para ir ao Feudo Redmont passar um tempo com ela. Toda vez que eles se encontravam, ele renovava seu pedido de casamento. E ela renovava seu adiamento.
— Eu acho que não — Halt respondeu agora à pergunta de Pauline. — Você conhece Jenny. Se ela decidiu se casar com ele, estaria transbordando de emoção.
— Verdade — concordou Pauline. Ela suspirou baixinho. — Você acha que fomos um mau exemplo para eles, esperando o máximo que podíamos?
— Eu não acho que foi um mau exemplo — Halt contou a ela. — Além disso, a espera te manteve interessada.
Ela se torceu na sela para poder olhar para ele. Foi um olhar longo e duro, e Halt percebeu que pagaria por aquela graça. Talvez não hoje, nem amanhã. Mas um dia – provavelmente quando ele menos esperasse. Mesmo assim, valeria a pena. Ela tinha uma vida inteira de prática no Serviço Diplomático.
Eles agora estavam perto da ponte levadiça. Ela estava baixada, o que era normal durante o dia. Duas sentinelas montavam guarda do lado de fora. Eles chegaram perto e saudaram os dois viajantes. Não havia necessidade de Halt e Pauline se identificarem. Sua chegada era esperada e eles eram reconhecidos de longe por todo o Reino, principalmente aqui na capital.
— Arqueiro Halt e Lady Pauline — disse o superior dos dois. — Bem-vindos ao Castelo Araluen.
Ele gesticulou para passarem, afastando-se para acentuar o convite.
Halt acenou para os dois homens.
Pauline favoreceu o superior das sentinelas com um sorriso radiante.
— Muito obrigada, Cabo — ela se inclinou para frente, olhando mais perto para o outro homem. — E será você, Malcolm Landers? Eu lembro quando você me ajudou com meu cavalo na última vez que visitei Araluen.
O rosto familiar do homem se abriu em um sorriso encantado.
— Verdade, minha senhora. Ele perdeu uma ferradura, se bem me lembro.
Halt balançou a cabeça ligeiramente. A habilidade de sua esposa de relembrar nomes e rostos, mesmo aqueles de soldados comuns, era uma fonte de admiração para ele. Coisa do treinamento diplomático, ele pensou. Depois se corrigiu. Não, Pauline era genuinamente interessada nas pessoas. Ela gostava delas e nunca esquecia aqueles que faziam uma boa ação para ela. Ele percebeu que seu simples ato de lembrança e reconhecimento garantiu a ela um seguidor devoto. Malcolm Landers agora faria tudo por ela.
É claro, disse baixinho para o cavalo. Ter uma beleza deslumbrante também ajuda nestes momentos.
Não é algo de que você será sempre acusado, replicou Abelard.
— Pare de falar com seu cavalo, querido — Pauline falou quando eles continuaram seu caminho através e abaixo da ponte levadiça. — Eu sempre sei — ela disse, e ele se perguntou como ela sabia o que ele estava se perguntando.
Eles se encontraram no pátio com um jovem aprendiz de arqueiro. Gilan instituiu um sistema onde ele “pegava emprestado” aprendizes de seus mestres por dois a três meses, para que pudessem ajudá-lo em seu trabalho como Comandante.
— Faz sentido para dar a eles uma noção de como a Corporação é administrada — ele tinha dito a Halt. — Quem sabe? Um dia talvez um desses garotos possa acabar como Comandante.
Halt revirou os olhos com a ideia.
— Deus nos ajude — dissera ele baixinho.
— Bom dia, arqueiro Halt. Bom dia, Lady Pauline — o atual aprendiz de Comandante os cumprimentou. — Meu nome é Kane e estou ajudando o Comandante. O Comandante envia suas desculpas. Ele está abordando os guerreiros formandos na Escola de Guerra — ele olhou com nervosismo para os dois. — Ele sugeriu que eu deveria mostrar as suas acomodações e ele se juntará a vocês quando estiver livre.
Pauline contribuiu com um sorriso.
— Nós entendemos. Gilan é um homem ocupado, afinal.
Kane gesticulou para um jovem cavalariço que estava parado nas proximidades do estábulo, mudando o peso de um pé para o outro, enquanto esperava.
— Posso deixar Murray cuidar dos seus cavalos? — ele sugeriu.
Halt hesitou. Pauline sabia que ele mesmo preferia cuidar de Abelard. Mas ela também sabia que aquele jovem se gabaria por anos de que ele tinha cuidado do cavalo de Halt.
— Deixe Murray cuidar, querido — ela disse em voz baixa.
Abelard sacudiu a cabeça. Eu concordo. Ele irá fazer um trabalho melhor que você. E vai me mostrar respeito extra.
Ele vai é te mostrar maçãs extras, é o que você quer dizer.
— Não fale com o seu cavalo, amor. Pessoas estão olhando — Pauline falou com voz baixa.
Halt virou um olhar perplexo para ela.
— Como você sabe quando eu estou fazendo isso?
Ela sorriu pra ele.
— Seu nariz se contrai — ela respondeu.
Um pouco desnorteado, Halt deixou o cavalariço tomar conta da rédea de Abelard com uma mão. Ele conduziu o cavalo de Pauline com a outra mão e se dirigiu para os estábulos. Halt e Pauline seguiram Kane para um andar superior da torre do castelo, onde uma suíte confortável fora preparada para eles. No caminho, Kane continuou olhando disfarçadamente para o famoso arqueiro, fascinado pelo fato de que ele ficou olhando para seu próprio nariz e esfregando a ponta dele com o indicador e o polegar.
Assim que chegaram aos aposentos preparados para eles, Pauline declarou que iria tomar um banho, e mandou criados buscar água quente.
— Darei meus respeitos ao Rei Duncan enquanto você toma seu banho — Halt disse.
Pauline assentiu enquanto desempacotava vários vestidos e os pendurava no guarda-roupa.
— Eu o verei mais tarde, quando ele tiver tempo para se preparar.
Duncan estava de cama fazia muitos meses, devido a uma lesão na perna que era incurável. Antes com uma constituição forte e cheio de energia, agora ele era uma sombra de sua antiga personalidade. Ele perdera peso e musculatura, e Pauline, consciente do senso de dignidade do Rei, sentiu que ele gostaria de tempo para se preparar e parecer bem antes de cumprimentar uma visita feminina. Halt concordou sombriamente.
— Boa ideia — disse ele. — Vou dar-lhe os seus cumprimentos.
Preparado como estava, ainda assim foi um choque quando Halt foi conduzido ao quarto do Rei. Fazia alguns meses desde a última visita de Halt ao Rei e ele estava depressivo ao ver o quanto Duncan havia degenerado. Suas bochechas estavam fundas, seus olhos muito brilhantes e febris. E o seu corpo era magro, a pele parecia estar pendurada. A perna ferida estava apoiada em sua frente, debaixo de muitos cobertores.
Eles conversaram sobre assuntos irrelevantes por alguns minutos.
Halt percebeu que, apesar de Duncan estar feliz em vê-lo – um de seus amigos mais antigos e firme defensor – o Rei estava fraco e se cansou rapidamente enquanto falavam. Halt encurtou sua visita e fez suas despedidas, mas Duncan chamou-o para mais perto da cama. O rei tomou seu pulso com uma mão em forma de garra e inclinou-se para a frente.
— Halt, vigie Cassandra. Não é fácil para ela – tomar conta do Reino enquanto estou deitado na cama.
Halt forçou uma risada.
— Irei, meu senhor, mas você estará bom e em pouco tempo poderá assumir o comando novamente.
Antes de ele terminar, Duncan estava balançando a cabeça.
— Não vamos nos enganar, Halt. Eu não tenho muito tempo. E quando eu for embora, ela precisará de amigos — ele fez uma pausa, respirando com dificuldade, seus olhos fecharam por alguns instantes. Depois eles abriram de novo. — Graças a Deus por Horace. Ela não poderia ter escolhido um marido melhor.
O velho arqueiro sorriu com carrinho ao pensamento do jovem e honesto cavaleiro que era completamente dedicado à Princesa.
— O senhor não poderia falar maior verdade — ele respondeu.
Irônico, pensou. Horace tinha sido um órfão, nascido de origem camponesa. Logo ele se tornaria o homem mais poderoso e influente no Reino, sentando à direita de Cassandra enquanto ela governava.
— Ela precisará dele — o Rei falou. — Não é fácil para uma mulher governar. Haverá aqueles que irão ressentir-se dela e tentar testá-la. Ela precisará de toda a ajuda que conseguir. De Horace. De você. E de Will.
— Nós daremos a ela — Halt garantiu ao Rei. Então, ele não pôde deixar de sorrir. — Mas não subestime sua filha, meu senhor. Ela sabe o que quer e sabe como conseguir.
Um sorriso cansado atravessou a face de Duncan.
— E, pelo o que ouvi, a filha dela está logo atrás — disse ele.
Ele soltou o pulso de Halt e, como se o esforço fosse demais para ele, caiu de volta nos travesseiros, acenando com uma mão fraca em despedida.
Halt atravessou silenciosamente até a porta, imerso em pensamentos. Quando colocou a mão no trinco, voltou-se para o Rei a que serviu por muitos anos. Duncan já estava dormindo, seu peito subindo e descendo irregularmente debaixo das cobertas.
Triste, Halt saiu.
— Nenhum de nós está ficando mais jovem — falou disse, para ninguém em particular.
Então sorriu. Abelard teria uma resposta áspera para isso, pensou ele.

7 comentários:

  1. Morri aqui com Halt e Pauline. Kkkkk. "Pare de falar com seu cavalo"

    ResponderExcluir
  2. Também morri de ri! kkkkkkkk
    Ass:Bina.

    ResponderExcluir
  3. Kkkkkkk o Halt e a Pauline são lindos juntos ♥
    Ass: Lua

    ResponderExcluir
  4. — Eu não acho que foi um mau exemplo — Halt contou a ela. — Além disso, a espera te manteve interessada.
    Ela se torceu na sela para poder olhar para ele. Foi um olhar longo e duro, e Halt percebeu que pagaria por aquela graça. Talvez não hoje, nem amanhã. Mas um dia –
    #PAULINESINISTRA
    HUHAHAHAAHHAHAAH

    ResponderExcluir
  5. — Ela precisará dele — o Rei falou. — Não é fácil para uma mulher governar. Haverá aqueles que irão ressentir-se dela e tentar testá-la. Ela precisará de toda a ajuda que conseguir. De Horace. De você. E de Will.

    Mas Will não tá muito nos animos de ajudar alguém... Ainda mais ensinar aquela garota arrogante.

    ResponderExcluir
  6. Pq será ​q o Halt também não trocou de cavalo?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Todos os Arqueiros trocam. Mas eles continuam com o mesmo nome lembra?

      Excluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)