8 de fevereiro de 2017

Capítulo 38

Na hora que Will levou Puxão de volta para a pequena clareira do lado de fora de Esseldon e retomou seus trajes de trabalhador agrícola, era bem depois de escurecer.
Ele andou rapidamente ao longo da estrada de volta para a aldeia. Ao contrário de Maddie, ele não estava nervoso pelas sombras escuras sob as árvores que ladeavam a estrada. Mas ele não era bobo e sabia que forças obscuras trabalhavam nesta parte do mundo. Como resultado, ele manteve a mão perto de sua faca de caça enquanto caminhava. Seu arco sem corda, juntamente com a aljava, estava escondido dentro de um embrulho de lona.
As luzes brilhavam na estalagem e havia um murmúrio de conversação vindo do bar lotado. Era fim de semana, e os aldeões relaxavam depois de seis dias de trabalho duro.
Ele guardou seu arco e aljava no fundo do carrinho de mão.
O estábulo estava escuro, as lanternas apagadas. Maddie, é claro, tinha dormido na estalagem na noite anterior. Era lógico supor que ela estava lá agora.
Ele fez seu caminho para o prédio principal, abriu a porta e foi saudado por um burburinho ruidoso de vozes e o cheiro de boa comida, lenha queimada e cerveja derramada. Algumas pessoas olharam para cima, reconheceram o trabalhador rural itinerante que tinha estado na aldeia por vários dias e tinham perdido o interesse nele. Até agora, todos sabiam da sua história, prosaica como era. Jerome estava atrás do bar, passando duas canecas cheias para um cliente. Avistou Will, sorriu e chamou-o, tirando outra caneca espumada de cerveja quando este atravessou a sala lotada, fazendo o seu caminho entre as mesas e cadeiras e seus ocupantes ruidosos.
Jerome colocou a caneca no bar em frente de Will.
— Você está de volta! — ele disse alegremente. — Teve sorte?
Will fez uma careta.
— Não. Nada de trabalho em qualquer fazenda para um homem honesto.
— Que tal um não honesto? — Jerome sorriu.
Will balançou a cabeça, conseguindo um leve sorriso em troca. Ele deu um profundo gole na cerveja antes de responder. Como ele dissera a Maddie, não tinha o hábito de beber cerveja, mas seria fora do personagem um trabalhador recusar bebida.
— Nem isso, também — ele respondeu. — As colheitas estão duras hoje em dia.
— É uma época ruim do ano para estar à procura de trabalho casual — Jerome concordou. — E você perdeu toda a emoção aqui.
Will inclinou a cabeça, curiosa.
— Emoção? O que aconteceu?
— Um homem morto foi encontrado na rua, apenas um pouco mais abaixo na estrada.
— Quem era? — Will perguntou.
Mas Jerome deu de ombros.
— É isso. Ninguém sabe. Ninguém o tinha visto antes de Neville Malton o encontrar na manhã de ontem, esparramado no meio da estrada, com uma enorme ferida em sua testa.
Esse detalhe definitivamente chamou a atenção de Will. Havia várias armas que poderiam deixar uma marca como essa em um homem, mas a que surgiu em sua mente foi estilingue. Ele olhou em volta da sala procurando por algum sinal de Maddie. Então se virou para Jerome.
— Como ele se parecia? — perguntou.
— Como um grande lenhador. Pele morena. Eu diria que ele era um estrangeiro. Tinha um daqueles longos bigodes caídos que os estrangeiros usam. E ele estava todo de preto. Não é bom, chego a dizer que alguém foi e fez isso com ele.
Naquele momento a porta da cozinha se abriu e Maddie apareceu, carregando quatro bandejas de carne assada e legumes. Ela fez seu caminho entre a multidão para a mesa que tinha feito o pedido. Os quatro homens sentados lá comemoraram assim que ela baixou os pratos, brincando com ela e agradecendo-lhe por salvá-los da morte por fome.
Eles eram alegres e amigáveis e não fizeram por mal. Maddie sorriu para eles, um pouco palidamente. Ela parecia incomodada com alguma coisa, Will pensou. Então ela olhou para cima e o viu no bar, e ele viu o alivio inundar seu rosto.
— É uma boa garota que você tem aí — Jerome apontou, percebendo a troca entre os dois. — Trabalhadora duro e boa com os clientes. Eu não vou cobrar pelo quarto que ela está usando. E darei umas moedas também. Na verdade — acrescentou — você pode usar o quarto esta noite, se quiser.
— Obrigado. Podemos fazer isso — concordou Will.
Maddie estava olhando significativamente para ele, e agora ela fez um gesto com a cabeça em direção à porta que dava para o estábulo. A mensagem era óbvia.
Ele esvaziou o resto de sua cerveja.
— Só vou lá dizer olá — ele falou, e virou-se para seguir Maddie para fora.
— Diga a ela para fazer uma boa pausa — Jerome gritou atrás dele. — Ela está trabalhando duro a noite toda. A melhor garçonete que já tive — ele acrescentou, pensando consigo mesmo que era uma pena que Maddie e seu pai não fossem ficar muito tempo na aldeia.
Enquanto seguia Maddie para o exterior frio, Will sorriu ironicamente para si mesmo. Maddie, a Princesa Real, a superior e esnobe jovem do Castelo Araluen, havia encontrado sua vocação servindo de garçonete.
Poderia ser uma nova carreira para ela se Evanlyn e Horace não a restituíssem como princesa, pensou ele, e deu um pequena risada. Ele fez uma pausa, surpreso. Era a segunda vez recentemente que ele dava uma gargalhada, percebeu. Ele balançou a cabeça e caminhou rapidamente para onde sua aprendiza o esperava.
Ele parou a alguns passos dela. Seu rosto estava pálido e os lábios tremiam. Quando ela olhou para ele, seus olhos se encheram de lágrimas.
— Tio Will, eu matei alguém — ela revelou.
Seus ombros começaram a tremer e ela começou a soluçar incontrolavelmente.
Ele se aproximou, envolvendo os braços em torno dela e murmurou suavemente enquanto o fazia. O fato de que ela o havia chamado de “Tio Will” falou sobre seu estado de espírito. Ela ainda era uma criança, ele percebeu, apesar de toda a sua autoconfiança e ousadia.
E ela tinha sido forçada a fazer a coisa mais terrível que uma pessoa poderia fazer – tirar a vida de outro. Ele não tinha nenhuma dúvida de que as circunstâncias a tinham obrigado a fazê-lo. Também não tinha dúvidas de que ela estava falando sobre o estranho misterioso vestido de preto que tinha sido encontrado na rua.
— Calma, minha menina — ele murmurou baixinho para ela. — Calma. Eu estou aqui agora e tudo vai ficar bem. Você pode me contar o que aconteceu?
Aos poucos, entre vastos soluços engolidos que a faziam tremer, ela descreveu como tinha acordado em terror à presença de um intruso em seu quarto. Como ele a havia ameaçado, e em seguida, como o terror tinha sido gradualmente substituído por raiva e indignação.
— Você o seguiu? — Will perguntou, quando ela descreveu que tinha descido as escadas, seu estilingue pronto.
Ela fungou uma lágrima e assentiu.
— Sim. Eu pensei que eu deveria.
Ele a soltou quando fez a pergunta, mas agora a puxou em seus braços mais uma vez.
— Meu Deus, mas você é uma garota corajosa — ele falou, maravilhado com sua coragem.
Ela continuou seu relato, descrevendo como o puro acaso de uma pedra sob seu pé descalço tinha salvado sua vida quando o quattro zumbiu sobre a sua cabeça. Então ela contou como viu o homem preparando outro lançamento e atirou com seu estilingue, uma fração de segundo antes que ele pudesse lançar seu míssil.
— Deixe-me ver se entendi — Will falou. — Ele lançou um quattro em você. Ele estava prestes a lançar um segundo, e você revidou, bem a tempo.
Ela assentiu com a cabeça entre lágrimas.
— Eu não achei que aconteceria. Eu só atirei. Então caí esticada no chão — ela disse.
Will assentiu com simpatia.
— Claro que você não pensou. Você agiu como foi treinada para agir. Você reagiu a uma ameaça. Nada é culpa sua, meu doce.
— Mas ele...
— Ele estava, obviamente, trabalhando com esse imundo Ladrão. Ele tentou matá-la uma vez assim que você saiu pela porta. E estava tentando matá-la novamente quando você atirou. E você diz que ele tinha outras duas dessas armas na bolsa?
Ela assentiu com a cabeça, sem dizer nada. Will fez um gesto de dispensa com uma mão.
— Então você agiu em legítima defesa e não há nenhuma culpa nisso. Nenhuma. Se não o tivesse feito, não tenho dúvidas de que ele teria tentado matá-la novamente com aqueles quattros restantes.
— Acho que sim — ela dissera isso a si mesma várias vezes desde o evento. Ter alguém para dizer isso, particularmente Will, era um conforto enorme.
— Enxugue suas lágrimas agora.  Sei que é uma coisa horrível de se enfrentar, mas era o que tinha que ser feito. Você tinha que fazer isso ou teria sido morta. Estamos entendidos?
Ela assentiu, enxugando as lágrimas com as costas da mão.
— Eu queria muito falar com você. Eu não podia falar a ninguém e eu me senti tão... terrível — ela disse em voz baixa.
Will assentiu para ela, confortando-a.
— Eu não deveria tê-la deixado. Se a culpa é de alguém, é minha. Mas quero que você coloque isso para fora de sua mente agora e não pense mais sobre ele, tudo bem?
— Tudo bem. Mas é que...
— Não. Mas nada. Ponha esses pensamentos de lado.
— Mas... ele tinha um papel com ele. E acho que talvez possa ser importante.
Will levantou a cabeça com essas palavras.
— Papel? O que é?
— Não tenho certeza. Pode ser o mapa de alguma coisa. Está no meu quarto.
Ele pegou sua mão e a levou para a pousada.
— Então, vamos dar uma olhada nele.
— Mas... Eu tenho trabalho a fazer... — ela protestou.
Ele balançou a cabeça.
— Deixe Jerome e sua mulher fazerem isso. Ele disse que você podia ter uma boa pausa. Então vamos.
— O que você achou em Boyletown? — ela perguntou enquanto eles subiam para o seu quarto.
— O Roteirista estava lá, certo, alguns dias antes de Peter Wiliscroft desaparecer — Will pausou e acrescentou: — e o menino estava sendo maltratado, assim como os outros.
— Por seu pai?
Ele balançou a cabeça.
— Um irmão mais velho. Ele costumava maltratá-lo continuamente. Ninguém se surpreendeu quando Peter desapareceu.
Eles chegaram ao topo da escada e ele empurrou a porta aberta, ficando de lado para deixá-la entrar no pequeno cômodo.
— Agora vamos ver o que tem no papel que você achou.

5 comentários:

  1. Uma pena que Will e Alyss (pausa pra enxugar lágrimas e lamentar a morte dela novamente) não tiveram filhos. Não há dúvidas que seria a família mais fofa. Bem, talvez não tanto quando eu imagino os filhos de Percy e Annabeth, mas aí já é outra história.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu compartilho desse pensamento, Léria. Eu achei que quando chegasse ao livro 12 ele teria um "Willzinho", mas nada, né.

      Excluir
  2. Eu pensei que no livro 12 o Will iria ter uma menina, assim como a Meddi, que se endereça-se pelos arqueiros e querer seguir a mesma profissão do pai!
    ass: Bina.

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)