8 de fevereiro de 2017

Capítulo 36

O Ladrão da Noite abocanhou a perna de um frango e rasgou a carne com os dentes. Ele fez uma careta. A ave não fora devidamente preparada e a carne estava vermelha e sangrenta perto do osso.
Ele olhou para o membro do bando que havia sido responsável por cozinhar o frango, que havia sido roubado de uma fazenda afastada na noite anterior.
— Harold! Esta carne está crua! — o Ladrão rosnou. — Onde você aprendeu a cozinhar?
Harold, um homem corpulento de cabelos negros, voltou seu olhar carrancudo.
— Nunca disse que eu era um cozinheiro — ele respondeu.
Ele espetara a ave em um ramo verde e suspendeu-o sobre a fogueira. Mas não esperou até que as chamas se reduzissem a brasas, e logo a pele exterior estava escurecendo e carbonizando. Supondo que a carne de dentro estivesse igual, ele a tirara da fogueira e servira o seu líder.
O Ladrão jogou o osso no meio dos arbustos. Então, sua raiva cresceu, ele pegou o resto da carcaça de frango e começou a girar sobre a perna.
— Arranje-me um pouco de queijo e pão — ele ordenou. — Mesmo você não pode estragar tudo. E um pouco de cerveja também.
Harold murmurou com raiva de si mesmo. Mas ele manteve os comentários para si mesmo. A amarga experiência lhe ensinara que o Ladrão tinha um temperamento perverso – e incerto.
O líder dos sequestradores estava todo vestido de preto, a cor que ele usava quando entrou na casa das famílias e roubou as crianças. Ele estava acima da altura média e era bem encorpado – embora estivesse correndo rumo à gordura e isso estivesse se refletindo em sua cintura. Seu cabelo uma vez fora loiro – quase branco. Agora tinha cor cinza sujo. Ele pendia em seu pescoço e estava emaranhado em cordas grossas. O Ladrão não gostava de lavá-lo com muita frequência.
Suas feições eram regulares. Seu queixo era forte, embora a mesma tendência de gordura estivesse se tornando aparente em torno de seu queixo e pescoço. Teria sido um belo rosto com exceção dos olhos e da boca. Os olhos eram pálidos, tingidos de amarelo. Eles eram como os olhos de um lobo, disseram para ele uma vez – embora o homem que lhe disse tenha se arrependido dessas palavras poucos minutos após proferi-las. Eram olhos frios e cruéis e eles combinavam com a boca de lábios finos que se curvava para baixo nos cantos. Ninguém conseguia se lembrar de vê-lo sorrir.
Harold colocou uma bandeja de madeira diante dele, com um pedaço de queijo forte e um pedaço de pão. O Ladrão resmungou, tirou a faca da correia e cortou alguns pedaços do queijo.
— Onde está a cerveja? — ele exigiu.
Seu seguidor voltou às pressas de volta à mesa de oferta e pegou uma caneca de cerveja em um pequeno barril. O Ladrão grunhiu novamente quando ela foi colocada na frente dele. A palavra “obrigado” não parecia ser parte de seu vocabulário.
Eles estavam no acampamento, que era a sua sede provisória. Havia nove homens, incluindo o próprio Ladrão e o Roteirista. Além disso, havia cinco crianças, com idades entre dez e quatorze anos, acorrentadas juntas debaixo de uma grande árvore. O Ladrão olhou para elas agora. Elas estavam amontoados sob a árvore, onde um pedaço rasgado de lona foi esticada sobre os ramos proporcionando-lhes cobertura em caso de chuva. Os próprios sequestradores compartilhavam pequenas tendas de dois homens, com exceção do Ladrão. Como líder, ele exigiu uma tenda para si mesmo. Era maior do que a de seus seguidores, e em vez de cobertores para dormir no chão, ele tinha um pequeno saco de dormir.
O bando tinha sequestrado as crianças em pequenas vilas ao longo do feudo Trelleth por vários meses. Seus alvos eram aldeias pequenas, distantes umas das outros e com pouca ou nenhuma comunicação entre elas. Dessa forma, no momento em que uma aldeia onde uma criança tinha desaparecido descobrisse que havia acontecido a mesma coisa em outro lugar, o Ladrão e seus homens já estariam longe.
O sistema que ele tinha planejado funcionou admiravelmente bem. O Roteirista entrava numa aldeia, ganhava a confiança das crianças locais e escolhia uma criança de alvo. Ele selecionava meninos ou meninas que eram maltratados por seus pais. Dessa forma, quando eles desaparecessem, seriam geralmente assumidas como fugitivas. Os pais podiam procurar por elas, mas não haveria nenhuma pista e eles chorariam. Uma vez que ele conhecia as crianças em uma aldeia e escolhia um alvo, o Roteirista mudava de rumo. Suas histórias, a princípio divertidas e interessantes, assumiam uma natureza mais sinistra, mais obscura. Ele descrevia a pessoa temível conhecida como Ladrão, uma figura das sombras que espreitava pela terra procurando crianças e as levava para o seu reino no submundo. Ele alertou as crianças que o Ladrão visitaria a sua aldeia, mas elas não deviam dizer nada sobre ele. Eles nunca poderiam contar para os seus pais, ou qualquer outro adulto. Se contassem, o Ladrão saberia, e uma terrível vingança recairia sobre eles.
O Roteirista era um contador de histórias consumado. As crianças eram aterrorizadas e deixadas fora de seu juízo. Dessa forma, quando uma delas desaparecia logo após a ida do Roteirista, eles não diriam nada. Era uma estratégia inteligente. Em muitos casos, em aldeias pobres, como as que eles atacavam, várias crianças dormiam no mesmo quarto. Se por acaso a criança acordasse e visse a figura vestida de preto, o medo gerado pelo Roteirista garantia que ele ou ela permanecesse mudo. Mudo e aterrorizado. As crianças sabiam que se interferissem, se dissessem alguma coisa sobre ele ou tentasse dar algum alarme, eles iriam desaparecer juntamente com o seu companheiro.
O bando do Ladrão estava operando dessa forma nos últimos doze meses, passando de um feudo para outro, mudando sua área de atuação com frequência, de modo que nenhuma palavra de suas atividades chegou às autoridades. Uma vez que eles se estabeleciam em uma nova área, eles começavam a raptar crianças. Então, quando tinham prisioneiros suficientes – geralmente dez ou doze – passavam para a próxima fase de suas operações.
O Ladrão ouviu uma cavalgada e olhou para cima. Um de seus olheiros tinha chegado a galope no acampamento. O homem estava vestido com um avental de agricultor remendado e usava um chapéu de feltro disforme. Ele passaria praticamente despercebido em algumas das aldeias ou povoados pela qual a quadrilha havia passado. Ele olhou ao redor, viu o Ladrão sentado debruçado em sua mesa e foi até ele.
— Talvez tenhamos problemas surgindo — disse ele brevemente. Ele se sentou diante de seu líder e se virou para gritar com o homem que tinha servido o Ladrão. — Harold! Arranje-me um pouco de cerveja aqui!
Harold murmurou para si mesmo. Mas ele foi para o barril e pegou uma caneca da mesa. Havia uma hierarquia distinta no bando e ele estava perto da base nessa questão.
O Ladrão franziu o cenho.
— Onde? — ele perguntou.
O olheiro levantou a mão para que ele aguardasse enquanto Harold lhe entregava uma caneca de cerveja, a espuma caindo pela borda. O olheiro não parecia se importar. Ele ignorou-a e bebeu com avidez, então bateu a caneca com um grunhido satisfeito.
— Esseldon — ele falou, e arrotou.
O Ladrão franziu o cenho. Eles haviam atuado em Esseldon recentemente. Ele olhou para o grupo de prisioneiros sob a árvore, tentando lembrar o que ele tinha raptado nessa vila. Mas depois de terem estado por ali durante algumas semanas, todos os rostos ficaram aterrorizados e ele não podia ter certeza qual era. O medo que o Roteirista plantava nos corações das crianças da aldeia era geralmente o suficiente para evitar qualquer menção ao Ladrão chegando aos ouvidos de seus pais. Geralmente.
Mas sempre havia a chance de que uma criança, mais corajosa ou mais tola que as outras, pudesse falar. Se isso acontecesse, os moradores seriam alertados sobre a presença do Ladrão em sua área e poderiam muito bem montar uma busca pela criança desaparecida. E, nesse caso, o bando teria que passar para um novo feudo para evitar a descoberta. Para obter alerta rápido de tal ocorrência, o Ladrão fazia seus olheiros fazerem visitas regulares nas aldeias onde eles já haviam sequestrado para ter certeza de que o seu segredo ainda estava seguro. Em Esseldon, aparentemente, alguém estava falando.
— Pode não ser nada — o olheiro continuou. — Mas há uma jovem fazendo perguntas.
— Um dos moradores? — o Ladrão perguntou.
O outro homem sacudiu a cabeça.
— Não. Ela está viajando com o pai dela. Ele está à procura de trabalho e eles estão hospedados na pousada. Mas eu a ouvi interrogando um dos garotos locais sobre o Roteirista – e sobre o garoto que pegou dessa aldeia. Ela não sabe de nada até agora, mas pensei que você deveria saber.
O Ladrão massageava o queixo entre o polegar e os dedos de sua mão direita. Havia sempre a chance de que uma criança pudesse falar. E agora, ao que parece, suas precauções extras em enviar o olheiro de volta para checar as coisas em Esseldon provou valer a pena.
— Acho que é melhor deixar essa garota saber o que acontece com as pessoas que fazem perguntas embaraçosas — ele disse, pensativo. Então ele se virou e gritou para o grupo de homens sentados na grama ao redor da fogueira: — Benito! Venha aqui, eu tenho um trabalho pra você!
Sim, pensou, Benito era o certo a enviar. Ele fora ferido em uma briga, alguns anos atrás, atingido por um golpe na garganta, que deixou a sua voz pouco mais que um sussurro áspero. Benito era amargo e zangado com a lesão e geralmente ficava muito feliz em assumir a tarefa de assustar qualquer criança que desobedeceu as instruções do Roteirista. Ele caminhou até a mesa agora, batendo continência em sinal de respeito ao líder da quadrilha.
— O que é, jefe? — ele perguntou, usando o termo ibérico para chefe. O sotaque ibérico de Benito revestiu o sussurro rouco de sua voz. A combinação era geralmente suficiente para assustar qualquer criança.
— Há uma garota em Esseldon fazendo perguntas. Robert pode te dizer como ela é e onde encontrá-la — o Ladrão disse a ele, indicando o olheiro. — Vá lá hoje à noite e assuste-a. Ou mate-a — acrescentou descuidado.
Um sorriso cruel roubou o rosto moreno de Benito.
— Será um prazer, jefe.

2 comentários:

  1. Ele poderia estar certo se o alvo fosse somente uma criança, infelizmente pra ele, é uma Arqueira.

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    1. Não é só a Arqueira, é a filha de sangue de Horace e Cassandra kkkkk

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Boa leitura :)