8 de fevereiro de 2017

Capítulo 35

— Não. Nós não temos contadores de histórias nessa vila — o dono da hospedaria disse em resposta à pergunta ocasional de Will.
— Que pena — Will disse, tomando um gole de café. — Minha filha poderia ter um pouco de entretenimento. Isso é difícil para ela, viajando o tempo todo, sem nada para fazer e sem amigos permanentes.
O dono da hospedaria assentiu simpaticamente.
— Posso entender. É uma pena vocês não terem chegado aqui mais cedo. Nós tivemos um contador de histórias aqui algumas semanas atrás. As crianças o amavam.
Will olhou para cima, fingindo não mais do que interesse educado.
— Ouvi falar de um contador de histórias itinerante ao atravessar Danvers recentemente — ele disse. Esfregou o queixo, fingindo pensar. — Como ele se chamava mesmo?
— O Roteirista, era isso? — Jerome sugeriu.
Will bateu a mão na testa mentalmente quando percebeu que Roteirista era um nome.
— É ele. Roteirista. Com certeza.
— Ele tinha um estilo colorido. Vestia uma brilhante capa azul e sapatos vermelho — o dono da hospedaria franziu a testa, lembrando-se do homem. — Parecia um pouco estranho. Mas suponho que seja pelo trabalho.
— Estranho? — o interesse de Will tinha despertado, mas ele não demonstrou. — O que quer dizer?
Jerome fez um gesto de desprezo.
— Oh, não de uma forma ruim. Apenas teatral, suponho. Ele usava sinos em seu pulso e tornozelos, então você podia ouvi-lo chegando. E ele representava suas histórias com um grande entusiasmo, me disseram.
— Você não o viu trabalhando?
Jerome sacudiu a cabeça.
— Ele divertia as crianças. Me lembro de ter dado uma moeda ao meu sobrinho. Ele sentava-se com as crianças na beira do lago da vila para contar as histórias — ele sorriu à memória. — Histórias de fantasma, eu acho. Me lembro de ver as crianças assustadas depois de ouvi-las.
— Bem, as crianças adoram um bom susto de vez em quando — Will concordou. — Quando ele esteva aqui, você se lembra?
Jerome jogou a cabeça para trás, olhando para o teto enquanto considerava a questão. Finalmente, ele respondeu:
— Deve ter sido a duas, talvez três semanas atrás. Foi poucos dias antes do menino Spoker desaparecer.
Will franziu o cenho, parecendo um pouco preocupado.
— Um garoto desapareceu? Isso acontece muito por aqui?
Jerome balançou a cabeça, reconhecendo a tendência natural de um pai para se preocupar.
— Senhor, não! Nunca aconteceu isso antes, não que eu me lembre. Se você me perguntar, o jovem Maurice pode ter simplesmente fugido. Seu pai costumava bater demais nele para o meu gosto.
Will terminou seu café e colocou a xícara na mesa do bar. Ele desejou boa noite para o dono da hospedaria.
  — Bem, vou para a minha cama. Tenho um longo dia amanhã. Vou visitar algumas das fazendas distantes e ver se há algum trabalho por aí.
— Sem sorte na aldeia? — Jerome perguntou e Will balançou a cabeça, uma expressão abatida no rosto. Jerome sorriu com simpatia. — Eu não estou surpreso. Os tempos têm sido difíceis e as pessoas não têm tido nenhum dinheiro extra para gastar.
— Bem, eu certamente não tenho dinheiro nenhum para gastar — Will concordou. Ele hesitou, então falou, incerto: — Na verdade, eu estava me perguntando se poderia pedir um favor?
Os olhos de Jerome estreitaram. Favores geralmente envolvendo dinheiro era sua especialidade, e as próximas palavras de Will afirmaram sua suposição.
— Eu voltarei em uma noite ou duas. Seria maravilhoso se você deixasse Maddie em um de seus quartos enquanto estiver fora. Eu me sentiria mais seguro dessa forma. Eu não gostaria de deixá-la dormindo no estábulo, com crianças desaparecendo por aí.
— Foi apenas um garoto que desapareceu — disse Jerome defensivamente. Então ele viu o olhar preocupado no rosto de Will e cedeu. Devia ser difícil ser um pai solteiro e viajar por ai, ele pensou. E ele tinha vários quartos desocupados. — Tudo bem, então. Ela pode ficar no quarto do sótão. Vou cobrar o mesmo que estou cobrando para vocês dois no estábulo.
Will soltou um suspiro de alívio.
— Obrigado por isso. Eu não vou precisar me preocupar com ela enquanto estiver fora.
Particularmente, ele resolveu trazer alguma caça para a cozinha de Jerome. O dono da hospedaria era um sujeito simpático e seu gesto foi muito generoso. Ele virou-se e saiu pela porta.


— Quanto tempo você vai ficar fora? — Maddie perguntou, quando ele contou a ela do novo arranjo.
— Um ou dois dias. Pensei em passar em Boyletown e ver se esse tal Roteirista visitou lá também.
Ele explicou a confusão sobre o contador de histórias. Maddie teve uma reação semelhante à sua. Uma vez que você sabia que era um nome, tudo parecia claro.
— Sabemos que ele estava em Danvers Crossing, então ele veio para cá — Will fez uma pausa, franzindo a testa. — Queremos descobrir sobre quando ele esteve em Danvers Crossing. Jerome disse que ele estava aqui, pouco antes de um rapaz desaparecer.
— E Jerome disse que os pais de Maurice Spoker o maltratavam — Maddie falou, pensativa. — Assim como o pai de Carrie Clover.
Os olhos de Will se estreitaram.
— Sim. As coincidências estão começando a se encontrar, não acha?
Maddie assentiu com a cabeça.
— Então o que quer que eu faça enquanto você estiver fora?
— Continue falando com as crianças locais. Veja se pode descobrir mais sobre este contador de histórias de capa azul e sapatos vermelhos. Jerome disse que parecia que as crianças o adoravam.
— Não é a impressão que eu tenho — Maddie disse.
— Bem, veja o que você pode desenterrar. Mas tenha cuidado. Não pressione se elas estiverem relutantes — um pensamento à parte o atingiu e ele acrescentou: — Ah, a propósito, enquanto você estiver hospedada no quarto, pode fazer-se útil. Faça a sua cama e se ofereça para ajudar na cozinha.
— Eu não sou uma boa cozinheira — Maddie apontou.
— Eu estava pensando que seus esforços poderiam ser mais na área de lavar louça — Will disse a ela.
Maddie recuou com horror simulado.
— Eu não sei se estou treinada para isso.
Ele levantou uma sobrancelha para ela. Ela o tinha visto fazer isso antes e viu-se desejando poder fazê-lo. Ela resolveu praticar a expressão.
— Tenho certeza de que você vai conseguir — ele disse. — Não é alquimia.


Enquanto girava para sair, Maddie não precisava fazer mais nenhuma pergunta sobre o misterioso Roteirista.  Ela encontrou as outras crianças como combinado na tarde seguinte e eles se sentaram na grama enquanto ela mostrava-lhes como moldar seus estilingues. Ela levou uma pequena faca com ela e emprestou-lhes para que eles pudessem cortar as tiras de couro no comprimento certo, em seguida, formar as bolsas.
Só havia uma outra pessoa ali – um fazendeiro, a julgar pelo seu avental de trabalho remendado e pelo chapéu velho disforme. Ele estava encostado em uma cerca, de braços cruzados assistindo. Tinha um pequeno pacote embrulhado em um pano manchado a seus pés.
Enquanto o grupo estava sentado em um semicírculo, as cabeças inclinadas para as tarefas de corte, modelo e amarra, David chamou a atenção de Maddie, levantou-se e sacudiu a cabeça em um gesto inconfundível para que ela o seguisse. Ela se ergueu e eles foram para longe dos outros. Ela olhou para ele com expectativa.
— Você queria me dizer alguma coisa? — ela perguntou.
Ele olhou ao redor. Ela podia ver que ele estava nervoso. Não, ela se corrigiu. Ele estava mais do que nervoso. Ele estava com medo.
— O Roteirista — ele disse finalmente. — Não pergunte mais sobre ele. E, acima de tudo, não o mencione a seu pai — ele fez uma pausa, depois acrescentou ansiosamente: — Você não disse nada a ele, né?
Ela balançou a cabeça.
— Não, mas por quê?
— Ele nos contou coisas. E disse que nunca devemos repeti-las para qualquer adulto, ou algo ruim iria acontecer com a gente.
Os olhos de Maddie se arregalaram.
— Que coisas ele te contou? — ela perguntou, sua voz tremendo. O nervosismo de David a estava contagiando.
Ele arrastou os pés.
— No início, eram apenas histórias normais. Algumas mais engraçadas e algumas mais assustadoras. Tínhamos todos uma boa diversão e todos gostávamos dele. Principalmente eram histórias que ele tinha ouvido antes, como o Ogro de Alden Pass e do Grande Troll Verde de Tralee.
Maddie assentiu. Eram contos populares bem conhecidos. Eles variavam em detalhes com cada contador de história, é claro, mas sempre eram essencialmente os mesmos, e foram calculadas para dar às crianças um bom susto saudável – sem causar muita preocupação.
— Mas, então, ele nos contou sobre o Ladrão da Noite — ele falou, sua voz tornando-se muito baixa.
— O Ladrão da Noite? — Maddie repetiu.
Até mesmo o nome lhe deu um arrepio de medo na espinha. Parecia tão sinistro, tão mal.
David balançou a cabeça, lambendo os lábios secos em um gesto nervoso.
— O Ladrão é um espírito misterioso, vestido de preto, e usa uma máscara preta e um casaco. Ele se materializa nas vilas e pega crianças.
— Leva-as para onde? — ela perguntou. Seu coração batia um pouco mais rápido conforme o conto se desenrolava. Ela se inclinou para mais perto dele, deixando cair sua própria voz. — O que ele faz com elas?
David encolheu os ombros.
— Ninguém sabe. Ele leva embora e ninguém nunca mais as vê novamente — ele olhou em volta mais uma vez e Maddie fez o mesmo. As outras crianças estavam todas concentradas em fazer seus estilingues. — A coisa é, o Roteirista disse que, se um dia o víssemos, não deveríamos dizer nada. Basta fingir que não tinha visto nada. E ele disse que nós não devíamos nunca, nunca contar a um adulto sobre o Ladrão da Noite.
— O que aconteceria se você contasse? — Maddie perguntou, sua voz agora quase num sussurro.
— Se contássemos, ele disse que o Ladrão saberia. E ele viria atrás de quem falou. Ele viria no meio da noite e o levaria, e você nunca mais veria sua família novamente.
Houve um longo silêncio entre eles. Ambos estavam com os olhos arregalados. O medo de David era contagioso e Maddie se viu desejando que ela estivesse de volta em Redmont, na pequena cabana aconchegante nas árvores. Ela ouviu um leve ruído e olhou em volta nervosamente. O fazendeiro que ela tinha notado antes havia deixado sua posição de cima do muro e se aproximou deles. Ele estava sentado na grama, cortou fatias grossas de um pedaço de queijo que havia tirado do pacote.
Ele chamou sua atenção, acenou e sorriu agradavelmente enquanto comia um pedaço do queijo. Ela se perguntou se ele tinha ouvido o que eles estavam discutindo. Ela acreditou que ele provavelmente estava muito longe, mas ela baixou a voz de qualquer maneira quando falou novamente.
— Você acha que foi o que aconteceu com Maurice Spoker? — ela perguntou.
David recuou meio passo. Ignorando o fazendeiro nas proximidades, ele levantou a voz em surpresa.
— Como é que você sabe sobre Maurice?
Maddie percebeu que tinha cometido um erro em mencionar Maurice Spoker. Ela fez um gesto de advertência para David abaixar sua voz de novo, olhando significativamente para o fazendeiro nas proximidades, e continuou:
— Meu pai ouviu falar sobre ele na hospedaria. Ele me contou sobre isso. Disse que um menino chamado Maurice Spoker desapareceu e me fez tomar cuidado e não sair durante a noite. Você acha que ele foi levado pelo Ladrão da Noite?
David hesitou. Sua explicação parecia tê-lo satisfeito. Então, ele acenou com a cabeça lentamente.
— O que mais poderia ter sido? — ele devolveu.

3 comentários:

  1. Sei que é treta, mas o suspense assusta. Felizmente, não sou criança.

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  2. Apesar de ter 14 anos admito que estou com um pouquinho de medo.
    Ass: Lua

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Boa leitura :)