8 de fevereiro de 2017

Capítulo 34

Esseldon não era tão grande quanto Danvers Crossing. Não era localizado perto de um rio, por isso não havia moinho de farinha, e nenhum dos edifícios e serviços associados, tais como silos de armazenamento e fabricantes de embalagens. Nem, é claro, um serviço de balsa.
Mas era um vilarejo agradável, construído de forma habitual, com uma rua principal, e casas e comércios variados ao longo de ambos os lados. Na outra extremidade da aldeia, na crista de uma pequena colina, estava uma pousada. Não importa quão pequeno uma aldeia poderia ser, sempre havia um lugar onde os moradores pudessem se reunir para relaxar, comer e beber. E alojamento onde os viajantes pudessem passar a noite.
Como antes, Will pediu, e obteve a permissão para dormir no estábulo da pousada. Ele tinha sido bem pago por Rob Danvers, e com o dinheiro que ele ganhou, poderia ter se aproveitado de um quarto na pousada. Mas ele estava mantendo o caráter de um trabalhador errante. Tal homem não perderia moedas valiosas com alojamento de luxo. Um telhado sobre a cabeça e palha limpa para dormir era o suficiente para essas pessoas.
Quando chegou ao assunto de emprego, no entanto, a notícia não era boa. Jerome, o estalajadeiro, balançou a cabeça com ar de dúvida quando Will levantou o assunto.
— Sem trabalho em fazendas — disse ele. — A colheita já acabou, de modo que não há trabalho nos campos agora por alguns meses. E se há qualquer conserto a ser feito, a maioria dos agricultores faz isso sozinhos. Você pode perguntar por aí, é claro, mas não espere muito.
Will assentiu com tristeza.
— Queria tanto. Bem, gastarei talvez um dia ou dois para ver o que está em oferta. Melhor pegar nossas coisas para colocar no estábulo.
Ele agarrou as alças do carrinho de mão e colocou seu peso nele, girando até o estábulo. Olhou em volta, apontando para uma pilha de palha fresca em uma caixa.
— Vamos tirar um pouco do que se espalhou para fora para que possamos dormir sobre ele — ele falou.
Maddie encontrou um forcado de madeira e começou a levar feixes de palha para uma parte seca do chão de terra duro, trabalhando com tanto entusiasmo que uma nuvem de partículas finas de palha subiu no ar, visível nos raios de luz solar que faziam seu caminho através de aberturas na parede do estábulo. Além de um idoso cavalo de carga, o estabulo estava vazio. Depois que ela tinha movido uma quantidade adequada de palha, e espirrado várias vezes no processo, Will pegou o forcado de sua mão. Era meio da tarde. Até agora, Esseldon era como a maioria das aldeias, as crianças locais tinham sido liberadas de suas tarefas e relaxariam nas poucas horas de tempo livre que teriam diante de si antes das tarefas noturnas. Claro que em uma aldeia tão pequena como esta não havia escola. Se as crianças tinham qualquer instrução formal, ele vinha de seus pais. Na maioria dos casos, isso significava que eles tinham pouca educação formal. A capacidade de ler e escrever era rara.
— Por que você não sai e vai conhecer as crianças locais? — ele sugeriu.
Ela espanou a palha de suas roupas, logo após espirrar, então suprimiu o desejo de esfregar o nariz.
— Devo perguntar sobre Maurice Spoker?
 Maurice Spoker era o menino de Esseldon mencionado nas notas explicativas de Liam. Will considerou por alguns segundos, depois balançou a cabeça.
— Não imediatamente. Você sempre pode fazer isso amanhã. Use a mesma história – que eu tinha ouvido falar sobre o desaparecimento na taberna e adverti que você fosse cuidadosa. Por enquanto, veja se houve algum sinal de um contador de histórias aqui em Esseldon.
Ele franziu o cenho. Existia, obviamente, um contador de histórias em Danvers Crossing.  As crianças tinham mencionado, afinal. E, como Maddie disse a ele, elas pareciam nervosas. Era estranho que Danvers não soubesse nada sobre ele. Em seguida, um pensamento lhe ocorreu. Ele tinha perguntando se havia um contador de histórias em Danvers Crossing. Talvez o Roteirista fosse um itinerante. Talvez isso fosse o que Rob Danvers estava prestes a dizer quando foi interrompido.
— Enquanto isso, eu farei a ronda nas casas da aldeia, ver se há algum trabalho a ser tido — ele fez uma pausa, olhando para a sua mão esquerda enfaixada, que ele havia ferido quando um cinzel escorregou no dia anterior. — Com alguma sorte, não haverá nada.
Maddie assentiu e saiu pela porta do estábulo. Ela assumiu que haveria um lugar onde as crianças locais se reunissem – a praça ou algum campo na aldeia, talvez. Ela descobriu que o último era o lugar preferido. Era um espaço aberto, situado no meio da aldeia, onde qualquer residente poderia colocar vacas ou ovelhas para pastar, ou deixar galinhas e patos. Havia um lago no meio que era usado para dar de beber aos animais.
Quando ela se aproximou, pôde ver meia dúzia de jovens na grama. Um deles se levantou quando ela se aproximou, puxou o braço e jogou uma pedra na lagoa.
Maddie observou como ela espirrou na água. Havia uma pequena balsa de madeira à deriva na superfície da lagoa. Era, obviamente, o alvo que tinham escolhido. Os outros vaiaram ou aplaudiram como o seu lance foi perdido por um metro. Ele sorriu e sentou-se. Outro menino levantou-se em seu lugar, vendo o alvo flutuante enquanto ele cuidadosamente pesava uma pedra na mão, em seguida, recuou o braço e atirou. Sua pedra passou longe do alvo e, novamente, um coro de vaias levantou-se dos outros. Ele olhou para trás e viu Maddie se aproximando. Ele disse alguma coisa para as outras crianças e todos eles se voltaram para olhar para ela. Ela acenou timidamente e se sentou na grama cerca de cinco metros longe deles, dobrando os joelhos.
O grupo decidiu que não tinha nada de interessante em olhar para Maddie e voltaram para o que estavam fazendo. Aparentemente, havia um concurso acontecendo entre os quatro rapazes do grupo. Era a vez do menino mais novo agora, e ele atirou. Sua pedra levantou gotas de água a alguns centímetros do alvo, fazendo-o balançar. As duas meninas aplaudiram. Os outros garotos olharam para ele. O quarto menino levantou-se e atirou, mas ele estava com muita pressa. Sua pedra não foi longe, pulando uma vez, depois afundou. O menino mais novo riu.
Maddie manejava à toa seu estilingue, que ela usava amarrado ao redor da cintura. Olhou ao redor e viu várias pedras lisas na grama ao lado dela. Escolhendo duas, ela se levantou e caminhou para mais perto do grupo, quando o primeiro menino levantou-se para jogar novamente. Seu lance foi o mais próximo durante este tempo, e mais uma vez, o alvo ficou balançando.
Eles tornaram-se conscientes da proximidade de Maddie e olharam para ela com curiosidade.
— Boa jogada — ela falou, apontando para o alvo, subindo e descendo, no centro de um círculo maior de ondulações. — Posso jogar?
— As meninas não podem jogar — disse ele.
Ele não falou desdenhando ou de uma forma depreciativa. Era uma simples declaração de um fato.
Maddie sorriu.
— Eu sou uma menina. E eu posso jogar.
Ela tinha a atenção de todo o grupo agora. Um dos outros meninos balançou a cabeça, com um sorriso tolerante em seu rosto. As duas meninas, ela viu, ficaram bastante interessadas em sua afirmação. Eles não pareciam acreditar que ela conseguiria, mas estavam dispostos a vê-la tentar, esperançosos de que ela poderia viver até a sua pretensão.
— Deixe que ela tenha uma chance, David — uma das meninas falou.
O menino olhou para ela, depois de volta para Maddie, e encolheu os ombros, ficando de lado.
— Por que não? Mas isso vai custar-lhe duas moedas. O primeiro a acertar o alvo ganha tudo.
Ela continuou a sorrir para ele enquanto enfiava a mão no cinto da bolsa e pegou duas pequenas moedas de cobre. Ela entregou-as a ele.
— Você vai se arrepender de perdê-las, tenho certeza — o menino sorriu.
Maddie sacudiu o estilingue e colocou uma pedra na bolsa. Ela adiantou-se rapidamente, antes que alguém pudesse ver exatamente o que ela estava fazendo. Ela colocou o pé esquerdo para frente, deixando o estilingue pender para baixo no final do seu braço direito estendido, em seguida, virou-o e atirou. A pedra passou zunindo em uma enorme velocidade.
A água ao redor da madeira explodiu quando a rocha colidiu com ele, enviando lascas de madeira e um grande jato de água para o ar. As crianças da aldeia saltaram de pé, espantadas com a força e precisão que Maddie tinha acabado de mostrar. O menino mais novo, cujo lance tinha sido o mais próximo do alvo até agora, arregalou os olhos quando viu a madeira quebrada. Então ele notou o estilingue pendendo de mão direita de Maddie.
— O que é isso? — perguntou.
Ela ergueu o estilingue para que eles vissem.
— É um estilingue — ela respondeu. Ela sorriu para eles. — Não se preocupem, eu não vou querer o seu dinheiro. Eu tinha uma vantagem injusta.
David aproximou-se, franzindo a testa enquanto estendia a mão para o estilingue. Ela o passou para ele.
— É apenas alguns pedaços de corda e uma bolsa de couro — disse ele.
— Sim. Mas lhe dá uma grande quantidade de energia extra quando você joga. Experimente se quiser.
Ele acenou com a cabeça e ela mostrou-lhe como colocar uma pedra na bolsa, em seguida, ficou de lado, com o braço direito esticado para trás e o estilingue pendurado atrás dele.
— Balance para trás e para a frente algumas vezes para obter força — ela instruiu. — Então, impulsione para cima, e quando ele estiver apontando para o alvo, solte.
Suas primeiras tentativas foram extremamente imprecisas, soltava quando era demasiado cedo ou tarde. As pedras voaram para o alto acima deles, ou espirravam violentamente na lagoa a poucos metros da margem. Mas, aos poucos, ele começou a pegar o jeito.
— Tente fazer como se o seu dedo indicador estivesse apontando para o alvo quando você liberar — Maddie disse a ele.
Ele assim o fez e enviou uma pedra pelo ar, criando uma grande fonte de pulverização para a esquerda dos restos da pequena jangada. Ele se virou para ela com um sorriso encantado.
— Isso é fantástico!
— Com um pouco de prática, você vai começar a acertar no que você tem como objetivo — ela lhe respondeu.
No mesmo instante, o rapaz que tinha jogado mais próximo da jangada estendeu a mão para o estilingue.
— Deixe-me tentar! — disse.
Maddie treinou-o na técnica correta e deixou-o jogar. Suas tentativas eram melhores do que as de David.
Ele jogou mais três pedras. Duas deles se chocaram contra a água perto do alvo destruído. Na terceira, ele se tornou ansioso demais e balançou cedo demais. Como resultado, ele lançou e a pedra bateu no chão, a uma curta distância da margem do lago.
Maddie olhou para as meninas.
— Vocês querem tentar?
Elas olharam uma para a outra, hesitantes.
— As meninas podem fazer isso? — uma delas perguntou.
David apontou o polegar para Maddie.
— Bem, ela é uma garota e fez tudo certo! — ele sorriu.
Assim, as duas meninas, Eva e Joscelyn, tiveram a sua vez com o estilingue. Eva agarrou rapidamente os princípios e foi logo atirando pedras com um poder e precisão consideráveis. Joscelyn não era tão rápida, mas conseguiu vários lances razoáveis. Todas as crianças ficaram fascinadas com a simplicidade da arma e o poder que podia alcançar quando lançavam.
— Nós poderíamos caçar com isso — disse David, admirando o estilingue antes entregá-lo de volta para Maddie.
Ela assentiu com a cabeça.
— Sim. Você pode facilmente derrubar coelhos e aves com o estilingue — ela olhou para eles. — Vou te dizer, vamos nos encontrar novamente amanhã e eu lhes mostro como fazer um. Basta trazer algumas cordas e um pedaço de couro para a bolsa.
Houve um coro geral de excitação e acordo. Maddie colocou o estilingue para longe e eles se sentaram na grama em um amistoso grupo.
É isso, ela pensou. Eles me aceitaram. Ela estendeu a braços sobre a cabeça e deixou seu olhar vagar em volta da pequena aldeia pitoresca.
— Então, o que você tem de entretenimento aqui? — ela perguntou.
David balançou a cabeça e os outros murmuraram incoerentemente.
Obviamente, a vida em Esseldon não era muito emocionante.
— Nada de mais — ele respondeu. — Nada acontece aqui.
— Oh. Isso é uma vergonha. Então vocês não têm um roteirista ou contador de história? — ela perguntou casualmente.
Apesar de sua aparente indiferença, ela estava a observá-los de perto e viu a reação de espanto que ocorreu no grupo. Eles olharam um para o outro, então para ela.
Houve um início súbito de medo em seus olhos.
— O que quer dizer com roteirista? — perguntou Joscelyn.
David lançou um olhar para ela, tarde demais para impedi-la de falar.
Maddie deu de ombros.
— Sabe como é: um contador. Alguém que conta histórias de fantasmas à noite ao redor do fogo.
Houve um longo silêncio. O desconforto entre as outras crianças era quase palpável. Ela continuou, mantendo seu ar inocente.
— Acabamos de vir de Danvers Crossing. As crianças lá disseram que um viajante contador de histórias veio algumas semanas atrás. Eram histórias de terror realmente boas, disseram eles.
Ela fingiu ter interesse no laço do sapato.
Mais uma vez houve uma pausa estranha. Em seguida, Eva disse em um tom um pouco empolado:
— Não temos nada parecido com isso aqui.
Maddie deu de ombros. Seu gesto dizia que era algo sem grande importância.
— Oh? Bem, isso é uma pena, mas não importa — ela olhou para cima, medindo o nível do sol sobre as árvores no oeste. — É melhor eu ir andando. Nos vemos amanhã. Não se esqueçam de trazer as cordas e o couro e vamos fazer alguns estilingues.
Agora que ela mudou de assunto e parecia ter perdido interesse no conceito de um contador de histórias, o humor melhorou e o grupo entusiasmado concordou em se reunir novamente no dia seguinte para aprender a construir um estilingue.
Maddie se levantou e espanou um pouco de grama solta para fora de seu vestido. Ela pegou o estilingue, colocou em sua cintura e o prendeu lá, então sacudiu os dedos na despedida.
— Vejo vocês amanhã, então. Mesmo horário?
Houve um coro geral de despedida e ela se virou, caminhando pela grama grossa para o estábulo da pousada onde ela e Will estavam hospedados. Enquanto ia, ela murmurou baixinho para si mesma:
— Esse contador de histórias esteve aqui. Eu apostaria minha vida nisso.
Na época, ela não tinha ideia de que poderia estar fazendo exatamente isso.

Um comentário:

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)