8 de fevereiro de 2017

Capítulo 32

Danvers Crossing, como seu nome sugeria, estava situada nas margens de um pequeno rio. Maddie esperava que fosse uma passagem rasa de água, mas o rio era profundo e veloz. O cruzamento era feito por meio de um grande barco de fundo plano, que funcionava com cabos de corda grossa fixados em cada margem.
Era uma aldeia de aparência agradável, com seus bosques de salgueiros descendo para água e fornecendo frescos retiros obscuros ao longo da margem. O murmúrio do rio estava sempre presente ao fundo. Maddie achou que fosse um som suave.
Para além do barco, a própria aldeia era típica de sua espécie, com uma ferraria, uma taberna, um pequeno curtume, um depósito de madeira com um poço para serra e uma loja de sementes e grãos. Situado perto de um rio como era, era lógico que Danvers Crossing também ostentasse um moinho de farinha, as enormes mós impulsionadas pelo rápido fluxo do rio. As fazendas circundantes trariam seus grãos para o moinho, onde seriam transformado em farinha fina.
Além desses negócios, havia as casas dos moradores – a maioria de pequenas estruturas, e todas elas de um andar, construída no método onipresente de pau a pique, e com telhados íngremes de sapê. Elas ladeavam a rua principal. Ruelas laterais entre elas levava a celeiros, galpões, e outras dependências. Ao todo, havia cerca de trinta dessas habitações.
A fábrica de couro ficava perto do final da rua da aldeia. Maddie franziu o nariz enquanto passava por ela.
— Eca. Que cheiro terrível é esse? — ela perguntou.
Will, abaixou os eixos do carrinho de mão e olhou para ela.
— Você não quer saber — ele disse.
Havia um considerável espaço entre o curtume e o próximo negócio da aldeia. A construção seguinte era a ferraria, e eles podiam ouvir o baque maçante de martelo em metal e o rugido rítmico do fole quando o assistente do ferreiro mantinha um constante sopro sobre a cama de carvão incandescente. Era um arranjo lógico, e que poderia ser encontrado na maioria das aldeias. Negócios como o curtume, com o seu cheiro desagradável, e o ferreiro, com o seu risco inerente de fogo, eram mantidos à distância de um braço das casas, tabernas e pousadas.
Poucos moradores estavam na rua e olharam para os recém-chegados com interesse e, em alguns casos, com suspeita. Um ou dois deles acenaram e Will respondeu tocando com a mão o chapéu velho que ele usava. Enquanto eles entravam mais na vila, ele olhou para cima e viu o edifício de dois andares que ficava em um lugar de destaque na comunidade ribeirinha.
— Isto seria a taverna — ele disse em voz baixa para Maddie. — Em um lugar como esse, também deve servir como pousada, imagino. Iremos lá primeiro.
Danvers Crossing era muito pequena para ostentar uma taberna e uma estalagem separadas, como ele havia suspeitado. O edifício junto ao rio servia para ambos os propósitos, com um longo bar onde as refeições também eram servidos, e quartos para alugar no piso superior. Havia um gramado do lado de fora, onde o taberneiro espalharia mesas com o tempo bom, de modo que os clientes poderiam desfrutar de sua cerveja e os alimentos em vista do rio.
Will parou o carrinho do lado de fora da taverna e endireitou-se agradecido, alongando a rigidez de suas articulações e massageando a parte baixa de suas costas com os punhos – o carrinho de mão era um pouco baixo para o seu conforto. Como resultado, a pessoa que o puxava forçada a adotar um agachamento. Ele tirou o chapéu e enxugou a testa. Maddie esperou impacientemente enquanto ele examinava lentamente a vila e o rio.
— E agora? — ela perguntou, e Will olhou para ela, balançando a cabeça ligeiramente.
— Tome o seu tempo — disse ele. — O povo do interior nunca se apressa. Apenas relaxe e sinta o cheiro das rosas.
Ela olhou ao redor.
— Rosas? Eu não vejo nenhuma rosa. A única coisa que posso sentir é o cheiro de estrume de cavalo.
Havia um estabulo e um pátio para cavalos ao lado da taberna. Obviamente era usado pelos clientes da taberna. Igualmente óbvio, era o fato de que havia uns poucos deles, e seus cavalos, nos últimos tempos.
— É uma figura de linguagem — Will devolveu. — Eu dificilmente poderia dizer “Relaxe e aproveite o cheiro do estrume”, não é mesmo?
Maddie permitiu um meio sorriso torcer seus lábios.
— Os dois pensamentos realmente não andam juntos.
Will assentiu distraidamente.
— Bem, nós relaxamos o suficiente. Vamos entrar — enquanto eles se dirigiram para a porta, ele falou: — Deixe a conversa comigo.
— Você já disse isso – várias vezes — Maddie respondeu.
Ele olhou para ela.
— Apenas faça isso — ele disse, e abriu caminho para dentro.
Dentro da taverna estava escuro, com apenas uma pequena janela na parede lateral para trazer a luz do dia para o bar. Havia quatro lanternas penduradas nos cantos do teto e uma lareira cintilava na enorme grade lateral. Servia para cozinhar e fornecer calor, Maddie percebeu.
As vigas do telhado eram baixas, e até mesmo Will, que não era o mais alto dos homens, teve de se inclinar quando eles caminharam para a taberna, se aproximando do bar. O taberneiro olhou para eles com um leve interesse. Ele estava ocupado limpando uma fileira de copos.
— Algo para beber? — ele perguntou. — E talvez para comer?
Will franziu o cenho para ele.
— Sim para a bebida. Cerveja para mim – cerveja pequena, isto é.
Cerveja pequena era cerveja e água misturadas em proporções iguais. Isto é, as proporções eram iguais se o taberneiro fosse honesto. Quando não, muitas vezes cervejas pequenas eram mais água do que cerveja. Mas era mais barata, de modo que foi por isso que Will pediu.
— E quanto à comida? — perguntou o taberneiro de novo enquanto colocava um canecão na frente de Will. — Nós temos um bom guisado de frango hoje. Frango com bolinhos, legumes de fazendas e um bom pão crocante por três moedas o prato.
Will franziu os lábios, considerando.
— Nós vamos dividir um — ele disse.
O preço era realmente razoável, mas ele estava interpretando o papel de um trabalhador itinerante e esses homens tinham que segurar suas moedas.
— Uma moeda extra para um segundo prato e talher — o taberneiro respondeu.
Will fez uma careta para ele.
— Humf! — ele bufou. — Acho que não tenho nenhuma escolha. Tudo bem, então.
O taberneiro fez um gesto para Maddie.
— Será que ela vai querer algo para beber? Eu tenho cidra fresca, se quiser.
— Água está bom para ela — Will disse, mantendo seu personagem avarento.
O taberneiro serviu a Maddie um copo de água e gritou seu pedido de comida para um empregado invisível na cozinha atrás dele. Ele apoiou os cotovelos no bar em frente onde Will e Maddie estavam sentados.
— Viajando por aí? — perguntou ele.
Ele era amigável o suficiente. Provavelmente se perguntava se eles podiam alugar um quarto, Will pensou.
— Viajando, sim — respondeu Will. — Se continuaremos dependerá se eu puder encontrar trabalho aqui.
— Pode ser uma possibilidade — disse o taberneiro. — Que tipo de trabalho está procurando?
Will deu de ombros.
— Qualquer coisa. Eu posso me virar em qualquer coisa. Trabalhar em fazenda, reparos, carpintaria. Você diz.
— Não há muito trabalho em fazendas no momento — disse o taberneiro. — Mas tenho alguns reparos que precisam ser feitos aqui na taverna. Carpintaria e alguma pintura.
Will olhou para ele, o interesse em seus olhos com a perspectiva por trabalho.
— Bem, eu sou o homem para isso — ele estendeu a mão. — Meu nome é William. William Accord. Esta é minha filha, Maddie.
Eles apertaram as mãos.
— Bom dia, Maddie — disse o taberneiro. Então, falando com Will de novo: — Meu nome é Rob. Rob Danvers.
Will ergueu as sobrancelhas.
— Danvers? A aldeia tem esse nome por sua causa então?
Rob Danvers balançou a cabeça.
— Meu bisavô — disse ele. — Ele construiu o primeiro barco a atravessar o rio. Lembre-se, naqueles dias havia todos os tipos de bandidos nestas partes. Não é como hoje.
— Sim, as coisas acalmaram nos últimos anos — Will respondeu. — Então quantos dias de trabalho você acha que teria para mim?
Danvers encolheu os ombros.
— Dois ou três, talvez. Mas você tem uma boa chance de conseguir mais, se ficar aqui na taberna – e se eu falar bem sobre você. Você pode alugar um quarto aqui para você e sua filha, está no lugar certo.
Will torceu o nariz ante a ideia – e a despesa.
— Ao invés disso, posso dormir em seus estábulos se isso não for problema para você — disse ele.
Danvers encolheu os ombros.
— Como quiser. É mais barato assim. Mas um bom negócio.
— Vamos aceitar — Will disse a ele. — Por sinal, enquanto estou trabalhando, vou precisar de alguém para cuidar de Maddie. Eu não quero ela correndo como uma selvagem por todo o lugar. Alguma das mulheres da aldeia faz algo assim?
Uma jovem garota saiu da cozinha com a comida deles. Will deu uma mordida, mastigou e engoliu antes de falar novamente. Maddie comeu com gosto. Depois de uma longa manhã na estrada, o guisado de frango estava delicioso. Ela olhou para Will com a próxima pergunta.
— Alguém numa vila próxima disse que havia uma família aqui cuja filha foi embora. Talvez eles estariam interessados? — Will parou, fingindo pensar no nome. — Clover, era isso. Disseram que a menina deles tinha a idade de Maddie.
O rosto de Rob Danver anuviou. Ele se levantou abruptamente.
— Carrie Clover não foi embora — disse ele brevemente.
Will ergueu as sobrancelhas em surpresa.
— Então ela ainda está aqui?
Danvers balançou a cabeça.
— Ela desapareceu. Algumas semanas atrás. Só desapareceu uma noite.
— Fugiu, não é? — Will perguntou.
O gerente fez uma pausa, então respondeu.
— Eu não ficaria surpreso. Seus pais não a tratavam muito bem. Muitas vezes era vista com hematomas no rosto. Ou olhos vermelhos de tanto chorar. Uma pena. Ela era uma menininha agradável.
— Talvez ela tenha conhecido um rapaz e fugiu com ele? Não seria a primeira vez.
Mas Danvers balançou a cabeça mais uma vez.
— Havia um rapaz com quem ela falava bastante. Ele ainda está aqui. Não, se me perguntar, ela se cansou de ser espancada e fugiu — ele se inclinou para frente, conspiratório — a menos, é claro, que alguém a tenha levado.
— Levado? Por quê?
Danvers balançou a cabeça.
— Não sei. Talvez por resgate?
— Então a família dela vive bem? — Will perguntou, mas Danvers balançou a cabeça, negando sua própria teoria.
— O pai é um lavrador. Só consegue pagar as contas. Ele nunca seria capaz de pagar um resgate.
— Então porque que raptá-la se sabiam que não havia nenhuma possibilidade de resgate?
Danvers moveu a cabeça para trás e para a frente enquanto ponderava a pergunta. Ele realmente não tinha considerado a sua teoria em qualquer profundidade antes. Ele só usou dizer, em tons sombrios, que “alguém a levou”.
— Não sei. Mas que ela se foi, eu sei — ele fez uma pausa. — Se eu fosse você, não perguntaria à família sobre isso, a ninguém dela. Clover é do tipo com mau temperamento. Propenso a perder as estribeiras se ele achar que você é o culpado por ela ter ido.
Will considerou por alguns segundos, em seguida, acenou com a cabeça, concordando.
— Obrigado pelo aviso — disse ele. — Se eu cruzar com ele, terei a certeza de não mencionar isso — ele fez uma pausa, como se estivesse digerindo o pensamento. Finalizando sua refeição, olhou para Maddie. — Bem, venha menina. Coma e vamos levar nossas coisas para o estábulo. Parece que não vai chover antes de escurecer.
Ele engoliu o último gole de sua cerveja, acenou para Danvers e virou-se para a porta, Maddie o seguindo.

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