8 de fevereiro de 2017

Capítulo 30

Contendo seu aborrecimento o melhor que pôde, Gatt os levou até o lugar onde encontrou o corpo de Liam. Era uma trilha estreita mas bem definida, cercada de ambos os lados por arbustos baixos e dispersos. O chão era macio e se moldava sob os pés, mas não tanto que poderia fazer um cavalo tropeçar, ou perder o equilíbrio. Will virou-se e estudou o chão.
— Choveu ultimamente? — perguntou ele.
Gatt balançou a cabeça.
— Não desde que encontrei o corpo. Mas o solo é geralmente macio nessas partes, exceto no verão, quando tende a secar.
— Não é auge verão agora — Will disse para si mesmo, movendo-se ao longo da trilha.
Ele andou em linha reta ali. Parecia não haver nenhuma razão porque Liam deveria ter caído de seu cavalo.
— Onde exatamente você achou o corpo? — perguntou.
Gatt levou seu cavalo vários metros para a frente.
— Aqui. Ao lado da trilha. Logo após essas duas árvores.
Havia duas árvores consideráveis destacando-se da vegetação geral de arbustos da área. Elas estavam a cerca de cinco metros de distância, uma de cada lado da trilha.
Will olhou para elas. Não havia ramos baixos que poderiam derrubar um cavaleiro imprudente da sala.
— Parece que ele caiu do cavalo e quebrou o pescoço — disse Gatt.
Will franziu os lábios.
— Improvável — ele respondeu. Todos os arqueiros eram excelentes cavaleiros.
Gatt deu de ombros para a resposta intransigente.
— Talvez o cavalo tenha tropeçado... — ele sugeriu.
Puxão, de pé um pouco distante, sacudiu a crina violentamente. Cavalos de arqueiro não tropeçam.
— Ou talvez ele tivesse bebido — Gatt acrescentou.
Will lançou um olhar frio sobre ele.
— Liam não bebeu — disse ele.
Gatt deu de ombros.
— Se você diz. Foi apenas uma sugestão.
Will não respondeu. Ele estava andando para trás ao longo da estrada onde o corpo tinha sido encontrado, verificando as trilhas dos cavalos.
Sem a chuva nos últimos dias e com a condição do chão, elas ainda eram evidentes. Maddie tinha desmontado e estava ajoelhada ao lado de uma das árvores, estudando seu tronco próximo ao chão.
Will virou-se para Gatt abruptamente.
— Obrigado pelo seu tempo, fazendeiro Gatt. Não vamos mais incomodá-lo. Pode voltar para o seu trabalho.
Gatt pareceu surpreso, e seu mau humor aumentou um pouco. Ele esperava que o arqueiro o mantivesse ali por horas, fazendo perguntas inúteis. Agora ele se viu livre para voltar aos seus negócios. Mas perversamente, sua curiosidade fora aguçada. Ele notou o modo com Will estava estudando as trilhas.
— Então você encontrou algo? — ele perguntou. — Qualquer pista sobre o que aconteceu?
Will balançou a cabeça.
— Provavelmente foi como você disse. O cavalo tropeçou e ele caiu. Apenas um acidente.
— Oh... bem, então... — Gatt continuou hesitando. Ele não queria ser deixado de fora se havia algo importante para saber.
Will assentiu para ele.
— Nós não vamos incomodá-lo ainda mais — Will repetiu.
— Certo. Estou indo então — Gatt disse.
Ele virou o cavalo para longe e o colocou em um trote desajeitado, voltando para sua fazenda. Embora enquanto cavalgava ele tenha se virado na sela várias vezes para olhar para eles. Will acenou para ele do mesmo modo que o outro tinha feito. Finalmente, quando ele fez uma curva na estrada e não podia mais ser visto, Maddie falou.
— Então você achou alguma coisa?
Will acenou com a cabeça, e fez um gesto para ela se juntar a ele. Eles voltaram na trilha por dez metros e Will apontou para o chão.
— Olhe à esquerda nas trilhas Acorn.
— Acorn? — perguntou Maddie.
— O cavalo de Liam. Olhe aqui, elas levam até essas árvores, sua marcha é reta e uniforme. A partir do comprimento de seu passo e a profundidade das pegadas, eu diria que ele estava a galope. Mas quando ele passa as árvores, as marcas estão por todo o lugar. Ele perdeu o equilíbrio e definitivamente tropeçou.
Puxão bufou e Will olhou rapidamente para ele.
— Isso acontece — ele disse.
Maddie estava de joelhos, estudando as trilhas, e não viu que o comentário era dirigido ao cavalo. Em vez disso, ela se levantou e virou para a mais próxima das duas árvores.
— Notei algo em uma das árvores — ela falou. — Pode não ser nada, mas você deveria ver.
— Ou talvez seja algo — Will respondeu.
Ele a seguiu olhou onde ela estava apontando. Havia uma leve cicatriz na casca da árvore, a cerca de meio metro acima do solo.
— Algo cortou a casca aqui — ressaltou.
Will ergueu as sobrancelhas.
— Bem visto.
Maddie levantou os olhos até ele.
— Eu não achei nada disso até que você mencionou que Acorn pareceu perder o equilíbrio — ela virou-se rapidamente e caminhou até a árvore oposta. — Vamos ver se há uma marca correspondente nesta aqui.
Havia, mas era muito fraca. Se eles não soubessem o que procurar, eles poderiam nunca ter visto. Will estendeu a mão para tocá-la. Havia um pequeno e fino fio branco preso na madeira. Ele arrancou-o.
— Poderia ser a fibra de uma corda — opinou. Ele olhou para cima e para baixo da trilha, em seguida, para a árvore em frente a eles. — Então digamos que Liam está galopando ao longo de toda esta estrada...
— Talvez perseguindo alguém — Maddie sugeriu e ele concordou.
— Isto é razoável. E digamos que alguém tenha esticado uma corda entre as duas árvores. Acorn bate nela e tropeça, tentando se manter em equilíbrio.
— Mas o tropeço é suficiente para atirar Liam da sela e ele é lançado ao chão bem aqui... — Maddie andou rapidamente para onde Gatt lhes tinha dito que ele encontrou o corpo de Liam. — E ele morreu na queda.
— Isso explicaria as marcas nas árvores — disse Will, pensativo.
— Quando Acorn bateu na corda, teria arrancado um pedaço da casca com o impacto.
Eles se entreolharam por um momento. Então Will falou:
— Alguém queria Liam morto — seu tom de voz era baixo.
Maddie franziu os lábios.
— Eles não poderia ter certeza de que a queda o mataria.
— Verdade. Mas ele ficaria incapacitado – nocauteado ou sem fôlego pela queda. E eles estariam prontos para acabar com ele.
— É claro que não podemos ter certeza — disse Maddie. — São apenas algumas pegadas confusas e uma marca fraca em uma árvore. Podem ter sido causadas por qualquer coisa.
— Precisamos olhar Acorn mais de perto. Se ele acertou a corda em alta velocidade, haverá hematomas ou cortes nas pernas — Will falou.
— Onde ele estaria agora? — perguntou Maddie.
— O mais provável é estar nos estábulos no Castelo Trelleth — disse Will. — O mestre dos cavalos o teria levado para cuidar dele após a morte de Liam — ele se inclinou para trás, esticando os músculos das costas, torto de tanto inclinar-se e ajoelhar. — Hora de nos apresentarmos ao Barão Scully.
No encontro, ele visitou o castelo sozinho, deixando Maddie na pequena cabana dos arqueiros na mata abaixo do castelo.
— Não conheço Scully — disse ele. — Mas há sempre a chance de que ele tenha estado no Castelo Araluen e ele pode reconhecê-la. Se assim for, então ele vai querer entretê-la no castelo. E então todos do campo vão saber sobre sua presença aqui em vinte e quatro horas.
Maddie assentiu, compreendendo.
— E isso dificultaria a investigação — disse ela.
— Dificultaria e muito. É melhor se conseguirmos manter a discrição. Além disso, eu não quero que muitas pessoas saibam quem você realmente é. É um assunto para sua segurança.
— Isto está bem para mim — disse Maddie. Ela estava ficando cansada de como as pessoas olhavam para ela quando percebiam que ela era uma garota – e uma aprendiza de arqueiro. Se o fato de que ela era uma princesa fosse adicionado, a curiosidade ficaria fora de controle. — Eu vou ficar na cabana.
— Dê uma olhada nos papéis de Liam enquanto estiver aqui — Will pediu a ela. — Pode haver alguma pista sobre o que ele estava fazendo.
As cabanas de arqueiros eram todas construídas com dois modelos básicos. Liam tinha uma quase idêntica à que Maddie compartilhava com Will e ela se sentiu confortável lá. Como Will havia instruído, ela olhou os papéis sobre a pequena mesa de Liam, procurando alguma pista sobre o motivo de sua morte. Mas ela não encontrou nada. Tinha quase anoitecido quando ouviu Bumper relinchando do estábulo atrás da cabana.
Em seguida Puxão respondeu e poucos minutos depois Will surgia através das árvores.
— Bem, nós temos a nossa resposta — disse ele. — Acorn estava mancando quando o recuperaram. Ele tinha um corte em sua perna dianteira direita. O mestre dos cavalos disse ter assumido que Acorn tivesse tropeçado e se machucado, atirando Liam para longe. Mas poderia ter sido causado por acertar uma corda.
— Então definitivamente a morte de Liam não foi um acidente — ela finalizou.
— Parece que não. Agora tudo o que temos que fazer é descobrir por que alguém iria querer matá-lo. Ele deter ter caído em algo por acaso. Deve ter visto alguma coisa acontecendo.
— Devemos avisar a Gilan? — ela perguntou e ele assentiu.
— Vou enviar um pombo correio do castelo amanhã. Mas sei o que ele vai dizer. Ele vai nos querer investigando ao redor e descobrir o que está acontecendo. Não há sentido em ter uma multidão de pessoas vindo para cá investigar. Isso só vai acabar com nossas chances de encontrar quem matou Liam. O melhor para nós é fazer isso em silêncio.
Ele fez uma pausa, em seguida, um pensamento lhe ocorreu quando seu olhar caiu sobre mesa e os papéis lotando-a.
— Qualquer coisa em seus papéis? — perguntou ele.
Maddie balançou a cabeça.
— Nada que eu pudesse ver.
— Não me surpreende. Se ele estava no rastro de alguma coisa, não deixaria sua papelada em plena vista. Ele teria escondido bem.
Maddie olhou em volta da pequena sala de estar.  Não parecia haver um lugar que serviria como esconderijo.
— Onde ele faria isso? — ela perguntou.
Em resposta, Will se levantou e caminhou ao longo do centro do chão da sala, com os olhos para baixo, estudando as tábuas enfileiradas. Ele parou, olhando fixamente para um ponto à esquerda. Em seguida, deu um passo em sua direção, se ajoelhou e sacou a faca de caça. Ele bateu nas tábuas com o punho da faca, trabalhando em um semicírculo.
Na quarta batida, a tábua fez um som oco e ele deu um pequeno grunhido de satisfação. Em seguida, ele inseriu a ponta da lâmina em uma junção estreita entre duas placas e alavancou-as para cima. Houve um gemido de madeira esfregando em madeira, e um pequeno alçapão se abriu, expondo uma cavidade forrada de madeira escondida sob o chão.
Ele olhou para Maddie.
— Todas as nossas cabanas têm um cofre — disse ele como explicação. — É apenas uma questão de localizar onde ele está.
Ele estendeu a mão para dentro da cavidade e puxou um feixe fino de papéis, dentro de uma pasta e envolvido com uma fita verde.
— Agora, o que temos aqui?

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