8 de fevereiro de 2017

Capítulo 29

Eles saíram na manhã seguinte, logo após o café da manhã. Gilan tomou uma xícara de café para acompanhá-los, mas ele planejava ter a refeição da manhã mais tarde, no restaurante de Jenny. Ele prometeu avisar Jenny quando eles partissem, para que ela alimentasse Sable todos os dias.
Os dois montaram e foram para nordeste, era uma viagem num ritmo habitual para um arqueiro – galopando por vinte minutos, depois caminhando rapidamente por mais dez, levando os cavalos. Os cavalos poderiam manter este ritmo hora após hora, quilômetros após quilômetro até chegar ao seu destino.
Eles acamparam naquela noite e chegaram ao feudo de Trelleth no início da tarde do segundo dia. Havia uma placa na fronteira para que eles soubessem que estavam entrando no feudo, mas ainda mais revelador era o cheiro de sal no ar.
— Posso sentir o cheiro do mar — Maddie falou.
Will assentiu. Lembrou-se da primeira vez que notara o aroma forte e fresco. Ele tinha passado por ali em sua primeira Reunião Anual dos Arqueiros. Ele suspirou baixinho. Parecia há tanto tempo. Em seguida, ele balançou a cabeça em realização. Fora há um bom tempo.
— O que vamos fazer agora? — Maddie perguntou.
Ela estava curiosa para ver como uma investigação como esta seria realizada.
— Primeiro vamos examinar a área — Will respondeu. — Nós vamos encontrar este agricultor... — ele hesitou enquanto tentava lembrar o nome.
— Wendell Gatt — Maddie ajudou.
Ele olhou para ela, um pouco irritado.
— Eu sei.
Ela deu-lhe um olhar inocente.
— Só estou tentando ajudar. Pensei que talvez você tivesse esquecido.
— Eu não esqueço as coisas.
Ha! Puxão deu um daqueles bufos explosivos que indicavam seu escárnio. Will decidiu que era melhor ignorá-lo. Você nunca poderia ter a última palavra com uma criatura que podia cheirar e sacudir a crina do jeito que Puxão fazia.
— Procuraremos uma aldeia ou fazenda e pediremos informações sobre a fazenda de Gatt — ele continuou.
Poucos minutos depois, eles encontraram um pequeno grupo de construções.
Havia uma forja e mais abaixo uma taberna, além de algumas casas para acomodar aqueles que trabalhavam lá. Quando eles se aproximaram, um homem vestindo um avental de couro e com manchas de fuligem em seus braços nus surgiu a partir da ferraria para cumprimentá-los.
Eles descobriram que a fazenda de Gatt ficava alguns quilômetros mais a frente na estrada em que viajavam. Will agradeceu o ferreiro e voltou o rosto para a estrada mais uma vez, mas o homem o chamou.
— Você é arqueiro?
Suas capas, arcos e pôneis deixavam claro o que eles eram, mas Will não estava com ânimo para responder. Ele ainda pensava em sua incapacidade momentânea de se lembrar do nome do Gatt, e a pressa de Maddie em responder. Ela poderia ter lhe dado um ou dois minutos para se lembrar, pensou. Como resultado, ele não estava num momento para tagarelar, particularmente desde que a pergunta do homem indicava que ele estava intrigado com os trajes de Maddie e procurava alguma explicação.
— Não. Estamos viajando para encontrar uma costureira — ele respondeu brevemente, e saiu com Puxão em um galope, Maddie seguindo-o apressadamente.
O ferreiro torceu a boca em uma expressão mal humorada e limpou o suor da testa com a bainha do seu avental de couro.
— Só perguntei — ele falou, irritado com os dois que partiam em retirada.
Várias centenas de metros depois, Maddie chamou Will, que fez Puxão desacelerar para apenas um trote.
— Não deveríamos primeiro nos apresentar formalmente ao barão local? — ela perguntou. — O barão Scully?
Ela estava vagamente consciente do protocolo. Estivera presente quando seus pais visitaram feudos no passado, e sabia que era procedimento comum tornar a sua presença conhecida ao barão local quando fizessem isso. Ela estava começando a aprender, no entanto, que o protocolo e procedimento normal tinham pouco a ver com a maneira com que os arqueiros operavam.
Will resmungou com desdém.
— Nós faremos isso mais tarde. Barões locais têm o hábito de ficar no caminho quando algo fora do comum acontece em seu feudo. Eles sabem que nos reportamos diretamente à coroa e muitas vezes querem ter a certeza de que não há nada que os coloque sob uma luz ruim.
Maddie estava um pouco surpresa com isso. Ela nunca tinha tomado conhecimento deste confronto de poder ou da relação entre barões e arqueiros que trabalhavam em seus feudos.
— Nem todos eles, não é? — ela pediu confirmação.
Will cedeu um pouco.
— Bem, não. A maioria deles é bons homens. Arald em Redmont, por exemplo, é um excelente barão e bom de se trabalhar. Mas eventualmente você encontrará alguém inclinado a manter sua dignidade e exagerar em sua própria importância. Não conheço o caráter desse Scully, então não quero correr o risco de que ele seja um desses últimos – pelo menos não até que eu tenha dado uma olhada por aqui.
Eles chegaram à fazenda Gatt poucos minutos depois. O contraste entre esta propriedade e a do velho Arnold Clum não poderia ter sido maior. A fazenda e o celeiro eram grandes edifícios em excelente estado e pareciam ter sido recentemente pintados.
As cercas eram bem construídas em linhas retas. E o próprio pátio era um modelo de ordem, com o chão varrido, ferramentas empilhadas ordenadamente e um carroção bem posicionado na frente do celeiro. A parte traseira do carroção fora pintado recentemente também. A estrutura das rodas estava em ótimo estado e brilhava com a graxa fresca. Havia vários cavalos no estábulo e estavam todos em volta da cerca para ver recém-chegados.
Uma única vaca leiteira estava amarrada a alguma distância.
Quando eles se aproximaram da casa, a porta se abriu para uma aparente cozinha e uma mulher surgiu. Ela estava em seus quarenta anos, era alta e obviamente bem saudável. Suas roupas eram limpas e de boa qualidade – mesmo que parecessem feitas em casa. Elas não tinham o conjunto de retalhos que as roupas surradas de Aggie Clum se gabavam.
Ela estava cozinhando. Ela tirou uma mecha de cabelo do rosto, deixando uma mancha branca de farinha lá.
Will e Maddie pararam seus cavalos. Agora avisada, Maddie não fez nenhum movimento para desmontar.
— Boa tarde — Will cumprimentou. — A senhora seria a Sra. Gatt?
— Sim, sou eu — ela respondeu, olhando com curiosidade para Maddie, depois de volta para Will novamente. — Bem-vindos à fazenda dos Gatt. Gostaria de desmontar?
— Claro — Will disse. Ele desceu da sela e Maddie fez o mesmo. — Meu nome é Will Tratado — não havia necessidade de mencionar o fato de que ele era um arqueiro. Isso era óbvio por suas roupas e equipamentos. — Esta é a minha aprendiza, Maddie.
Maddie, acompanhou de perto a expressão da mulher, viu seus olhos se arregalarem um pouco com a menção do nome completo de Will. Ele era uma figura de certo renome em Araluen, ela sabia – o lendário aprendiz do lendário arqueiro Halt, que havia de algum modo se equiparado ou até superado a reputação de seu mentor. A senhora Gatt fez uma reverencia apressada.
— Gostariam de algo para comer, arqueiros? — ela perguntou. Ela olhou com curiosidade para Maddie depois de dizer a palavra “arqueiros”. Era uma reação a que Maddie estava rapidamente se acostumando. — Fiz um ensopado de carneiro para o jantar e há muito para compartilhar.
Will balançou a cabeça.
— Obrigado, mas não vamos incomodá-los. Talvez um copo de água? — ele fez um gesto com a cabeça em direção a uma bomba perto da porta da cozinha e a Sra. Gatt apressadamente gesticulou em direção a ela.
— Claro. Sirva-se. O que os traz à fazenda Gatt? Foi por causa daquele outro arqueiro? Aquele que... — ela hesitou, sem saber se dizia “morreu” ou “foi morto”.
Will assentiu. Ele bombeou a água e tirou uma concha, tomou um longo gole, depois limpou a barba com a palma de sua mão, passando a concha para Maddie.
— Sim. Soube que o seu marido encontrou o corpo — ele falou.
Ela concordou com a cabeça várias vezes.
— Sim, Wendell o encontrou. Mas não havia nada que ele pudesse fazer por ele. O homem estava morto a várias horas, foi o que ele disse — ela olhou para os campos. — Ele e os homens estão trazendo o último lote de feno de hoje. Ele estará aqui para jantar em uma hora. Gostaria de esperar por ele?
Will balançou a cabeça.
— Não. Nós vamos encontrá-lo agora. Eu tenho algumas perguntas para fazer a ele.
A senhora Gatt mudou os pés desconfortavelmente quando ele falou aquelas palavras. Ela parecia preocupada. Will se apressou a tranquilizá-la.
— Estou certo de que nenhuma responsabilidade recairá sobre seu marido. Eu só gostaria que ele nos mostrasse onde encontrou Liam – o arqueiro — ele acrescentou a última palavra para esclarecimento.
A expressão preocupada desapareceu do rosto dela e ela apontou para os campos.
— Eles ficam dois campos para baixo nesse sentido, além do pequeno bosque de árvores.
— Então, vamos falar com ele lá — Will disse. Ele fez um gesto para Maddie segui-lo e eles remontaram seus cavalos. Ele tocou um dedo na testa. — Obrigado pela ajuda, senhora. Melhor voltar para o seu cozido antes ele queime.
Ele notou um cheiro delicioso no ar. Era obviamente algum pão ou uma torta à beira de queimar. A boca dela formou um O rápido de surpresa. Ela tinha se esquecido da sua comida. Ela virou-se e correu de volta para a casa.
— Bem, ela certamente foi de ajuda — Maddie observou enquanto cavalgavam pelos campos.
— Vamos esperar que o marido seja igual — Will respondeu.
Como que para contradizer, Wendell Gatt foi muito menos atencioso do que sua esposa tinha sido. Ele era um homem grande e vermelho, vestido com calças e uma bata de trabalho de linho azul. Como sua esposa, suas roupas eram de boa qualidade e em excelente estado. Gatt tinha três trabalhadores rurais que o ajudavam, recolhendo o último do feno em fardos.
Ele balançou a cabeça enfaticamente quando Will perguntou se ele lhes mostraria o local onde encontrou o corpo de Liam.
— Estou ocupado demais. Tenho muito trabalho a fazer aqui. Temos que recolher esse feno antes que a chuva chegue.
— Nós só precisamos de você por meia hora. Certamente os homens podem continuar sem você — Will sugeriu razoavelmente.
— Não. Não. Não — Gatt respondeu. — Não confio neles para fazer o trabalho corretamente. Eles precisam ser vigiados constantemente — ele falou alto o suficiente para que os homens pudessem ouvi-lo. Dois deles lhe lançaram olhares irritados. O terceiro o ignorou.
Will olhou para eles e tocou Puxão com os calcanhares, levando o pequeno cavalo na direção dos trabalhadores rurais.
— Quem é o mais velho? — perguntou ele. Um deles levantou a mão. Tinha cerca de 40 anos de idade e era um homem bem corpulento. Ele parecia bastante capaz, Will pensou. Afinal, enfardamento de feno não era uma tarefa muito complexa.
— O que gostaria de mim, senhor? — o homem indagou. — Eu sou Lionel Foxtree.
— Bem, Lionel Foxtree, você acha que é capaz de continuar este trabalho sem supervisão? Seu mestre ficará afastado por alguns dias.
Ouvindo isso, Gatt explodiu de indignação.
— Alguns dias? Você disse meia hora! — ele exclamou.
Will virou-se na sela para olhar para ele. Seus olhos estavam frios.
— Bem, isso foi quando eu simplesmente queria que você nos mostrasse onde o arqueiro Liam morreu — disse ele. — Mas já que você se recusou a nos ajudar na investigação, terei que prendê-lo. Isso pode durar um dia ou dois. Até mesmo uma semana.
Gatt balbuciou furiosamente enquanto procurava as palavras. Os trabalhadores rurais viraram de costas, mas não antes que Will pudesse ver os sorrisos em seus rostos. Gatt era obviamente um homem que gostava de ter as coisas à sua própria maneira.
— Me prender? Você não pode me prender! Eu sou um homem livre!
— Na verdade, posso sim. Eu sou um Arqueiro do Rei. Você se recusou a me ajudar em uma investigação, o que é praticamente o mesmo que impedir a investigação. Eu não quero fazer isso. Preferiria que você simplesmente mostrasse onde encontrou Liam. Mas se me forçar, terei que prendê-lo.
Seus olhares se encontraram. O de Gatt era quente e raivoso. O de Will era frio e imóvel.
Finalmente, o agricultor cedeu.
— Ah, tudo bem! Vou levá-lo para onde eu o encontrei!
— Isso mesmo — Will concordou. Ele apontou para um cavalo que estava amarrado à traseira da carroça de feno. — E há ali mesmo um cavalo para você.

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