8 de fevereiro de 2017

Capítulo 28

A pequena cabana nas árvores ainda estava escondida de vista quando Puxão levantou a cabeça e soltou um relincho alegre. Bumper virou-se para o som. Quase instantaneamente, um relincho em resposta veio da direção da cabana.
— Temos companhia — Will observou.
Maddie olhou-o interrogativamente, mas ele não disse mais nada. Will imaginou ter reconhecido o relinchar do cavalo, mas não estava totalmente certo. Não havia sentido em verbalizar tal suposição apenas para tê-la comprovada como errada.
Como se viu, ele estava certo. Os dois seguiram até a clareira e viram uma égua baia de pé diante da varanda. Ela virou a cabeça quando eles se aproximaram e relinchou novamente. Bumper e Puxão responderam.
Maddie olhou para seu cavalo, intrigada.
— Como Bumper a conhece? — ela perguntou.
Will olhou para ela.
— Cavalos de arqueiros tendem a se reconhecer. Mesmo que nunca tenham se conhecido.
— Isso não faz muito sentido — disse uma voz alegre do final do pórtico. — Como você pode reconhecer alguém que nunca conheceu?
Will deu de ombros.
— Por que pergunta a mim? Eu não sou um cavalo.
Você não tem pernas para isso, Puxão comentou secamente.
Gilan estava sentado na ponta da varanda, acariciando as orelhas de Sable. O cão estava com a cabeça para um lado, os olhos fechados e uma expressão de felicidade no rosto. Sable gostava de ser acariciada no pelo grosso em torno de suas orelhas e pescoço.
Will desmontou e olhou em falsa decepção para Sable.
— Que belo cão de guarda você é. Você deveria tê-lo despedaçado.
Sable bateu a cauda sobre as tábuas da varanda em acordo. Gilan deu-lhe um tapinha final e levantou-se.
— Olá, Maddie. Como está indo o seu treinamento?
Ela lhe deu um sorriso amarelo e desmontou.
— Bem, penso que algum dia chego lá. Já os outros eu não sei o que diriam.
Gilan levantou uma sobrancelha e olhou para Will. Ele nunca tinha ouvido tal autodepreciação vindo de Maddie antes. Talvez a ideia de Halt estivesse funcionando.
Will viu o olhar e adivinhou o seu significado. Ele deu um breve aceno.
— Devo levar os cavalos ao estábulo? — ela perguntou, e a surpresa de Gilan aumentou mais um pouco. Maddie se voluntariando para fazer trabalho braçal era outra coisa que ele não estava acostumado.
— Sim. Se você puder — Will respondeu. — Blaze também — ele olhou para Gilan. — Suponho que você ficará com a gente? Ou quer dormir no castelo?
— Não. Ficarei aqui se eu for bem-vindo — Gilan falou apressadamente. — Há muito barulho e formalidades no castelo.
— E aqui nós estamos mais perto do Travessa Farta, é claro — Will comentou.
Gilan se permitiu um sorriso. O Travessa Farta era o nome do restaurante de Jenny na Vila Wensley.
— Bem, sim — respondeu o Comandante. — Pensei que eu poderia passar por lá no café da manhã.
— Ela vai ficar feliz em vê-lo — disse Will, e por um momento, uma pitada de tristeza tingiu sua expressão. Jenny e Gilan podiam não ter se casado, mas eles ainda tinham um ao outro.
Ele entrou na cabana e se sentou no banco da cozinha, enchendo o bule de café com um jarro de água fresca. Ele não perguntou se Gilan queria. Ele era um arqueiro. Arqueiros sempre querem café.
Enquanto Will começou a moer grãos de café, o rico aroma liberado pela moagem encheu as narinas de Gilan. Sua boca encheu-se de água à ideia de café fresco. Sentou-se à mesa, afastando uma pilha de papéis que havia sido deixada ali. Olhando para eles de braços cruzados, ele reconheceu vários dos relatórios semanais enviados pelos arqueiros em todo o país. Várias cartas estavam por ali também, e abaixo delas uma pasta de couro, com mais papéis dentro. Ele bateu o dedo sobre ela.
— O que é isso? — ele perguntou.
Will olhou em volta e viu a pasta de couro. Seu rosto assumiu um olhar um pouco envergonhado.
— Oh... apenas uma ideia em que eu estava trabalhando. Isso não é importante agora.
Ele pegou a pasta e colocou-a em uma estante de livros ao longo de uma parede da sala de estar. Havia um ar de finalidade sobre o gesto, Gilan pensou. Ele deu de ombros. Apenas estava tentando ter uma conversa ociosa.
— Então, como está se saindo com Maddie? — ele perguntou, mudando de assunto.
Will, que havia retomado sua moagem de café, virou-se para encará-lo.
— Surpreendentemente bem. Ela é rápida e determinada, e está ansiosa para aprender. Ela adora a vida ao ar livre e um pouco de liberdade. Meu palpite é que ela estava se rebelando contra todas as restrições do Castelo Araluen. Agora que não é mais uma princesa, ela parece estar dando mais atenção às pessoas ao seu redor.
Gilan franziu os lábios com interesse.
— Você usou a carta? — perguntou ele. Ele estava ciente da carta que Cassandra e Horace enviaram para Will, deserdando a filha.
Will assentiu, voltando-se para a tarefa de fazer café novamente.
— Tive que usar. Ela precisava de uma sacudida. Precisava saber que não tinha nada de especial. E deu certo.
— Como assim?
Will parou para pensar enquanto colocava o bule no fogão. Ele abriu a fornalha e jogou vários pedaços de lenha, depois acendeu o fogo na parte inferior.
— Bem, hoje é um bom exemplo. Um fazendeiro local estava tendo problemas com uma marta, que roubava seus ovos e matava suas galinhas.
— Então você cuidou dele?
— Maddie cuidou. Abateu-o com seu estilingue. Ela é ótima com ele, por sinal. Em seguida, ela pegou-o e esfolou-os em poucos minutos.
Gilan pareceu impressionado.
— É uma boa pelagem nesta época do ano.
Will assentiu enquanto deixava cair um punhado de café na água que fervia.
— Era. Era uma bela pelagem. E esse é o ponto. O fazendeiro e sua esposa eram tão pobres quanto ratos de igreja. Suas roupas eram finas e remendadas. Maddie deu a pele à mulher. Disse que queria que ela tivesse algo quente para o inverno.
Gilan assentiu.
— Como você disse, parece que ela está tomando conhecimento das necessidades dos outros. O que é uma boa qualidade para se ter em um arqueiro.
— Ela sempre teve um bom coração — Will concordou. Ele decidiu não dizer nada sobre o episódio com o vinho. — Ela só precisava se lembrar.
Gilan coçou o queixo, pensativo. As novidades sobre Maddie eram interessantes – e gratificantes. Nomear uma garota como aprendiza de arqueiro fora um risco. Mas parecia estar dando certo.
Ainda mais interessante, porém, era a atitude e a força de vontade de Will. Havia um sentimento de entusiasmo silencioso enquanto falava sobre sua aprendiza e as habilidades dela. O olhar assombrado, a tensão, a obsessão mórbida por vingança que ele tinha adotado ao longo do últimos meses parecia ter desaparecido. Ele estava de volta à sua origem, até mesmo alegre. Estava definitivamente melhorando.
Parece que Halt sabia do que estava falando, Gilan pensou. Então ele se perguntou por que ficou surpreso com a revelação. Halt geralmente sabia do que estava falando.
Ele esperou enquanto Will colocava uma xícara de café fumegante na sua frente e falou:
— Então, acha que ela está pronta para ir a uma missão com você?
Ele perguntou casualmente, mas era um ponto crucial. Will, despedaçado pela dor e fixado na ideia de caçar Jory Ruhl, havia rejeitado as duas últimas missões que Gilan lhe atribuíra.
Gilan sentiu uma onda de alívio quando viu seu amigo considerando a pergunta, então assentindo.
— Sim. Eu ficaria feliz em levá-la comigo em uma missão. Talvez seja bom para ela nesta fase da sua formação.
A porta se abriu e Maddie entrou. Os dois se viraram e ficaram em silêncio, como as pessoas fazem quando o assunto da conversa de repente aparece. Maddie notou a súbita falta de conversa e olhou ansiosamente para Will e depois para Gilan. Será que Will contara ao Comandante sobre sua queda em desgraça?, perguntou-se.
— Eu dei uma maçã a Blaze — ela disse timidamente. — Ela parecia achar que era totalmente inadequado, então eu dei-lhe outra.
— Ela será sua serva pela vida toda — Gilan respondeu facilmente.
Maddie relaxou um pouco pelo seu tom amigável. Ela olhou ansiosamente para Will e, sentindo a causa de sua preocupação, ele deu um leve aceno de cabeça. Ele apontou para a xícara em cima da mesa.
— O café está feito — ele falou, e Maddie se sentou agradecida, segurando a xícara com as duas mãos.
— Eu bebo café agora — ela revelou a Gilan.
Ele acenou.
— Ainda bem. É uma das condições para se tornar um arqueiro.
Ele vira a expressão de alívio nos olhos dela e percebeu a rápida troca entre ela e Will. O rosto de Will era inexpressivo. Tão inexpressivo que Gilan sabia que havia algo que não estava sendo dito. Então ele deu de ombros mentalmente. Se Will tinha decidido não contar, provavelmente não era assunto dele, pensou.
— Will disse que você está pronta para ir em uma missão com ele — ele falou. — O que você acha?
Ela olhou uma vez para seu mentor, em seguida, voltou a atenção para Gilan.
— Estou pronta. Qual é a missão?
Gilan estava satisfeito com sua resposta. Sem hesitação. Sem incerteza.
— É no feudo do Trelleth — ele explicou. — Um arqueiro foi morto lá.
Will levantou a cabeça instantaneamente.
— Morto? Morto por quem?
Gilan sacudiu a cabeça, hesitante.
— Não há nenhum suspeito. Ele caiu de seu cavalo e quebrou o pescoço.
— Então foi um acidente? — Maddie indagou.
Gilan olhou para ela com ceticismo.
— Possivelmente. Na verdade, é o que parece. Mas eu não acredito em acidentes, não quando é um arqueiro quem morre.
Will estava franzindo a testa, pensativo.
— Quem é o arqueiro de Trelleth? — ele parou e se corrigiu. — Ou melhor, quem era?
Em uma força pequena como o Corpo de Arqueiros, todos se conheciam, pelo menos de vista e de nome. Claro, havia algumas relações mais estreitas nas fileiras também.
— Liam — Gilan respondeu. — Lembra-se dele?
Will assentiu tristemente. Ele esteve presente na formatura de Liam, o dia em que ele foi presenteado com sua Folha de Carvalho de Prata. Foi o ano em que ele, Halt e Horace viajaram para Hibernia para rastrear o líder da seita, Tennyson.
— Sim. Ele era um cara bom.
— Ele era, de fato. Foi um dos mais brilhantes entre os arqueiros mais novos. Vamos sentir falta dele.
— Então o que você quer que façamos? — Will perguntou.
— Vão até Trelleth e questionem pela área. Vejam se descobrem qualquer coisa suspeita sobre a morte dele. Como falei, estou sempre desconfiado quando um arqueiro morre.
Will olhou para um mapa de Araluen na parede da cabana. Trelleth era um feudo de médio porte na costa leste do país.
Gilan seguiu a direção de seu olhar.
— O barão de lá chama-se Scully. Ele enviou um pombo-correio com a notícia da morte de Liam. O homem que encontrou o corpo é um agricultor. O nome do fazendeiro era Wendell Gatt. Sua fazenda é grande, cerca de cinco quilômetros a sudoeste do Castelo de Trelleth.
Os olhos de Will permaneceram fixos no mapa. Como Gilan, ele desconfiava de acidentes. Particularmente em um feudo do litoral como Trelleth. Feudos litorais eram vulneráveis a estranhos, a contrabandistas, piratas e assim por diante. Um litoral apresenta muitas oportunidades para intrusos.
— Não temos nada nos prendendo aqui — Will falou. — Começaremos amanhã.
Gilan assentiu com aprovação.
— Quanto mais cedo, melhor — ele disse. A frase poderia muito bem ser um dos lemas dos arqueiros, Will pensou. — Deem uma olhada e vejam se foi apenas um acidente.
Will voltou o olhar do mapa para o seu velho amigo.
— E se não tiver sido?
Gilan fez um pequeno gesto com a mão.
— Descubra por que alguém quereria um arqueiro morto. E quem é esse alguém.

7 comentários:

  1. Liam? Reconheço esse nome de outro lugar...kkkk

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  2. Respostas
    1. Liam era um dos aprendizes que Will aplicou testes no livro 6 ou 8, se não me engano

      -Ana

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    2. Então, esse aprendiz se tornou arqueiro, e agora morreu.

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  3. O Will lutou tanto até conseguir viciar Maddie em café! kkkkkkkk
    Ass: /bina

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  4. Eu gostaria de ser uma arqueira ♥
    Ass: Lua

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Boa leitura :)