8 de fevereiro de 2017

Capítulo 27

Eles chegaram à fazenda uma hora antes do anoitecer. Cavalgaram até o pátio e olharam para a pequena e dilapidada casa de fazenda. Fora construída a partir de lajes de casca de árvores e pau a pique, com telhado de palha cujas bordas eram só um pouco maiores que Maddie. Uma espiral de fumaça saía da chaminé.
Maddie fez um movimento para descer da sela, mas Will estendeu a mão para detê-la.
— Espere até que sejamos convidados — disse ele em voz baixa.
Maddie tomou nota. Como uma princesa, é claro, ela nunca tinha a necessidade de ser convidada. Ela sempre tinha assumido que fosse bem-vinda onde quer que fosse. Mas agora, ela esperou que Arnold e uma mulher que era, obviamente, sua esposa, saírem da casa da fazenda.
— Bem-vindo, arqueiro, bem-vindo. Esta aqui é minha esposa, Aggie. Aggie, este é o arqueiro, e a arqueira Maddie.
Aggie fez uma ligeira reverência, a ação reduzida por anos de trabalho duro e uma dor nas costas. Ela era tão magra quanto o marido e seu cabelo era cinza. Como Arnold, seu rosto tinha as marcas de anos de trabalho duro.
— Bem-vindos, arqueiros. Desçam, por favor. Gostariam de chá? Algo para comer, talvez?
— Obrigado, mas não, senhora Aggie — Will respondeu. Essas pessoas tinham pouco para sobreviver. Ele não queria privá-las ao compartilhar suas escassas provisões. — Vamos dar uma olhada neste galinheiro de vocês.
Ele e Maddie desmontaram. Como era seu costume, eles deixaram as rédeas de seus cavalos soltas. Cavalos de arqueiro não precisavam ser amarrados. Eles ficavam parados enquanto seus cavaleiros estivessem perto.
Arnold e Aggie Clum os levaram a um cercado considerável, a aproximadamente quinze metros de distância da casa. Tinha dois metros e meio de altura, construído de varas de salgueiro estreitas enfiadas verticalmente no chão e entrelaçadas com fios horizontais. A cada dois ou três metros tinha uma cerca mais substancial. Dentro estava empoleirado um casebre antigo, construído de pedaços estranhos de madeira e casca de árvore. Uma rampa inclinada ia do chão até ele, permitindo que as galinhas subissem até a entrada. A estrutura foi concebido para conter as galinhas e mantê-las seguras à noite. Não que isso parecesse funcionar, Maddie pensou. Eles entraram no espaço e Maddie se abaixou para olhar dentro do galinheiro. Havia filas de caixas no interior e ela ouviu o cacarejar fraco de galinhas, como se o som de seus movimentos as perturbasse.
Arnold apontou para a cerca mais distante da fazenda.
— Vem de lá de cima, rápido. Nada que eu faço o impede.
Will moveu-se para o ponto que o fazendeiro tinha indicado. Havia um bebedouro para animais naquele ponto e não era totalmente impermeável. Pingos de água caíam no chão, deixando-o úmido e macio. Ele estudou as pegadas na lama e acenou para Maddie.
— Veja isto. O que você acha?
Ela franziu o cenho. Ele tinha mostrado dezenas de pegadas nos meses passados. Ela não tinha certeza dessas.
— Uma fuinha, talvez? — ela respondeu. Ela estava meio adivinhando, porque sabia que era um predador de algum tipo e uma raposa não poderia ter escalado a cerca.
Will sacou a faca de caça e apontou para as pegadas.
— Vê ali? Há marcas de garras na frente das patas.
Ela olhou para ele, perguntando-se aonde ele queria chegar. Ele percebeu que não tinha explicado isso a ela antes, então continuou pacientemente.
— É uma marta-do-pinheiro — ele falou. — É como uma doninha ou um vison. Mas com uma diferença. As garras de uma marta se retraem apenas até a metade. Agora, você pode ver as marcas das garras em suas trilhas. Parece que temos um dos grandes.
— Ele é grande, tudo bem — disse Aggie com um veneno sincero em sua voz. — E bem rápido também.
— Bem, então vamos ver se podemos atrasá-lo um pouco — Will devolveu.


Eles encontraram um ponto na casa da fazenda onde o topo da cerca do galinheiro seria uma silhueta contra o céu da noite, e se estabeleceriam lá para manter a vigia. Eles esperaram que a luz se apagasse.
Arnold tinha lhes dito que a marta se tornara cada vez mais ousada durante a semana anterior, invadindo o galinheiro a cada um ou dois dias. Fazia dois dias desde que ela aparecera pela última vez, então as chances de verem-na esta noite eram boas.
Will pegou seu arco. Quando Maddie foi buscar o dela, que estava ao lado da sela, ele balançou a cabeça.
— Nesta época do ano, ele terá uma boa pele. Uma seta de ponta larga vai rasgá-la e arruiná-la. Portanto, use seu estilingue. Eu vou manter meu arco pronto para o caso de você perdê-lo.
Maddie olhou para ele, o queixo indo para cima.
— Eu não planejo perdê-lo — ela respondeu.
Will deu de ombros.
— Ninguém nunca deseja.
Estava frio após o pôr do sol e Maddie desejava envolver-se nas profundezas quentes do seu manto. Mas Will balançou a cabeça.
— Ele pode não ter medo de seres humanos, mas Aggie e Arnold disseram que é rápido como uma serpente. Nós só teremos segundos para você acertá-lo, e não podemos nos dar ao luxo de perder tempo nos desembaraçando de nossas capas.
Assim, ela empurrou a capa de volta por sobre os ombros para libertar os braços e ficou com uma carga já colocada na bolsa de couro.
Will mantinha uma seta encaixada no seu arco. Atrás deles, o volume escuro da casa da fazenda ajudaria a escondê-los de vista.
O sol tinha caído abaixo da copa das árvores, mas ainda havia luz refletindo nas nuvens quando Will gentilmente a cutucou. Uma forma escura correu para fora dos arbustos e através do chão do pátio. Estava abaixada no chão e se movia rapidamente.
Maddie tocou a mão dele, indicando que vira o predador.
Em seguida, ela viu como a marta correu para onde as galinha estavam e invadiu a cerca. Dentro do galinheiro, podia ouvir o cacarejar preocupado das galinhas como se elas pressentissem a chegada de seu inimigo.
Maddie puxou seu braço direito para trás, deixando a pedra balançar na bolsa do estilingue.
A marta hesitou no topo da cerca, equilibrando-se nas varinhas de salgueiro que balançavam, enquanto se preparava para saltar para outra. Quando ela fez isso, Will fez um estalo suave soar com a língua. A cabeça da marta virou enquanto ela procurava a fonte daquele som, e Maddie ergueu o estilingue para cima e girou, intensificando o tiro quando o soltou. A luz era fraca e era um pequeno alvo. Mas Maddie tinha arremessado centenas, se não milhares de vezes ao longo dos últimos meses, em todas as condições: no sol brilhante, na semiescuridão, em uma chuva torrencial.
A esfera de chumbo colidiu com o pequeno predador selvagem e arremessou-o para trás de cima da cerca. Ele caiu na terra macia do lado de fora do galinheiro com um baque surdo. Por um momento ou dois, suas pernas traseiras tremiam. Mas isto era simplesmente uma reação muscular. A marta estava morta.
— Boa jogada — Will disse calmamente.
Ele ficara impressionado. Tinha sido um tiro difícil e Maddie o fizera perfeitamente. Ele sabia que havia uma grande diferença entre a prática com um alvo sem vida e ser confrontado com um lançamento ao um alvo vivo com movimento rápido.
Em voz alta, ele chamou o casal de idosos na casa da fazenda.
— Ela o pegou.
A porta se abriu e um raio de luz caiu do outro lado da fazenda quando Aggie e Arnold emergiram. Maddie já estava se movendo em direção à forma inerte na base da cerca.
— Tenha cuidado — Will avisou. — Certifique-se de que ele está morto. Essas coisas podem morder através de suas luvas.
Ela acenou com a mão em reconhecimento e se aproximou do animal com mais cuidado. Ela puxou sua faca de caça e cutucou-o experimentalmente. Mas não houve reação.
A marta era um grande problema, ela percebeu, mais como um cão pequeno do que um grande gato. Obviamente, por causa da dieta de frangos e ovos. A pele era grossa e brilhante também. Ela se ajoelhou ao lado da marta, reembainhou a faca e tirou outra pequena de esfolar da bolsa do cinto. Rapidamente esfolou o animal, cortando o espesso pelo brilhante para longe do corpo. Will observou com aprovação. Esfolamento era uma arte que ela já tinha habilidade quando veio a ele.
Ela se levantou e caminhou de volta para onde eles estavam esperando por ela, a pele pendurada em uma das mãos. Então ela estendeu para o fazendeiro e sua esposa.
— Aqui, senhora Aggie. Você pode fazer disso uma cobertura mais quente para o pescoço ou um chapéu para o inverno.
— Mas ela é sua — Arnold protestou. — Você o matou. A pele é sua.
 Essa era a regra da caça, ele sabia. O caçador bem-sucedido ficava com a pele para si mesmo. Ou mesma.
— E eu sou livre para fazer o que quiser com ela — Maddie sorriu, segurando a pele. Hesitante, Aggie a pegou. — Você vai ter que salgá-lo — Maddie continuou. — Sabe como fazer isso, não é?
— Oh sim. Eu sei como fazer isso, tudo bem — disse Aggie. Ela olhou com admiração para a pele em sua mão. Era uma bela peça. Peles assim eram para a nobreza, para os ricos. Não para os agricultores pobres, como ela. — Obrigada, arqueira Maddie. Obrigada. Esta é uma peça de pelagem para uma senhora fina, é isso.
Ela passou a mão gasta pelo trabalho sobre a pele macia. Ela poderia fazer um chapéu. Ou poderia trocá-la no próximo dia de mercado por dois bons casacos de lã para ela e seu marido. O presente de Maddie iria mantê-los aquecidos no próximo inverno.
— Você é uma senhora fina — Maddie respondeu a ela. Ela olhou para Will. — Podemos ir agora?
Eles cavalgaram de volta para a cabana em silêncio. Will estudava a jovem menina ao seu lado minuciosamente.
Ela veio a ele como uma arrogante, egocêntrica e egoísta princesa, pensando apenas em si mesma e seu próprio prazer. Gradualmente, ele tinha visto a sua transformação. Claro que o episódio com o vinho foi um passo para trás. Mas todos cometemos erros, ele pensava. Sorrindo, ele relembrou vários de seus próprios dias como aprendiz.
Mas seu gesto não premeditado, esta noite, entregando a valiosa pele para a esposa do agricultor pobre, apresentou um crescimento e uma maturidade que lhe deu um brilho especial. Finalmente, ele falou.
— Foi uma coisa boa que você fez.
Ela olhou para ele.
— Você viu as roupas dela? Elas eram velhas, esfarrapadas e remendadas. Pelo menos agora ela terá um item quente para o inverno.
Ele acenou com a cabeça.
— Sim. Ela vai.
Mas a velha Maddie, a princesa Maddie, não teria sequer notado o estado das roupas de Aggie, e muito menos faria a conexão que ela sentiria frio no inverno.
Acho que ela vai trabalhar muito bem, ele pensou consigo mesmo.
Puxão sacudiu a crina e bufou. Eu sempre soube que ela iria.

Um comentário:

  1. Posso ser sincera!? Não gostava da Cassandra, e realmente, não gosto nadinha da Meddie. Só estou aturando-a porque ela está fazendo bem ao Will.

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Boa leitura :)