8 de fevereiro de 2017

Capítulo 26

Nos últimos anos, Maddie refletia muitas vezes em como o menor evento poderia ter o mais profundo resultado. Quatro dias se passaram desde que ela tinha acordado com cegueira e uma ressaca nauseante. Seu corpo jovem já tinha expulsado os venenos bebidos naquela noite terrível e agora ela estava de volta ao normal e pronta para qualquer atividade.
Embora ela se sentisse fisicamente melhor, a memória da ressaca
continuava, e ela prometeu nunca mais beber álcool.
Ela se desculpou com Will pela maneira como agiu e ele tinha assentido em silêncio, aceitando suas palavras. Mas, como ele, ela sabia que sua promessa eram apenas palavras, e as palavras eram fáceis de ignorar. Ações eram mais difíceis, e ela resolveu mostrar a ele quão verdadeira e sincera suas palavras de desculpas eram. Ela aplicou-se ao seu treinamento e suas lições com uma nova diligência.
Ele observou isso, mas não disse nada. Esperaria para ver quanto tempo
esta nova energia e aplicação iria durar. Era cedo ainda.
Eles estavam terminando o almoço quando houve uma batida na porta da cabana. Alguns minutos antes da batida, Puxão e Bumper tinham relinchado ambos dando um alerta no estábulo quando sentiram alguém se aproximando da cabana. Se era um inimigo ou não, eles não tinham idéia, já que seu aviso era neutro. Por outro lado, Sable estava do lado fora em sua posição habitual no final da varanda, e ela não fez nenhum som. Isso indicou a Will que quem se aproximava não representava nenhum perigo.
Ele levantou-se e se moveu-se para a porta. No último momento, contorceu sua capa para o lado a fim de libertar o cabo de sua faca de caça. Então ele agarrou a fechadura com a mão esquerda e abriu a porta. O movimento foi intencionalmente repentino, projetado para dar-lhe uma visão imediata de toda a área de varanda – apenas caso de alguém estivesse escondido de algum lado, fora de vista. Os animais podiam ter detectado qualquer ameaça, mas eles eram animais. Eles não eram infalíveis.
Nesta ocasião, no entanto, eles se mostraram corretos. A pessoa do lado de fora da porta dificilmente poderia ser descrita como ameaçadora. Ela saltou para trás em surpresa quando a porta se abriu, assustada com o súbito movimento.
Era um homem pequeno, menor do que Will e dolorosamente magro. Seus braços eram como varas, embora houvesse músculo ali. Ele, obviamente, ganhava a vida pelo trabalho duro. Ele tinha os ombros inclinados e seu cabelo estava começando a diminuir a partir de sua testa. Seu rosto tinha rugas. Maddie estimou sua idade em torno de sessenta anos, alguém que passou anos de trabalho duro do lado de fora – na chuva, no granizo ou no sol. Ele usava uma roupa de fazendeiro – esfarrapada e remendada em muitos lugares – e levava um chapéu de feltro disforme em suas mãos.
— O que posso fazer por você? — Will perguntou.
O homem balançou a cabeça nervosamente. Ele nunca tinha ficado tão próximo de um arqueiro e estava achando a experiência um pouco inquietante.
— Aah... hmmm... desculpe incomodá-lo, arqueiro. Não quis perturbá-lo ou nada assim... — ele falou, hesitante.
Will decidiu não responder com o óbvio: Se não queria me perturbar, por que bateu em minha porta? Ele sentiu que tal resposta confundiria o homem ainda mais e o deixaria mais nervoso do que já estava.
— Você precisa de algum tipo de ajuda? — Will perguntou.
O fazendeiro pensou na pergunta, girando o seu chapéu diversas vezes.
— meu nome é Arnold, arqueiro. Arnold Clum da fazenda Carvalho Fendido — ele apontou por cima do ombro com um movimento de cabeça. — Cerca de dez quilômetros ao sul.
Um nome impressionante para o que era, provavelmente, uma fazenda inexpressiva, a julgar pelo estado da roupa de Arnold e sua dieta pobre. Will percebeu que Arnold, como a maioria dos compatriotas, tomaria o caminho mais longo para responder à pergunta.
— Cultivei lá a maior parte da minha vida — Arnold Clum continuou, confirmando as suspeitas de Will sobre respostas desviadas. — Não é uma grande fazenda, perceba. Apenas uma pequena área de terra. Temos plantado alguns legumes, não muitos. O solo é rochoso lá fora. E nós mantemos algumas ovelhas. Principalmente, porém, dependemos das galinhas. Minha esposa cuida delas.
Maddie se levantado da mesa e se moveu para ficar um pouco atrás de Will. Arnold Clum a notou e balançou a cabeça, tocando uma aba do chapéu imaginário. O chapéu, afinal, estava em sua outra mão.
— Boa tarde, senhorita — disse ele educadamente.
Ele olhou para ela, confuso. Ela estava vestida como um arqueiro, mas ela era uma menina. Ele encontrou dois fatos concretos para conciliar.
— Maddie é minha aprendiza — Will falou, como explicação. — Você pode chamá-la de “Arqueira Maddie”.
— Ah, sim, também... boa tarde, arqueira Maddie — disse Arnold.
Maddie sorriu para ele. Ela decidiu que gostava de ser referida como arqueira Maddie. Sentia que lhe dava certa deferência – embora não estivesse totalmente certa sobre o que “deferência” poderia ser. Era um termo que ela tinha ouvido certa vez e imaginou que poderia ter algo a ver com “prestígio”.
— Temos talvez vinte, trinta galinhas e um galo — Arnold continuou, voltando sua atenção para Will mais uma vez. — Nós mantemos os ovos, é claro, e de vez em quando matamos um para cozinhar. É agradável ter um pouco de carne de vez em quando — acrescentou.
Inconscientemente, ele lambeu os lábios com a ideia de uma galinha cozida na panela. Sua expressão era tão melancólica que Will estava disposto a apostar que “de vez em quando” não era mais do que uma vez por mês.
— Galinhas podem ser úteis dessa forma — Will concordou, na esperança de que a narrativa andasse um pouco mais rápido.
Arnold Clum acenou várias vezes.
— Sim. Animais úteis, as galinhas. Você pode criá-las praticamente em qualquer lugar.
— Eu nunca tentei — disse Will.
Arnold deu de ombros e olhou para ele, com a cabeça inclinada para o lado.
— Sim, bem, você deveria. Galinhas morrem facilmente. Só precisa de um pequeno pedaço de terra para elas andarem ao redor. Elas gostam de andar. Depois, você pode alimentá-las com qualquer tipo de restos e...
— Você está tendo algum problema com as suas galinhas? — Will perguntou.
Arnold parou no meio da frase e olhou para ele, a boca ligeiramente aberta.
— Como você sabe?
Will suspirou. O homem disse que precisava de ajuda e, obviamente, as suas galinhas eram as criaturas mais importantes da sua vida. Era lógico pensar isso. E era a lógica seguinte supor que o problema tivesse a ver com algum tipo de predador. Afinal, se as galinhas estivessem doentes, ele não procuraria um arqueiro para obter ajuda. Um boticário seria uma aposta melhor.
— Algo está pegando suas galinhas? — Will perguntou.
A boca de Arnold se abriu um pouco mais.
— Vocês arqueiros são sinistros! — disse. — É verdade o que dizem. Venho para cá pedir ajuda e imediatamente você sabe que há algum bicho tomando minhas galinhas e comendo meus ovos.
Não é bem assim de imediato, Will pensou. Mas ainda assim, a perda de galinhas e ovos seria um assunto sério para alguém como Arnold. A julgar pelo seu corpo desnutrido, ele recebia pouco, apenas o suficiente para comer.
— Eu os vi algumas vezes, geralmente ao anoitecer — Arnold falou. — Tem o tamanho de um cachorro pequeno. E é rápido como uma serpente. Eu não consigo impedi-lo. Tenho uma lança velha, mas não sou grande coisa com ela. Ele vem e vai como bem entender. Não tem nenhum medo de mim. Minha esposa, Aggie, ela me disse: “Arnold, vai buscar o arqueiro. Ele vai saber como lidar com isso!”
— Provavelmente uma doninha ou um arminho — Will falou, pensativo. Ele podia imaginar o problema que Arnold teria tentando matar a criatura de  movimentos rápidos só com uma lança velha e mãos trêmulas.
— Provavelmente sim — Arnold concordou. — Mas ele é grande. Veja bem, ele deve ser maior que o normal, visto o número de meus ovos que ele está comendo!  — acrescentou com sentimento.
Will assentiu com simpatia.
— Bem, é melhor ver o que podemos fazer. Sairemos esta tarde. Não há necessidade de você perder mais ovos. Agora, explique-me como chegar À sua fazenda.
Arnold deu-lhe as direções, em seguida, partiu. Ele estava montando um cavalo ossudo de arar sem sela. O cavalo parecia cansado e velho como seu proprietário.
— Pensei em deixá-lo ir à nossa frente — Will contou a Maddie. — Os fazendeiros gostam de falar quando conhecem alguém novo e achei que assim nos pouparia.
— Será que realmente vale o nosso tempo? — perguntou Maddie. — Quero dizer, montar até aqui por apenas alguns ovos?
— São apenas alguns ovos para nós. Para ele, é uma questão de comer ou ficar com fome. E, olhando para ele, eu diria que ele tem feito muito da última opção.
Maddie franziu os lábios, pensativa.
— Oh. Eu vejo.
— É parte do que fazemos, Maddie — Will disse a ela. — Nós ajudamos pessoas em apuros. Quer se trate de rastreamento de salteadores e prender assassinos, ou salvar os ovos de um fazendeiro. Arqueiros estão aqui para servir o povo.
— Eu não tinha pensado nisso dessa forma. Então, nós devemos segui-lo agora?
Will balançou a cabeça.
— Ainda não. Eu não gostaria de alcançá-lo. Eu vou ajudá-lo, mas não quero ter que ouvi-lo.

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