8 de fevereiro de 2017

Capítulo 25

De alguma forma, Maddie conseguiu encarar o resto do dia esgotante.
Tomou banho novamente. Desta vez, ela teve tempo para acender o pequeno fogão, de modo que a água estava quente quando caiu em cascata sobre ela. Ela engasgou e gaguejou quando derrubou o balde sobre si. Mas a água quente em sua nuca ajudou a dissipar a terrível dor de cabeça. Ela se secou e vestiu roupas limpas, era só um resto sem brilho de seu guarda-roupa anterior.
Will a observava enquanto voltava do banheiro. Ele sentiu que talvez ela tivesse aprendido a lição. Ressacas tinham uma maneira de ensinar as pessoas que o consumo de álcool não era uma boa ideia.
Depois de trabalhar com tanta força na parte da manhã com a divisão de registro, a pista de obstáculos e a prática de tiro com arco, ele cedeu um pouco e deu-lhe uma tarde fácil. Ele lhe atribuiu a tarefa de lavar a própria roupa – ela mudara de vestimentas duas vezes naquele dia e suas roupas descartadas estavam manchadas com suor e coisas piores. Ela também teve que consertar o rasgo no joelho de sua calça e lavar o sangue seco lá. Então, ele lhe apresentou ao código do Courier – baseado em uma grade de letras – e definiu vários exercícios para fazer.
Os números sobre a página estavam borrados e um pouco fora de foco, e a dor de cabeça surgiu de novo enquanto se concentrava neles. Mas apesar de tudo, era preferível aos esforços da manhã. Maddie terminou um conjunto de exercícios de código e entregou a ele. Will passou por eles rapidamente, fez algumas correções, depois resmungou. Ela estava um pouco decepcionada. Normalmente, quando ela se saía bem em uma tarefa – e ela sentiu que tinha feito bem nessa – ele murmuraria algumas palavras de louvor. Mas não hoje.
Perdi a sua confiança, ela pensou miseravelmente, e se perguntou se eles jamais atingiriam o nível de camaradagem que tinham começado a desenvolver. Provavelmente não, pensou sombriamente.
Eles tiveram um ataque de discórdia naquela tarde. O sol tinha afundado atrás das árvores e Maddie acendeu as três lâmpadas à óleo que forneciam luz para a cabana. Quando ela ajustou o último pavio, Will falou.
— Há uma coisa — disse ele. — Eu quero os nomes de seus companheiros na noite passada.
Ela olhou para cima com medo. O rosto dele estava sério e determinado. Mas ela não podia cumprir a sua ordem.
— Eu... Eu não posso fazer isso. Não me importo se me punir, mas não vou trair os meus amigos.
Ele estudou-a severamente por alguns segundos, então balançou a cabeça lentamente.
— Bem, eu aplaudo sua lealdade para com os seus amigos, se não a sua sabedoria — ele respondeu. — Mas suponho que não foi você quem conseguiu aquele barril de vinho na noite passada?
Ela balançou a cabeça. Sentiu que poderia chegar a esse ponto sem trair os outros. Mas ela não iria lhe contar quem tinha trazido o barril para a festa.
— Quem o fez deve ser punido — ele falou, e ela balançou a cabeça mais uma vez.
— Eu não vou dedurá-los — ela permaneceu firme.
— Hmmm — disse ele severamente.
Na verdade, ele não precisava dela para saber os nomes. Levaria menos de meia hora para encontrá-los. O rosto dos três estava gravado em sua memória. Ele os reconheceria quando os visse, e os denunciaria aos seus pais. Eles precisavam ser disciplinados, assim como Maddie tinha sido. Mas ele estava contente de que ela não tivesse tentado obter favores dele ao informar os nomes. A lealdade podia ser equivocada, mas a recusa mostrava força de caráter.
— Você tem que perceber, Maddie, que, como arqueiros, precisamos manter um certo sentido de... distanciamento das pessoas.
Ela inclinou a cabeça.
— Distanciamento? — ela perguntou.
— Há uma aura mística sobre os arqueiros — ele explicou. — E nós precisamos mantê-la assim. Você precisa do respeito daqueles que a cercam. É bom ter amigos, mas vamos dizer que um dia você precise disciplinar uma daquelas crianças que estava com você na noite passada. Ou pedir que eles façam alguma coisa. Você precisa que eles pensem em você como Maddie, a arqueira, e a obedeçam imediatamente, sem pensar. Eles não podem vê-la como Maddie, a menina boba que caiu bêbada com eles uma noite.
Ela considerou isso.
— Você está dizendo que eu não posso ter amigos?
Ele começou a dizer não, então reconsiderou.
— De certa forma, sim, estou. Pode ser amigável com eles, mas não pode deixá-los tornar-se muito familiarizados com você. É um dos sacrifícios que fazemos como arqueiros. Nossos amigos tendem a ser outros arqueiros.
— Mas minha mãe e meu pai são seus amigos — ela apontou, e Will acenou com a cabeça, aceitando o argumento.
— Nossa amizade foi forjada através de várias situações perigosas. Tivemos que depender e confiar uns nos outros. Minha vida esteve muitas vezes nas mãos de seu pai. E na de sua mãe — ele acrescentou. — Essa é uma base melhor para a amizade do que se esgueirar por aí bebendo vinho roubado por trás dos estábulos.
— Acho que sim — ela concordou.
Ela podia ver o motivo dele. Gostava do prestígio e respeito que tinha ganhado como aprendiza de arqueiro. Ela tinha visto como as pessoas olhavam para ela. E podia ver como uma escapada estúpida como a da noite anterior poderia destruir esse respeito.
— É hora de crescer, Maddie — ele finalizou.
— Suponho que seja — respondeu ela.
Ela foi para a cama cedo naquela noite, pouco depois de terem terminado de comer as simples tiras de carne grelhadas e batatas cozidas na manteiga. Will também preparou uma salada de amargas folhas verdes, temperando-a com um molho leve e adstringente. Era tudo simples, comida nutritiva, calculada para afastar os últimos vestígios de sua terrível ressaca. Quando ela terminou e levou sua bandeja para a bacia da cozinha, Will fez um gesto para o bule.
— Gostaria de uma xícara? — perguntou ele.
Ela hesitou, mas depois lembrou-se da maravilhosa sensação de alívio que sentiu desde o leitoso e doce café doce no início do dia.
— Por que não? — ela respondeu.
Ele virou-se para esconder um leve sorriso enquanto servia uma xícara para ela, em seguida, acrescentou leite e mel. Ela esvaziou o copo, maravilhada com a forma como o líquido sumiu com os últimos vestígios remanescentes de sua dor de cabeça. Em seguida, ela bocejou.
— Acho que vou para dentro.
Ele assentiu. Ele virou a cadeira para a lareira e ficou olhando para as chamas contorcendo-se.
— Boa noite — ele despediu-se.
Ela fez seu caminho para o quarto, bocejando continuamente. Sua cama nunca fora tão acolhedora.


Era bem depois da meia-noite quando ela acordou. A lua tinha deslizado de um dos lados da cabana para o outro, agora inclinada pela janela na direção oposta de onde estava quando ela adormeceu.
Ela se perguntou o que a tinha acordado. Algo havia penetrado em seu sono, ela tinha certeza. Ela ainda estava deitada, segurando a respiração por alguns segundos. Em seguida, ela ouviu. O murmúrio de vozes. Ela sentou-se, em silêncio, e moveu os cobertores para o lado. Uma parte de sua mente registrou o fato de que a dor de cabeça maçante finalmente foi embora. Ela olhou para o vão sob a porta do quarto. Não havia nenhuma luz vinda de lá. As lâmpadas na sala de estar estavam apagadas, embora ela pudesse distinguir um lampejo monótono feito pelas brasas no fogo.
Ela virou a cabeça e escutou atentamente. Lá estava de novo. Vozes. Ou, mais corretamente, uma voz, baixa e quase inaudível. Se não fosse pelo silêncio da madrugada, ela poderia não tê-lo ouvido falar. Maddie se levantou e dirigiu-se para a porta, abrindo-a facilmente. As dobradiças estavam bem lubrificadas e não fizeram nenhum som – arqueiros gostavam dessa maneira. Ela sorriu com o quão discretamente conseguia se mover agora. Depois de meses de treinamento com Will, ela tinha aprendido a andar levemente, evitando obstáculos e aprendendo onde as tábuas que rangiam estavam localizadas.
Ela entrou silenciosamente na sala de estar, então franziu o cenho quando viu que a porta da frente da cabana estava aberta. Isso era incomum. Will sempre se certificava de que a porta estava trancada por dentro quando se preparava para a noite. Voltando para o quarto, ela chegou ao local onde sua bainha pendia de um pino na parede e silenciosamente puxou sua faca de caça. Em seguida, fez seu caminho para a porta da frente, evitando as três tábuas soltas que estavam ali para criar um ranger alto de madeira contra madeira e avisar de qualquer intruso.
A voz murmurando podia ser ouvida mais claramente agora. Parecia estar vindo do final da varanda – o local que Sable geralmente ocupava. Maddie olhou cautelosamente ao redor da porta aberta, pronta para recuar imediatamente se alguém estivesse olhando em sua direção, tomando cuidado para não tocar na própria porta. A parte inferior da porta arrastava contra as tábuas do piso da cabana. Originalmente, ela tinha pensado que fosse outro motivo de desleixo, até Will explicar que era outro dispositivo de alarme, caso alguém tentasse entrar. Ao contrário das portas interiores, esta fora projetada para ser barulhenta. Para abrir a porta silenciosamente, era preciso levantá-la em suas dobradiças. O que, obviamente, era o que Will tinha feito. Ela podia vê-lo sentado, de costas para ela, à beira da varanda. Sable estava sentada ao lado dele, apoiando seu corpo quente contra ele, a cauda movendo-se em varreduras lentas no assoalho da varanda enquanto Will falava com ela, despejando seus problemas.
— ... eu sinto tanta falta dela, menina. Acordo de manhã e acho que ela vai estar lá. Ou entro em uma sala e espero vê-la. Então eu me lembro que ela se foi, e meu coração quer se partir novamente.
Ele está falando de Alyss, Maddie percebeu. De repente, ela se sentia como uma intrusa, ouvindo os pensamentos privados de Will. Ela queria se afastar e rastejar de volta para a cama. Mas ela não teve coragem de fazê-lo. A curiosidade levou a melhor sobre ela.
— Ela era tudo para mim, garota. Tudo.
A cauda de Sable rodou em um baque simpático contra as tábuas. Will colocou o braço em volta dela, puxando-a para mais perto, enterrando o rosto no pelo espesso de seu pescoço.
— Oh Deus, como eu sinto falta dela. É como se houvesse um buraco enorme na minha vida. Mas eu não posso chorar por ela. Eu nunca chorei por ela e isso dói muito. Por que eu não posso chorar, Sable?
Mais uma vez, Sable contraiu o rabo pesado com entendimento. Will ficou em silêncio por um minuto mais ou menos.
— Pauline diz que vai doer menos com o tempo. Será mais fácil de suportar. Mas quando isso vai acontecer? A dor parece ser tão fresca, tão profunda, a cada dia que passa.
Maddie, envergonhada por sua espionagem, virou-se para ir embora. Mas as palavras seguintes de Will a pararam.
— Graças a Deus por Maddie. Pelo menos ela me dá alguma coisa para levar minha mente longe da dor e do sofrimento. Ela é o único ponto brilhante em minha vida.
Eu, ela pensou. Eu sou um ponto brilhante em sua vida?
— Se ela passar por essa bobagem atual e se estabelecer, ela poderia ser uma excelente arqueira. Ela é inteligente. Pensa rápido e é ótima já em tiro – particularmente com a profundidade. Ela poderia abrir caminho para várias garotas na Corporação. É uma pena que eu só a tenha por um ano.
Maddie balançou a cabeça maravilhada. Ela não tinha ideia de que Will pensasse dela tão bem. Ele certamente não tinha lhe dado nenhum sinal.
— Bem, é tarde, garota. Vou para a cama. Obrigado por escutar.
Maddie ouviu o baque pesado da cauda de Sable nas tábuas mais uma vez. Em seguida, ela ouviu os sons de Will se elvantando. Movendo-se em silêncio, ela fugiu do outro lado da sala para a porta. Ela tinha quase se fechado em seu quarto quando ouviu Will erguer a porta da frente para voltar a entrar na cabana. Então o clinc suave da trava fechada. Vagamente, ouviu o tum-tum de Sable deslizando suas patas dianteiras pelo piso logo antes de Maddie deslizar para baixo dos cobertores para uma posição deitada.
Maddie esperou até Will tinha cruzado até seu próprio quarto. Quando ele fechou a porta com cuidado, ela combinou sua ação, de modo que qualquer pequenos sons de sua própria porta seria coberto pelo seu. Ela se deitou cuidadosamente sobre a cama e puxou as cobertas até o queixo. Era uma noite fria e ela estava com frio. Ela estremeceu uma vez, depois relaxou. Ela ficou deitada por um longo tempo com os olhos abertos, pensando sobre o que tinha ouvido. Eventualmente, ela foi dormir. Mas uma firme resolução tinha se formado em sua mente. Ela iria fazer as pazes por seu comportamento com os três adolescentes da vila. Ela nunca deixaria Will daquele jeito de novo. E ela iria recuperar a sua confiança nela.

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