8 de fevereiro de 2017

Capitulo 23

— Eu não vou demorar — Will falou quando parou na porta. — Halt e Pauline não ficam acordados até tão tarde nos dias de hoje.
Maddie olhou por cima de sua refeição. Will parecia um pouco culpado, sabendo que desfrutaria do jantar da cozinha de Mestre Chubb no castelo. Os dotes culinários de Maddie estavam melhorando, mas eles ainda estavam na fase rudimentar. Assim, ele tinha arranjado para ela uma refeição a ser entregue do restaurante de Jenny. Ela comeu outro tanto do salgado cozido de carne com especiarias de seu prato, e acenou com a cabeça enquanto mastigava e engolia.
— Eu provavelmente vou estar dormindo — ela disse a ele. — Estou ansiosa por dormir uma noite mais cedo.
Eles tiveram um longo dia, montando para muito longe e praticando perseguição e rastreamento, além de seus exercícios diários normais com arco, facas e estilingue. Ela fingiu um bocejo agora.
Will pegou a capa pendurada num prego da porta e colocou-a em volta dos ombros.
— Sable estará aqui de qualquer maneira, caso você precise dela — disse ele. — Mantenha a porta trancada por dentro.
Maddie assentiu. Havia um mecanismo de liberação escondido que podia ser usado para destrancar a porta do lado de fora, mas um visitante aleatório ou intruso não saberia sobre isso. Ela fez um gesto de enxotar com a mão, vendo que Will parecia desconfortável em sair.
— Vá. Eu ficarei bem.
Ele tomou uma decisão.
— Tudo certo então — ele disse, e saiu.
Maddie ouviu seus passos suaves pela varanda enquanto ele caminhava para a parte de trás da cabana, onde ficava o estábulo com os cavalos. Puxão o cumprimentou com um relincho suave. Poucos minutos depois, ela ouviu os pequenos cascos do cavalo enquanto Will passava pela cabana à caminho do Castelo Redmont. Uma vez que o som de cascos desapareceu e ela estava certa de que ele tinha ido embora, o fingido cansaço desapareceu e ela começou a se mover com maior urgência. Levantando-se, ela pegou a tigela de sopa pela metade e jogou o conteúdo no balde de lixo. Estava ansiosa para as tortas e espetinhos de cordeiro que Lucy tinha prometido e, saboroso como um cozido pode ser, ela queria manter seu apetite afiado.
Ela olhou para o balde de lixo e notou que o ensopado de carne estava visível demais, jogado em cima dos outros conteúdos e tornando-se evidente que ela não tinha comido quase nada. Pegando a concha do pote que continha o resto do ensopado, ela misturou o conteúdo do lixo até que o cozido foi misturado e escondido da vista casual.
Ela deu um passo para trás e examinou seu trabalho, em seguida, balançou a cabeça, satisfeita.
Entrando em seu quarto, ela pegou o pacote de sela que usava para transportar seu equipamento de acampar, enrolou em um cilindro e colocou-o em sua cama, puxando os cobertores por cima dele. Ela inclinou a cabeça enquanto estudava. Parecia muito rígido e regular, ela decidiu, então puxou os cobertores para baixo, dobrou um pouco o pacote no meio, então enrolou um lençol extra e colocou em ângulo na parte inferior do pacote, de modo que a aparência geral era de uma pessoa com as pernas dobradas. Muito mais realista, ela decidiu, e puxou os cobertores novamente, colocando-os ao redor do travesseiro alto para esconder o fato que não havia cabeça descansando ali. Se Will olhasse para ela quando chegasse em casa, seria apenas um olhar superficial, ela pensou. O pacote e o lençol enrolados deviam passar a ideia certa.
Ela apagou a lanterna em seu quarto e correu para a porta da frente. Era uma segunda natureza para ela vestirr sua capa ao redor dos ombros quando saía. A fechadura de trava simples fechou atrás dela. Sem pensar, ela se virou para o estábulo, em seguida, se conteve. Will estava montando Puxão, o que significava que ele colocaria seu cavalo no estábulo quando chegasse em casa. Se Bumper não estivesse lá, seria uma pista mortal de que ela tinha saído. Ela virou-se para trás. Bumper, que tinha ouvido seus passos pararem, relinchou uma vez, um tom de censura.
— Desculpe, garoto — disse ela em voz baixa. — Você não pode vir hoje à noite.
Sable estava deitada, cabeça sobre as patas, à beira da varanda. Levantou-se com expectativa. Mas Maddie acenou com a mão para ela para ficar.
— Você também, menina — ela disse. — Fica.
Sable deitou de novo, cobrindo os últimos centímetros com uma espécie de baque com as suas patas, deslizando sobre o assoalho e gemendo baixinho quando o fez. Maddie deu uma última olhada ao redor. A lanterna ao lado da porta estava virado para baixo, do jeito que Will deixava todas as noites. Dessa forma, lançava iluminação suficiente sobre os degraus e a porta no caso de um visitante inesperado. Então ela virou-se e correu pelo caminho escuro por entre as árvores, indo para a Vila Wensley.
Ela ficou nas sombras à beira da rua, enquanto chegava à vila. O restaurante do Jenny era um dos primeiros edifícios na rua. Ele estava muito bem iluminado e ela podia ouvir o alto murmúrio de vozes de dentro. O restaurante era um local popular em Wensley e em uma noite de sábado era provável que atraísse clientes do campo e ao redor da aldeia também. Ela se manteve no extremo lado da rua quando passou, abraçando a capa ao redor dela enquanto movia-se através das sombras.
Confie na capa, Will tinha dito a ela repetidamente. Ela não estava certa de que era com o intuito de ajudar com esse tipo de missão sorrateira em que ela estava.
Até onde ela podia dizer, ninguém notou. Isso não era surpreendente. Os clientes do restaurante estariam atentos a sua comida e sua conversa. E eles estavam em uma sala bem iluminada. Era altamente improvável que qualquer um deles pudesse notar a sombra fraca deslizando através das sombras por toda a rua.
Enquanto ela se aproximava da pousada da aldeia, o murmúrio de vozes do restaurante de Jenny se extinguiu, gradualmente substituído por outro som. Havia um menestrel viajante na estalagem, entretendo as pessoas que tinham escolhido ir lá para passar a noite. Enquanto ouvia, a música parou e houve uma explosão de aplausos. Seus amigos tinham escolhido uma boa noite para a sua festa, ela pensou. Havia muita atividade na aldeia para mascarar quaisquer sons que eles pudessem fazer.
Olhando para o estábulo situado além da pousada, ela podia ver o brilho opaco de uma pequena fogueira refletida nas paredes. Ela deixou-se passar pelo pátio. Lucy, Gordon e um outro amigo, Martin, estavam sentados em volta de uma pequena fogueira na parte traseira do quintal, um local que estava escondido de observadores casuais na rua. Se ela não soubesse sobre o fogo, provavelmente não teria notado a cintilação maçante nas paredes.
Mas ela notou o cheiro delicioso de cordeiro grelhado. Enquanto ela se aproximava, seus amigos a saudaram.
— Você está atrasada — Martin falou alegremente.
Ela encolheu os ombros em um pedido de desculpas.
— Tive que esperar até Will sair. Ele parecia demorar uma eternidade.
— Bem, você tem que recuperar sua parte — disse Gordon.
Ele tirou dois espetos escaldantes de carneiro do fogo, colocou-os em uma bandeja de madeira e passou para Lucy. Lucy acrescentou uma pequena torta no prato, que ela entregou junto. Maddie estava sentada de pernas cruzadas perto do fogo e pegou o prato. O cordeiro tinha um cheiro delicioso e sua boca estava salivando. Com cuidado, sabendo que a carne estaria quente, ela mordeu.
— Mmmmm! Isso está delicioso, Lucy! — Disse ela apreciativa.
Sua amiga brilhou com o elogio.
— Eles foram marinados por cerca de oito horas. Isso deixa agradável e macio.
— Aqui — disse Martin, entregando-lhe uma caneca de madeira. — Você pode lavá-los com isso.
Maddie pegou a caneca. Seu coração batia um pouco mais rápido quando ela cheirou o conteúdo. Ela poderia optar por dizer não agora e não haveria nenhum dano feito. Uma fuga para encontrar seus amigos era coisa de menor de idade. Mas beber vinho era outra questão. Isto era atravessar uma grande fronteira e, se ela fosse encontrada, não tinha dúvidas de que estaria em apuros.
Gordon a viu hesitar e adivinhou o motivo.
— Ele nunca vai saber — ele disse, sorrindo um desafio para ela.
De repente, ela decidiu, e tomou um profundo gole do vinho. Ele tinha um gosto pesado e um pouco azedo.
— Mmm, esse é muito bom! — Ela disse, querendo parecer sofisticada e experiente.
Na verdade, ela não tinha ideia se o vinho era bom. Tinha bebido vinho antes, em ocasiões especiais no Castelo Araluen, quando brindes oficiais estavam sendo feitos. Mas aquele vinho tinha sido fortemente regado e não parecia nada como este.
— Eu só consigo coisas boas — Martin concordou alegremente. Ele não tinha ideia, também. Na verdade, o vinho era de bastante má qualidade. Mas, como Maddie, ele queria parecer como se bebesse vinho todo o tempo e soubesse do que ele estava falando. — Aqui — ele acrescentou — tem um complemento.
Ele tinha decantado um pouco do vinho de um pequeno barril em um jarro. Ele estendeu agora e derramou mais em sua caneca, piscando conspiratório para ela.
— Taças para cima — ele disse, e por um momento ela ficou confusa, se perguntando o que ele queria que ela fizesse.
Então ela percebeu que ele estava falando sobre a caneca. Ela inclinou-a e bebeu profundamente. O segundo gole foi menos ácido, embora, para ser honesta, ela não pudesse ter dito que achou particularmente agradável.
Lucy e Gordon e beberam profundamente de suas canecas também. Maddie deu outra mordida no cordeiro, em seguida, uma grande mordida no pedaço de torta. A massa era diferente e deliciosa, e o recheio rico e temperado pareceu explodir sabor em sua boca. Talvez o vinho junto com alimentos desse um gosto melhor, pensou ela. Talvez fosse por isso que as pessoas tolerassem o sabor azedo.
Enquanto a noite passava, ela notou que o vinho parecia ter outras propriedades também. Parecia a melhorar a sua capacidade de conversar e de dizer coisas espirituosas. Ela encontrou-se rindo das investidas de Gordon e respondendo na mesma moeda. Nunca tinha se divertido tanto antes, pensou consigo mesma. Ela tinha acabado de fazer uma observação sobre o estalajadeiro de Wensley, e seu predileção por frituras. Parecia ser uma observação hilária.
Seus três amigos riram estrondosamente, e ela apenas conseguiu parar e evitar um risinho fanho quando se juntou a eles.
Ela olhou como uma coruja por sobre o fogo para Gordon. Seu rosto parecia estar nadando dentro e fora de foco. Deve ser o efeito das chamas, ela pensou.
— Sobrou algum vinho? — Ela perguntou a Martin.
Ele estendeu a mão para o jarro e se desequilibrou quando fez isso, por pouco evitando de cair sobre o fogo. Todos eles uivavam de tanto rir. Maddie pôs o dedo para os lábios em um gesto de advertência.
— Shhhhhhhh! — disse ela. — Alguéeimm vai nos ouvir — ela fez uma pausa, um pouco confusa, então acrescentou: — Será que eu diiisse alguéeiimm?
— Você ceertamente falou — Gordon confirmou.
— E você diiisse “diiisse” também — Lucy acrescentou, e todos eles explodiram com o riso novamente.
Maddie balançou para trás e para frente, em seguida perdeu o equilíbrio também. Ela tombou para o lado e deitou na terra do estábulo. Sentar-se novamente parecia depender muito esforço, então ela tirou a capa de seus ombros e fechou os olhos.
— Ninguém pode me ver — ela riu. — Confiiie na capa.
Uma profunda graça fez todos gargalharem mais uma vez.
— O que você pensa que está fazendo?
A voz de Will cortou suas risadas, fria e com raiva. Ela abriu os olhos e olhou para cima. Ele estava de pé sobre ela, sua figura encapuzada e camuflada delineada contra o céu escuro da noite. Ela ouviu o suspiro rápido de medo de Lucy. As pessoas comuns da aldeia sabiam que arqueiros não eram pessoas para brincadeiras. O riso de Gordon e Martin tinha morrido À distância e eles se sentaram, olhando com medo para a figura escura confrontando-os. A sombra do capuz escondia o rosto de Will, o que o fez parecer ainda mais ameaçador. Eles já o tinham visto antes, é claro, andando pela aldeia ou sentado no restaurante de Jenny.
Mas aqui e agora, no escuro, envolto por sua capa e com a fúria evidente em sua voz, ele era uma figura assustadora, de fato.
— Sente-se, Maddie — ele ordenou, sua voz fria.
Ela arranhou no chão buscando equilíbrio, se enroscou em sua capa e, finalmente, conseguiu apoiar-se nas mãos até que ela estava sentada na posição vertical – embora ela balançasse perigosamente.
Todos os quatro adolescentes olhavam ansiosamente para cima em direção ao arqueiro. Will levantou a mão e estalou os dedos em direção a Gordon.
— Dê-me o barril — ele exigiu.
Gordon apressou-se a obedecer, quase deixando cair o barril de vinho em sua pressa. Will deu um passo à frente e o pegou. Ele balançou o barril experimentalmente. Estava com pouco menos que um quarto de vinho e eles podiam ouvir o vinho chapinhar no seu interior.
Sem aviso, Will ergueu o barril sobre a cabeça e arremessou-o com toda a força para o chão. O barril se quebrou em pedaços, pequenas tábuas de madeira ricocheteando para cima, o vinho restante espalhando-se em uma explosão de líquido. O movimento foi tão inesperado, tão violento, que novamente Lucy deixou escapar um pequeno berro de medo. Os dois meninos levaram um susto também. Will apontou o dedo para os três, movendo de um para o outro enquanto falava.
— Seus pais vão ouvir sobre isso — disse ele.
Lucy levantou-se de joelhos, suplicando-lhe, enquanto as lágrimas começaram a escorrer de seu rosto.
— Por favor, arqueiro Will, não conte à minha mãe. Ela vai me bater terrivelmente se souber.
Se seu pedido tivesse sido feito para gerar qualquer piedade no coração de Will, ela falhou miseravelmente. Ele olhou rapidamente para ela, em seguida, assentiu.
— Bom — ele disse. Então ele olhou para Maddie, mais uma vez sentada, balançando um pouco de lado a lado. — De pé, Maddie. Estamos indo para casa.
Ela levantou-se desajeitadamente. Se ela tinha encontrado dificuldades para se sentar direito, ficar de pé era ainda mais difícil. Ela balançou, tentando desesperadamente obter equilíbrio. Mas algo a estava impedindo. Algo estava fazendo o mundo girar ao redor dela. Ela percebeu que estava ajoelhada sobre sua capa, libertou-se e cambaleou em pé.
Will apontou com o polegar em direção à entrada para o quintal.
— Em seu caminho — disse ele. Então ele olhou para os outros. — Vocês três para casa também. Agora!
Eles obedeceram, Lucy ainda fungando piedosamente enquanto ia. Uma vez que eles tinham se fundido nas sombras, Will moveu-se para onde Puxão esperava por ele. Subiu na sela com um rangido de couro e apontou a rua.
— Vá indo — ele ordenou bruscamente.
Maddie sentiu as lágrimas subindo para os olhos, mas com raiva as afastou para longe. O mundo girava enquanto ela balançava a cabeça e cambaleava ligeiramente. Então ela começou a fazer o seu caminho até o meio da rua. Várias pessoas estavam saindo do restaurante de Jenny e eles estudaram a visão incomum de uma menina em uma capa de arqueiro andando desajeitadamente pela rua, seguida pela figura sombria de um arqueiro montado, ocasionalmente pedindo a ela para começar a se mexer. Maddie estava com o rosto corado de vergonha. Ela tinha começado a desfrutar de certo prestígio na aldeia. Agora podia sentir o mundo a observá-la, julgando-a e encontrando uma fraca. Ela era nada mais do que uma menina boba.
Eles atravessaram a aldeia e entraram no caminho estreito através das árvores que levavam à cabana. Ela tropeçou uma vez, em seguida, novamente no terreno irregular. Então ela caiu, uma pedra afiada cortando seu joelho e rasgando sua calça justa. Ela gritou com a dor, sentindo o sangue quente fluir para baixo em sua perna. Ela tentou se levantar e não conseguiu.
Sua cabeça girava.
Então seu estômago pesou e ela estava violentamente enjoada. Apoiou-se sobre as mãos e joelhos, vomitando até que seu estômago estava vazio e não havia mais nada para vomitar.
Will, montado em Puxão, erguia-se acima dela e a olhava friamente enquanto ela alternadamente vomitava e chorava.
— A melhor coisa para você agora — ele falou finalmente — é ficar de pé novamente.
Odiando a ele, e odiando a si mesma ainda mais, ela conseguiu ficar de pé e deu uma guinada para o caminho escuro em direção à cabana. Sable levantou-se para cumprimentá-la, cauda abanando fortemente, enquanto ela subia os dois degraus para a varanda, segurando-se à coluna da varanda em busca de equilíbrio.
Will estalou os dedos e deu um comando, e a cachorra lentamente se afastou, retomando seu lugar nas bordas da varanda.
Maddie sentiu um soluço profundo formando em sua garganta. Mesmo Sable, sempre compreensiva, e nunca crítica, tinha vergonha dela.
— Vá para a cama — Will disse-lhe, quando ele se virou para levar Puxão para o estábulo na parte traseira da cabana. — Conversaremos sobre isso de manhã.

5 comentários:

  1. Pela chapinha do James Brown! O que ela foi fazer?!
    Ass: Bina.

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Boa leitura :)