8 de fevereiro de 2017

Capitulo 22

O treinamento de Maddie continuava, mas agora havia um elemento extra adicionado em sua programação. Em somatória aos seus outros treinamentos de habilidades, ela agora tinha sessões diárias com Bumper, onde cavalo e cavaleiro desenvolviam sua já estreita relação em um profundo e íntimo entendimento.
  Bumper foi rapidamente se tornando, como ela havia observado anteriormente, uma extensão de si mesma, respondendo de imediato ao seu menor gesto, ciente do que ela esperava dele. Por sua vez, ela aprendeu a interpretar os muitos sinais que o cavalo enviava a ela – avisos de possível perigo, a presença de uma pessoa desconhecida ou a abordagem de um animal potencialmente perigoso.
  Houve também sessões de condicionamento físico, envolvendo corridas longas através da paisagem circundante, ou a corrida de obstáculos que Will improvisara para ela. Ele alternava com instruções básicas em combate desarmado, ensinando-a a bater com a palma da mão ao invés do punho fechado – Um punho é uma desculpa para quebrar seus dedos, ele dissera – e como usar o peso e ímpeto de um atacante contra ele em uma série de movimentos simples, mas eficazes.
E havia as lições de rastreamento e camuflagem. Will e Maddie cavalgaram através do feudo, procurando e identificando diferentes trilhas de animais, seguindo viajantes inocentes sem que eles notassem que estavam sendo monitorados e permanecendo, envoltos em suas capas, à beira da estrada, enquanto os viajantes passavam, alheios ao fato de que Maddie estava a poucos metros de distância.
— Confie na capa — Will falava para ela repetidamente. — E não se mova. Mesmo se você for vista.
Assim, seus dias estavam cheios e, no final de cada um, ela ficava feliz em rolar em sua cama, exausta, e dormir tranquilamente até a manhã seguinte, quando toda a sequência começaria de novo.
Ela ainda ia para a vila de Wensley todas as manhãs para buscar pão fresco e leite para o dia. Mas agora montava em vez de andar. Will já a havia proibido de montar Dançarino do Sol para a aldeia.
— Ele é exótico demais para isso — ele dissera enigmaticamente. Mas agora que ela tinha Bumper, ele retirou essa restrição. — Um arqueiro e seu cavalo devem fazer as coisas juntos — ele explicou.
Maddie não tinha certeza de qual era a diferença, mas estava feliz de montar Bumper, falar com ele, afagando-lhe e, geralmente, desfrutando de sua presença em seus passeios matinais. Mesmo uma tarefa tão simples como ir buscar o pão e o leite tornou-se agradável na presença de Bumper, ela pensou. Talvez fosse isso o que Will tinha em mente.
Assim, a visão da pequena figura, envolta em sua capa de camuflagem, montando o cavalo preto e branco desgrenhado com um arco em sua sela, tornou-se familiar na aldeia. Maddie primeiro ficou confusa, e então um pouco lisonjeada, quando percebeu que havia se tornado uma espécie de celebridade entre os adolescentes na aldeia. Como uma Arqueira, ela era uma figura misteriosa e intrigante – ainda mais porque era a primeira menina a ser tomada como aprendiza de arqueiro.
Havia um grupo de meia dúzia de meninos e meninas mais ou menos da idade dela na aldeia. Eles olhavam para ela com algum espanto e muito respeito – e inveja. Suas próprias vidas eram rotina e mesmice. A vida em uma aldeia pequena trazia pouco em termos de emoção, considerando que a nova garota entre eles era uma aprendiza de arqueiro. Ela carregava um arco, e como tinham observado em várias ocasiões quando haviam penetrado pela floresta para assisti-la praticando, ela sabia como usá-lo.
Enquanto Maddie andava pela aldeia, eles a chamavam e a cumprimentavam. De vez em quando ela pararia Bumper para conversar com eles. Ela obviamente gostava de seu culto do herói – principalmente o das jovens garotas. Ela não seria humana se não gostasse. Encontrou uma tranquila satisfação e prazer em ser uma pequena celebridade. Mas por agora ela havia aprendido a não se tornar muito cheia de si por causa disso.
Claro que, em seu tempo no Castelo Araluen, ela tinha tido um círculo de admiradores e conhecidos. Mas percebera que a maioria deles estava mais impressionado com seu título e posição do que por seu valor pessoal. Em Araluen, ela era a Princesa, e as pessoas ao seu redor disputavam sua atenção e aprovação simplesmente porque ela era a Princesa – não por qualquer desejo real de ser seu amigo. Aqui, era diferente. Com exceção de um pequeno círculo de pessoas que incluíam Jenny, Barão Arald e Lady Sandra, Halt e Lady Pauline, ninguém conhecia a verdadeira identidade de Maddie. Will pensara ser melhor não revelar sua linhagem real para os outros.
Então Maddie apreciava a admiração e a amizade dos jovens de Wensley. De tempos em tempos, quando o seu ocupado horário permitia, ela montava para a aldeia e passava um tempo com eles, treinando alguns dos meninos no tiro com arco, pescando nas águas calmas do rio com eles e brincando de jogos de esconde-esconde – que ela invariavelmente ganhava, até que os outros proibiram o uso de sua capa.
Will observava essas atividades com um olhar atento.
— Não fique muito íntima deles — ele advertiu. — Arqueiros precisam manter certa distância das pessoas comuns. Ela ajuda a mantê-los com um pouco de temor. Mantém o mistério.
Ainda assim, ele pensava, era bom para ela aprender a se relacionar com as pessoas comuns – ao contrário dos nobres cheios de si que habitavam o Castelo Araluen. Ele ficou satisfeito ao ver que ela não tinha mais seu ar superior. Podia ver que ela gostava de ser respeitada por suas habilidades e não viu nenhum mal nisso.
— Melhor ser respeitada pelo o que você pode fazer, do pela posição de seus pais — ele falou a Jenny em uma ocasião.
Sua amiga olhou para ele intensamente na ocasião, observando o modo como seus olhos seguiam Maddie enquanto ela ria e brincava com um grupo de jovens locais.
As linhas de dor que marcaram seu rosto pela perda de Alyss ainda estavam evidentes. Mas elas tinham suavizado, e a expressão sombria não era tão sombria como antes. Às vezes, ela percebeu, ele estava na beira de sorrir. Havia um carinho em seus olhos enquanto observava sua afilhada – um que ele rapidamente disfarçava quando percebia Jenny observando-o.
Ela está fazendo bem a ele, Jenny pensou, sorrindo para si mesma. Ela tinha há muito tempo perdoado observação arrogante de Maddie sobre ela. Na semana depois que ela disse isso, a menina tinha aparecido na porta da casa de campo de Jenny, um ramo de flores na mão e um olhar arrependido em seu rosto, e se desculpou. Jenny, bondosa e tolerante, aceitou o pedido de desculpas imediatamente. Desde então, elas haviam se tornado amigas, com Jenny sempre pronta para ouvir Maddie, enquanto ela lamentava sua falta de talento com o arco – uma avaliação totalmente imprecisa de sua capacidade, Jenny sabia.
— Se você quiser praticar — ela dissera a Maddie — posso sempre fazer uso de carne fresca no meu restaurante.
Nas semanas seguintes, ela havia recebido um fluxo constante de coelhos, lebres e aves selvagens, ou de tiro com arco de Maddie ou pegos pelo seu estilingue. Era evidente que Maddie, que passara a vida com todos os seus caprichos atendidos, estava gostando de fazer algo para alguém.
E Jenny estava mais do que contente de ser esse alguém, desde que a caça continuasse aparecendo em sua porta.
Era uma manhã de sexta-feira. Maddie estava voltando da pequena fazenda no final da aldeia. Um saco de pães quentes estava pendurado através do arco de sua sela, o cheiro de pão fresco chegando em suas narinas e lembrando seu estômago de que ela ainda não tinha tomado o café da manhã. Dois dos adolescentes locais acenaram e ela desmontou Bumper, oferecendo uma saudação a eles enquanto saíam para a estrada.
— Bom dia, Gordon. Bom dia, Lucy — disse ela.
Eles eram dois dos seus favoritos. Lucy era filha da Senhora Buttersby, costureira de Wensley. Ela era uma menina desengonçada, sardenta, que parecia um moleque. Gordon tinha cabelos escuros e travessos olhos azuis. Ele era uma espécie de malandro, embora ela sentisse que não havia maldade real nele.
Ele olhava em volta agora, certificando-se de que ninguém estava escutando, em seguida, falou com ela em voz baixa.
— O que você vai fazer amanhã?
Ela franziu a testa, pensando.
— Nada — respondeu. Ela tinha um sábado livre pela primeira vez em semanas. Will estava indo para o castelo jantar com Halt, Pauline, Barão Arald e Lady Sandra. — Porquê?
Lucy riu.
— Nós estamos planejando uma festa — disse ela, seu tom era conspiratório.
Maddie ergueu a cabeça com curiosidade. Uma festa não era razão suficiente para suas vozes baixas e constantes olhares ao redor. Algo estava em andamento, ela percebeu.
— Só uma festa? — perguntou ela.
Lucy riu novamente e Gordon sorriu. Ele tinha um sorriso muito atraente, Maddie pensava. Havia todos os tipos de malicia nele.
— Um... tipo especial de festa — ele respondeu. — Atrás do estábulo da estalagem. Lucy trará pedaços de torta e cordeiro no espeto. E nós assaremos batatas no fogo.
Lucy trabalhava como garçonete no restaurante de Jenny. De tempos em tempos, Jenny a recompensava com certos alimentos do menu. Em outras ocasiões, Lucy sorrateiramente recompensava a si mesma. Maddie adivinhou que este era um desses momentos, o que explicaria os sorrisos que ambos ostentavam.
— E Martin tem um barril! — Lucy explodiu, incapaz de se conter.
Então ela se dissolveu em um ataque de risos.
— Um barril? — Maddie indagou, embora estivesse começando a compreender o que Lucy queria dizer. — Um barril de quê?
— De vinho! — Gordon respondeu triunfante. — Vinho fino. Vai se juntar a nós?
Maddie hesitou. Ela sabia que não deveria. Mas ela tinha trabalhado duro por semanas, com poucas pausas e pouco tempo para si mesma. Ela não sabia se gostava de vinho ou não. Mas sabia que gostava de aventura e ainda havia um traço de rebeldia nela. Ela merecia uma chance de descansar, pensou. E ninguém saberia.
— E por que não? — Ela disse a eles.

3 comentários:

  1. Adolescentes. Isso vai dar treta, vou até fazer uma pausa pra me preparar. Já to imaginando ela bêbada, gritando pra Deus e o mundo que é a Princesa, afs. E dando dor de cabeça pro coitado do Will. Tava bom de mais pra ser verdade, essa melhora toda.

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Boa leitura :)