8 de fevereiro de 2017

Capítulo 2

Os primeiros raios de luz pintavam o céu oriental. Na floresta em torno do Castelo Araluen, pássaros começaram a cantar para anunciar o dia vindouro – primeiro sozinhos ou aos pares, mas gradualmente se unindo em um coro de alegria geral. Ocasionalmente, um podia ser visto esvoaçando entre as árvores bem espaçadas em busca de alimento.
A ponte levadiça do grande castelo estava atualmente erguida. Essa era uma questão de disciplina. Ela era erguida todas as noites, às nove horas, embora Araluen estivesse em paz durante alguns anos. Aqueles no comando do castelo sabiam que a paz pode ser quebrada sem aviso prévio. Como o rei Duncan havia dito alguns anos antes, “Ninguém nunca morreu por ser cuidadoso demais”.
Havia uma pequena ponte de madeira do outro lado do fosso – pouco mais do que um par de pranchas com corrimãos de corda. Poderia ser rapidamente retirada em caso de ataque. Na sua extremidade exterior, um par de sentinelas estava de guarda. Havia mais vigias nas muralhas do castelo, é claro. Vários pares de olhos percorreram o bem cuidado gramado que se estendia por várias centenas de metros em todos os lados do castelo, e a floresta densamente arborizada além.
Enquanto duas sentinelas observaram, um deles empurrou o companheiro.
— Lá vem ela — disse ele.
Um corpo esguio tinha emergido das árvores e caminhava até o campo relvado levemente inclinado para o castelo. O recém-chegado estava vestido com um colete de caça de couro que ia até as coxas, um cinto sobre uma camisa de lã grossa de mangas compridas e calções de lã. As calças estavam enfiadas em botas de cano alto de couro macio e não curtido.
Não havia nada sobre a figura para indicar que ela era uma menina. O conhecimento da sentinela provinha do fato de que esta era uma ocorrência regular. A garota de quinze anos de idade muitas vezes saía escondida do castelo para caçar na floresta, para a fúria de seus pais. A sentinela achou graça. Ela era uma figura popular entre eles, brilhante, alegre e sempre pronto para compartilhar o produto de uma caça bem sucedida. Como resultado, eles fechavam os olhos para suas idas e vindas, apesar de não anunciarem o fato. Sua mãe, afinal, era a Princesa Regente Cassandra, e nenhum soldado de baixo escalão arriscaria seu desfavor, ou o de seu marido, Sir Horace, o principal cavaleiro do Reino.
Quando Maddie – ou, para dar-lhe seu título formal, Princesa Madelyn de Araluen – chegou mais perto, ela reconheceu os homens no posto. Eles eram dois de seus favoritos e seu rosto se iluminou com um sorriso.
— Bom dia, Len. Bom dia, Gordon. Vejo que vocês tiveram uma noite tranquila.
A sentinela chamada Gordon sorriu de volta para ela.
— Foi assim até uma feroz donzela guerreira surgir da floresta agora mesmo e ameaçar o castelo, Sua Alteza — disse ele.
Ela franziu o cenho para ele.
— O que falamos sobre esse negócio de Sua Alteza? É tudo um pouco formal demais para as cinco horas da manhã.
A sentinela assentiu e se corrigiu.
— Desculpe, Princesa.
Ele olhou de volta para as paredes do castelo. Uma das sentinelas de lá acenou, confirmando o fato de que eles haviam reconhecido a Princesa também.
— Suponho que seus pais não saibam que você foi caçar?
Maddie franziu o nariz.
— Eu não queria incomodá-los — ela disse inocentemente. Gordon levantou uma sobrancelha e sorriu conspiratório. — Estou perfeitamente segura, como você pode ver.
A sentinela chamada Len deu de ombros, incerto.
— A floresta pode ser perigosa, Princesa. Nunca se sabe.
Seu sorriso se alargou.
— Não é muito perigosa para uma jovem guerreira feroz, certo? E eu não sou indefesa, você sabe. Tenho a minha faca de caça e o estilingue.
Ela tocou a longa tira dupla de couro que estava pendurada frouxamente em torno de seu pescoço. Depois, como menção do estilingue a lembrou de alguma coisa, ela abaixou o saco de caça carregado que estava pendurado em seu ombro.
— Aliás, eu tenho uma lebre e um casal de pombo-torcazes. Vocês poderiam aproveitá-los?
As sentinelas trocaram um olhar rápido. Eles sabiam que se Maddie aparecesse com animais recém-caçados no castelo, perguntas seriam feitas a respeito de como ela os tinha conseguido. Por outro lado, a adição de um pouco de carne fresca seria uma mudança bem-vinda para a mesa dos soldados.
Gordon hesitou.
— Eu adoraria pegar os pombos, Princesa. Mas a lebre? Se minha esposa for descoberta cozinhando a lebre, as pessoas podem pensar que eu cacei ilegalmente.
Apenas o rei, sua família, ou altos funcionários e guerreiros tinham o direito de caçar animais como lebres nos arredores do castelo. Arqueiros, é claro, caçavam onde quer que quisessem, com a multa sendo desconsiderada por estas questões. As pessoas comuns eram autorizadas a caçar pequenos animais, como coelhos, pombos e patos. Mas uma lebre era uma questão diferente. Um camponês ou soldado podia ser multado por ter uma.
Maddie fez um gesto de desprezo.
— Se alguém perguntar, diga que eu lhe dei. Eu confirmarei.
— Eu não gostaria de trazer-lhe problemas — Gordon hesitou ainda assim, a mão a meio caminho da lebre.
Maddie riu descuidada.
— Não seria a primeira vez. Provavelmente não seria a última. Pegue-a. E você pega os pombos, Len.
As sentinelas finalmente cederam, levando a caça e agradecendo em coro. Maddie acenou, afastando sua gratidão.
— Não foi nada. Eu não quero jogá-los fora e ver boa comida ir para o lixo. E vocês estão me salvando de um monte de explicações.
Os guardas guardaram os animais na pequena guarita que os abrigava no mau tempo. Maddie acenou para eles e caminhou levemente por toda a passarela, indo para o pequeno postigo ao lado do portão principal do castelo. As sentinelas sorriram um para o outro. Esta era uma das vantagens de ser atribuído à sentinela do lado de fora.
— Ela é uma boa menina — disse Len.
Gordon, que era o mais velho dos dois por alguns anos, concordou.
— Como sua mãe — disse ele. Em seguida, ele acrescentou, pensativo — Veja bem, Princesa Cassandra costumava nos perseguir quando se esgueirava para fora do castelo quando era menina.
Len ergueu as sobrancelhas.
— Sério? Eu não tinha ouvido falar disso.
— Ah, sim — Gordon assentiu, lembrando. — Ela praticava suas habilidades de espiã com as sentinelas. Em seguida, atirava com a atiradeira na ponta de nossas lanças. Era um terror, até nos acostumarmos com seus truques.
Len estava tentando relacionar a atual Princesa Cassandra – a zelosa governante do Reino – com a imagem que seu companheiro tinha desenhado de uma moleca aventureira aterrorizando os guardas do castelo.
— Você nunca perceberia isso agora. Ela é tão calma e digna, não é?

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