8 de fevereiro de 2017

Capítulo 18

Selaram os cavalos no estábulo. Em seguida, Will pegou uma grande lona enrolada pendurada na parede e amarrou-a atrás de sua sela. Havia outro rolo semelhante pendurado ao lado do primeiro, e ele fez um gesto para Maddie pegá-lo.
— Amarre-o atrás de sua sela — disse ele.
Ela pegou-o e sentiu o peso, olhando para ele com curiosidade.
— O que é isso?
— Equipamento de acampar. Basicamente uma lona impermeável que forma uma tenda, e um cobertor para dormir. Além de algumas outras ferramentas.
Ela sorriu descaradamente.
— Pensei que iríamos apenas nos enrolar em nossas capas e dormir debaixo de um arbusto — disse ela.
Will testou a correia do dorso de Puxão – o cavalinho gostava de tomar uma respiração profunda quando o cinto estava sendo apertado, para depois expirar uma vez mais para alargar a alça.
— Você pode fazer isso se quiser — disse Will. — Eu prefiro ficar quente e seco. E parece que vai chover.
Ela amarrou o rolo de lona no lugar. Enquanto fazia isso, Will guiou Puxão até à frente da cabana, entrou na casa e preparou um saco de provisões – café, pão, queijo, maçãs, carne seca e alguns vegetais. Se eles quisessem carne fresca, colocaria Maddie para pegar alguma com o estilingue, pensou. Por fim ele pegou o seu simples pacote de especiarias, condimentos e ingredientes culinários no saco, em seguida, saiu para se juntar a sua aprendiza.
Havia dois odres de água pendurados ao lado da bomba. Ele fez um gesto para eles.
— Você pode enchê-los — disse ele.
Maddie desceu da cela para cumprir a tarefa. Puxão contraiu suas orelhas e olhou para ele com curiosidade.
Will balançou a cabeça.
— Mais tarde — ele murmurou.
Maddie olhou para cima, encharcando a manga com água enquanto olhava o líquido jorrando.
— Você disse alguma coisa?
Ele balançou a cabeça.
— Só limpando a garganta.
Ela passou-lhe um odre e amarrou o outro em sua própria sela.  Então, montou também. Dançarino do Sol deu alguns passos, pronto para correr. Ele não saía havia um ou dois dias e estava cheio de energia e entusiasmo – assim como sua cavaleira. Puxão, pelo contrário, ficou firme e imóvel.
— Vamos lá — disse Will.
Ele guiou Puxão em um galope fácil e lento.
Maddie sacudiu as rédeas de Dançarino do Sol e ele trotou para frente, ansioso em correr. Mas ela segurou-o, fazendo-o dançar um pouco com a cabeça erguida, de modo que ele combinasse seu ritmo com o de Puxão.
— Iremos nessa velocidade o caminho todo?
Will se torceu na sela para olhar para ela. Dançarino do Sol tinha as pernas maiores do que Puxão e ele tinha que virar para cima para encontrar seu olhar.
— Penso que sim — respondeu ele.
Maddie bufou com desdém.
— Não é de admirar que vá tomar o dia todo — ele não respondeu, então ela acrescentou: — Você sabe que Dançarino do Sol é um arridi puro-sangue, não é?
Ele acenou com a cabeça.
— Os arridis têm belos cavalos.
— Eles são rápidos também. Já ouvi pessoas dizerem que eles são os cavalos mais rápidos na terra.
Puxão sacudiu sua crina curta e fez um ruido indelicado. Por um momento, Maddie olhou surpresa para o pequeno cavalo.
Era quase como se ele estivesse respondendo a sua afirmação.
Ela logo descartou a ideia.
— Eles certamente podem cobrir algum terreno — Will concordou calmamente.
Andaram em silêncio por alguns minutos. Dançarino do Sol continuava a puxar as rédeas. Maddie o deteve. Puxão trotou de forma constante.
Ele é como um cavalo de balanço, Maddie pensou, observando o movimento doce e firme de vai-e-vem de Puxão.  Ela se contorceu com impaciência em sua sela. Ela podia sentir a energia reprimida de Dançarino do Sol e ela desejava deixá-lo correr livremente – para mostrar a Will como um cavalo de verdade poderia correr.
— Então, onde fica esse vau? —  perguntou ela.
Will fez um gesto para o sudeste.
— Nós seguimos a estrada por 20 km ou mais. Então vamos dar em uma bifurcação que leva a Pendletown. Depois de passar pela aldeia, continuamos até chegar ao Rio Derrylon.  A estrada leva direto para a passagem — ele fez uma pausa e acrescentou: — É tudo sinalizado.
Ela assentiu com a cabeça, notando particularmente a última declaração. Era quase, ela pensou, como se ele estivesse dando sua aprovação para ela sair por conta própria. Então ela sorriu.
— Bem, estarei esperando por você lá.
Ela bateu os calcanhares nos flancos de Dançarino do Sol, relaxando o aperto em suas rédeas.  Instantaneamente, o cavalo castrado saltou para frente, mergulhando nos primeiros metros, em seguida reunindo velocidade enquanto se acomodava em sua marcha. Seus cascos faziam uma batida rápida na superfície da estrada, levantando nuvens de poeira a cada passo.
A capa e o cabelo de Maddie esvoaçavam atrás dela, e Will escutou sua risada satisfeita.
— Ele é bem rápido — Will comentou.
Puxão virou a cabeça e olhou-o com seu olho esquerdo.
Não tão rápido quanto Tempestade de Areia.
— Não. Talvez não. Mas não há muitos como ele.
Eu bati Tempestade de Areia.
— Eu me lembro. Mas só conseguiu isso nos últimos metros.
O pequeno cavalo bufou com desprezo.
 Eu estava despistando.
— É claro que você estava.
Ele sentiu Puxão começar a puxar suas rédeas, mas segurou-o.
Você quer que eu o alcance agora?
Will estreitou os olhos para procurar por Maddie. Ela e Dançarino do Sol eram pequenas figuras à distância. Uma nuvem de poeira estava à deriva no ar por trás deles. Então eles fizeram uma curva na estrada e desapareceram por entre as árvores. A poeira assentando gradualmente era tudo o que restava para mostrar por onde eles passaram.
— Ainda não — Will falou. — Mais tarde.


Maddie exultou com a rajada de vento através de seu cabelo e os avanços poderosos e suaves de seu cavalo. Isso era montar, ela pensou, e incitou Dançarino do Sol para uma velocidade ainda maior. Quando chegou à primeira curva na estrada, virou-se na sela para olhar para trás.
Will e Puxão eram pequenas figuras ao longe agora, arrastando-se impassivelmente adiante.
Bem, ela pensou, o que você poderia esperar de um barril desgrenhado assim? Ao longo dos anos, ela ouvira as pessoas falarem de cavalos de arqueiros com certo grau de admiração. Agora que vira um de perto, não conseguia entender porque tanta excitação.
— E ele deve ser um dos melhores — disse ela em voz alta.
Afinal, Will era um dos arqueiros mais velhos. É claro que ele teria um dos melhores cavalos da Corporação – senão o melhor.
Ela sentiu um delicioso flash de rebelião mexendo dentro dela. Will era tão capaz, tão bem informado, por isso, superior a ela em praticamente todos os sentidos. Ele podia perseguir alguém onde havia uma pista para ser encontrada. Podia disparar com uma velocidade fantástica e uma precisão infalível.
E sua capacidade com as facas era quase sobrehumana – ele era rápido e mortalmente preciso.
Mas aqui estava algo em que ela era melhor. Num súbito momento de honestidade, ela emendou esse pensamento. Seu cavalo era melhor que Puxão, pensou. Mas então, se ela teve a inteligência para selecionar um cavalo superior, por que não deveria compartilhar essa superioridade?
Dançarino do Sol ultrapassaria o pequeno pônei cinzento de Will sem problemas, ela disse a si mesma. E quando esse pensamento, ela decidiu que queria que sua vitória fosse esmagadora. Não seria o suficiente simplesmente vencer Puxão e Will chegando até o vau de Derrylon. Eles fariam isso por completo, esmagadoramente. Se Will disse que levaria um dia para chegar à passagem, ela decidiu que iria fazê-lo em metade do tempo.
Ela se inclinou sobre o pescoço de Dançarino do Sol.
— Vamos lá, garoto! Temos algo a fazer.
As orelhas de Dançarino do Sol se voltaram e ele sacudiu a cabeça em delírio.
Ele gostava de correr. Na verdade, ele vivia para correr. Isso tinha sido criado em sua linhagem geração após geração. Ele aumentou seu passo e acelerou.
Maddie gritou em delírio. Ela nunca o tinha sentido correr tão rápido antes!
Foi emocionante e ela entregou-se à pura emoção da corrida.


Puxão continuou seu galope constante, medido.
Dugga-dum, dugga-dum, dugga-dum, ecoavam seus cascos na superfície dura da estrada.
 De tempos a tempos, Puxão virava a cabeça para olhar Will. Mas seu cavaleiro nunca respondia a estas sugestões. Finalmente, Puxão decidiu abordar o assunto diretamente.
Diga-me quando você quiser que eu comece a correr.
— Confie em mim. Você vai ser o primeiro a saber.
Dugga-dum, dugga-dum, dugga-dum.


Deve-se ser dito que, normalmente, Maddie não era o tipo de pessoa que permitiria que seu cavalo se excedesse. Geralmente, ela tinha o cuidado de controlar sua montaria e garantir que ele ficasse dentro de seus próprios limites.
Mas a emoção do passeio, a exultação da velocidade que ela sentiu e a tentação de mostrar a Will quão superior Dançarino do Sol era, induziu-a ao erro.
Eles haviam galopado descontroladamente por quilômetros quando ela sentiu o vacilar do passo do cavalo arridi. Então Dançarino do Sol balançou a cabeça e continuou.  Mas ela entendeu o quanto estava pedindo para ele.
Seus flancos estavam listrados com espuma e suas laterais estavam inchando como um fole enquanto ele sugava grandes golfadas de ar. Ela se tornou consciente de que ele estava gemendo alto a cada respiração e ela foi instantaneamente preenchida com remorso. Ela diminuiu o passo, embora ele resistisse a seus esforços inicialmente. Ele estava disposto a galopar até cair de exaustão.
Ela puxou as rédeas com firmeza, verificando seu instinto irracional para continuar correndo, falando baixinho com ele, aumentando gradualmente a pressão contra a rédea até que ele permitiu que ela o parasse.
O cavalo parou, as pernas afastadas e respirando pesadamente. Maddie rapidamente desmontou, acariciando seu pescoço e andando em volta dele para ter certeza de que ele não havia se machucado.
— Está tudo bem.
Felizmente, ela tinha percebido o erro a tempo.
Ela jogou um pouco de água em sua mão e segurou-a perto do focinho de Dançarino do Sol. Ele empurrou o focinho macio contra a mão dela e bebeu. Ela continuou a deixar o filete de água escorrer para a mão em concha.
— Não muito. Não muito rápido.
Ele bufou, agradecido. Maddie alargou a cinta da sela e puxou um cobertor velho de sua bolsa, esfregando e falando gentilmente com o cavalo. Tinha sido por pouco, ela percebeu. Se ela continuasse por muito mais tempo, poderia muito bem ter arruinado seu belo cavalo.
Quando ele já estava esfregado, ela o levou para o lado da estrada e deixou-o comer grama durante alguns minutos. Mentalmente, ela se culpou por ter estado tão perto do desastre. Não foi culpa de Dançarino do Sol, ela sabia. A culpa era somente dela. Ela era a cavaleira. Era a única que deveria tê-lo controlado, lavando em conta a sua energia e resistência.
Ela o deixou descansar por alguns minutos, em seguida, tomou as rédeas e conduziu-o de volta para a estrada. Andaria à pé por um tempo, até que ele se resfriasse adequadamente e se recuperasse. Ela saiu e ele a seguiu mansamente. Ela se virou, observando-o por um minuto ou dois, certificando-se de que não havia nada de errado com a sua marcha – que ele não tinha distendido qualquer músculo ou ligamento em sua corrida desvairada.
Para seu alívio, ele parecia bem. Ela sorriu com carinho, sacudindo a cabeça em admiração quando pensou em sua incrível velocidade e vontade, grata que não houve qualquer dano permanente nele. Ela se perguntou quão atrás deles Will e Puxão estavam.
— Estamos provavelmente tão à frente que poderíamos andar o resto do caminho e ainda vencê-los — ela disse para Dançarino do Sol.
Ele balançou a cabeça, cansado, arrastando-se atrás dela.
Em seguida ela percebeu um som atrás deles. Um barulho regular, rítmico.
Dugga-dum, dugga-dum, dugga-dum.
Ela girou. Will e Puxão faziam a curva atrás eles e seguiam galopando lentamente na direção deles, ainda se movendo naquele ridículo galope constante. Mais uma vez ela teve a ideia de que Puxão corria como um cavalo de balanço.
Seja como for, ela pensou, ele era um cavalo de balanço muito consistente.
Will parou a seu lado. Ele não checou Puxão, já que haviam continuado sempre naquela velocidade.
Dançarino do Sol ergueu a cabeça com a visão do cavalo menor e puxou as rédeas, mas ela o segurou.
— Seu cavalo parece cansado — Will observou amigavelmente, enquanto começava a se mover para frente.
— Ele vai ficar bem — ela falou em tom desafiador.
Ele virou-se na sela para olhar para ela enquanto ele e Puxão se distanciavam.
— Estou feliz em ouvir isso — disse ele. Em seguida, encarou a estrada à frente e falou por cima do ombro: — Vamos esperar por você em Pendletown.
Ela olhou para as costas dele, em seguida, virou-se e começou a apertar o cinto da sela de Dançarino do Sol novamente. O arridi, desgastado como estava, movia-se nervosamente, ansioso para galopar após Puxão. Ela colocou um pé no estribo, depois parou.
Ele não estava pronto ainda. Se permitisse que ele corresse, ela poderia feri-lo.  Relutante, tirou o pé do estribo e afrouxou a cinta novamente. Então voltou a levar o cavalo em uma caminhada.
Na próxima curva, Will vigiava por cima do ombro. Ele a viu começar a montar, em seguida, viu-a chegar a uma decisão e começar a caminhar mais uma vez.
— Boa menina — disse ele, com aprovação.
Como?
Puxão, é claro, estava de frente para a estrada e não tinha visto o momento de indecisão de Maddie.
— Ela não vai maltratar seu cavalo, mesmo que isso signifique perder a corrida. Nós ainda faremos dela uma Arqueira.
Eles cavalgaram em silêncio por vários minutos antes de Will falar novamente.
— Se ela apenas bebesse café.
Dugga-dum, dugga-dum, dugga-dum.

12 comentários:

  1. Karina, achei um erro neste capítulo:
    "- Pensei (QUE) iriamos apenas nos enrolar em nossa capas e dormir debaixo de um arbusto."

    ResponderExcluir
  2. O Autor errou aqui, como que o Puxão ganhou do tempestade de Areia? Esse era o primeiro puxão, esse aí já deve ser o terceiro puxão. Já que do livro 11 para o 12 se passaram 15 anos e são 15 anos a média que duram mais ou menos os cavalos dos arqueiros. Em outras palavras, Quem ganhou do tempestade de arei foi o primeiro puxão, como que esse ( novo Puxão) saberia disso ?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pois é, mas um Puxão lembra de todas as experiências do cavalo anterior, é como se o animal não tivesse mudado... afinal, está tudo na mente de Will :P ~Karina jogando na cara que é tudo mentira~

      Excluir
    2. kkkkkkkkkkkkkkkkk Ataaah, Olha eu juro que a minha cachorra tem expressões igual ao Puxão. :p

      Excluir
    3. cavalos vivem mais tempo q outros animais de fazenda ainda mais sendo bem tratado como puxão e então esse ainda e o puxão original já que quando will ganhou ele o puxão era um quase adulto assim como o will então os dois estão crescendo juntos

      Excluir
    4. Na verdade já deve ser o segundo Puxão ou até um terceiro mesmo, não sei em qual livro ele troca o do treinamento por outro Puxão.

      Excluir
  3. Kkkkkkk a última frase é típica.
    Ass: Lua

    ResponderExcluir
  4. Aqui tem um erro do próprio autor:Will testou a correia do dorso de Puxão – o cavalinho gostava de tomar uma respiração profunda quando o cinto estava sendo apertado, para depois expirar uma vez mais para alargar a alça.
    Mas em algum livro ( não lembro qual agora) o autor diz que um cavalo de arqueiro jamais faria isso!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Puxão não chega a fazer isso quando Will vai conhecê-lo, ainda aprendiz?

      Excluir
    2. Acho que sim. Mas tenho certeza que li isso num dos livros, o difícil vai ser eu achar em qual! 😂

      Excluir
    3. Raquel, também lembro que li isso

      Excluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)