8 de fevereiro de 2017

Capitulo 17

Maddie estava praticando com seu estilingue. Passara uma semana desde sua primeira sessão e agora Will a colocava trabalhando nisso todos os dias. Primeiro passava uma hora com o arco. Então, no outro dia, com as facas.
Eles faziam uma pausa para o almoço e depois Will a deixava praticando com estilingue à tarde. Ela ainda estava usando os cinco capacetes como alvos, mas, a cada dia, Will movia os postes para que sempre formassem diferentes padrões.
— Não serve de nada ter confiança num determinado conjunto de ângulos e distâncias — ele lhe dizia e ela lhe dava a razão.
A sua precisão estava melhorando. Nesses dias, ela normalmente conseguia acertar os cinco capacetes três em quatro vezes. Mas a pontuação perfeita em que Will insistia ainda conseguia escapar-lhe.
Ela reparara num fenômeno interessante. Em cada conjunto de cinco lances, enquanto ela atingia alvo após alvo, a sua tensão nervosa aumentava e os seus músculos começavam a enrijecer naquele tão importante lance final. Como resultado, ela tendia a apressar o lançamento, tentando acabar com aquilo o mais rápido possível. O resultado natural era errar o alvo. Ela mencionou o fato para Will, que lhe respondeu com um aceno de cabeça.
— É uma reação normal — ele disse. — Você consegue ver o resultado perfeito se aproximando e os nervos começam a agir. Tente controlar. Relaxe. Não se apresse. Trabalharemos na sua velocidade mais tarde, mas nessa fase, é melhor demorar um pouco mais em cada alvo, em vez de se apressar e falhar.
Ela estava em sua segunda rodada de cinco lances. A primeira havia sido perfeita. Cinco tentativas para cinco consistentes acertos. Ela fizera mais quatro acertos e agora seria seu quinto. Ela parou, permitindo que sua respiração acalmasse. Ela conseguia sentir a excitação, a tentação para se apressar e acabar com aquilo. Mas ela resistiu.
Melhor atingir o inimigo tardiamente do que falhar por completo, ela pensou consigo mesma. Ela olhou disfarçadamente para Will. Ele estava sentado mais ao lado com as costas apoiadas em uma árvore, as pernas esticadas para frente. Pela primeira vez, ela reparou, ele não estava com aquele sempre presente maço de relatórios ou a pasta de couro. Pensando nisso, ela percebeu que havia alguns dias desde que não a via. O capuz estava erguido, escondendo sua face, e ele parecia dormir. Ela estava disposta a apostar que ele estava fazendo tudo menos isso.
Maddie inspirou fundo novamente, acalmou-se, olhou o alvo e forçou seus músculos a relaxar. Depois chicoteou o estilingue para cima e para o alto, dando um passo com o pé direito enquanto o fazia.
WHIZZ…CLANG!
O capacete saltou vários centímetros no ar com o impacto, parando no poste de novo, fora do centro e balançando.
— Foram dez tentativas para dez acertos — ela anunciou.
Will nada disse. Ela o olhou de novo. Ele não se movera. Ela suspirou e andou em frente para os postes dos alvos. Dois dos capacetes haviam sido derrubados dos postes, e ela os colocou no lugar. Havia vários chumbinhos na terra e ela os pegou de volta, estudando-os. Estavam distorcidos devido ao impacto com os capacetes de ferro, achatados de um lado ou com ranhuras fundas conseguidas em consequência do choque contra as bordas afiadas dos capacetes. Ela não podia dispará-los de novo naquelas condições, mas sempre poderia derretê-los e moldá-los novamente. Recolheu-os e colocou-os num bolso, seguindo novamente para a linha de lances.
Ela lançou outras cinco vezes, movendo-se suave e graciosamente, controlando a força e a velocidade de cada lance.
Cinco acertos.
Ela sentiu a excitação acumulando-se em seu peito. Três rondadas sem uma única falha. Ela nunca havia disparado três rodadas perfeitas seguidas antes.
Se falhar uma agora, estrago tudo.
O pensamento negativo apoderou-se de sua mente como um vilão. Ela o afastou, zangada, em seguida, andou de um lado para o outro várias vezes, respirou profundamente e balançou as mãos e os braços para dissipar a tensão que estava começando a tomar conta de si.
Girou seu pescoço e ombros para relaxar. Em sua mente, ela se visualizou lançando o próximo chumbinho. Visualizou o lançamento perfeito, coordenado, preciso e poderoso, vendo o borrão do peso enquanto este se movia através da clareira para atingir o alvo selecionado.
Visualize. E faça, Will lhe havia dito. Ela assentiu para si própria e, muito deliberadamente, colocou um chumbo na bolsa do estiligue. Avançou seu pé esquerdo, deixando a mão que continha a arma cair para a direita, o estilingue carregado balançando para frente e para trás como um pêndulo.
Will a colocara atirando nos alvos em ordem contrária com cada conjunto de cinco. No primeiro conjunto, ela atiraria no mais próximo primeiro, progredindo para o mais distante. Então, na segunda vez, ela atiraria no mais distante primeiro.
— Vamos assumir que eles estão fugindo — Will havia dito.
Então ela deveria regressar à ordem original para a terceira rodada, para depois inverter novamente.
Ela estava na quarta rodada agora, então o seu primeiro alvo seria o capacete mais distante.
O mais complicado primeiro, ela pensara, afastando de novo o pensamento negativo. Ela clareou sua mente, concentrada no alvo, para então puxar suavemente o estilingue para trás, libertando a carga no momento certo.
Ela sabia que fora um bom lance no minuto em que o lançou. Ela seguiu o chumbo até o alvo, seus olhos grudados nele.
Whizz... Clang!
O capacete rodou loucamente e ela sorriu. Daí em diante, os lances haviam-se tornado progressivamente mais fáceis à medida que a distância diminuía.
Whizz... Clang!
O segundo lance atingiu o capacete de modo certeiro, a força do impacto fazendo até mesmo o poste cair da sua posição vertical. Ela recarregou o estilingue, virando-se para encarar o lado do próximo alvo, que estava no extremo esquerdo da linha.
Whizz... Clang!
Outro lance perfeito. Ela recarregou. Faltando dois para a pontuação perfeita. Apenas dois lances. A sua respiração estava acelerando e ela sentia seu coração batendo rapidamente. Ela se forçou a se acalmar, relaxando todos os músculos do corpo, deixando-se ficar calma. Então recarregou, mirou e atirou.
Whizz... Clang!
Um pouco descentrado, mas mesmo assim um lance certeiro. Dessa vez não havia literalmente tempo nenhum entre o som do lançamento e o acerto do capacete.
Quatro de quatro. Dezenove de vinte. Nunca antes ela havia estado tão próxima de uma pontuação perfeita. Ela remexeu em sua bolsa procurando outro peso, colocando-o no estilingue. Quase o deixou cair e percebeu que suas mãos estavam tremendo. Ela respirou fundo uma vez mais, puxando o ar profundamente em seus pulmões, permitindo que seu coração parasse de bater rapidamente com a excitação, procurando pela calma que ela sabia precisar para o último lançamento.
E então, inesperadamente, encontrou-a. A sua respiração e pulsação diminuíram e ela viu o seu lance final com o olho de sua mente. Perfeito, poderoso e extremamente certeiro. Calmamente, ela melhorou sua postura, fixou o olhar no alvo. Seu instinto e a memória de centenas de lançamentos anteriores tomaram conta de si. Ela conseguia fazê-lo. Ela deixou seu peso assentar no seu pé direito, então balançou o estilingue de um lado ao outro, soltando-o e deixando-o escorregar por entre os dedos no momento certo.
Whizz... Clang!
O capacete velho tinha uma rachadura e o lance acertou exatamente nessa falha. Isto causou uma grande rachadura no visor do capacete, penetrando até o lado oposto da estrutura de ferro, que então caiu na areia abaixo. O capacete foi forçado para trás, permanecendo no poste pela margem mais ínfima.
Ela liberou uma enorme e exultante respiração. Um largo sorriso se formou em seu rosto, e ela deu um passo a frente para estudar o efeito do último e perfeito lançamento.
Quatro rodadas. Vinte acertos. Uma pontuação perfeita. As palavras de Will ecoam em sua mente: Pratique até não errar.
Ela o havia feito, ela pensou. Ela olhou de volta para seu mentor. Ele continuava encostado contra a árvore. Mas seu capuz estava para baixo e ele a observava calmamente.
— Isso soou suspeitosamente como uma pontuação perfeita — ele falou.
Ela assentiu avidamente.
— Foi! Vinte em vinte! Eu consegui finalmente!
— Hmmm — ele murmurou, esfregando o rosto. — Bom, veremos se consegue fazê-lo novamente amanhã.
Ele se levantou e ela o fitou, de algum modo desconcertada.
Era só isso? Ela praticara por semanas para acertar... e era isso?
Will sentiu o desgosto dela e o seu tom suavizou um pouco.
— Muito bem — ele falou. — Mas não se deixe levar. Preciso que você seja tão boa quanto consegue ser. E sinto que você pode ser muito, muito boa de fato.
— Oh — ela falou, olhando para o chão e raspando a ponta do pé na terra. Era difícil ficar ofendida quando ele falava uma coisa assim. — Eu suponho que sim...
— Continue praticando durante o resto da semana. Então pensaremos em lhe arrumar um cavalo — ele falou.
Ela deuum passo para trás, olhando-o em confusão.
— Eu tenho um cavalo — ela disse. — Dançarino do Sol, lembra?
Dançarino do Sol era o nome do cavalo arridi que ela havia montado desde o castelo Araluen até Redmont. Ele estava no estábulo atrás da cabana, com Puxão.
— Você precisa de um cavalo de arqueiro — Will disse.
Maddie empinou o queixo desafiadoramente.
— Um desses pequenos pôneis desgrenhados como o que você monta? — ela falou depreciativamente. — Dançarino do Sol poderia correr em círculos em torno de um desses barris de quatro pernas.
— Você acha? — Will perguntou, seus olhos estreitando. — Pois veremos. Entretanto, não deixe Puxão ouvi-la falar isso.
— Por que não? Iria ferir sentimentos dele? — ela comentou sarcasticamente.
Will inclinou a cabeça e não respondeu por um ou dois segundos.
— Muito possivelmente. Mas seria mais provável você irritá-lo. E isso nunca é uma boa ideia.
Ele se voltou e começou a andar na direção dos fundos da cabana. Ela o seguiu hesitante.
— Onde estamos indo? — perguntou.
— Vamos colocar as selas em nossos cavalos. Daremos um passeio. Mal posso esperar para ver seu cavalo correndo em círculos em volta de meu pequeno barril de quatro pernas.
Enquanto o seguia, ela teve o desconfortável pressentimento de que acabara de cometer um erro.
— É melhor levarmos algumas provisões. Passaremos a noite fora.
— Onde estamos indo? — ela perguntou.
— Ao vau Derrylon. Fica a apenas um dia de viagem. Acamparemos e regressaremos amanhã. Isso dará a Dançarino do Sol grandes oportunidades para fazer aquele negócio correr em círculos de que você estava falando.
Novamente, Maddie teve o pressentimento de que havia cometido um erro.
Um bem grande.

Um comentário:

  1. Ja to vendo ele deixando-a cair do cavalo de arqueiro. E relembrando de Horace falando uma coisa parecida do Abelard, o cavalo de Halt.

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Boa leitura :)