8 de fevereiro de 2017

Capítulo 16

As vinte flechas se transformaram em quarenta. Então Will finalmente cedeu e deixou Maddie descansar o resto do dia.
Naquela noite, os músculos em seus ombros, costas e braços doíam e davam câimbras enquanto ela estava em sua cama tentando dormir. A faixa de luz sob a porta do quarto lhe disse que Will ainda estava acordado. Depois de uma hora, ela se levantou, pé ante pé até foi até a porta e abriu uma fenda, olhando através dela. Seu mentor estava sentado junto ao fogo, com um maço de papéis em seu colo – relatórios de outros feudos, ela sabia.
Enquanto observava, ele pegou uma folha e colocou-a em uma pasta de couro na mesa ao lado de seu cotovelo.
— Poderia ser ele — Will murmurou baixinho.
Em seguida ele pegou o próximo relatório, arrumando a página para que a luz da vela a atingisse diretamente.
Franzindo a testa, pensativa, Maddie voltou para a cama.
— O que foi aquilo? — ela ponderou.
De alguma forma, sentiu que seria um erro perguntar a ele sobre o assunto.
No dia seguinte, depois de ter completado suas tarefas domésticas, Will a mandou fazer novamente. Ela atirou vinte flechas, descansou por dez minutos, então atirou mais vinte. Mais uma vez, suas costas e os ombros gritaram de dor. Mas ela cerrou os dentes e se manteve praticando. Pelo final da semana, ela percebeu que estava se tornando um pouco mais fácil puxar a corda para o comprimento total da flecha. Sua técnica estava melhorando e seus músculos estavam endurecendo. A dor ainda estava lá, mas agora era uma dor surda, não as câimbras abrasadoras dos primeiros dias. E foi diminuindo a cada dia que passava.
Enquanto praticava, ela notou que a preocupação de Will com os relatórios regulares dos arqueiros de outros feudos continuava. Ele se sentava com as costas contra uma árvore, examinando os novos relatórios quando eles chegavam. Ela sabia que era uma prática padrão para os arqueiros manterem-se atualizados com os eventos em todo o Reino. Mas sentiu que isto era algo mais do que rotina. De vez em quando, ele acrescentava uma ou duas páginas para o arquivo crescente na pasta de couro.
Após duas semanas, ela descobriu que podia atirar com o arco com relativa facilidade e mantê-lo estável durante vários segundos. Quando isso aconteceu, ela descobriu que sua precisão melhorando e ela estava acertando o centro do fardo mais do que a metade do tempo. Seus erros e quase acertos foram se tornando cada vez menos frequentes.
Quando ele viu sua técnica e força crescentes, Will começou a trabalhar sua precisão.
— Não tente apontar a haste da flecha para baixo — ele aconselhou-a. — Você tem que sentir onde a flecha irá. Precisa ver toda a imagem – o fardo de feno, o arco e a flecha. Saiba aonde a flecha vai voar.
Ela franziu o cenho.
— Como eu faço isso?
— Há apenas um jeito. Você pratica. Uma e outra vez, de modo que alinhar o tiro e o alvo se torna uma ação instintiva. Depois de um tempo, depois de ver flechas suficientes voarem, você saberá instintivamente onde posicionar o arco na imagem. Quando o alcance aumenta, você também precisará avaliar o quanto você deve elevar a flecha – quanto acima do alvo você precisa apontar para acertar no centro.
Claro, tiro com arco não era a única habilidade que ela estava praticando. Ele também a mandou praticar com sua faca de arremesso e a faca de caça, usando uma tábua de pinho contra uma árvore como alvo. Quando ela se tornou mais proficiente em colocar as facas no alvo a partir de um curto alcance, ele a moveu para trás para que ela tivesse que julgar como girar as facas no dobro de seu caminho até a tábua de pinho.
Pelo menos, pensou, isso não a deixava com dor, com os músculos doloridos. Ela teve que admitir, não havia nenhum som no mundo mais satisfatório do que a ponta de uma faca enterrando-se no pinho.
E nada mais frustrante do que a vibração imprecisa quando a lâmina acertava a lateral da placa e saltava sem causar danos para as árvores.
Havia outras lições, também. Will mostrou como as manchas desiguais das capas que usavam os ajudava a se misturar no fundo da floresta ao seu redor.
— As manchas quebram o contorno natural do corpo de uma pessoa. Não há forma. Tudo é irregular e aleatório, e a coloração coincide com os verdes e cinzas das árvores e vegetação rasteira. Mas o verdadeiro segredo é ficar absolutamente imóvel. A maioria das pessoas se move quando pensa que já foi descoberta. É o movimento que nos entrega. Mas se você fica perfeitamente parada, ficaria surpresa com o quão perto um rastreador pode estar e ainda não saber o local exato. Lembre-se da regra básica: Confie na capa.
As palavras ecoaram em sua própria mente enquanto ele falava. Lembrou-se das inúmeras vezes que Halt as tinha dito. Ele descobriu que havia algo surpreendentemente satisfatório ao passar este conhecimento para uma pessoa mais jovem – especialmente quando ele encontrou Maddie tão ansiosa para aprender. As habilidades de um arqueiro a fascinavam.
Ela era um espirito aventureiro, como sua mãe, e estava mais adepta a aprender sobre perseguições e armas do que costura e bordado.
Havia alguns aspectos da sua atitude que precisavam de correção. Ela passou toda sua vida até agora sendo mimada e tendo pessoas para aderir a todos os seus caprichos. Como consequência, gostava de ter as coisas de seu jeito. Se as coisas não iam bem imediatamente, ela podia se tornar impaciente e frustrada.
E enquanto ela era uma pessoa muito mais agradável do que tinha sido inicialmente, havia ainda um certo nível de petulância lá também. Como sua mãe, Will pensou, lembrando como Evanlyn era em seus primeiros dias juntos no navio de Erak e em Skorghijl.
Mas Maddie também era determinada – o que era provavelmente o lado inverso da petulância, ele pensou – e que definitivamente ganhou sua aprovação. Ele observou que, mesmo quando não estava atirando, ela colocava a corda no arco então iria passar de vinte minutos a meia hora simplesmente puxando a corda para trás e liberando-a lentamente, construindo sua força e memória muscular.
Ele a ouviu nos fundos da cabana um dia, lutando com a tira grossa extensora para dobrar os limbos do arco e encaixar a corda no lugar.
— Há outra maneira de fazer isso — ele disse. — E você não tem que carregar uma tira extensora o tempo todo.
Ele estendeu a mão e ela lhe passou o arco sem corda. Ele destacou a tira extensora e a devolveu para ela.
— Acho que sua força pode ter melhorado o suficiente para você tentar dessa forma — disse ele.
Ela viu quando ele enganchou uma das pontas recurvadas em toda a frente de seu tornozelo esquerdo, em seguida pisou com seu pé direito através da abertura entre a corda solta e o arco. Então, com o tornozelo esquerdo segurando o arco firmemente no lugar, ele usou o seu peso e a força de suas costas e braço direito para dobrar o arco para frente, usando a coxa direita como um ponto de apoio.
A corda deslizou suavemente até o limbo do arco e ele a assentou firmemente em seu entalhe. Em seguida ele se endireitou e entregou-lhe o arco amarrado.
— Aqui. Você tira a corda da mesma forma. Experimente.
Ela imitou sua posição, então empurrou o limbo do arco para dobrá-lo para que ela pudesse soltar o laço do topo do arco. Ela se esforçou no inicio, mas descobriu que usando a força de suas pernas, costas e ombros recentemente adquiridas e os músculos do braço, ela pôde dobrar o arco para frente.
Ela sorriu triunfante para ele. Ele acenou com a cabeça, sem sorrir. Mas isso não diminuiu seu senso de realização. Ela instalou o arco firmemente contra seu tornozelo esquerdo, em seguida, soltou para repor a corda.
Ela se esforçou nos últimos centímetros vitais, sentiu uma sensação de realização quando o final da corda deslizou no entalhe.
— É assim que você põe a corda em seu arco? — ela perguntou.
Ela percebeu que nunca o tinha visto fazer isso. Ele deu de ombros.
— Às vezes. É mais fácil com o recurvo – a maneira que se encaixa atrás de seu tornozelo e permanece no lugar. Com um arco normal, ele pode deslizar para fora no momento mais embaraçoso. Mas geralmente, eu uso isto.
Ele apontou para a parte de trás de sua bota direita, e ela percebeu que havia um laço de correia de couro por trás do calcanhar.
— Eu coloco uma extremidade do arco nesse laço, em seguida uso todo o meu corpo para dobrar o arco sobre as minhas costas enquanto eu deslizo a corda no lugar.
Ela assentiu com a cabeça, pensativa, vendo como ele trabalhava.
— Assim, a ideia é usar todos os seus músculos para dobrar o arco – costas, pernas e braços? — ela perguntou.
— Essa é a melhor maneira de fazê-lo. Usa tudo o que eu tenho. Não sobrecarrega parte alguma. A maioria dos arqueiros é pequena, afinal. Precisamos usar todos os músculos que temos.
Ela olhou para ele com curiosidade. Ela nunca tinha pensado nele como sendo particularmente pequeno. Mas agora percebeu que ele era muito menor que seu pai – e a maioria dos outros cavaleiros e guerreiros que ela tinha conhecido ao longo dos anos. Mais baixo, talvez, mas não menor em torno dos ombros e peito. Ela imaginou que uma vida inteira praticando com seu arco, com todo o seu peso de trinta a cinco a quarenta quilogramas, tinha desenvolvido os músculos até sua atual condição.
Como ele fez tantas vezes, Will pareceu sentir o que ela estava pensando.
— Há algo a ser dito sobre quem é pequeno — ele disse a ela. — Depois de tudo, quanto maior você for, mais difícil será de se ocultar.
Ele acenou para o arco que ela ainda segurava nas mãos.
— Não me deixe interromper sua prática — ele disse, e se afastou.
Os últimos relatórios haviam chegado com o correio naquela manhã e ele precisava vê-los.
Ela começou treinar com o arco, puxando e empurrando, chamando de volta a corda. Agora, ela descobriu, ela podia puxar a corda até seu nariz, até que seu dedo indicador estava quase tocando o canto de sua boca.
— Talvez eu precise fazer algumas flechas mais longas — ela o ouviu dizer.
Ela olhou para cima, surpresa. Pensou que ele tivesse saído, mas ele tinha parado no canto da cabana para assisti-la.
— Continue praticando — ele falou, então se moveu para longe mais uma vez.


Normalmente ela praticava tiro com arco e faca de arremesso à tarde, com as manhãs ocupadas por treinamentos de ginástica, corrida de longa distância e habilidades de camuflagem. Mas neste dia, Will mudou a rotina.
Eles almoçaram juntos na cabana – pão fresco, queijo suculento e maçãs. Ela regou sua refeição com leite fresco, enquanto ele tinha café. Ele havia mostrado a ela como moer os grãos, em vez de apenas jogá-los na panela e mergulhá-los em água fervente. Ele sorveu as últimas gotas em apreciação.
— Você está ficando melhor nisso — disse ele.
Eles limparam a mesa juntos e lavaram seus pratos. Então ela pegou seu arco e aljava, que estavam pendurados em ganchos ao lado da porta. Mas ele balançou a cabeça.
— Não hoje — falou. — Hoje eu quero ver quão boa você é com aquele seu estilingue.
— Eu sou muito boa — ela disse confiante, embora quando pensou sobre isso, percebeu que não tinha usado o estilingue desde que estava em Redmont. Seus dias tinham sido ocupados com o arco e suas facas.
Will levantou uma sobrancelha.
— E é modesta sobre isso também — comentou.
Ela encolheu os ombros, esperando não estragar tudo quando chegasse o momento. Ela foi para o quarto e pegou o estilingue e uma bolsa de munição do baú que continha seus pertences.
Na clareira do lado de fora, Will tinha criado cinco alvos, cada um coberto por um elmo surrado que ele havia recolhido a partir do arsenal de descarte da Escola de Guerra de Redmont. Os cinco alvos estavam postos ao longe, com o mais próximo a apenas vinte metros de distância e o mais longe a mais de quarenta. Não havia simetria na sua colocação.
O alvo mais próximo ficava na extrema direita, o mais distante no meio da linha, com os outros colocados aleatoriamente. Ela avaliou as metas, pensativa. Esse era um teste mais difícil do que o que Halt e Gilan tinham criado para ela no Castelo Araluen. Ela teria que avaliar a distância para cada tiro. Ela amarrou a bolsa de munição em seu cinto, selecionando uma das bolas de chumbo e colocando-a na bolsa do estilingue, deixando a arma oscilar de sua mão direita, balançando livremente. Will assistia de perto enquanto ela carregou o estilingue, em seguida estivou a mão.
— Posso ver? — ele perguntou, apontando para a bolsa.
Ela pegou outra esfera e entregou a ele, vendo como ele avaliou seu peso.
— Chumbo — ele percebeu. — Sua mãe costumava usar pedras, se bem me lembro.
Ela assentiu com a cabeça.
— Eu costumava usar também. E ainda usaria, numa emergência. Mas o peso varia e as formas são irregulares, o que afeta a precisão. Desta forma, eu sei que cada tiro é igual ao de antes. Você não atiraria flechas de diferentes comprimentos e pesos, não é?
Ele balançou a cabeça, apreciando o ponto.
— Onde você as consegue?
— Eu as faço. Tenho um molde. Derreto o chumbo e derramo dentro. Então tiro as pequenas bordas que se formam ao redor da junta do molde.
— Hmmm.
Ele estudou a munição e pôde ver as marcas onde ela suavizou a marca da circunferência. Ele aprovava as pessoas que faziam suas próprias armas e projéteis. Particularmente alguém que era uma princesa e que poderia ter entregue a tarefa para os armeiros do Castelo Araluen.
— Certo, cinco tiros. Um para cada elmo. Vamos ver quão boa você realmente é — disse ele. Ele colocou uma ligeira ênfase na palavra “realmente” e esperou para ver como ela reagia a isso. Ela olhou para ele, apertando os lábios em uma linha fina. Um desafio tinha sido emitido e ela estava prestes a aceitá-lo.
— Qual o primeiro? — ela perguntou.
Ele apertou os lábios em falsa consideração.
— Vamos ver. Esses cinco elmos representam cinco guerreiros Temujai aproximando-se de você, empenhados em separar sua cabeça de seu corpo. Qual você escolheria como o primeiro?
A resposta era óbvia.
— O mais próximo — disse ela e ele acenou, então fez um gesto em direção à linha dos elmos.
— É claro, por agora ele estaria em cima de você e seu pequeno estilingue não faria muita diferença, não é?
Ela entendeu a dica.
Ele viu quando ela virou de lado, avançando seu pé esquerdo em direção ao alvo, o estilingue carregado atrás dela e ela estendendo seu braço direito. Ela deixou-o balançar uma vez, ajeitando a carga na bolsa, então trouxe seu braço direito para cima em um arco quase vertical, chicoteando a cinta e liberando o projétil quando deu um passo com a perna direita.
CLANG!
O elmo que ela tinha escolhido como alvo saltou no ar sob o impacto da pesada bala de chumbo e retiniu no chão, rolando de um lado para o outro. Quase imediatamente, ela havia recarregado o estilingue e lançou novamente, desta vez no elmo na extrema esquerda da linha.
CLANG!
O tiro atingiu no centro e o elmo girou violentamente no alvo. Mas ela já estava se alinhando para o terceiro alvo. Ela lançou novamente. Mas estava um pouco apressada e a bola de chumbo passou zunindo pelo capacete, errando por 30 centímetros.
Ela hesitou, sem saber se disparava contra esse alvo novamente.
— Ele ainda está vindo para você — Will disse calmamente.
Rapidamente ela recarregou, lançou novamente e enviou o elmo pulando da tora e girando na terra.
Restou um tiro. Ela carregou, se alinhou com o elmo restante mais próximo e atirou. O estilingue chicoteou em cima. A bola de chumbo passou zunindo e bateu na parte frontal do elmo, colocando um enorme novo dente em sua superfície agredida.
Ela olhou para ele, corada.
— Como você acha que foi? — ele perguntou a ela, com o rosto e a voz desprovida de expressão.
Ela deu de ombros, tentando não parecer muito satisfeita consigo mesma.
— Bem, quatro de cinco. Isso é muito bom, não é?
Ele a olhou por alguns segundos em silêncio.
— Havia cinco guerreiros Temujai perseguindo-a — ele disse. — Você acertou quatro deles. Presumidamente, o quinto te atingiu. Nessa situação, quatro de cinco não é muito bom. É bem morto.
Ela se sentiu ficar vermelha de raiva e vergonha. Ele estava certo, pensou. Neste mundo, quatro de cinco não era bom o suficiente.
— Continue praticando — ele disse a ela.
— Até eu acertar — ela completou.
Mas ele a corrigiu.
— Não. Até você não errar.

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