8 de fevereiro de 2017

Capítulo 15

Os olhos dela estavam fixos no arco enquanto ele o desembrulhava. Ela franziu o cenho. Era diferente de qualquer arco que ela tinha visto.
Para começar, ele era curto, talvez dois terços do comprimento de um arco normal. E a forma era bizarra, para dizer o mínimo.
A seção central, composta por cerca de dois terços do seu comprimento total era uma peça grossa de madeira escura, com uma pequena curva aparente. No centro ficava um envoltório de couro acolchoado e moldado para encaixar a mão. Mas em ambas as extremidades duas pontas de madeira estavam fixadas, de modo que elas se destacavam em ângulo para frente do arco – projetando-o para frente.
Will entregou a arma para ela e Maddie examinou-a de perto. As duas pontas reversas tinham sido cuidadosamente moldadas para encaixar rente às extremidades da seção central – que também fora cuidadosamente planejada e angulada. Elas, obviamente, foram coladas no lugar, em seguida, amarradas fortemente com o fio, o qual foi reforçado com mais cola e várias camadas de verniz para evitar desgastes.
À primeira vista, parecia que o arco – que formava um grande e achatado W – fora simplesmente feito amarrando o fio nas duas pontas, dobrando o arco em algo que se assemelhava à curva contínua de um arco normal ou arco curto. Mas quando ela olhou com mais cuidado, pôde ver os encaixes que fixavam a corda no lugar foram moldados de modo que o arco teria de ser puxado na direção contrária das duas pontas. Dessa forma, ela pôde ver, a seção central do arco formaria uma curva, com as duas pontas se curvando novamente na direção oposta em cada extremidade.
— É um arco recurvo — Will explicou, depois de deixá-la estudar por vários minutos. — Os Temujai o usam. Eu usei nos meus primeiros poucos anos como aprendiz. As pontas recurvadas lhe darão uma flecha mais rápida para uma tração inferior. Este tem cerca de vinte quilos de tração. Você deve ser capaz de usá-lo depois que desenvolver sua força.
Ele traçou um dedo abaixo da borda externa do arco.
— É reforçado com tendões de veados aqui para fornecer flexibilidade extra e recuperação.
— Quem o fez? — ela perguntou.
Ela ainda estava girando o arco em suas mãos, admirando a obra que estava ali. A madeira tinha sido moldada cuidadosamente e suavemente alisada.
Ela podia ver a camada de tendões, agora que ele apontou. Mas o arco todo tinha sido envernizado com um verniz escuro para que tivesse um tom de marrom escuro. O verniz tinha um acabamento fosco, ela notou, de modo que não teria reflexos de luz vindo dele.
A empunhadura de couro parecia confortável em sua mão, embora quando o arco estava sem corda, com as duas seções recurvadas apontando para fora, parecesse um pouco desequilibrado.
— Eu o fiz — ele respondeu. — Halt me mostrou como fazer um quando eu era um aprendiz.
— Poderia me ensinar? — ela perguntou ansiosamente, e ele balançou a cabeça e aprovação para ela, mais uma vez observando seu óbvio interesse e apreciação por uma boa arma.
— Haverá tempo para isso depois. Primeiro, você precisa aprender a atirar com esse. Você já disparou com um arco antes?
Ela balançou a cabeça com ar duvidoso. Tiro com arco era praticado como um esporte social pelas senhoras no Castelo Araluen e Maddie se juntava a elas de vez em quando.
Mas os arcos que usavam eram diferentes deste. Eles eram arcos longos simples – feitos a partir de bastões suaves e leves com uma tração de 10 quilogramas ou menos, para as mulheres menos musculosas que atiravam. Pelo o que ele dissera, esse seria duas vezes mais difícil de usar.
— Nada como isto — ela falou.
Maddie girou, tentando prender a corda no lugar. Com os arcos que ela tinha usado anteriormente, ela simplesmente prendia a corda de um lado e usava o peso de seu corpo para dobrar a estrutura, deslizando a corda para seu entalhe no lado oposto. Mas ela não gostava da ideia de forçar um arco recurvo daqueles cuidadosamente construído contra o chão.
— Como faço para prender a corda? — ela perguntou.
Ele estendeu a mão e pegou o arco dela.
— Há duas maneiras para você conseguir fazer isso. A primeira maneira é como um arco longo, assim.
Will pegou uma tira grossa do bolso lateral de sua jaqueta e desenrolou-a. Havia um pequeno cilindro de couro numa extremidade e um laço largo, envolvido com couro, na outra.
Ele deslizou o cilindro sobre a extremidade do arco onde a corda já estava presa em seu entalhe, depois colocou o laço sobre o outro lado, cerca de trinta centímetros antes de a curva começar. O restante da tira estava enrolada sobre a estrutura do arco, pendurado em uma curva solta.
Segurando o arco com a tira pendurada, ele pisou na grossa empunhadura do arco, prendendo-o ao chão, em seguida, começou a forçar o arco para cima, usando os músculos das costas, dos braços e das pernas para dobrar as pontas. O amortecedor de couro na extremidade da curva impediu que a tira escorregasse pelo limbo do arco quando ele aplicou mais força. O arco rangeu quando as pontas se inclinaram mais e mais e, assim que isso ocorreu, Will deslizou o pequeno laço da tira pelo limbo, passando a curva, até que ele se estabeleceu no entalhe na extremidade do arco.
— Sempre verifique se está encaixado corretamente antes de tirar a pressão — disse ele. — Você não quer que ele escorregue e a coisa toda dê errado.
Ele estudou a tira, convencido de que estava assentada corretamente, então soltou a pressão sobre a corda do arco. Ele deslizou a mão ao longo da tira, do laço acolchoado na extremidade do arco, removeu o cilindro do outro lado e a presenteou com a arma, agora devidamente montada e pronta para o uso.
— Isso parece um pouco difícil — ela observou duvidosamente. Ela tinha visto o esforço que ele teve que fazer para dobrar o arco.
Ele deu de ombros.
— Não é fácil. Mas você vai aprender como fazê-lo.
Ela gostou da forma como o arco parecia agora que estava com a corda. Estava definitivamente melhor equilibrado que antes. Timidamente, ela puxou para trás a corda do arco e levantou uma sobrancelha para a resistência. Ela tinha ouvido arqueiros falarem sobre todo tipo de pesos antes, mas tinha pouco significado para ela. Agora ela podia sentir quão difícil era puxar um arco de vinte quilogramas de tração. Ela teve um espasmo repentino de dúvida. Nunca conseguiria fazer isso.
— É uma questão de técnica — Will falou-lhe, como se tivesse lido seus pensamentos. — Você precisará usar os grandes músculos das costas. Ombros e braços. Estou supondo que quando você atirou antes, apenas puxou a corda para trás com o seu braço?
Ela assentiu com a cabeça e ele fez um gesto para que ela tomasse uma posição de tiro com o arco. Ela segurou-o à distância de um braço e ele se moveu para corrigi-la.
— Comece com a mão do arco perto de seu corpo, não estendida. Depois empurre com a mão do arco e puxe com a outra. Dessa forma, você está usando os músculos de ambos os braços, e não apenas o braço da corda.
Ela assentiu com a cabeça, pensativa, e trouxe o arco de volta para perto de seu corpo. Então, com um esforço coordenado, ela empurrou com um braço e puxou com o outro. A corda esticou-se quase dois terços de sua extensão antes de o aumento da resistência derrotá-la. Ela o soltou com um grunhido de esforço.
— Eu não posso fazer isso — ela murmurou.
— Sim, você pode — a resposta de Will foi concisa e não deixou espaço para argumentação.
Ela olhou para ele. Se ela estava esperando qualquer sinal de simpatia, não havia nenhum para ser encontrado. Ela percebeu então que se tentasse, se fizesse um esforço honesto, Will seria compreensivo e prestativo. Se ela desistisse, seria um assunto completamente diferente.
Ela respirou fundo e decidiu puxar o arco novamente.
Quando ela começou, o ouviu dizer.
— Pense em trazer suas omoplatas juntas quando você empurrar e puxar. Envolva os músculos das suas costas e ombros.
Ela fez o que ele disse, e dessa vez, ela sentiu a corda estivar-se um pouco mais, até seu polegar direito estar a poucos centímetros de seu nariz.
— Bom. Agora, tente novamente e veja se pode trazer seu polegar até o nariz.
Ela o fez, exercendo toda a força que conseguiu reunir em seus braços e o trouxe para trás. Fugazmente, o polegar tocou seu nariz.
Então ela deixou a corda voltar calmamente.
Ela balançou sua mão direita. A corda tinha cortado dolorosamente seus dedos quando ela puxou. Will percebeu o movimento e puxou algo do bolso, entregando a ela.
— Pode ser doloroso, não é? Experimente isto.
“Isto” era um pedaço de couro macio na forma de uma pequena luva.
Na extremidade mais estreita, um buraco foi cortado no couro, com a largura de um dedo. O couro se alargava então formando duas peças – uma pequena, outra maior – com um corte entre eles. Ele lhe mostrou como escorregar seu segundo dedo através do furo, de modo que o couro se estabeleceu ao longo do lado interno de sua mão. A seção menor correspondia ao seu dedão. A parte mais larga cobriu o segundo e o anelar. A abertura no meio os separava.
— A flecha vai aqui — disse Will, indicando a lacuna. — O resto deve proteger os dedos da corda.
Ela tentou de novo, puxando a corda para trás de maneira a experimentar. Ele estava certo, o couro protegia seus dedos e ela podia ver como a flecha se assentava entre eles na lacuna – com o dedo indicador acima do entalhe e seus outros dois dedos abaixo dele.
— Você usa um desses? — ela perguntou.
Ele balançou a cabeça.
— Eles são um pouco complicados se você estiver em uma luta. Eu tenho as pontas dos dedos das minhas luvas reforçadas. Vamos fazer uma para você. Entretanto, este auxílio a servirá bem. Tente novamente. Lembre-se, omoplatas juntas.
Ela levantou o arco. Empurre, puxe. Omoplatas fazendo forças juntas. Seu polegar tocou o nariz fugazmente e ela diminuiu a pressão na corda.
— Fico feliz em ver que você sabe o suficiente para não simplesmente soltar sem uma flecha na corda — ele falou asperamente.
Ela deu um sorriso amarelo. Ela sabia que disparar a seco um arco daquela forma poderia causar danos aos componentes.
— O Mestre de Armas Parker sempre ameaça com consequências terríveis a qualquer senhora que o faça.
Will assentiu.
— Bom para ele. E evidentemente, quanto mais poderoso o arco, mais dano pode ser feito. Vamos ver como você faz com uma flecha.
Havia várias flechas num compartimento da bolsa. Ele pegou uma e entregou-a a Maddie, acenando com aprovação quando ela segurou a parte emplumada e arrumou no arco. Lembrou-se de como Halt tinha-lhe ensinado os mesmos fatos mais básicos sobre arcos. Ela apoiou-a na corda logo abaixo do entalhe marcado no arco e olhou criticamente para a flecha.
— É um pouco pequena — ela disse.
Ele inclinou a cabeça.
— Tem o comprimento certo para você puxar até o seu nariz. Não há razão em disparar uma flecha maior do que você pode extrair. Tudo o que você faria seria adicionar peso sem acrescentar o impulso por trás dele.
Ela pensou sobre isso. Fazia sentido. Ela assumiu sua postura novamente, então hesitou.
— Qual é o alvo?
Wll indicou um fardo de feno a cerca de vinte metros de distância deles.
— Aquilo deve servir — ele disse.
Ela estudou o alvo, acenou com a cabeça e virou-se para ele, o arco erguido, a flecha encaixada na corda. O entalhe mantinha a flecha no lugar, e a lacuna para a flecha estava alinhada com o entalhe, com o dedo indicador acima e seu dedo médio e anelar abaixo. Muito melhor com o couro para proteger a mão, ela pensou. Começou a levantar o arco, depois parou.
— Você tem uma proteção para braço? — ela perguntou.
Ela viu um ligeiro olhar de decepção nublar o rosto de Will, então se foi quando ele se virou para remexer entre os equipamentos na bolsa. Ele encontrou uma proteção de couro e entregou a ela. Ela colocou-o sobre o braço esquerdo.
— Um arco como esse teria me atingido como um chicote sem uma proteção para o braço — ela comentou.
Ele resmungou e algo em sua atitude atraiu sua atenção. Ela o olhou de perto.
— Não me diga. A primeira vez que atirou com um desses, você não usou o protetor de braço, não é?
Ele a encarou e ela sentiu uma estranha sensação de prazer.
— Você não usou, não é? — Ela repetiu.
Ele fez um gesto com firmeza para o alvo.
— Basta fazer seu tiro.
Ela balançou a cabeça em descrença zombeteira.
— Rapaz, você deve ter sido tão idiota.
— Quando você estiver pronta, pode atirar.
Ela se colocou em posição de tiro e levantou o arco. Quando fez isso, não pôde resistir a mais uma investida.
— Aposto que você tinha um para o seu segundo tiro.
— Vamos logo com isso! — Will disparou para ela.
Ela flexionou os ombros e músculos das costas, puxou a corda tanto quanto pôde, avistou o alvo rapidamente e liberou. A flecha acertou o chão diante do fardo de feno.
Ela franziu a testa, recarregou e disparou de novo. O mesmo resultado. Ela olhou de soslaio para Will.
— O que eu estou fazendo de errado?
Ele inclinou a cabeça para ela.
— Oh, você acha que alguém tão idiota como eu poderia ser capaz de lhe dizer? — ele perguntou num tom falsamente doce.
Ela suspirou e revirou os olhos. Não houve resposta, e ela se resignou a deixá-lo ter a última palavra. Quando ele falou de novo, seu tom era rápido e eficiente.
— Você não está acostumada com o peso do arco e está muito ansiosa para liberá-lo. Isso significa que você está deixando cair seu arco, e quando atira a flecha voa baixa. Segure um pouco mais firme. Não por muito tempo, ou seu braço vai começar a tremer. Mas o mantenha estável até depois de ter lançado. Solte a flecha e conte até dois, mantendo o arco na posição de tiro.
Ela tentou de novo, esforçando-se para manter o arco estável por alguns vitais segundos extras. Desta vez, quando atirou, viu o rastro da flecha ir longe e acertar, tremendo, na borda esquerda do fardo. Ela sorriu deliciada.
— Nada mal — Will disse.
Ela reagiu de forma escandalizada.
— Nada mal? Nada mal? Meu terceiro tiro desde sempre e eu acertei o alvo! Isso é melhor que nada mal.
— Se aquele fosse um homem — Wll disse a ela. — Você teria roçado seu ombro esquerdo. Se fosse um cavaleiro, ele provavelmente estaria usando um escudo e sua flecha teria desviado, enquanto ele continuaria se aproximando. Nada mal não é bom o suficiente. Nada mal teria te matado.
Eles se entreolharam por alguns segundos, ela encarando com raiva, ele com uma sobrancelha erguida em uma expressão zombeteira. Finalmente, ele sacudiu a cabeça para o alvo.
— Mais vinte tiros — ele falou. — Vamos ver se você progride para meio razoável.
Ela gemeu baixinho quando puxou outra flecha. Seus ombros e costas já estavam doendo.
Eu não deveria ter feito piada dele, pensou. Mas a realização veio tarde demais, como acontece tantas vezes.

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