8 de fevereiro de 2017

Capítulo 14

Will acordou na manhã seguinte com o cheiro de bacon frito.
Ele franziu a testa, cheirou o ar experimentalmente e confirmou o fato. Era definitivamente bacon frito. Seu estômago vazio retumbou em antecipação. Ele balançou as pernas para fora da cama, vestindo-se às pressas, e abriu a porta para a sala principal da cabana.
Maddie estava no fogão, uma frigideira numa mão e um grande garfo na outra. Ela sorriu quando ele entrou, esfregando a sonolência de seus olhos, alisando o cabelo desgrenhado.
— Eu fiz o café da manhã — ela anunciou. — Eu não sabia como mexer os ovos, assim eu os fritei.
Ela apontou-lhe um lugar à mesa.
— Bem, isso é uma surpresa — ele observou, e ela colocou um prato cheio diante dele.
A surpresa aumentou quando ele olhou para o bacon, frito com três centímetros de comprimento e reduzido a tiras rígidas.
Os ovos não estavam muito melhores – ela tinha queimado o fundo e as gemas eram duras e secas. Will olhou para eles, hesitante, depois pegou a faca e o garfo, determinado a comê-los.
Ela tentou, pensou. Pode não ter conseguido, mas já estava tentando, e ele viu o sentimento por trás do gesto. Era sua maneira de pedir desculpas, e de forma mais significativa – se de uma forma totalmente não comestível – que simplesmente pronunciar as palavras.
Ele espetou o garfo em uma das tiras de bacon que prontamente se desintegrou em uma massa de fragmentos afiados. Maddie observou com cuidado enquanto ele pegava vários pedaços e colocava em sua boca, chupando-os para amaciá-los.
— Está bom? — Ela perguntou. — Eu nunca cozinhei bacon antes.
— É notável — ele murmurou, passando a língua pelas lascas de bacon que enchiam sua boca. — Um primeiro esforço muito louvável.
Ele engoliu o bacon com um pouco de dificuldade, em seguida, tentou os duros ovos escuros no fundo. O sabor de clara de ovo queimada encheu sua boca. Ele mastigou e engoliu.
— Eu não tinha certeza sobre esses pedaços pretos na parte inferior — ela falou, ansiosa.
— Eles acrescentam sabor — Will opinou.
Ele percebeu que ela já tinha recolhido o pão fresco do dia da padaria. Ele rapidamente arrancou um pedaço, passou manteiga e devorou. Colocou mais manteiga nas gemas dos ovos duros. Queria pelo menos amaciá-los um pouco.
Maddie se sentou em frente a ele e ele olhou com inveja para o prato de frutas diante dela – uma maçã e alguns morangos suculentos, rechonchudos. Ela também tinha uma grossa fatia de pão com manteiga e geleia. Ela tomou um grande gole de leite e um pedaço de pão e geleia. Ele percebeu que sua própria boca estava seca e entupida com o gosto de comida queimada.
Ele olhou em volta para o jarro de água e um copo, mas quando ele estendeu a mão, ela se antecipou.
— Fiz café — disse ela.
Agora foi uma surpresa. Ele não havia detectado nenhum vestígio do rico aroma perfumado de café feito na hora. Embora agora que ela mencionou, ele estava ciente de um leve cheiro na cozinha.
Seu velho bule de café estava assentado em cima fogão, vapor saindo de seu bico. Ela o apanhou, protegendo a mão da alça quente com um pano de cozinha, colocou uma caneca diante dele e derramou.
Um filete de água quente um pouco escuro emanou do bule para sua caneca. Ambos olharam para ele. Fosse o que fosse, Will pensou, não era café. Maddie franziu o cenho quando percebeu o mesmo.
— Isso não parece certo — disse ela, em dúvida. — Tenho certeza de que eu fiz certo.
— O que você fez? — Ele perguntou, pegando o copo e fiscalizando o líquido levemente marrom dentro dela. Ele cheirou. Havia um aroma de café ali. Era fraco. Mas estava lá.
— Enchi o bule com água fria, coloquei para ferver na placa do fogão. Então, quando ela ferveu, coloquei o café – três grandes colheradas. Pensei que seria o suficiente.
— Deveria ter sido — ele respondeu, distraído.
Três colheres deveriam ter produzido uma bebida rica e escura. Não este café insípido e impostor que o confrontou. Um pensamento lhe ocorreu.
— Onde você conseguiu o café? — Ele perguntou, pensando que ela poderia ter reutilizado.
Mas ela fez um gesto para a jarra de cerâmica na prateleira de cima na cozinha, onde ele mantinha os grãos de café.
— Ali. Eu vi onde você pegou.
Will estava começando a entender.
— E você apenas... colocou três colheres do pote?
Ela assentiu com a cabeça.
— Você não acha que deveria moê-lo em primeiro lugar? — ele perguntou gentilmente.
Maddie franziu a testa, sem compreender o que ele estava dizendo.
— Moê-lo?
— Moê-lo. Normalmente eu moo os grãos em pó. Isso libera o sabor do café, que você vê.
Ela ainda estava segurando o bule. Will o pegou dela e abriu a tampa, olhando para dentro. Uma vez que a nuvem de vapor inicial se dissipou, ele pôde ver uma série de pequenas formas redondas marrons flutuando em cima da água.
Ele começou a rir. Ele não pôde impedir, e no momento em que ele começou, sabia que era um erro. Ele se forçou a parar, mas o estrago estava feito. Maddie o observava, o rosto aflito, quando percebeu o quanto falhara. Ela queria fazer-lhe um bom café da manhã como uma maneira de dizer “vamos começar de novo”. Mas tudo o que conseguiu foi arruinar o seu café. Ela agora começou a suspeitar que o bacon e os ovos não estavam exatamente bons.
Will cobriu sua boca, forçando o riso de volta.
— Sinto muito — ele falou contritamente, embora pudesse ver a decepção no rosto dela.
Ele podia ver a forma como o queixo estava contraído e seus lábios estavam pressionados juntos enquanto ela fazia um esforço para não chorar.
— Eu estraguei tudo, não foi? — ela perguntou. — Não só o café, mas o resto também.
— Deixe-me colocar desta forma... não é o melhor que já comi. Comer o bacon foi parecido com mastigar cacos de cerâmica. E os ovos mereciam um destino melhor.
Ela baixou o olhar, totalmente cabisbaixa. Ela odiava falhar.
— Mas eu não deveria ter rido — continuou ele, em um tom mais suave. — Você tentou e foi um bom pensamento. Ninguém me fez café da manhã em meses.
— Eu aposto que ninguém jamais fez um café da manhã assim — disse ela, com os olhos para baixo.
— Eu não posso dizer que sim. Mas como posso esperar que você acerte da primeira vez? Alguma vez você já cozinhou ovos e bacon antes?
Ela balançou a cabeça, não confiando em si mesma para falar. Em sua mente, ela tinha visto Will vindo à mesa, surpreso e encantado, devorando a refeição e bebendo alegremente seu café. Era para ter sido sua maneira de pedir desculpas por seu comportamento com Jenny – comportamento que até mesmo agora a fez estremecer quando pensou nisso.
E agora isso... esse desastre absoluto. Ela sentiu a mão de Will em seu ombro e ela olhou para cima. Seus olhos eram muito quentes e suaves – como os do Tio Will que ela havia conhecido quando menina.
— Maddie, você fez um esforço e esse é o principal. E quando você não me deu o melhor café da manhã do mundo, você fez uma coisa para mim – algo muito mais importante.
Ela inclinou a cabeça para um lado, curiosa.
— O quê?
— Você me fez rir. E ninguém fez isso em um longo tempo.


Após o café da manhã – no caso de Will, uma fatia de pão, algumas fatias de um presunto pendurado na despensa e uma xícara de café corretamente preparada – eles saíram para a pequena clareira em frente à cabana para a primeira sessão de Maddie com as armas que ela usaria pelos próximos doze meses.
Ela observou ansiosamente quando Will desenrolou um oleado para revelar seu conteúdo. Ele pegou a bainha dupla presa num cinto de couro grosso primeiro.
Ela tinha visto o peculiar equipamento duplo usado pelos arqueiros antes, é claro. Mas nunca teve a oportunidade de inspecionar as duas facas que estavam em seu poder.
A de caça foi a primeira. Era a maior das duas, quase do comprimento de uma espada curta. Ela tinha uma faca de caça fazia alguns anos, é claro, mas era mais leve e mais curta que essa. Esta era a arma diária de um arqueiro para combate de perto – uma lâmina pesada e de fio afiado. Ela descansou o dedo indicador levemente sobre a lâmina, testando o limite.
— É afiada — Will disse, olhando com aprovação como ela tratou a arma com respeito e cuidado. — E vai ser até você mantê-la assim. Se algum dia eu inspecioná-la e encontrar vestígios de ferrugem ou a borda serrilhada, você correrá de costas até Foxtail Creek durante uma semana.
Ela assentiu respeitosamente. A faca de caça era uma arma de aparência simples. Não tinha adornos nem ornamentos, era feita de aço liso com punho de couro, pomo de bronze e cruzeta de latão. Mas, quando ela a segurou, sentiu o equilíbrio perfeito da arma que a fez parecer leve e fácil de manejar – apesar do fato de que a lâmina grossa tinha um peso considerável. Ela percebeu que tinha sido feita por um mestre artesão e as próximas palavras de Will comprovaram seu pensamento.
— Nossas facas são feitas especialmente para nós — ele explicou. — O aço é tratado e trabalhado de modo que é tremendamente dura. Um golpe dessas em uma espada deixará um entalhe na espada – enquanto esta lâmina não terá praticamente nenhuma marca. Exceto a espada de seu pai, é claro — acrescentou.
Ela o olhou com curiosidade, ao mesmo tempo medindo a faca de caça com as mãos, sentindo-a.
— A espada do meu pai? O que tem ela?
— Ela foi fabricada para ele pelos armeiros de Nihon-Ja. Eles usam uma técnica semelhante aos nossos fabricantes de armas. A espada de Horace é uma obra-prima. É mais dura e mais afiada do que qualquer espada de Araluen ou do continente.
— Eu não sabia disso — ela falou. Seu pai nunca tinha mencionado.
Will descartou o assunto, apontando para ela voltar a embainhar a faca de caça. Ela o fez e ele retirou a faca menor da bainha.
A lâmina foi cerca de vinte centímetros de comprimento. Era estreita onde se juntava ao punho, mas alargava-se rapidamente, em seguida, estreitava-se bruscamente para formar um ponto afiado. A forma afilada da lâmina tinha maior massa no ponto, que era equilibrado pelo peso do cabo – construído de discos de couro e com uma pequena cruzeta de latão. Mais uma vez havia um pomo de bronze no final do punho.
— Você aprenderá a atirar esta — ele disse a ela.
Ela apertou os lábios.
— Eu nunca atirei uma faca — ela admitiu.
Will deu de ombros.
— O princípio é bastante simples. Você joga para que ela gire no ar apenas o suficiente para a ponta estar de frente para o alvo quando alcançá-lo. Quanto mais longe o alvo, mais vezes você vai girar.
Ele mostrou-lhe como variar a taxa de rotação, segurando a faca mais próxima da ponta ou da lâmina.
— Perto da ponta ela girará mais rápido. Segure a lâmina mais perto do punho e ela girará mais lentamente através do ar — disse ele.
Ela assentiu com a cabeça, tentando as diferentes posições, imitando o ato de atirar a faca. Podia sentir como a posição perto do ponto daria maior rotação na lâmina.
— Isso não parece muito fácil — ela comentou em dúvida, e ele concordou com a cabeça.
— Não é. Eu disse que a princípio era simples. A prática é, definitivamente, algo mais. Como tudo o que um arqueiro faz, requer prática, prática e... — Ele fez uma pausa, levantando uma sobrancelha para ela para completar a instrução.
— Mais prática? — perguntou ela.
— Entendeu bem. Esse é o segredo da maioria das nossas habilidades. Por baixo de tudo, jogar uma faca é como cozinhar um ovo perfeito. Quanto mais você fizer isso, melhor ficará – embora as técnicas sejam bem diferentes.
Ela guardou a faca de arremesso na bainha. Ela pesou a bainha dupla na mão por alguns instantes, admirando o visual combinado das duas armas e o design simples, prático. Aparentemente simples, porque, depois de examiná-la, percebeu as horas de trabalho árduo pela qual o artesão passou para sua fabricação.
Ela baixou as facas e olhou com expectativa para a capa impermeável. Havia outro item escondido em suas dobras, algo delgado e mais longo. E ela achava que sabia o que era.
— Qual é o próximo? — perguntou.
Ela tentou manter a voz neutra, mas Will ouviu o tom de expectativa nela. Ela estava gostando desta sessão. Estava interessada nas armas. Não era surpresa, considerando-se sua propensão para a caça. Mas o interesse era algo bom e iria servi-la bem nos próximos meses, durante as constantes ações repetitivas de prática. Uma pessoa precisava de grande interesse para continuar praticando e continuar melhorando.
— O próximo é a nossa principal arma — ele falou. — O arco.

7 comentários:

  1. Capítulo mais engraçado de todos kkkk

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  2. Gilan, o Arqueiro que usa arco e espada. Maddie, a Arqueira que usa arco e estilingue. Por Atena, ela cozinha pior do que eu.

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  3. Karina, outro errinho aqui.
    "Ele percebe ( percebeu) que ela já tinha recolhido o pão fresco do dia da padaria."

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    1. percebe esta correto.
      - Aron

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  4. ri muito do ovos queimado e do bacon de seramica

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  5. Finalmente alguém pra alegrar o Will.
    Ass: Lua

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  6. Mano do céu, ri demais nesse capítulo kkkkkkkk

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Boa leitura :)