8 de fevereiro de 2017

Capítulo 13

— Você tem certeza de que não está sendo muito duro com ela? — perguntou Jenny.
Will considerou a questão por um momento, depois sacudiu a cabeça.
— Acho que tenho que ser duro, Jen — ele respondeu. — Ela é mimada, voluntariosa e arrogante, e vou precisar tirar isso dela se quero trabalhar com ela.
Eles estavam sentados sob um toldo na área de alimentação ao ar livre na frente do restaurante de Jenny. Ela lhe deu um olhar avaliador, depois assentiu.
— Talvez. Mas não exagere, está bem? Tenho certeza de que ela não é uma garota má no coração.
— Bem, eu estou tentando lembrar como Halt me tratou — Will respondeu — e estou sendo guiado por isso.
— Você quer dizer no momento em que ele o tratou horrivelmente — ela falou com um sorriso. — E você não era uma princesa.
— Nem ela é agora. E é isso que eu tenho que lembrá-la. Ela é minha aprendiza e não tem mais direitos ou privilégios do que qualquer outro aprendiz. Ela não recebe nenhum tratamento especial.
— Apenas certifique-se de que, enquanto você não dá a ela um tratamento especial por um lado, não esteja puxando-a na outra direção — Jenny avisou. — Onde ela está agora, a propósito?
— Ela está com Mistress Buttersby, sendo equipada com seu uniforme — Will disse, apontando com um polegar para rua abaixo. — Pelo menos, Mistress Buttersby está lhe mostrando como adaptar as roupas para que elas sirvam. Maddie terá que fazer o trabalho sozinha. Ela poderia fazer isso de vez em quando — acrescentou ironicamente.
Jenny olhou para ele. Era o primeiro traço de humor que ela via em seu velho amigo durante meses. Mas ela era inteligente o suficiente para não mencionar. Deixou o pensamento vagar longe. Ela iria partilhá-lo com Gilan quando ele visitasse o Feudo Redmont – algo que ele fazia mais vezes do que o estritamente necessário. Ela sabia o quanto Will estava sofrendo pela perda de Alyss e pensou que foi um golpe de gênio atribuir Maddie a ele como uma aprendiza. Ela olhou ao longo da rua e apontou.
— Parece que ela está voltando.
Maddie estava caminhando até a colina rasa em sua direção, os braços sobrecarregados com uma pilha de roupas. Envolto desajeitadamente por cima de seus ombros estava um item familiar – o manto cinza e verde malhado que era o item padrão para todos os arqueiros e seus aprendizes.
— Ela parece um pouco sobrecarregada — Jenny acrescentou, sorrindo, quando Maddie derrubou um par de botas e um colete de couro no chão.
Quando ela se abaixou para recuperá-los, ela derrubou mais roupas. Ela recebeu três peças básicas – camisas de lã e calças curtas, o gibão de couro e dois pares de botas – juntamente com a capa, e a massa de roupas estava se provando ser difícil de carregar.
— Foi um dia esmagador — Will comentou.
Mas ele não fez nenhuma tentativa de se levantar e se mover para ajudá-la. Quando Maddie chegou mais perto, botas, camisas e calças equilibrados precariamente, Jenny teve pena e levantou-se e postou rapidamente ao lado dela.
— Deixe-me ajudá-la — disse ela.
Maddie olhou com gratidão e abriu mão de metade da carga. Ela seguiu Jenny até o restaurante e deixou cair o pacote restante em uma mesa próxima.
— Ela me deu os menores tamanhos que ela tinha, mas todos são muito grandes — ela falou um pouco sem fôlego.
Jenny sorriu.
— Não é de se estranhar. Afinal, você é a primeira Arqueira.
— Ela lhe mostrou como adaptá-las? — Will perguntou.
Maddie assentiu.
— Vai levar horas para pegar tudo.
— Bem, você só precisa de um conjunto para começar. Isso não deve demorar muito. Você pode conseguir esta noite, depois do jantar — Will disse.
Ele não tinha certeza se ela estava procurando por simpatia, mas se estava, não conseguiu.
Jenny e Will tinham bebido suco de frutas batidas. Ela acenou para o garçom para que ele trouxesse um terceiro copo para Maddie, que aceitou avidamente e tomou um gole profundo.
— Aaaah. Isto está ótimo. Obrigada — disse Maddie.
— Deve ser tudo muito diferente e confuso para você — Jenny falou gentilmente. — Espero que Will não esteja sendo muito mau para você, Maddie. Eu sou Jenny, por sinal.
Ela estendeu a mão, sorrindo. Maddie considerou hesitante por um momento. Tinha chegado mais ou menos a um acordo com a estranha relação que agora existia entre ela e Will. Afinal de contas, como ele apontara, ele era um funcionário do Reino e estava tecnicamente acima ela. Mas Jenny era diferente. Jenny era uma plebeia. Ela era uma cozinheira – não tinha realmente um status maior do que um criado do Castelo Araluen teria. Maddie não tinha certeza de que os termos de nome próprio fossem adequados o bastante entre elas.
Mas Jenny tinha sido simpática e acolhedora, e Maddie não queria aborrecê-la. Ela tentou ser diplomática. Como a maioria dos adolescentes de quinze anos, foi um longo desvio da realidade.
— Hmm... Eu não tenho certeza de que seja adequado para você me chamar de Maddie — ela falou em tom de desculpas. — Na realidade, você deveria me chamar de “Princesa” ou “Sua Alteza”.
O sorriso de Jenny desvaneceu-se e ela recolheu a mão. Will encarou com fúria nublada as palavras de Maddie. Jenny se levantou e disse friamente:
— Terei isso em mente — ela assentiu brevemente para Will. — Eu te vejo mais tarde, Will. Tenho trabalho a fazer.
Ela entrou no restaurante. Maddie olhou para Will, impotente, e abriu as mãos num gesto derrotado.
— O quê? O que eu fiz de errado agora? Eu entendo como são as coisas entre nós dois. Mas tenho que deixar todo mundo falar comigo como se eu fosse uma ninguém? Afinal de contas, ela é apenas uma cozinheira.
— Jenny é uma das mais antigas amigas de seu pai. E minha. Nós todos crescemos juntos. E ela é conhecida de sua mãe há anos. Se a sua mãe sente que está tudo bem para Jenny chamá-la por seu primeiro nome, não vejo por que com você deveria ser diferente.
— Mas as coisas eram diferentes naquela época. Afinal, quando minha mãe conheceu a todos, ela estava viajando incógnita. Teria sido inútil usar o título. Mas eu não. Eu sou...
— Você é uma criança mimada e arrogante a quem uma lição precisa ser ensinada. Eu esperava que não chegasse a isso, mas aparentemente é necessário. Siga-me.
Ele se levantou abruptamente e saiu do restaurante. Maddie o seguiu, fazendo malabarismo com botas, jaquetas e camisas mais uma vez em uma pilha confusa.
— E não deixe cair nada! — ele exclamou.
Ela seguiu a figura que andava rapidamente até a rua e ao longo do trajeto da floresta, que levou para a cabana. Uma vez lá, Will abriu a porta com força e foi até a mesa que estava contra a parede, remexendo os papéis até encontrar o que estava procurando.
Ela tropeçou atrás dele, derramando itens de uniforme em toda a varanda e sala de estar. Parou hesitante quando ele se virou para encará-la, um envelope na mão. Ele desdobrou a folha de pergaminho, em seguida, estendeu-o para ela.
— Leia isto — disse ele.
Ela leu as primeiras palavras na folha e ficou em choque com seu conteúdo. Olhou rapidamente para o final da página e viu a assinatura de sua mãe e de seu pai acima de seus selos individuais. Não havia dúvida. Este documento era genuíno. Ela voltou para o topo da página e leu, sentindo o sangue fugir de seu rosto.

Quero que saiba que nós, abaixo assinado, renunciamos a todos os laços com a nossa filha, Madelyn, e revogamos todos os seus títulos e privilégios como uma princesa do reino de Araluen.
Ela está deserdada como uma Princesa e como nossa filha, e que nenhum privilégio ou respeito anteriormente concedido devido à sua qualidade de membro da família real de Araluen seja mantido.
Até qualquer aviso prévio, ela será conhecida e chamada simplesmente de senhorita Madelyn Altman, ou, enquanto aguarda a concordância do arqueiro Will Tratado para atuar como seu mentor, o título alternativo de aprendiza de arqueiro Madelyn.
Isto terá efeito imediato, a partir da data deste anúncio, e continuará por tempo indeterminado até que possamos decidir restabelecer Madelyn à sua antiga posição.
Dado sob os nossos nomes e selos,
Vossa Alteza Real Cassandra,
Princesa Regente do Reino de Araluen e todos os seus territórios
Sir Horace Altman,
Cavaleiro Principal do Reino,
Campeão Real

As assinaturas foram rabiscadas ao lado dos selos de cera. Maddie olhou para a data. A ordem tinha sido escrita no dia anterior ao que ela tinha deixado o Castelo Araluen para montar até Redmont. O tempo todo que ela esteve na estrada, ela percebeu, ela já tinha sido deserdada – uma ninguém qualquer. Seus olhos se encheram de lágrimas.
— Como eles puderam fazer isso? — ela perguntou, a voz embargada. — Será que eles realmente me odeiam tanto?
Will balançou a cabeça.
— Eles não te odeiam. Estão simplesmente no fim de suas forças. Pensaram que talvez eu precisasse ter esse documento para fazê-la entender quão grave essa coisa toda é. Eu esperava que não tivesse que lhe mostrar isso. Mas tornou-se necessário. Eu tenho dito, Maddie. Você não é mais uma Princesa. E você não pode mais se comportar como se fosse. Você é minha aprendiza. Você não é melhor do que ninguém aqui em Redmont – nem Jenny, e nem o garoto do estábulo do castelo, nem o mais jovem dos aprendizes da Escola de Guerra. Por outro lado, você não é pior do que qualquer uma dessas pessoas, também. Você é uma igual entre iguais.
Maddie franziu o cenho.
— Mas você disse que os arqueiros estão entre os mais altos oficiais superiores no Reino... — ela começou hesitante.
— Arqueiros estão. Seus aprendizes não. E você não é oficialmente uma aprendiza ainda. Você será, como um título de cortesia. Mas treinará por doze meses antes de ser avaliada e aprovada na Corporação.
— Doze meses? — Ela ficou horrorizada com a perspectiva. — Doze meses? Eu pensei...
— Você pensou que duraria um fim de semana ou dois. Então você cavalgaria de volta para casa, diria que está arrependida e convenceria seus pais de que percebeu suas escolhas erradas e tudo seria perdoado. Certo?
— Bem... Sim. Acho que sim — disse ela.
Ela percebeu quão ruim ele soou quando falou aquilo daquela forma. Ela também percebeu que era exatamente como as coisas tinham sido pelo menos meio dúzia de vezes no passado. Seus pais davam a punição, que ela cumpria por um dia ou uma semana, então pediria desculpas e as coisas voltariam ao normal. E algumas semanas mais tarde, ela estaria de volta ao seu antigo comportamento ruim.
— Você já fez isso uma vez, muitas vezes, Maddie — Will falou-lhe seriamente. — Cassandra e Horace finalmente tiveram o suficiente. Quer você goste ou não, eu sou sua única esperança agora.
Seu lábio começou a tremer e ela sentiu uma lágrima se formando em seus olhos. Ele percebeu, mas não deu nenhum sinal disso. Ela teve um choque, ele sabia, talvez o maior choque da sua jovem vida. E agora não era o momento de cismar.
Ele apontou para as peças de uniforme espalhadas por todo o espaço.
— Reúna estas roupas — disse ele. — Encontre os itens que melhor se ajustem. Apenas uma camisa, calças e botas. Não há necessidade da capa. Amarre as botas bem apertadas e esteja lá fora em cinco minutos.
— Lá fora? — Ela repetiu, atordoada com a súbita mudança de assunto. — O quê...?
— Vamos dar uma corrida. Quero ver como está o seu físico. Cinco minutos!
Sem esperar por uma resposta, ele caminhou porta afora, batendo-a atrás dele. Ela ouviu as botas na varanda enquanto Will se dirigia para o estábulo na parte traseira da cabana, ouviu Puxão dar um breve relincho de saudação ao seu mestre.
Então ela percebeu que estava perdendo tempo e ainda tinha que encontrar as peças que melhor se ajustassem para sua roupa nova. Lutando para reuni-los, ela correu para o seu quarto.
Ela surgiu alguns minutos depois. Se tinha ultrapassado o limite de tempo ou não, ela não tinha ideia. Mas pelo menos Will não fez nenhum comentário. Ele estava sentado montando Puxão, esperando na pequena clareira atrás da cabana.
— Você não vai correr? — Ela perguntou.
Ele levantou uma sobrancelha.
— Eu sei como está o meu físico — disse ele. — Vou montar. Você corre. Vamos até Foxtail Creek. É um pequeno povoado a oito quilômetros daqui. Apenas um agradável passeio de ida e volta.
Ele indicou um caminho que seguia por entre as árvores.
— Vamos.
Ela partiu por entre as árvores, cabeça baixa, balançando os braços, as pernas se movendo. Correu suave e uniforme, dando um bom ritmo. Seu passo era equilibrado e leve. Will e Puxão estavam atrás dela. O pequeno cavalo contraiu suas orelhas, intrigado.
Como ela reagiu?
— Reagiu a quê? — ele perguntou. Maddie ouviu seu comentário sussurrado e se virou com curiosidade. Ele acenou adiante. — Continue.
Ser deserdada. Como ela lidou com isso?
— Como você sabe disso? — Desta vez, Will manteve a voz baixa, de modo que era quase inaudível.
Eu já lhe disse. Se você sabe, eu sei.
Não pela primeira vez em sua carreira, Will se perguntou se o seu cavalo estava falando com ele, ou se ele estava simplesmente falando sozinho. Ele decidiu que não queria saber a resposta para isso.
— Bem, ela não estava alegre — respondeu ele. Em seguida, ele ergueu a voz. — Caminhe por trezentos passos. Em seguida corra novamente — ele falou.
Maddie assentiu sem olhar para trás. Ela desacelerou para uma caminhada rápida, então quando chegou à contagem de trezentos, começou a correr novamente. Will viu seus ombros e a cabeça se erguendo. Seu corpo era uma combinação determinada. Ele balançou a cabeça em aprovação.
— Ela está em forma o suficiente — ele comentou. — E puxou sua mãe em certos pontos.
Puxão sacudiu sua crina curta. Eu sabia que ela puxaria.
— Ah, é mesmo? E como você sabia?
Eu sou um cavalo de arqueiro. Entendemos de boa criação.
E realmente, não havia nada que Will pudesse dizer em resposta a isso.

7 comentários:

  1. Ela não vai ter um cavalo com quem conversar? Gente, acho que Will pegou o mal hábito do Halt e falsificou aquilo. Só que lembro que ele era mestre em falsificar selos?

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  2. Karina, um errinho aqui:
    "- Você que (QUER) dizer no momento em que ele o tratou horrivelmente?".

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    1. Corrigido, Lucas, obrigada pelas observações :)

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  3. Meu Deus! Will estar demais! O espírito do Halt baixou nele!
    Ass: Bina.

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  4. "Sir Horace Altman,
    Cavaleiro Principal do Reino,
    Campeão Real" se bem me lembro Horace falou, acho que no 7 ou 8 livro, que seria campeão de Cassandra Kkkkkkkk. Estou amando, essa parte, é muito engraçado.
    Ass: Lua

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  5. Presenciamos um milagre, o Will chamou a Cassandra pelo nome não de Evelyn.

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Boa leitura :)