8 de fevereiro de 2017

Capítulo 11

No dia marcado, Maddie chegou à cabana de Will abaixo do Castelo Redmont para começar seu treinamento.
Ela chegou no dia correto, mas não na hora correta. Will a esperava desde as nove horas da manhã. Era bem depois do meio-dia quando ela entrou na pequena clareira. A essa altura, Will tinha desistido de esperar por ela. Pelas primeiras duas horas, ele se sentou com expectativa na varanda das cabana, olhando para a trilha estreita entre as árvores, onde ele sabia que ela iria aparecer.
Finalmente, com uma expressão de desgosto murmurada, ele voltou para dentro para ler os últimos maços de relatórios que haviam chegado naquela manhã por Gilan. Era rotina normal para todos os arqueiros estudar os relatórios de outros feudos. Mas Will tinha um interesse extra. Ele examinou os relatórios –reunidos a partir de arqueiros de todo o Reino, que detalhavam crimes locais e eventos fora do comum – à procura de qualquer indício de atividade que pudesse indicar onde Jory Ruhl tinha ido parar.
Ele estava envolvido num relato do Feudo Cordom sobre um mestre balsa criminoso que recolheu passageiros para atravessar o rio Gadmun, então os roubou, tirou todos os seus pertences e os obrigou a pular na água para ter sua chance de sobreviver contra a corrente veloz. Ele separou o relatório de lado, colocando-o em uma pasta de couro que continha um maço fino de outros relatórios que poderiam dar indícios de Jory Ruhl.
— Poderia ser ele — disse a si mesmo. — É o tipo de coisa que ele faria.
Sable, deitada no chão ao lado dele com a cabeça sobre as patas, abriu os olhos e observou-o com expectativa, o rabo agitando-se rapidamente. Ele balançou a cabeça.
— Só estou falando sozinho. — Volte a dormir.
E foi o que ela fez, com notável rapidez.
Poucos minutos depois, seus olhos se abriram de novo e ela virou a cabeça em direção à porta. Pouco tempo depois que ela fez isso, Will ouviu o relinchar rápido de aviso de Puxão vindo do estábulo. Foi bastante baixo – um aviso para Will, e não a saudação alta que Puxão dera para Abelard e Blaze quando Halt e Gilan vieram visitá-lo. O sinal de Puxão não revelava nenhuma conotação de perigo. Ele estava apenas relatando a presença de pessoas que se aproximavam da cabana. Fosse amigo ou inimigo, ele não tinha ideia.
Sable levantou-se com um grunhido, sacudiu-se e se dirigiu para a porta, a cabeça abaixada, focinho farejando o chão à sua frente. Will guardou o relatório, empurrou a cadeira para trás e levantou-se também. Ele permitiu que Sable passasse pela porta no momento em que a abertura era grande o suficiente. Então ele saiu para a varanda, saindo da sombra para ficar na borda das tábuas, inclinando-se contra uma das colunas de apoio.
Ele saiu a tempo de ver Maddie emergir das árvores e seguir para a pequena clareira na frente da cabana. Sua sobrancelha direita subiu em um ponto de interrogação quando ele percebeu que ela não estava sozinha. Outra garota, da mesma idade que ela, estava alguns passos atrás dela. Mas enquanto Maddie era franzina e graciosa em seus movimentos, a outra garota estava um pouco acima do peso e parecia desconfortável na sela.
Havia outras diferenças. Maddie montava um cavalo castrado Arridi cor de areia. Tinha linhagem e pelagem finas, um rosto orgulhoso, inteligente. Ele próprio trotava com dignidade, dando um passo curto e baixando seus cascos delicadamente e com ritmo. A montaria da outra garota era uma égua de aparência plácida. Um pouco mais alta do que o cavalo de Maddie, tinha ossatura forte e não possuía nada da graça ou da fluidez do movimento do Arridi.
Suas roupas também eram muito diferentes. Maddie usava calças de lã fina, com botas de montaria na altura dos joelhos e uma jaqueta de manga curta roxa, feita de couro de qualidade. Era apertada na cintura por um cinto feito de discos de prata conectados, e um longo punhal pendurava-se em sua lateral, numa bainha de couro trabalhado.
Ela usava uma capa até a cintura, que estava puxada para um lado e deixava o braço e o ombro direito livres, uma moda que se tornou popular entre os ricos oficiais de cavalaria mais jovens nos últimos anos.
Sua companheira usava um vestido de linho verde liso, com uma prática capa de lã sem adornos. Ela olhou ao seu redor com curiosidade e um pouco de incerteza, enquanto Maddie seguia com confiança e um ar de familiaridade.
Pelo hálito de Gorlog, Will pensou. Ela trouxe sua criada consigo.
E não apenas sua criada. Trotando obedientemente atrás dos dois cavalos vinha um baio carregado. De pernas curtas e corpo em forma de barril, estava adornado com valises de couro como chifres e pacotes em seu dorso. Parecia estar carregando mais peso do que qualquer um dos dois cavalos da frente.
Will respirou fundo. Seu primeiro instinto foi berrar um discurso inflamado de perguntas raivosas para Madelyn, começando com O que você acha que está fazendo? Passando em seguida para Quem no inferno veio com você? E terminando com O que você tem embalado? Roupas para uma viagem de um ano pelo Reino?
Em vez disso, ele se controlou, esperando até que Madelyn registrasse sua presença na varanda. Ela sorriu.
— Olá, Tio Will. Eu não percebi que você estava aí. Vocês arqueiros certamente podem se mover em silêncio quando querem, não é? Prestarei mais atenção para aprender sobre isso nas próximas semanas.
Will observou o período de tempo que ela mencionou. Ela não tem ideia de quanto tempo isso vai levar, pensou. Ela acha que passará um par de semanas passeando pela floresta e, em seguida, voltará para casa.
Ele engoliu as frases furiosas que se formavam em sua mente.
— Você está atrasada — ele falou em voz baixa.
Ela pareceu um pouco surpresa, depois deu de ombros.
— Estou? Eu não tinha ideia. Disseram-me para chegar aqui hoje. Eu não sabia que havia algum horário especial.
— Houve. Às nove horas. Foram as ordens de Gilan.
Maddie franziu a testa, ainda sem mostrar muito remorso sobre sua chegada tardia.
— Ordens? — ela repetiu. Ela olhou para sua criada. — Rose-Jean, o Comandante Gilan lhe passou alguma ordem para mim?
A outra garota parecia confusa e um pouco preocupada. Se Maddie não notara a expressão irada de Will, sua criada definitivamente notara. Ela era, afinal, uma serva, e estava acostumada a estar alerta para sinais de descontentamento de seus superiores.
— Não, minha senhora. Ele...
— Ele a teria dado a você, Maddie — Will interrompeu-a bruscamente. — A carta. Em um envelope de linho grosso.
— Oh... isso? — Maddie disse. Ela riu. — Sim. Eu a tenho. Pensei que fosse apenas uma carta de despedida – um cartão de adeus ou algo assim. Eu não li-a ainda.
— Talvez seja uma boa ideia você fazê-lo — Will sugeriu. Sua voz tão perigosamente baixa.
Maddie não percebeu, mas Rose-Jean definitivamente sim. Sua expressão preocupada se tornou ainda mais preocupada.
— Oh, eu farei isso mais tarde! — Maddie respondeu facilmente. — Tenho certeza de que você pode me informar de tudo o que preciso saber.
— Bem, uma coisa que você precisa saber é que deveria estar aqui há mais de três horas. Onde você esteve?
Maddie ainda não estava entendendo. A criada olhou ao redor, desejando poder se encolher atrás de alguma coisa para sua proteção quando a tempestade desabasse – como ela saiba que aconteceria. Ela não tinha ideia do por que o sombrio arqueiro barbudo estava tão furioso. Mas agora sentia que havia muito mais do que isso.
— Paramos no castelo para ver Arald e Sandra — Maddie respondeu, descuidada.
— Barão Arald e Lady Sandra — Will corrigiu-a, colocando ligeira ênfase nos dois títulos.
Maddie deu de ombros, sorrindo.
— Para você, talvez. Para mim eles são Arald e Sandra.
A fúria de Will cresceu ainda mais. Ele estava começando a entender o que Evanlyn e Horace vinham passando com sua filha. Mas ele se controlou com esforço, falando de forma muito lenta e deliberada. Ele não queria um confronto aqui com Madelyn, especialmente na frente de sua criada. Sabia que a criada ficaria constrangida e desconfortável se houvesse uma cena.
— Não. Para você eles são Barão Arald e Lady Sandra. E é melhor você se acostumar a isso — disse ele.
Maddie inclinou a cabeça para ele, um sorriso confuso no rosto.
— Tio Will, eu sempre os chamei de Arald e Sandra. Você provavelmente não entende isso. Mas, como Princesa, eu os excedo.
Will respirou fundo. Ele olhou rapidamente para a criada e viu a tensão em sua postura. Ele soltou o fôlego e, em seguida, disse em um tom razoável:
— Maddie, gostaria de desmontar e vir até aqui?
Ele indicou que queria que ela se juntasse a ele na varanda da cabana. Ela assentiu com a cabeça e desmontou suavemente, passando as rédeas para a criada.
— Segure Dançarino do Sol para mim, sim, Rose-Jean? — disse ela.
Em seguida, ela atravessou a pequena clareira e se aproximou da varanda. Will segurou-a pelo cotovelo e a levou alguns passos mais longe.
— Devo dizer, Tio Will, que você está se comportando muito estranhamente. Eu nunca o vi desse jeito — Maddie falou.
Quando suas vozes ficaram fora do alcance da criada, Will disse calmamente:
— Maddie, há vários fatos a que você precisa se acostumar. Você não está aqui para umas férias glorificantes...
— Oh, eu sei disso! — ela o interrompeu, com um gesto de desprezo. —Mamãe e papai tiveram alguma ideia maluca de que eu deveria aprender...
— Fique quieta! — Will estalou.
Como antes, ele manteve a voz baixa, mas não havia dúvida na intensidade do seu tom. Madelyn recuou meio passo. Ninguém nunca tinha falado com ela daquele jeito em sua vida. Bem, talvez seus pais, mas certamente ninguém de qualquer escalão menor.
— Tio Will... — começou ela com altivez, mas Will fez um gesto de basta com a mão direita, que a cortou antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa.
— Esqueça o Tio Will. Você percebendo ou não, você é agora um membro do Corpo de Arqueiros e eu sou o seu mentor. Como arqueiros, referimo-nos um ao outro pelo primeiro nome. Então você vai me chamar de Will – nada mais do que isso. Eu não sou seu tio. Não sou seu padrinho. Sou o seu mentor e seu instrutor. Você é minha aluna e minha aprendiz. Vou chamá-la de Maddie ou Madelyn. Não temos nenhuma relação especial que não seja mentor e aprendiz. Entendeu?
Agora as sobrancelhas de Maddie se reuniram em um nó teimoso e ela olhou para a figura de barba cinzenta à sua frente.
— Eu acho que você está presumindo um pouco demais aqui, Ti... Will — ela se corrigiu. — Não vamos esquecer que eu sou a Princesa Real de Araluen.
— E não vamos esquecer que eu sou um Arqueiro do Rei — Will respondeu calmamente. Ele viu a breve luz de perplexidade nos olhos dela e elaborou. — Eu respondo apenas ao rei, ou seu representante. A ninguém mais. Neste caso, a sua mãe. Apesar de raramente fazer questão, tecnicamente, eu excedo a todos, subtraindo-se o Rei ou seu representante. Isso significa os barões, as suas mulheres, cavaleiros... e princesas.
— Isso não pode estar certo! — Maddie protestou. — Eu nunca ouvi falar de tal coisa!
— Como eu disse, nós raramente fazemos questão disso. Mas tenha a certeza de que estou certo. Além do mais, sua mãe e seu pai me deram plena autoridade sobre você enquanto você estiver passando por sua formação. Portanto, o seu posto aqui não significa nada para mim, nem para qualquer outra pessoa.
O ar confiante de Maddie começou a abandoná-la. Ela sabia que os arqueiros exerciam enormes, e muitas vezes indefinidos, poder e autoridade no Reino. E, enquanto ela não tinha certeza de que o que Will dizia era verdade, também não tinha certeza se não o era.
— Agora — Will continuou num tom mais conciliador — você ficará aqui comigo durante a sua formação, e não no castelo. Mas sua criada não. Arqueiros não têm criadas domésticas. E aprendizes de arqueiro definitivamente não podem tê-las.
Ele deixou Maddie com sua mandíbula escancarada e deu um passo para trás, descendo da varanda para falar com Rose-Jean.
— Rose-Jean — ele falou — Madelyn viverá aqui na cabana enquanto ela treinar como uma Arqueira. Infelizmente, como você pode ver, estamos bastante apertados para o espaço. Você se importaria de voltar para o castelo e dizer ao senescal do Barão que precisará de um alojamento lá até o momento em que pudermos escoltá-la de volta ao Castelo Araluen?
Rose-Jean olhou para sua senhora, não tendo certeza de como reagir. Se ela obedecesse ao arqueiro, sabia que arriscaria ter a ira de Madelyn. Mas também sabia que nenhuma pessoa sensata desconsideraria as instruções de um arqueiro – especialmente um sênior como o famoso Will Tratado. Will sentiu seu dilema e deu um passo a frente, tomando a rédea do cavalo de Maddie de sua mão sem resistência.
— Está tudo bem, Rose-Jean — ele falou suavemente. — Apenas vá até o castelo. Seja uma boa garota.
— Rose-Jean... — Maddie começou.
— Calada! — Will retrucou, sem se virar para olhar para ela. Então, fez um gesto para a criada ir embora.
Chegando a uma decisão, Rose-Jean girou seu cavalo e galopou de volta para a estrada em direção ao castelo. O cavalo de carga assistiu-a ir, sem saber se a seguia. Então, na ausência de quaisquer instruções definidas, ele abaixou a cabeça e começou a mastigar a grama curta na borda da clareira.
Will ofereceu as rédeas de Dançarino do Sol para uma princesa muito surpresa e sem interesse.
— Coloque o seu cavalo no estábulo atrás da cabana — disse ele. — Eu vou cuidar do seu cavalo de carga.
Depois, quando Madelyn avançou para tomar as rédeas de sua mão, ele acrescentou:
— Mas esta será a última vez que eu o faço.

10 comentários:

  1. Não seria Ebano ao invés de Sable??????

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    1. Não... Sable seria outra cadela. A essa altura, Ébano já teria morrido de velhice...

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  2. Isso mesmo Will de uma lição em Madelyn!

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  3. Toma! Princesa! Kkkkk. Sinto que isso é só o começo, lembro do treinamento do Will e imagino ela passando por isso.

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    1. Vai ser muito pior pra ela, pois Will aos 15 anos era apenas um orfão, mas ela é a princesa

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  4. Nem culpo tanto a princesa, afinal, ela foi criada em um mundo de luxos e privilégios, e vai ter esse choque sim (Eadlyn, querida, é o mesmo contigo).

    -Ana

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  5. Will virou um segundo Halt! Mas já era previsto!
    Ass: Bina.

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  6. Kkkkkkkk verdade Bina.
    Ass: Lua

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Boa leitura :)