4 de fevereiro de 2017

9. Os espiões

DURANTE os dias seguintes, Lyra inventou uma dúzia de planos e descartou todos eles com impaciência, pois no fundo todos consistiam em ir como clandestina, e como alguém poderia se esconder num barco pequeno? Naturalmente a viagem em si seria feita num navio de verdade, e ela conhecia histórias suficientes para imaginar que num navio havia muitos esconderijos: nos barcos salva-vidas, nos porões, ou até nos escaleres, fosse lá o que fosse isso; mas primeiro ela teria que chegar até o navio, e o percurso dos Pântanos até o navio seria feito à moda gípcia.
E mesmo que ela conseguisse chegar sozinha ao litoral, podia acabar escondida no navio errado. E seria mesmo uma gracinha conseguir se esconder num navio e acordar a caminho do Alto Brasil...
Enquanto isso, à volta dela o trabalho tentador de preparar a expedição continuava noite e dia. Ela ficou por perto de Adam Stefanski, observando enquanto ele escolhia os voluntários para a força de guerra. Encheu Roger van Poppel de sugestões sobre os suprimentos que seriam necessários: ele tinha se lembrado dos óculos de neve? E por acaso conhecia o melhor lugar para encontrar mapas da Região Ártica?
O homem que ela mais queria ajudar era Benjamin de Ruyter, o espião. Mas ele tinha partido na madrugada seguinte ao segundo Encontro, e naturalmente ninguém sabia informar para onde ele tinha ido ou quando voltaria. Assim, Lyra grudou em Farder Coram.
— Acho que seria melhor aceitar minha ajuda, Farder Coram, porque eu provavelmente sei mais coisas sobre os Gobblers do que qualquer outra pessoa, pois eu quase fui um deles. Provavelmente o senhor vai precisar de mim para ajudar a decifrar as mensagens do Sr. De Ruyter.
Ele ficava com pena da menina corajosa e desesperada e não a mandava embora; em vez disso conversava com ela e escutava as lembranças dela de Oxford e da Sra. Coulter, e ficava observando enquanto ela lia o aletiômetro.
— Onde está o tal livro que tem todos os símbolos? — ela lhe perguntou um dia.
— Em Heidelberg — ele informou.
— E só existe esse?
— Pode haver outros, mas esse é o único que eu já vi.
— Aposto que tem um na Biblioteca Bodley’s em Oxford.
Ela mal conseguia tirar os olhos do dimon de Farder Coram, que era o mais bonito que ela já vira. Quando Pantalaimon era gato, ele era magro, maltratado e bravo, mas Sophonax, que era o nome dele, tinha olhos dourados e era indescritivelmente elegante, duas vezes maior do que um gato de verdade e com uma pelagem maravilhosa. Quando a luz do sol o tocava, iluminava mais tons de castanho-marrom-bege-areia-dourado do que Lyra conseguiria distinguir. Sua vontade de tocar naquela pele, esfregar o rosto nela, era enorme, mas naturalmente nunca fez isso, pois a maior grosseria imaginável era tocar no dimon de outra pessoa. Os dimons podiam tocar uns nos outros, naturalmente, ou brigar; mas a proibição contra o contato gente-dimon era tão séria que nem mesmo na batalha um guerreiro tocava no dimon do inimigo. Era terminantemente proibido. Lyra não se lembrava de ter ouvido isso de alguém, mas sabia instintivamente, como sabia que náusea era ruim, e o conforto era bom.
Assim, embora admirasse a pelagem de Sophonax e até mesmo especulasse como ele seria, nunca fez a menor menção de tocá-lo, e nunca faria.
Sophonax era tão esguio e cheio de saúde quanto Farder Coram era velho e fraco. Talvez por doença, ou por ter sofrido um grande golpe, o fato era que ele não conseguia caminhar sem se apoiar em duas bengalas, e tremia constantemente, como uma folha ao vento.
Mas tinha a mente clara, rápida e poderosa, e depressa conquistou Lyra com seu conhecimento das coisas e a firmeza com que a instruía.
— O que significa esta ampulheta, Farder Coram? — ela perguntou, debruçada sobre o aletiômetro, numa manhã ensolarada no barco dele. — Ela está sempre voltando para lá.
— Costuma haver uma pista, se você olhar com atenção. Que é essa coisinha em cima dela?
Ela franziu os olhos para olhar.
— É uma caveira!
— Então o que você acha que isso significa?
— A morte... Isso é a morte?
— Isso mesmo. Então nos significados da ampulheta está a morte. Aliás, depois da passagem do tempo, que é o primeiro, vem a morte em segundo lugar.
— Sabe uma coisa que eu percebi, Farder Coram? O ponteiro para em cima dela na segunda volta! Na primeira volta, ele só estremece, e na segunda ele para. Isso quer dizer que é o segundo significado?
— Provavelmente. O que você está perguntando, Lyra?
— Eu estou pensando... — Ela parou, surpresa ao descobrir que estava mesmo fazendo uma pergunta sem perceber. — Eu só juntei três figuras porque... Eu estava pensando no Sr. De Ruyter, entende... e juntei a serpente, o cadinho e a colmeia, para perguntar como ele está indo com a sua espionagem, e...
— Por que escolheu esses três símbolos?
— Porque eu achei que a serpente era esperta, como um espião tem que ser, e o cadinho podia significar conhecimento, uma coisa que é destilada, e a colmeia era o trabalho, porque as abelhas estão sempre trabalhando; então, do trabalho e da esperteza vem o conhecimento, entende, que é a missão do espião; apontei para os três e pensei na pergunta, e o ponteiro parou na morte... Acha que isto está mesmo funcionando, Farder Coram?
— Está funcionando, sim, Lyra. O que não sabemos é se estamos lendo direito. Essa é uma arte muito sutil. Será que...
Antes que ele pudesse terminar a frase, bateram na porta, e um jovem gípcio entrou.
— Com licença, Farder Coram, Jacob Huismans acabou de voltar, e ele está muito ferido.
— Ele estava com Benjamin de Ruyter — disse Farder Coram. — Que foi que aconteceu?
— Ele não quer falar — disse o rapaz. — É melhor vir logo, Farder Coram, porque ele não vai durar muito, está sangrando por dentro.
Farder Coram e Lyra trocaram um olhar assustado e perplexo, mas só por um segundo; Farder Coram saiu caminhando, apoiado em suas bengalas, com a maior velocidade possível, seu dimon andando na frente. Lyra foi também, saltando de impaciência.
O rapaz os guiou até um barco atracado, onde uma mulher com um avental de flanela vermelha abriu a porta para eles. Vendo o olhar desconfiado que ela lançou a Lyra, Farder Coram disse:
— É importante que a menina escute o que Jacob tem a dizer, senhora.
Então a mulher os deixou entrar e ficou para trás, com seu dimon-esquilo empoleirado no cais de madeira. Numa cama, sob uma colcha de retalhos, estava deitado um homem com o rosto branco coberto de suor e os olhos embaçados.
— Já mandei vir o médico, Farder Coram — disse a mulher com voz trêmula. — Por favor não deixe ele ficar agitado. Está sofrendo muito de dor. Ele chegou no barco de Peter Hawker há poucos minutos.
— Onde está Peter?
— Está atracando. Foi ele que disse que eu tinha que chamar o senhor.
— Está certo. Agora, Jacob, está me ouvindo?
Jacob girou os olhos para olhar para Farder Coram sentado na cama oposta, a meio metro dele.
— Olá, Farder Coram — murmurou.
Lyra olhou para o dimon dele. Era uma fuinha, deitada imóvel junto à cabeça dele, enrodilhada mas não adormecida, pois tinha os olhos abertos e embaçados como os dele.
— Que foi que aconteceu? — Farder Coram perguntou.
— Benjamin está morto — foi a resposta. — Está morto, e Gerard foi preso.
Tinha a voz rouca e a respiração difícil. Quando parou de falar, seu dimon se desenrodilhou dolorosamente e lambeu a face dele; retirando forças desse gesto, ele continuou:
— Estávamos entrando às escondidas no Ministério da Teologia, porque Benjamin tinha ouvido, de um dos Gobblers que aprisionamos, que o quartel-general era lá e que era de lá que saíam todas as ordens...
Ele tornou a silenciar.
— Vocês capturaram Gobblers? — perguntou Farder Coram.
Jacob assentiu e olhou para seu dimon. Era incomum os dimons falarem com outros humanos além dos seus, mas às vezes acontecia, e nessa ocasião ele falou:
— Pegamos três Gobblers em Clerkenwell e os obrigamos a nos contarem para quem estavam trabalhando e de onde vinham as ordens, coisas assim. Eles não sabiam para onde estavam levando as crianças, a não ser que era para o Norte, para a Lapônia...
Ela teve que parar, ofegante, o pequeno peito arfando, e descansar um pouco, antes de conseguir continuar.
— E então os Gobblers nos falaram do Ministério da Teologia e de Lorde Boreal. Benjamin disse que ele e Gerard Hook deviam entrar às escondidas no Ministério, e Frans Broekman e Tom Mendham deviam ir descobrir mais sobre Lorde Boreal.
— Eles conseguiram?
— Não sabemos. Eles não voltaram. Farder Coram, parecia que tudo que fazíamos eles ficavam sabendo antes, e pelo que sabemos, Frans e Tom foram engolidos vivos assim que chegaram perto de Lorde Boreal.
— Vamos voltar a Benjamin — disse Farder Coram, percebendo a respiração de Jacob se tornar cada vez mais ofegante e vendo seus olhos se fecharem de dor.
O dimon de Jacob soltou um pequeno miado de preocupação e amor, e a mulher chegou um pouco mais perto, com as mãos junto à boca; mas não falou, e o dimon continuou em voz fraca:
— Benjamin, Gerard e nós fomos para o Ministério em White Hall e descobrimos uma portinha lateral que não estava muito vigiada. Ficamos de guarda do lado de fora enquanto eles abriam a fechadura e entravam. Não havia se passado um minuto quando ouvimos um rito de medo e o dimon de Benjamin veio voando, fez um gesto nos chamando e tornou a entrar. Cada um pegou sua faca e saímos correndo atrás dela; só que o lugar estava escuro, cheio de formas e sons que nos confundiam com seus movimentos horríveis; tentamos lutar, mas houve uma confusão mais em cima, e um grito, e Benjamin com seu dimon caíram de uma escadaria alta, o dimon tentando segurá-lo em vão, pois eles se esborracharam no chão de pedra e morreram na hora. Não conseguíamos saber de Gerard, mas ouvimos a voz dele soltando um urro lá em cima, e ficamos aterrorizados e confusos demais para fazer alguma coisa, e então uma flecha nos atingiu no ombro e penetrou profundamente...
A voz do dimon estava mais fraca, e do homem ferido veio o som de um gemido. Farder Coram se inclinou e com delicadeza puxou a colcha, e ali, saindo do ombro do ferido, havia a ponta cheia de plumas de uma flecha, numa massa de sangue coagulado. O resto da flecha estava tão enterrado no peito do pobre homem que só aqueles 10 centímetros ficavam fora da pele. Lyra sentiu uma vertigem.
Houve um ruído de passos e vozes lá fora, no ancoradouro. Farder Coram se endireitou.
— Chegou o médico, Jacob. Vamos sair agora. Quando você estiver se sentindo melhor, conversaremos com mais calma.
A caminho da porta, ele colocou a mão sobre o ombro da mulher. No ancoradouro, Lyra ficou perto dele, porque já havia um ajuntamento de pessoas cochichando e apontando. Farder Coram deu ordem a Peter Hawker para ir imediatamente chamar John Faa, depois disse:
— Lyra, assim que soubermos se Jacob vai viver ou morrer precisamos ter outra conversa sobre aquele aletiômetro. Vá fazer alguma outra coisa, minha filha; nós mandaremos chamá-la.
Lyra foi se sentar sozinha na margem cheia de vegetação, e começou a jogar lama dentro da água. Sabia de uma coisa: não estava feliz ou orgulhosa por conseguir ler o aletiômetro — estava com medo. Fosse qual fosse o poder que fazia aquele ponteiro andar e parar, ele sabia coisas, como um ser inteligente.
— Acho que é um espírito — disse ela, e por um instante ficou tentada a jogar o pequeno instrumento no meio do pântano.
— Eu veria o espírito, se houvesse um aí dentro — disse Pantalaimon. — Como o fantasma velho em Godstow. Eu vi, e você não.
— Existe mais de um tipo de espírito — disse Lyra em tom de reprovação. — Você não consegue ver todos. De qualquer maneira, e aqueles Catedráticos mortos sem cabeça? Eu vi, lembra?
— Aquilo foi só uma assombração.
— Não foi, não. Eram espíritos, mesmo, e você sabe disso. Mas seja qual for o espírito que está movendo esse maldito ponteiro, não é daquele tipo de espírito.
— Pode não ser um espírito — teimou Pantalaimon.
— Que mais poderia ser?
— Poderia ser... Poderiam ser partículas elementares.
Ela soltou uma risadinha de desprezo.
— Poderiam, sim — ele insistiu. — Você se lembra daquela ventoinha movida a luz que eles têm na Gabriel? Então?
Na Faculdade Gabriel, havia um objeto muito sagrado que ficava guardado no altar principal do Oratório, coberto (agora Lyra lembrava disso) com um pano de veludo preto, como o que embrulhava o aletiômetro. Ela o tinha visto quando acompanhou o Bibliotecário da Jordan num culto religioso. No auge da cerimônia, o Intercessor levantou o pano e revelou na penumbra um domo de vidro; dentro dele havia alguma coisa distante demais para ser vista, até que ele puxou um cordão preso a uma persiana lá em cima, deixando um raio de sol cair exatamente sobre o domo. Então ficou claro o que era: uma coisinha como uma ventoinha, com quatro pás pretas de um lado e brancas do outro, que começaram a girar quando a luz bateu nela. O Intercessor disse então que aquilo ilustrava uma lição moral, pois o negror da ignorância fugia da luz, enquanto a alvura da sabedoria era atraída por ela. Lyra acreditou naquilo; de qualquer forma, fosse qual fosse o significado, as pequenas pás giratórias eram lindas; o movimento era impulsionado pela força dos fótons, disse o Bibliotecário enquanto voltavam a pé para a Jordan.
Então talvez Pantalaimon tivesse razão. Se as partículas elementares conseguiam fazer girar uma ventoinha, sem dúvida podiam mover um ponteiro com muito mais facilidade; mas isso ainda a preocupava.
— Lyra! Lyra!
Era Tony Costa, acenando para ela do ancoradouro.
— Venha até aqui — ele chamou. — Você tem que ir falar com John Faa no Zaal. Depressa, garota, é urgente!
Ela encontrou John Faa com Farder Coram e os outros chefes, parecendo preocupados. John Faa falou:
— Lyra, minha filha, Farder Coram me contou sobre a sua leitura daquele instrumento. E lamento dizer que o coitado do Jacob acaba de morrer. Acho que vamos ter que levar você conosco afinal, contra a minha vontade. Estou muito preocupado com isso, mas parece que não temos alternativa. Assim que Jacob for enterrado, segundo a tradição, nós vamos partir. Entenda, Lyra: você vai também, mas não é uma ocasião de alegria. Há problemas e perigos esperando por todos nós. Farder Coram vai cuidar de você. Não crie problemas ou riscos para ele, senão vai sentir a força da minha cólera. Agora vá explicar para Mãe Costa e fique preparada para partir.


As duas semanas seguintes foram as mais atarefadas da vida de Lyra. Atarefadas, mas não rápidas, pois havia tediosos períodos de espera, de se esconder em armários apertados e úmidos, de contemplar a paisagem triste e chuvosa de outono passando pela janela, de se esconder outra vez, de dormir perto do escapamento do motor e acordar com uma terrível dor de cabeça e — pior de tudo — nem uma vez ter permissão para sair para o ar fresco, correr pela margem, subir ao convés, abrir as comportas ou agarrar uma corda jogada da margem.
Mas naturalmente ela devia ficar escondida. Tony Costa contou para ela o boato nas tavernas à beira d’água: que, por todo o reino, estavam caçando uma menininha loura, com uma grande recompensa pela sua descoberta e severos castigos para quem a escondesse. Havia também uns boatos estranhos: as pessoas diziam que ela era a única criança que conseguira escapar dos Gobblers e que possuía segredos terríveis. Outro boato dizia que ela não era uma criança humana, e sim um par de espíritos em forma de criança e dimon, enviados a este mundo pelos poderes infernais para causar grande mal; outro ainda dizia que não se tratava de uma criança, mas de um humano adulto, encolhida por magia e trabalhando para os tártaros, para vir espionar o bom povo inglês e preparar o caminho para uma invasão tártara.
Lyra escutava estas histórias a princípio achando graça, mais tarde com desânimo. Todas aquelas pessoas com medo e raiva dela! E estava louca para sair daquela cabine estreita e apertada. Queria já estar no Norte, na neve sob a cintilante Aurora Boreal. E às vezes desejava estar de volta à Faculdade Jordan, pulando pelos telhados com Roger e ouvindo o sino do Administrador bater a meia hora para o jantar, e os ruídos de louça, de fritura e de gritos na cozinha... Então desejava ardentemente que nada tivesse mudado, que nada jamais mudasse, que ela pudesse ser para sempre a Lyra da Faculdade Jordan.
A única coisa que lhe tirava o tédio e a irritação era o aletiômetro. Ela o lia todos os dias, às vezes com Farder Coram e às vezes sozinha, e descobriu que era cada vez mais fácil entrar no estado de calma em que os significados dos símbolos se esclareciam, e aquelas altas montanhas tocadas pelo sol emergiam em sua visão.
Ela se esforçou para explicar como era a Farder Coram.
— É quase como conversar com alguém, só que a gente não consegue ouvir as outras pessoas e fica se sentindo meio burra porque as outras são mais inteligentes que a gente, só que elas nunca ficam zangadas nem nada... E elas sabem tanta coisa, Farder Coram! Quase como se soubessem tudo! A Sra. Coulter era inteligente, sabia muita coisa, mas isto aqui é um tipo de conhecimento diferente... É como compreender, eu acho...
Ele fazia perguntas específicas, e ela procurava as respostas.
— O que a Sra. Coulter está fazendo agora? — ele perguntava; as mãos de Lyra se moviam no mesmo instante, e ele pedia: — Me explique o que está fazendo.
— Bem, a Madona é a Sra. Coulter, e penso minha mãe quando coloco o ponteiro ali; e a formiga é atarefada – essa é fácil, é o primeiro significado; e a ampulheta tem passagem do tempo entre seus significados, e no meio da lista está agora, e eu fixo o pensamento nisso.
— E como sabe o que são esses significados?
— É como se eu visse. Ou melhor, sentisse, como descer uma escada à noite, a gente baixa o pé e acha outro degrau. Bom, eu baixo o pensamento e acho outro significado, e eu sinto qual é. Então junto tudo. Existe um truque, como focar os olhos.
— Faça isso então, e veja o que ele diz.
Lyra obedeceu. O ponteiro grande começou a girar no mesmo instante, parou, continuou, tornou a parar, numa série precisa de movimentos e pausas. Era uma sensação de tamanha graciosidade e tamanho poder que Lyra, compartilhando dele, se sentiu como um filhote de passarinho aprendendo a voar. Farder Coram, observando do outro lado da mesa, anotou os lugares onde o ponteiro parava e observava a menininha segurando os cabelos longe do rosto e mordiscando de leve o lábio inferior, os olhos a princípio seguindo o ponteiro, mas depois, quando este regularizava seu movimento, olhando para outras partes do mostrador. Mas não ao acaso. Farder Coram era jogador de xadrez, e sabia como os jogadores ficavam durante uma partida. Um bom jogador parecia ver linhas de força e influência sobre o tabuleiro, seguia as linhas importantes e ignorava as fracas; e os olhos de Lyra se moviam do mesmo modo, segundo algum campo magnético semelhante que ela conseguia enxergar, e ele, não. O ponteiro parou no raio, no bebê, na serpente, no elefante e numa criatura cujo nome Lyra não sabia: uma espécie de lagarto de olhos grandes e um rabo enrolado em volta do galho onde ele estava empoleirado. Enquanto Lyra observava, o ponteiro repetiu várias vezes esta sequência.
— Qual é o significado deste lagarto? — perguntou Farder Coram, interrompendo a concentração dela.
— Não entendo... Vejo o que ele está dizendo, mas acho que estou lendo errado. O raio eu acho que é raiva, e a criança... acho que sou eu... Eu estava conseguindo um significado para o lagarto, Farder Coram, mas o senhor falou comigo e eu o perdi. Está vendo, ele está indo para qualquer lugar.
— É, estou vendo. Sinto muito, Lyra. Está cansada? Quer parar?
— Não quero, não.
Mas seu rosto estava vermelho e os olhos brilhantes. Tinha todos os sinais de uma superexcitação, intensificada pelo longo confinamento naquela cabine abafada.
Ele olhou pela janela. Estava quase escuro, e eles viajavam ao longo do último trecho de rio antes de chegar ao litoral. Sob um céu encoberto dava para perceber a amplidão marrom de um estuário até um grupo distante de tanques de álcool de carvão, enferrujados e trespassados por canos, junto a uma refinaria onde uma mancha espessa de fumaça subia com relutância indo se juntar às nuvens.
— Onde é que nós estamos? — Lyra perguntou. — Posso ir lá fora só um pouquinho, Farder Coram?
— Aqui é a água do Colby — ele disse. — Onde o rio Cole deságua. Quando chegarmos à cidade, vamos atracar junto ao Mercado de Defumados e vamos a pé até o porto. Estaremos lá dentro de uma ou duas horas...
Mas estava ficando escuro, e na desolação do rio nada se movia além do barco deles e uma distante balsa de carvão indo para a refinaria; e Lyra estava tão vermelha e cansada, e tinha ficado tanto tempo fechada, que Farder Coram continuou:
— Bem, acho que não tem problema alguns minutinhos ao ar livre. Não posso chamar de ar fresco, pois ele só é fresco quando sopra do mar; mas você pode se sentar lá em cima e apreciar a paisagem até chegarmos mais perto.
Lyra deu um salto, e Pantalaimon no mesmo instante se transformou numa gaivota, ansioso por estender as asas a céu aberto. Mas estava frio lá fora e, embora estivesse bem agasalhada, logo Lyra estava tremendo. Pantalaimon, por outro lado, girava no ar com grasnidos de felicidade, dando rasantes em volta do barco. Lyra adorou isso, se sentindo como ele enquanto ele voava e ficou insistindo mentalmente para que ele fosse desafiar o dimon-biguá do velho piloto para uma corrida. Mas o dimon ignorou Pantalaimon e só se ajeitou sonolento na roda do timão, perto do seu humano.
Naquela amplidão árida e marrom não havia vida, e apenas o ruído constante do motor e o som abafado da água no casco rompiam o silêncio. Nuvens pesadas cobriam o céu sem oferecer chuva; o ar estava cheio de fumaça. Só a elegância do voo de Pantalaimon possuía alguma vida e alegria.
Enquanto ele saía de um rasante com as asas brancas contra o cinzento, alguma coisa o atingiu. Ele caiu de lado, cheio de choque e dor, e Lyra gritou, sentindo também. Outra coisa escura veio se juntar à primeira; não se moviam como pássaros, mas como besouros voadores, pesados e diretos, com um zumbido forte.
Enquanto Pantalaimon caía, tentando mudar de direção para alcançar o barco e os braços desesperados de Lyra, as coisas pretas não paravam de atacá-lo. Lyra estava enlouquecendo com o medo de Pantalaimon e o seu próprio, mas então alguma coisa passou por ela e se elevou.
Era o dimon do piloto do barco; com toda a sua aparência desajeitada e pesada, seu voo era poderoso e ágil. Ela virava a cabeça para os lados — houve uma agitação de asas escuras, um estremecimento branco e uma coisinha preta caiu sobre o teto da cabine enquanto Pantalaimon pousava na mão estendida dela.
Antes que ela pudesse acariciá-lo, ele mudou para sua forma de gato-do-mato e saltou sobre a criatura, impedindo que ela chegasse à borda do telhado para onde ela estava tentando fugir. Pantalaimon segurou-a firmemente com as garras e ergueu os olhos para o céu que escurecia, onde as asas escuras do biguá faziam círculos enquanto ela procurava a outra criatura.
Então o biguá voltou voando e grasnou alguma coisa para o piloto, que disse:
— Fugiu. Não deixe essa outra escapar. Tome aqui.
Ele derramou o resto do líquido da caneca de lata e a jogou para Lyra, que no mesmo instante prendeu o animal que zumbia e roncava como uma maquininha.
— Segure firme — pediu Farder Coram atrás dela, e em seguida se ajoelhou e enfiou um pedaço de papelão sob a caneca.
— Que é isso, Farder Coram? — ela perguntou, trêmula.
— Vamos lá para baixo dar uma olhada. Leve com cuidado, Lyra. Segure com força.
Ao passar, ela olhou para o dimon do piloto; queria agradecer, mas ele havia fechado os olhos. Então Lyra agradeceu ao piloto.
— Você devia ter ficado lá embaixo — foi tudo que ele disse.
Ela levou a caneca para a cabine, onde Farder Coram tinha encontrado um copo de cerveja. Ele segurou a caneca de cabeça para baixo sobre o copo e então retirou o cartão, de modo que a criatura caiu dentro do copo. Ele segurou o copo de modo que ambos pudessem ver claramente a coisinha furiosa.
Tinha o tamanho do polegar de Lyra e era verde-escura, não preta. As asas estavam levantadas, como uma joaninha prestes a voar, e batiam tão furiosamente que eram apenas um borrão. As seis pernas tentavam escalar a superfície de vidro.
— Que é isso? — ela perguntou.
Pantalaimon, ainda um gato-do-mato, estava agachado sobre a mesa, os olhos verdes seguindo os círculos da criatura dentro do copo. Farder Coram disse:
— Se a gente abrir isso aí, não vai encontrar vida. Não é animal nem inseto. Já vi uma dessas antes, e nunca pensei que fosse ver outra aqui tão ao norte. São africanas. Têm um mecanismo dentro, e preso na mola um espírito mau com um feitiço atravessando o coração.
— Mas quem foi que mandou isso?
— Você não precisa ler os símbolos, Lyra; pode adivinhar tão bem quanto eu.
— A Sra. Coulter?
— Claro. Ela não explorou só o Norte; estão acontecendo muitas coisas estranhas lá pelas lonjuras do Sul. Foi em Marrocos que vi pela última vez uma dessas coisas. O perigo delas é mortal; enquanto o espírito estiver dentro, ela nunca para, e quando a gente liberta o espírito, ele está tão furioso que mata a primeira coisa que encontra.
— Mas o que ela estava procurando?
— Estava espionando. Fui um idiota em deixar você ir lá em cima. E devia ter deixado você decifrar os símbolos, em vez de interromper.
— Agora estou entendendo! — Lyra exclamou de repente. — Significa “ar”, aquele lagarto! Eu vi isso, mas não conseguia ver onde se encaixava, então tentei entender e perdi o pensamento.
— Ah, agora também estou vendo — disse Farder Coram. — Não é um lagarto, é por isso; é um camaleão. E significa ar porque eles não comem nem bebem, vivem de ar.
— E o elefante...
— A África — ele completou. — Ah!
Eles se entreolharam. A cada revelação do poder do aletiômetro, eles ficavam mais impressionados.
— Ele estava nos falando dessas coisas o tempo todo — disse Lyra. — Devíamos ter escutado. Mas o que podemos fazer com esta aí, Farder Coram? Podemos matar, ou coisa assim?
— Acho que não podemos fazer nada. Vamos ter que prender isso aí numa caixa e nunca mais soltar. O que mais me preocupa é o outro, o que fugiu. Ele agora deve estar voando de volta para a Sra. Coulter, com a notícia de que encontrou você. Droga, Lyra, sou um idiota.
Ele remexeu num armário e encontrou uma lata de guardar folhas de fumo com cerca de 10 centímetros de diâmetro. Ela tinha sido usada para guardar parafusos, mas ele a esvaziou e limpou o interior com um pano antes de inverter o copo sobre ela com o cartão ainda no lugar.
Depois de um momento de perigo, quando uma perna da criatura escapou e afastou a tampa com força surpreendente, eles conseguiram prendê-la na lata e enroscar a tampa com força.
— Assim que chegarmos ao navio, vou colocar uma solda em volta, como segurança — disse Farder Coram.
— Mas a corda não vai acabar?
— Se fosse um mecanismo comum, sim. Mas, como eu disse, este aqui fica sempre esticado pelo espírito preso no meio. Quanto mais ele luta, mais a corda é dada, e maior é a força. Agora vamos guardar esse sujeito...
Ele enrolou a lata num pedaço de flanela para abafar o zumbido incessante e a escondeu debaixo da cama.
Já estava escuro, e Lyra contemplava pela janela as luzes de Colby cada vez mais próximas. O ar pesado se transformava em neblina, e quando atracaram ao lado do Mercado de Defumados, tudo em volta estava desfocado. A escuridão transformada em véus cinza-prateados cobria as guias e os depósitos, as barraquinhas de madeira e o prédio de granito com muitas chaminés, que davam nome ao mercado, onde dia e noite havia peixes sendo defumados pela perfumada fumaça do carvalho. As chaminés contribuíam para o ar abafado, e o cheiro agradável de peixe defumado — arenque, cavala e hadoque — parecia sair das pedras do chão.
Lyra, enrolada numa capa de chuva e com um enorme capuz escondendo os cabelos chamativos, caminhava entre Farder Coram e o piloto. Todos os três dimons estavam alertas, vigiando as esquinas à frente, vigiando atrás, tentando escutar as mais leves passadas.
Mas eles eram as únicas figuras à vista. Os cidadãos de Colby estavam todos dentro de casa, provavelmente bebericando aguardente de cereais junto a uma lareira quentinha. Não encontraram ninguém até chegarem ao porto, e o primeiro homem que viram foi Tony Costa, vigiando os portões.
— Graças a Deus vocês chegaram — disse ele baixinho, os deixando passar. — Acabamos de saber que Jack Verhoeven levou um tiro e o barco dele foi afundado, e ninguém sabia onde vocês estavam. John Faa já está no navio, louco para partir.
Lyra achou o navio imenso. Tinha no centro a casa do leme e a chaminé, o castelo da proa bem alto e um guindaste acima de uma grande abertura coberta por uma lona; luz amarela brilhando nas escotilhas e na ponte, e luz branca no topo do mastro; e três ou quatro homens no convés, trabalhando apressadamente em coisas que ela não conseguia ver direito.
Ela subiu depressa a rampa de madeira, passando à frente de Farder Coram, e olhou em volta com excitação. Pantalaimon se transformou num macaco e imediatamente começou a subir pelo guindaste, mas ela o chamou de volta; John Faa conversava baixinho com Nicholas Rokeby, o gípcio encarregado do navio. John Faa não fazia nada às pressas. Lyra estava esperando que ele a cumprimentasse, mas ele terminou o que dizia sobre a maré e a pilotagem antes de se virar para os recém-chegados.
— Boa noite, amigos. O coitado do Jack Verhoeven está morto, talvez vocês já saibam. E os homens dele foram capturados.
— Nós também temos más notícias — disse Farder Coram, e relatou o encontro com os espíritos voadores.
John Faa sacudiu a cabeça, mas não os repreendeu.
— Onde está a criatura agora? — perguntou.
Farder Coram pegou a lata e a colocou sobre a mesa. De dentro vinha um zumbido tão furioso que a própria lata se movia lentamente sobre o tampo de madeira.
— Já ouvi falar desses demônios mecânicos, mas nunca tinha visto — disse John Faa. — Não há jeito de domesticá-lo ou acabar com a corda, isso eu sei. Também não adianta colocar um peso de chumbo e jogar no fundo do mar, porque um dia a lata iria enferrujar, o demônio iria sair e ir atrás da garota onde quer que ela estivesse. Não, vamos ter que guardar e vigiar.
Sendo Lyra a única mulher a bordo (pois John Faa, depois de muito meditar, tinha resolvido não levar mulheres), ela ficou com uma cabine só para ela. Não muito grande, naturalmente; na verdade, era pouco mais que um armário com uma cama e uma escotilha. Ela guardou suas coisas na gaveta sob a cama e subiu correndo, excitada, para se debruçar sobre a amurada e contemplar a Inglaterra desaparecendo lá atrás, descobrindo então que a maior parte da Inglaterra tinha desaparecido na neblina antes que ela subisse.
Mas o ruído da água, o movimento no ar, as luzes do navio brilhando corajosamente na escuridão, o ronco do motor, o cheiro de sal, de peixe e de álcool de carvão já a fizeram se sentir mais animada. Não demorou que outra sensação se somasse àquelas, quando o navio começou a balançar nas ondulações do Oceano Germânico. Quando alguém chamou Lyra para jantar, ela descobriu que tinha menos fome do que imaginara, e depois de algum tempo achou que seria uma boa ideia ir se deitar — por causa de Pantalaimon, porque a pobre criatura estava se sentindo pouco à vontade.
E assim começou a viagem dela para o Norte.

2 comentários:

  1. Estou entendendo praticamente nada, mas ainda assim, que louco!

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  2. LUAMARA Cahill Madrigal infiltrada Ekhaterina6 de março de 2017 20:25

    é nóis.

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Boa leitura :)