11 de fevereiro de 2017

9. O roubo

Primeiro voltaram ao café para descansar, recuperar as forças e mudar de roupa. Era óbvio que Will não poderia sair por ali coberto de sangue, e o tempo em que ele se sentia constrangido em pegar coisas nas lojas já tinha ficado para trás, de modo que ele reuniu um conjunto completo de roupas e sapatos, e Lyra, que exigira ajudar e vigiava em todas as direções a chegada das outras crianças, carregou tudo de volta para o café.
Lyra ferveu água, que Will levou consigo para o banheiro, onde despiu-se para lavar-se da cabeça aos pés. A dor era surda e ininterrupta, mas pelo menos os cortes estavam limpos, tendo visto o que aquela faca podia fazer, ele sabia que nenhum corte poderia ser mais limpo, mas os tocos dos dedos sangravam abundantemente. Quando olhava para eles, Will sentia náusea e seu coração disparava, o que, por sua vez, aumentava o sangramento. Ele se sentou na borda da banheira, fechou os olhos e respirou profundamente algumas vezes.
Finalmente sentiu-se mais calmo e começou o banho. Fez o melhor que pôde, enxugou-se nas toalhas cada vez mais sujas de sangue e depois vestiu as roupas novas, tentando não ensanguentá-las também.
— Você vai ter que refazer o meu curativo — ele pediu a Lyra. — Pode apertar quanto quiser, contanto que pare o sangue.
Ela rasgou um lençol e envolveu a mão ferida, o mais apertado que pôde. Ele trincou os dentes, mas não conseguiu evitar as lágrimas. Enxugou-as sem uma palavra, e ela nada disse.
Quando ela terminou, Will agradeceu, e continuou:
— Escuta, quero que você leve uma coisa para mim na sua mochila, pois pode ser que a gente não consiga voltar para cá. São só umas cartas. Pode ler, se quiser.
Ele pegou o escrínio de couro verde e entregou-lhe as folhas de papel de carta.
— Não vou ler, não, a não ser que...
— Não me importo. Senão não tinha falado nada.
Ela dobrou as cartas e ele estendeu-se na cama, empurrou a gata para o lado e adormeceu.


Muito mais tarde, na mesma noite, Will e Lyra estavam agachados na alameda que corria ao longo do pequeno bosque de arbustos no jardim de Sir Charles. No mundo de Cittàgazze, estavam no gramado de um parque que rodeava uma mansão em estilo clássico, o vulto branco brilhando ao luar. Tinham levado muito tempo para chegar até a casa de Sir Charles, avançando a maior parte do tempo em Cittàgazze, com frequentes paradas para cortar uma janela e verificar sua posição no mundo de Will, assim que se certificavam de onde estavam, Will fechava cada janela.
Não exatamente junto com eles, mas não muito atrás, vinha a gata. Ela dormira desde que a tinham salvo das pedras lançadas pelas crianças e, agora que estava novamente acordada, relutava em separar-se deles, como se pensasse que estaria segura onde quer que eles estivessem. Will não tinha tanta certeza disso, mas já tinha problemas suficientes sem a gata, portanto resolveu ignorá-la. Ele ficava cada vez mais familiarizado com a faca, mais seguro ao comandá-la, mas o ferimento doía mais do que antes, com um latejar profundo e incessante, e o curativo novo que Lyra fizera já estava encharcado.
Ele cortou uma janela no ar não muito longe da casa em estilo clássico e atravessaram para a alameda silenciosa em Headington para planejar exatamente como chegariam ao escritório onde Sir Charles tinha guardado o aletiômetro.
Havia dois holofotes iluminando o jardim, e todas as janelas da fachada da casa estavam acesas, menos a do escritório.
Naquele lado só o luar clareava, e a janela do escritório estava completamente às escuras. A alameda seguia por entre árvores até desembocar em outra rua, e não era iluminada. Seria fácil para um ladrão comum entrar sem ser visto no bosque de arbustos e dali para o jardim, se não fosse pela pesada cerca de ferro, com duas vezes a altura de Will e com pontas aguçadas, que cercava todo o perímetro da propriedade de Sir Charles. Mas isso não era impedimento para a faca mágica.
— Segure esta barra para eu cortar — Will cochichou. — Não deixe cair no chão.
Lyra fez o que ele mandava, e ele cortou quatro barras, o suficiente para que passassem sem dificuldade. Lyra enfileirou-as sobre o gramado, e os dois passaram, avançando por entre os arbustos.
Uma vez tendo uma boa visão da lateral da casa, com a janela do escritório, sombreada pela hera, de frente para eles do outro lado do gramado liso, Will disse baixinho:
— Vou abrir aqui um buraco para Ci’gazze e deixar ele aberto, e avançar em Ci’gazze até onde sei que fica o escritório, e aí abro outro buraco de volta para este mundo. Então pego o aletiômetro naquela estante, torno a passar pelo buraco, fecho ele e venho por Ci’gazze até este buraco. Você fica me esperando aqui neste mundo e vigiando. Assim que me ouvir chamar, passe para Ci’gazze por este buraco, e eu torno a fechar ele. Entendeu?
— Entendi — ela cochichou. — Eu e Pan vamos vigiar.
Seu dimon era uma pequena coruja castanha, quase invisível à luz mosqueada de sombras sob as árvores. Seus olhos grandes e claros observavam cada movimento. Will recuou um passo e estendeu a faca, procurando, tocando o ar com movimentos muito delicados, até que, depois de cerca de um minuto, encontrou um ponto onde poderia cortar. Fez isso depressa, abrindo uma janela para dentro do parque enluarado de Ci’gazze, e então calculou quantos passos precisaria dar para chegar ao escritório, memorizando a direção.
Então, sem uma palavra, ele atravessou e desapareceu.
Lyra agachou-se ali perto. Pantalaimon estava empoleirado num galho acima da cabeça dela, virando-se de um lado para outro, em silêncio. Ela ouvia o trânsito de Headington atrás de si, e os passos abafados de alguém que descia a rua no final do beco, e até mesmo o movimento leve dos insetos por entre as folhas a seus pés.
Passou-se um minuto, e mais outro. Onde estaria Will agora? Ela se esforçou para enxergar pela janela do escritório, mas esta era apenas um quadrado escuro semi-encoberto pela hera. Ainda nessa mesma manhã Sir Charles tinha se sentado lá dentro, junto à janela, cruzara as pernas e ajeitara o vinco das calças.
Onde ficava a estante em relação à janela? Will conseguiria entrar sem chamar a atenção de alguém dentro da casa? Lyra ouvia as batidas do próprio coração.
Então Pantalaimon fez um ruído baixo, e no mesmo momento veio um som diferente da frente da casa, à esquerda de Lyra. Ela não conseguia enxergar a fachada, mas via uma luz varrendo as árvores e ouviu o som de pneus no cascalho.
Não tinha ouvido o menor barulho de motor de automóvel.
Procurou Pantalaimon, que já estava deslizando silenciosamente pelo ar, o mais distante que conseguia ficar. Ele se virou na escuridão e foi pousar no pulso dela.
— Sir Charles está voltando — sussurrou. — E está com alguém.
Ele tornou a sair voando e dessa vez Lyra foi atrás, pé ante pé pela terra fofa com o maior cuidado, agachando-se atrás das moitas, finalmente pondo-se de quatro para espiar por entre as folhas de um loureiro. O Rolls Royce estava parado em frente à casa e o motorista rodeava o veículo para abrir a porta do passageiro. Sir Charles esperava sorrindo e oferecendo o braço à mulher que saltava do carro, quando ela surgiu à vista de Lyra, esta sentiu um golpe no coração, pois a visitante de Sir Charles era sua mãe, a Sra. Coulter.


Will atravessou com cautela o gramado iluminado pela lua em Cittàgazze, contando os passos, mantendo na mente, com toda a clareza que conseguia, a lembrança de onde ficava o escritório, e tentando localizá-lo em relação à casa em estilo clássico que se erguia ali perto no mundo de Ci’gazze, caiada de branco e com colunas, no centro de um jardim formal com estátuas e um chafariz. Ele tinha consciência de como estava exposto naquele jardim enluarado.
Quando achou que estava no lugar correto, estacou e tornou a estender a faca, tateando cuidadosamente à frente. Havia daquelas pequenas fendas invisíveis em vários lugares, mas não em todos, caso contrário qualquer golpe com a faca abriria uma janela.
A princípio ele abriu um orifício pequeno, não maior que a sua mão, e espiou por ele. Do outro lado, apenas a escuridão. Ele não conseguia enxergar onde estava. Fechou esse buraco, fez uma volta de 90 graus e abriu outro. Dessa vez encontrou pano à sua frente, um pesado veludo verde: as cortinas do escritório. Mas onde elas ficavam em relação à estante? Ele teria que fechar esse buraco também, girar para o outro lado e tentar de novo. E o tempo estava passando.
A terceira vez foi melhor: ele conseguiu enxergar o escritório inteiro à luz fraca que entrava pela porta aberta para o vestíbulo. Lá estavam a escrivaninha, o sofá, a estante! Ele conseguia vislumbrar um leve brilho ao longo da lateral de um microscópio de cobre. E não havia ninguém ali, a casa estava em silêncio. Não podia ser melhor.
Calculou cuidadosamente a distância, fechou a janela, deu quatro passos para frente e tornou a erguer a faca. Se estivesse correto, estaria exatamente no local apropriado para estender a mão pelo buraco, cortar o vidro da estante, pegar o aletiômetro e fechar a janela atrás de si. Cortou uma janela na altura certa: o vidro da porta da estante ficava logo à frente. Chegou o rosto bem perto, estudando atentamente as prateleiras, da primeira à última.
O aletiômetro não estava lá.
A princípio Will achou que tinha escolhido a estante errada. Havia quatro delas no escritório, ele tinha contado de manhã e decorado onde ficavam, estantes altas e quadradas, de madeira escura, com frente e laterais de vidro e prateleiras forradas de veludo, feitas para exibir preciosos objetos de porcelana, marfim ou ouro. Ele podia simplesmente ter aberto uma janela na frente da estante errada?
Mas na prateleira superior estava o instrumento pesado, com anéis de cobre, ele fizera questão de observá-lo. E na prateleira do meio, onde Sir Charles tinha colocado o aletiômetro, havia um espaço. Era a estante certa, e o aletiômetro não estava lá.
Will recuou por um momento e respirou fundo.
Teria que atravessar totalmente e procurar em volta, abrir janelas ao acaso iria levar a noite toda. Ele fechou a janela na frente da estante, abriu outra para olhar para o resto do aposento e, depois de um estudo cuidadoso, fechou essa outra e abriu uma maior atrás do sofá, por onde poderia facilmente fugir às pressas se fosse necessário.
A essa altura sua mão latejava brutalmente, e do curativo frouxo pendia uma tira de pano. Ele a enrolou o melhor que conseguiu e enfiou aponta para dentro, depois atravessou para a casa de Sir Charles e agachou-se atrás do sofá de couro, a faca na mão direita, e ficou à escuta. Não ouvindo qualquer ruído, levantou-se devagar e olhou em volta. A porta para o vestíbulo estava entreaberta, e a luz que entrava permitia-lhe enxergar bem. As estantes envidraçadas, as prateleiras, os livros, os quadros, tudo estava como naquela manhã, intocado.
Pisando no tapete, ele esquadrinhou cada uma das estantes. O aletiômetro não estava ali. Nem estava na escrivaninha, no meio dos livros e papéis organizados em pilhas, nem sobre a lareira entre os cartões convidando para estreias e recepções, nem no assento acolchoado junto à janela, nem na mesa octogonal atrás da porta.
Ele voltou à escrivaninha, pretendendo experimentar as gavetas, já com uma incômoda expectativa de fracasso e nesse momento escutou um ruído leve de pneus no cascalho, tão baixo que ele achou que tinha imaginado, mas mesmo assim ficou imóvel, esforçando-se para ouvir. O ruído cessou. Então ele ouviu a porta se abrir.
Voltou correndo para trás do sofá, onde agachou-se ao lado da janela que ele tinha aberto para o gramado enluarado em Cittàgazze. E mal tinha chegado ali quando ouviu passos naquele outro mundo, passos leves correndo pelo gramado, e olhou através da janela para ver Lyra vindo apressada em sua direção. Só teve tempo de acenar e pedir silêncio com um dedo nos lábios, ela diminuiu a velocidade, percebendo que ele já sabia que Sir Charles tinha voltado.
— Não consegui — ele sussurrou quando ela se aproximou. — Não estava lá. Provavelmente está com ele. Vou escutar e ver se ele coloca de volta no lugar. Fique aqui.
— Não! É pior ainda! — ela exclamou, quase em pânico. — Ela está com ele, a Sra. Coulter, a minha mãe, não sei como ela chegou aqui, mas se me encontrar eu estou morta, Will, estou perdida. E agora me lembrei quem é ele! Já sei onde foi que eu o vi antes! Will, o nome dele é Lorde Boreal! Eu conheci ele no coquetel da Sra. Coulter, quando eu fugi! E ele devia saber quem eu era o tempo todo...
— Psiu. Não fique aqui, se vai fazer barulho.
Ela se controlou, engolindo em seco e sacudindo a cabeça.
— Desculpe. Quero ficar com você — cochichou. — Quero ouvir o que eles vão dizer.
— Agora fique quieta...
Ele escutava vozes no vestíbulo. Os dois estavam ao alcance de um toque de mão, ele no mundo dele, ela em Cittàgazze, e ao ver o curativo frouxo de Will, Lyra bateu de leve no braço dele e com gestos mandou que ele o atasse de novo.
Ele estendeu o braço para que ela fizesse isso, agachado, com a cabeça de lado, escutando com atenção.
Uma luz se acendeu no escritório. Ele ouviu Sir Charles falando com o criado, dispensando-o, entrando no escritório, fechando a porta.
— Posso lhe oferecer uma taça de Tokay? — ele perguntou.
Uma voz feminina, baixa e doce, respondeu:
— Quanta gentileza, Carlo. Há muitos anos não provo Tokay.
— Sente-se ali perto da lareira.
Ouviu-se o gorgolejar do vinho sendo servido, depois o tilintar do frasco na borda da taça, um murmúrio de agradecimento, e então Sir Charles foi sentar-se no sofá, a centímetros de distância de Will.
— A sua saúde, Marisa — disse ele, bebendo um gole.
— Agora, diga-me o que deseja.
— Quero saber onde você conseguiu o aletiômetro.
— Por quê?
— Porque ele estava com Lyra, e eu quero encontrá-la.
— Não imagino por que motivo. É uma pirralha repelente.
— Tenho que lhe lembrar que ela é minha filha.
— Então é ainda mais repelente, porque deve ter resistido de propósito à sua encantadora influência. Ninguém conseguiria fazer isso sem querer.
— Onde está ela?
— Vou lhe contar, prometo. Mas primeiro você tem que me contar uma coisa...
— Se eu puder... — disse ela, em tom diferente, que Will imaginou ser de advertência. — O que é que você quer saber?
A voz dela era embriagadora: calmante, doce, musical, e jovem, também. Ele tinha uma vontade enorme de saber como ela era, porque Lyra nunca tinha falado dela, e o rosto que acompanhava aquela voz devia ser maravilhoso.
— O que é que Asriel está pretendendo?
Houve então um silêncio, como se a mulher estivesse calculando o que iria dizer.
Will tornou a olhar para Lyra através da janela, e viu o rosto dela, iluminado pelo luar, olhos arregalados de medo, mordendo os lábios para ficar quieta e esforçando-se para ouvir, como ele.
Finalmente a Sra. Coulter disse:
— Muito bem, vou lhe contar. Lorde Asriel está reunindo um exército com o propósito de completar a guerra que houve no céu há muitas eras.
— Que coisa mais medieval. No entanto, parece que ele tem alguns poderes bem modernos. O que foi que ele fez com o polo magnético?
— Ele descobriu um modo de explodir a barreira entre o nosso mundo e os outros. Isso provocou sérios distúrbios no campo magnético da Terra, e deve ter afetado este mundo aqui também... Mas como é que sabe disso? Carlo, acho que você devia responder a algumas perguntas minhas. Que mundo é este? E como foi que me trouxe aqui?
— É um entre milhões. Existem aberturas entre eles, mas não são fáceis de achar. Conheço uma dúzia delas, mas os lugares para onde elas se abrem mudaram, deve ter sido por causa do que Asriel fez. Parece que agora podemos passar diretamente deste mundo para o nosso, e provavelmente para muitos outros também. Antes, havia um único mundo que servia como uma espécie de encruzilhada, e todas as portas se abriam para lá. De modo que você pode imaginar a minha surpresa quando a vi, quando atravessei hoje, e o meu prazer em poder trazê-la diretamente para cá, sem correr o risco de passar por Cittàgazze.
— Cittàgazze? Que é isso?
— A encruzilhada. Um mundo em que tenho interesse, minha cara Marisa. Mas um mundo perigoso demais para visitarmos no momento.
— Perigoso por quê?
— Perigoso para os adultos. As crianças podem ir livremente.
— Como assim? Preciso saber disso, Carlo — disse a mulher, e Will sentia a sua apaixonada impaciência. — Isto está no centro de tudo, essa diferença entre crianças e adultos! É onde está guardado todo o mistério do Pó! É por isso que preciso encontrar aquela criança. E as bruxas lhe deram um nome. Quase fiquei sabendo qual era, quase, de uma bruxa mesmo, mas ela morreu depressa demais. Preciso encontrar a menina. Ela tem a resposta, seja como for, e eu preciso dela...
— E terá. Este instrumento vai trazê-la até aqui, não se preocupe. Uma vez que ela tenha me dado o que eu quero, você pode ficar com ela. Mas me fale dessa sua curiosa escolta, Marisa. Nunca vi soldados como aqueles. Quem são?
— São homens, simplesmente. Mas... sofreram a intercisão. Não têm dimons, portanto não têm medo, nem imaginação, nem vontade própria, e lutarão até morrer.
— Não têm dimons... Ora, é muito interessante. Fico imaginando se eu não poderia sugerir uma pequena experiência, se você puder dispor de um deles. Gostaria de ver se os Espectros estão interessados neles. Se não estiverem, pode ser que possamos ir a Cittàgazze afinal...
— Os Espectros? Quem são eles?
— Mais tarde explico, minha cara. São o motivo por que os adultos não podem entrar naquele mundo. Pó, crianças, Espectros, dimons, intercisão... É, podia funcionar. Tome mais um pouco de vinho.
— Quero saber de tudo — ela declarou, enquanto o vinho era servido. — Vou lhe cobrar isso. Agora diga-me: o que é que você está fazendo neste mundo? Era para cá que você vinha quando pensávamos que estava no Brasil ou nas Índias?
— Descobri o caminho para cá há muito tempo. Era um segredo bom demais para ser revelado, até mesmo para você, Marisa. Montei uma vida bastante confortável, aqui, como você pode ver. Como em casa eu pertencia ao Conselho de Estado, tive facilidade em avaliar onde estava o poder aqui. Na verdade tornei-me espião, embora nunca tenha contado aos meus chefes tudo que sabia. Durante anos os serviços de espionagem neste mundo se preocuparam com a União Soviética, que nós chamamos de Moscóvia. E, embora essa ameaça tenha diminuído, ainda existem postos de escuta e instrumentos apontados naquela direção, e ainda estou em contato com aqueles que chefiam os espiões.
Ele continuou, depois de uma pausa:
— E eu soube recentemente de um sério distúrbio no campo magnético da Terra. Todos os serviços de segurança estão alarmados. Todos os países que pesquisam física fundamental, o que nós chamamos de teologia experimental, estão colocando seus cientistas em missão urgente a fim de descobrir o que está acontecendo. Porque eles sabem que alguma coisa está acontecendo. E suspeitam que tenha algo a ver com outros mundos. Aliás, eles já têm algumas pistas disso. Há uma pesquisa sobre o Pó em andamento. Ah, sim, eles aqui também sabem sobre isso. Aqui mesmo nesta cidade há uma equipe trabalhando nisso. E outra coisa: um homem desapareceu há 10 ou 12 anos, no norte, e os serviços de segurança acham que ele estava de posse de certa informação de que eles precisavam demais, ou seja, a localização de uma porta entre os mundos, como essa que você atravessou hoje. A porta que ele encontrou é a única que eles conhecem: você pode imaginar que não lhes contei o que sei. Quando começou esse novo distúrbio, eles saíram em busca desse homem.
Ele arrematou:
— Naturalmente, Marisa, estou curioso. E ansioso para aumentar os meus conhecimentos.
Will estava paralisado, o coração batendo com tanta força que ele temia que os adultos escutassem. Sir Charles estava falando do seu pai! Então era isso que aqueles homens eram, e o que estavam procurando!
Mas durante todo o tempo ele tinha consciência de mais alguma coisa no aposento além das vozes de Sir Charles e da mulher: havia uma sombra movendo-se pelo chão, ou pela parte do chão que o menino conseguia enxergar além da ponta do sofá e atrás das pernas da mesinha octogonal. Mas nem Sir Charles nem a mulher se moviam. A sombra movimentava-se em passos rápidos e curtos, e perturbava muito Will. A única luz na sala era a de um abajur ao lado da lareira, de modo que a sombra era nítida e definida, mas nunca se imobilizava pelo tempo suficiente para Will distinguir o que era. Então duas coisas aconteceram. Primeiro, Sir Charles mencionou o aletiômetro.
— Por exemplo, estou muito curioso sobre este instrumento — ele declarou. — E se você me contar como ele funciona?
E ele colocou o aletiômetro sobre a mesinha octogonal na ponta do sofá. Will conseguia vê-lo claramente; quase podia tocar nele. A segunda coisa que aconteceu foi que a sombra imobilizou-se. A criatura que a lançava devia estar empoleirada no encosto da cadeira da Sra. Coulter, porque a luz que jorrava sobre ela lançava a sua sombra na parede. E no momento em que ela se imobilizou, ele tomou consciência de que se tratava do dimon da mulher: um macaco, agachado, girando a cabeça de um lado para outro, procurando alguma coisa.
Will escutou Lyra inspirar com força atrás de si, quando ela também o viu. Ele se virou sem ruído e murmurou:
— Volte para a outra janela e atravesse para este jardim. Pegue umas pedras e jogue na janela do escritório para desviar a atenção deles por um instante e eu poder pegar o aletiômetro. Depois corra de volta para a outra janela e espere por mim.
Ela assentiu, se virou e se afastou correndo sem ruído pela grama. Will voltou-se para o escritório. A mulher dizia:
— ... o Reitor da Universidade Jordan é um velho tolo. Não posso imaginar por que deu o aletiômetro a ela, é preciso um estudo intensivo durante vários anos para entender o instrumento. E agora você me deve umas informações, Carlo. Como foi que encontrou o aletiômetro? E onde está a minha filha?
— Vi quando ela o usava num museu da cidade. Reconheci a garota, é claro, pois a conheci naquele seu coquetel há tanto tempo, de modo que imaginei que ela tenha encontrado uma porta. E então percebi que poderia usar isso para um propósito meu. Então, quando esbarrei com ela pela segunda vez, eu o roubei.
— Você é bem franco.
— Não há necessidade de melindres, somos ambos adultos.
— E onde está ela agora? O que foi que ela fez quando descobriu o roubo?
— Ela veio até aqui, o que deve ter exigido coragem, eu imagino.
— Coragem não lhe falta. E o que vai fazer com ela? Qual é esse seu propósito?
— Eu disse a ela que devolveria o aletiômetro se ela me conseguisse uma coisa que eu não posso conseguir sozinho.
— E que coisa é essa?
— Não sei se você...
E foi nesse instante que a primeira pedra atingiu a janela do escritório. A vidraça estilhaçou-se num gratificante tilintar, e no mesmo instante o macaco saltou do encosto da cadeira, enquanto os adultos ficavam imóveis, boquiabertos. Veio outra pedra, e mais outra, e Will sentiu o sofá mexer-se quando Sir Charles se levantou.
Will inclinou-se para frente e pegou o aletiômetro na mesinha, enfiou-o no bolso e saltou através da janela. Assim que se viu no gramado em Cittàgazze ele tateou no ar em busca das bordas invisíveis, acalmando a mente, respirando devagar, consciente, durante todo o tempo, de que a poucos passos dele havia um perigo terrível.
Então ouviu um guincho que não era humano nem animal, mas pior do que qualquer uma dessas coisas, e entendeu que vinha do horrível macaco. Já tinha conseguido fechar quase toda a janela, mas ainda restava uma fenda na altura do seu peito — e então ele teve que saltar para trás, porque por essa fenda passou uma pequena pata de pelos dourados e garras negras, e depois uma cara: um focinho de pesadelo. O macaco dourado tinha os dentes à mostra, os olhos brilhantes de ódio, e uma malevolência tão intensa emanava dele que Will sentia-a quase como uma lança.
Mais um segundo e o macaco teria atravessado, e isso teria sido o fim, mas Will ainda segurava a faca, ergueu-a e golpeou duas vezes o focinho do macaco — ou o lugar onde o focinho estaria se o animal não tivesse recuado bem a tempo. Isso deu a Will o tempo necessário para ele agarrar as bordas da janela e apertá-las uma contra a outra, fechando-a.
Seu próprio mundo desapareceu, e ele estava sozinho no parque enluarado em Cittàgazze, ofegando, tremendo — e muito assustado. Mas agora tinha que ajudar Lyra. Correu de volta à primeira janela que ele tinha aberto e que dava para o bosque de arbustos, e espiou para o outro lado. As folhas escuras dos loureiros e dos azevinhos atrapalhavam a visão, mas ele enfiou a mão e afastou a folhagem para poder enxergar a lateral da casa, com a vidraça quebrada da janela do escritório destacando-se claramente ao luar.
Enquanto olhava, ele viu o macaco surgir aos saltos do canto da casa, disparando pelo gramado com a velocidade de um gato e então viu Sir Charles e a mulher seguindo-o de perto. Sir Charles segurava uma pistola. A mulher era bela — Will ficou chocado com a beleza dela —, linda, ao luar, o vulto esguio, leve e gracioso, mas quando ela estalou os dedos, o macaco estacou imediatamente e saltou para os braços dela, e o menino viu que aquela mulher de rosto doce e aquele macaco maligno eram um só ser.
Mas onde estava Lyra?
Os adultos procuravam em volta, e então a mulher colocou o macaco no chão e o animal começou a mover-se pela grama como se estivesse farejando ou procurando pegadas. O silêncio reinava em toda parte. Se Lyra já estava nos arbustos, não poderia movimentar-se sem fazer algum ruído que a denunciaria no mesmo instante.
Sir Charles fez algo na pistola que provocou um estalido baixo: a trava de segurança. Ele perscrutou os arbustos, parecendo olhar diretamente para Will, e então seus olhos seguiram adiante.
Então ambos os adultos olharam para a esquerda, pois o macaco ouvira alguma coisa. E num segundo ele tinha saltado para onde Lyra devia estar, e no instante seguinte iria encontrá-la... E nesse momento a gata saltou dos arbustos para a grama, sibilando. Ouvindo isso, o macaco girou em pleno ar, como se tivesse levado um susto, embora não estivesse tão assustado quanto o próprio Will. O macaco caiu sobre as quatro patas, de frente para a gata, e esta arqueou o dorso, a cauda erguida, e postou-se de lado, sibilando, rosnando, desafiando.
O macaco saltou sobre ela. A gata ficou de pé nas patas traseiras, golpeando com as garras afiadas, movendo-se depressa demais para a vista, e nesse instante Lyra surgiu junto a Will rolando através da janela, com Pantalaimon ao seu lado.
A gata berrou, e o macaco também berrou quando as garras da gata rasgaram-lhe o focinho e então o macaco virou-se e saltou para os braços da Sra. Coulter, e a gata, mergulhando nos arbustos do seu próprio mundo, desapareceu.
Will e Lyra tinham conseguido atravessar, e Will mais uma vez tateou em busca das bordas quase intangíveis no ar e apertou-as com rapidez, fechando o orifício em toda a sua extensão, enquanto ouvia, através do orifício cada vez menor o som de pés esmagando gravetos e mãos afastando galhos. Sobrou apenas um furo do tamanho do punho de Will, que foi logo fechado, e o mundo inteiro ficou silencioso. Ele caiu de joelhos na grama orvalhada e tateou à procura do aletiômetro.
— Pegue — disse a Lyra.
Ela pegou o instrumento. Com as mãos trêmulas ele deslizou a faca de volta na bainha. Depois se deitou, o corpo todo estremecendo, e fechou os olhos, sentindo o luar banhá-lo de prata, e sentindo Lyra desfazer o curativo e tornar a prendê-lo com movimentos delicados. E ouviu-a dizer:
— Ah, Will, obrigada pelo que você fez, por tudo...
— Espero que a gata esteja bem — ele resmungou. — Parece a minha Moxie. Provavelmente foi para casa. Lá no mundo dela. Agora ela vai ficar bem.
— Sabe o que eu pensei? Por um segundo pensei que ela era o seu dimon. De qualquer maneira, ela fez o que um bom dimon teria feito. Nós salvamos ela e ela nos salvou. Vamos, Will, não fique deitado na grama, está tudo molhado. Você tem que ir se deitar numa cama, senão vai ficar resfriado. Vamos entrar naquela casa grande ali. Deve haver camas, comida, coisas. Vamos, eu vou fazer um curativo novo, vou preparar café, vou fazer um pouco de omelete, o que você quiser, e vamos dormir... Estaremos seguros, agora que temos o aletiômetro de volta, você vai ver. Não vou fazer outra coisa a não ser ajudar você a encontrar o seu pai, eu prometo...
Ela o ajudou a se levantar e os dois caminharam devagar através do jardim em direção à casa branca que resplandecia ao luar.

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