11 de fevereiro de 2017

8. A Torre dos Anjos

— Quem é esse homem que está com a faca? — perguntou Will. Estavam no Rolls Royce, atravessando Oxford. Sir Charles estava sentado na frente, virado para trás, e Will e Lyra sentavam-se no banco traseiro, com Pantalaimon, agora um rato, acalmado pelas mãos de Lyra.
— Uma pessoa que tem tanto direito à faca quanto eu ao aletiômetro — respondeu Sir Charles. — Infelizmente para todos nós, o aletiômetro está comigo e a faca está com ele.
— Como é que o senhor sabe sobre o outro mundo, afinal?
— Sei de muitas coisas que vocês não sabem. Que mais poderiam esperar? Afinal, sou bem mais velho que vocês, e consideravelmente melhor informado. Existem várias portas entre este mundo e o outro, aqueles que sabem onde elas estão podem passar de um lado a outro com facilidade. Em Cittàgazze existe uma Liga de homens eruditos, ou pretensamente eruditos, que costumavam fazer isso o tempo todo.
— O senhor não é deste mundo! — Lyra exclamou de repente. — É daquele, não é?
E novamente ela sentiu um estranho cutucão da memória. Tinha quase certeza de que já o tinha visto.
— Não sou, não — ele respondeu.
Will interveio:
— Se temos que tirar a faca desse homem, precisamos saber mais sobre ele. Ele não vai simplesmente nos dar a faca, vai.
— Claro que não. É a única coisa que faz os Espectros ficarem longe. Não vai ser uma coisa fácil, de jeito algum.
— Os Espectros têm medo da faca?
— Muito medo.
— Por que eles só atacam os adultos?
— Não é necessário saber isso agora. Não faz diferença. — Sir Charles voltou-se para a menina. — Lyra, fale-me sobre o seu notável amigo.
Ele estava se referindo a Pantalaimon. E assim que ele falou isso, Will entendeu que a cobra que ele vira escondida na manga do velho era também um dimon, e que Sir Charles devia vir do mundo de Lyra. Estava perguntando por Pantalaimon para disfarçar, isso significava que ele não tinha percebido que Will tinha visto o seu dimon.
Lyra ergueu Pantalaimon junto ao peito e ele tornou-se um rato negro, que enrolou a cauda em várias voltas em torno do pulso dela e encarou Sir Charles com ódio em seus olhos vermelhos.
— Não era para o senhor ver ele — ela disse. — É o meu dimon. O senhor acha que neste mundo aqui não tem dimons, mas tem, sim. O seu seria um rola-bosta.
Ele retrucou:
— Se os Faraós do Egito ficavam contentes por serem representados por um escaravelho, eu também fico. Bem, você vem de outro mundo ainda. Que interessante. Foi de lá que veio o aletiômetro, ou você o roubou durante as suas viagens?
— Eu ganhei ele — disse Lyra, furiosa. — O Reitor da Universidade Jordan na minha Oxford me deu ele. É meu por direito. E o senhor não saberia o que fazer com ele, seu velho estúpido e fedorento, o senhor nunca iria conseguir ler ele, nem em mil anos. Para o senhor, é só um brinquedo. Mas eu preciso dele, e Will também. Nós vamos pegar ele de volta, não se engane.
— Veremos — fez Sir Charles. — Bem, foi aqui que deixei você da outra vez. Querem ficar aqui mesmo?
— Não — respondeu Will, tendo avistado um carro da polícia. — O senhor não pode ir a Ci’gazze por causa dos Espectros, de modo que não faz diferença saber onde fica a janela. Vamos mais para frente, na direção da via de acesso.
— Como quiser — disse Sir Charles, e o carro seguiu em frente. — Quando, ou se, vocês pegarem a faca, liguem para mim e Allan virá buscá-los.
Nada mais disseram até o motorista parar o carro. Quando os dois iam saindo, Sir Charles baixou o vidro da janela e disse a Will:
— Se vocês não conseguirem pegar a faca, nem se deem ao trabalho de voltar. Se forem à minha casa sem ela, vou chamar a polícia. Imagino que eles vão correr para lá, quando souberem o seu verdadeiro nome. É William Parry, não é? Eu já imaginava. O jornal de hoje traz uma boa fotografia sua. E o carro se afastou.
Will estava sem fala. Lyra sacudiu-lhe o braço.
— Não tem problema, ele não vai contar a ninguém — disse ela. — Senão já teria feito isso. Vamos.


Dez minutos depois, estavam na pracinha no sopé da Torre dos Anjos. Will contou a ela sobre o dimon-cobra, e ela estancou no meio da rua, novamente atormentada pelo vislumbre de uma lembrança. Quem era aquele velho? Onde ela o tinha visto? Não adiantava, a lembrança não ficava nítida.
— Eu não quis contar a ele, mas vi um homem lá em cima ontem à noite — ela contou. — Ele olhou para baixo quando as crianças estavam fazendo aquela algazarra...
— Como ele era?
— Bem moço, de cabelos cacheados. Nem um pouco velho. Mas só vi ele um instante, bem lá no alto, por cima do parapeito. Achei que ele podia ser o... Lembra-se de Angélica e Paolo? Ele disse que tinham um irmão mais velho que também tinha vindo para a cidade, e ela não deixou Paolo contar o resto, como se fosse um segredo? Pois bem, achei que podia ser ele. Ele podia estar atrás da faca, também. E imagino que todas as crianças estão sabendo. Acho que foi por isso que elas voltaram para cá.
— Hum... Talvez — disse ele, olhando para cima.
Ela se lembrou da conversa das crianças: nenhuma criança entrava na torre, elas disseram, havia coisas apavorantes lá e ela se lembrou da sua própria sensação de inquietação quando ela e Pantalaimon olharam pela porta entreaberta.
Talvez fosse por isso que era preciso um adulto para entrar lá. O dimon agora voejava em torno da cabeça dela, em forma de traça, sussurrando ansiosamente.
— Quieto — ela sussurrou de volta. — A culpa foi nossa. Temos que consertar as coisas, e este é o único jeito.
Will dirigiu-se para a direita, acompanhando a parede da torre. Na esquina havia uma passagem estreita, com o piso de pedras, entre a torre e o muro do prédio seguinte, e Will entrou por ali, olhando para o alto, avaliando o lugar. Lyra seguiu-o.
Ele parou debaixo de uma janela na altura do segundo andar e perguntou a Pantalaimon:
— Consegue voar até lá? Consegue olhar lá dentro?
Pantalaimon imediatamente se transformou numa andorinha e alçou voo. Mal conseguiu alcançar a janela, Lyra engasgou e soltou um gemido quando ele pousou na moldura da janela, e ele ficou ali durante um ou dois segundos apenas, antes de tornar a descer. Ela suspirou e respirou fundo várias vezes, como uma pessoa que escapou de morrer afogada. Will, confuso, franziu atesta.
— É ruim, quando o dimon se afasta da gente, isso dói... — ela explicou.
— Sinto muito. Viu alguma coisa? — ele quis saber.
— Uma escada — disse Pantalaimon. — Uma escada e salas escuras. Havia espadas penduradas na parede, e lanças e escudos, como um museu. E eu vi um homem. Ele estava... dançando.
— Dançando?
— Indo de um lado para outro, sacudindo a mão. Ou parecia que estava lutando contra alguma coisa invisível... Ele estava do outro lado de uma porta aberta. Não vi muito bem.
— Lutando com um Espectro? — Lyra adivinhou.
Mas não conseguiriam descobrir mais que isso, portanto seguiram caminho.
Atrás da torre, um alto muro de pedra com o topo coberto de cacos de vidro rodeava um pequeno jardim com canteiros de ervas em volta de um chafariz (mais uma vez Pantalaimon alçou voo para olhar); e depois havia um beco do outro lado, que os levou de volta à praça. As janelas nas paredes da torre eram pequenas e fundas como olhos.
— Então vamos ter que entrar pela frente — Will decidiu.
Subiu os degraus e empurrou a porta, escancarando-a.
O sol entrou, e as pesadas dobradiças rangeram. Ele deu um ou dois passos para dentro e, não vendo ninguém, avançou mais. Lyra seguia-o de perto. O piso era feito de lajes de pedra desgastadas pelos séculos, e o ar ali dentro era frio.
Will rumou para a escada que levava ao porão e desceu alguns degraus, o suficiente para ver que ela desembocava num aposento comprido, de teto baixo, tendo numa extremidade uma imensa fornalha apagada, com as paredes negras de fuligem, mas não havia ninguém, e ele voltou para o saguão da entrada, onde encontrou Lyra olhando para o alto, com o dedo nos lábios.
— Estou ouvindo ele — cochichou ela. — Está falando sozinho, eu acho.
Will prestou atenção, e ouviu também: um murmúrio baixo e cantado, interrompido ocasionalmente por uma risada ríspida ou uma exclamação de raiva. Parecia a voz de um louco. Will respirou fundo e começou a subir a escada. Ela era feita de carvalho escurecido, imensa e larga, com degraus tão gastos quanto as pedras do piso e sólidos demais para rangerem sob o peso de alguém. A luz diminuía à medida que eles subiam, porque a única iluminação era a janelinha pequena e funda em cada patamar. Subiram um andar, pararam para escutar, subiram o seguinte, e o som da voz masculina misturava-se agora com o de passos ritmados. Vinha de um aposento que ficava no outro lado do patamar e cuja porta estava entreaberta. Will foi até lá pé ante pé e abriu-a mais alguns centímetros, para poder espiar.
Era uma sala ampla, com o teto cheio de teias de poeira.
As paredes eram cobertas por estantes com livros mal conservados, as encadernações se desmanchando ou deformadas pela umidade. Vários volumes estavam jogados no chão, abertos no assoalho ou sobre largas mesas empoeiradas, e outros tinham sido enfiados no lugar de maneira brutal e desajeitada.
No centro da sala, um rapaz dançava. Pantalaimon tinha razão: parecia estar fazendo exatamente isso. Estava de costas para a porta, e ia para um lado, depois para o outro, enquanto movia sem cessar a mão na frente do corpo como se estivesse abrindo caminho através de obstáculos invisíveis. Nessa mão havia uma faca — não uma faca de aparência especial, mas simplesmente uma lâmina fosca de uns 25 centímetros de comprimento, e ele lançava-a para a frente, golpeava para o lado, tateava para a frente com ela, movia-a para cima e para baixo, tudo isso no vazio.
Fez menção de virar-se, e Will recuou. Levou um dedo aos lábios e chamou Lyra com um gesto, depois subiu na frente dela para o andar seguinte.
— O que é que ele está fazendo? — ela cochichou.
Ele descreveu o melhor que pôde.
— Parece coisa de maluco — ela comentou. — Ele é magro, de cabelos cacheados?
— É. Cabelos ruivos, como os de Angélica. E parece mesmo maluco. Não sei, não, acho isso mais esquisito do que o que Sir Charles falou. Vamos investigar mais, antes de falarmos com ele.
Ela não questionou, seguiu-o por outra escada até o último andar. Ali era muito mais claro, porque um lance de degraus pintados de branco levava ao telhado — ou, melhor, a uma estrutura de madeira e vidro, como uma pequena estufa. Mesmo no pé dessa escada eles sentiam o calor que a estufa estava absorvendo.
Enquanto estavam ali parados, ouviram um gemido vindo de cima. Os dois deram um pulo — tinham certeza de que só havia aquele homem na Torre. Pantalaimon levou um susto tão grande, que na mesma hora mudou de gato para passarinho e voou para o peito de Lyra. Will e Lyra perceberam então que estavam de mãos dadas, e soltaram as mãos lentamente.
— Melhor ir ver — Will sussurrou. — Eu vou na frente.
— Eu devia ir na frente — ela sussurrou de volta. — Já que a culpa é minha.
— Já que a culpa é sua, você tem que fazer o que eu mandar.
Ela fez beicinho, mas deixou-o ir primeiro.
Ele subiu em direção ao sol. A luz na estrutura de vidro era cegante. O ar também era quente como numa estufa, e Will não conseguia ver nem respirar direito. Encontrou uma maçaneta, girou-a e saiu depressa, levantando a mão para tapar o sol nos olhos.
Encontrou-se num telhado de chumbo rodeado por um parapeito de ameias. A estrutura de vidro ficava no centro, e em toda a volta o chumbo tinha um ligeiro declive em direção a uma calha que corria paralela ao lado interno do parapeito, com furos quadrados para escoar a água da chuva. Deitado no chumbo, em pleno sol, estava um homem de cabelos brancos. Tinha o rosto machucado, um dos olhos estava fechado, e ao se aproximarem os dois viram que ele tinha as mãos amarradas nas costas. Ele ouviu-os chegar e tornou a gemer, tentando virar-se para evitar o sol.
— Está tudo bem, não vamos machucar o senhor — disse Will baixinho. — O homem da faca fez isto com o senhor?
— Mmm — fez o velho.
— Vamos tirar a corda. Não está muito bem amarrada...
O nó tinha sido feito de maneira desajeitada e apressada, e Will conseguiu desatá-lo com facilidade. Os dois ajudaram o ancião a se levantar e levaram-no para a sombra do parapeito.
— Quem é o senhor? — Will perguntou. — Não sabíamos que havia duas pessoas aqui. Pensamos que era só uma.
— Giacomo Paradisi — o velho balbuciou entre os dentes quebrados. Sou o portador. Ninguem mais. Aquele rapaz roubou a faca de mim. Sempre existem uns tolos que se arriscam assim por causa dela. Mas esse aí está desesperado. Ele vai me matar...
— Não vai, não — disse Lyra. — O que quer dizer portador? O que significa?
— Significa que a faca mágica fica comigo, por ordem da Liga. Para onde ele foi?
— Está lá embaixo — disse Will. — Nós passamos por ele. Ele não viu a gente. Estava sacudindo a faca no ar...
— Tentando cortar até o outro lado. Não vai conseguir. Quando ele...
— Cuidado — avisou Lyra.
Will virou-se. O rapaz estava subindo para o pequeno abrigo de madeira. Ainda não os tinha visto, mas não havia onde se esconder, e quando as crianças se levantaram ele percebeu o movimento e girou para enfrentá-los. Pantalaimon imediatamente virou urso e ergueu-se nas patas traseiras. Somente Lyra sabia que ele não conseguiria tocar no outro homem, e este pestanejou e encarou-o por um segundo, mas Will percebeu que na verdade ele não tinha enxergado coisa alguma. Aquele homem estava louco. Tinha os cabelos ruivos empapados, o queixo sujo de saliva, as pupilas dos olhos rodeadas de branco por todos os lados.
E tinha a faca, ao passo que eles não tinham arma alguma. Will deu um passo para o centro do telhado, afastando-se do ancião, e agachou-se, pronto para lutar ou saltar de lado.
O rapaz avançou e tentou atingi-lo com a faca, à esquerda, à direita, à esquerda, cada vez mais perto, fazendo Will recuar até ficar encurralado num canto onde dois lados da torre se encontravam.
Enquanto isso, Lyra se aproximava do homem por trás, com a corda na mão. De súbito Will saltou para a frente, como tinha feito com o intruso em sua casa, e com o mesmo efeito: seu antagonista tropeçou para trás inesperadamente, caindo por cima de Lyra e batendo no chumbo. Tudo acontecia depressa demais para Will sentir medo. Mas ele teve tempo de ver a faca voar da mão do homem e cair a poucos metros de distância, cravada no telhado de chumbo, enterrando-se até o punho, como se estivesse cravada numa barra de manteiga.
No mesmo instante o rapaz girou e estendeu a mão para a faca, e Will jogou-se nas costas dele, agarrando-o pelos cabelos. Tinha aprendido a brigar na escola: havia muitas ocasiões para isso, depois que as outras crianças sentiram que havia alguma coisa diferente na mãe dele. E ele tinha aprendido que o objetivo de uma briga na escola não era ganhar pontos pelo estilo, mas forçar o inimigo a desistir, o que significa machucá-lo mais do que estava sendo machucado. Ele sabia que tinha que estar disposto a machucar os outros, e tinha percebido que pouca gente estava, na hora H, mas sabia que ele, sim, estava.
De modo que aquilo não lhe era desconhecido, mas ele nunca tinha brigado com um rapaz quase adulto, armado de faca, e precisava a todo custo impedir que o outro conseguisse pegá-la de volta, agora que a tinha deixado cair.
Entrelaçou os dedos nos cabelos grossos e úmidos do rapaz e puxou com toda a força. O rapaz gemeu e jogou-se de lado, mas Will agarrou-se ainda mais, e seu oponente rugiu de dor e raiva.
Esticou-se e jogou-se para trás, esmagando Will entre o seu corpo e o parapeito, e isso foi demais para Will, que perdeu o fôlego com o choque e afrouxou os dedos. O homem desvencilhou-se.
Will caiu de joelhos na calha, sem ar, mas sabia que não podia ficar ali.
Conseguiu pôr-se de joelhos e então tentou ficar de pé — e ao fazer isso enfiou o pé num dos furos de drenagem.
Por um terrível segundo ele achou que tinha pisado no vazio, seus dedos rasparam desesperadamente o chumbo quente. Mas nada aconteceu: sua perna esquerda projetava-se para o vazio, mas o resto dele estava a salvo. Ele puxou o pé de volta para dentro do parapeito e se levantou. O rapaz tinha chegado até a faca, mas não teve tempo de arrancá-la do chumbo antes de Lyra saltar sobre suas costas, arranhando, chutando, mordendo como um gato selvagem, mas a menina não conseguiu agarrar os cabelos dele, e ele jogou-a longe. E quando se levantou tinha a faca na mão.
Lyra tinha caído para um lado, com Pantalaimon, agora, como gato selvagem, dentes à mostra, pelo eriçado. Will enfrentou o rapaz e pela primeira vez viu-o claramente. Não havia dúvida, era mesmo o irmão de Angélica, e ele era mau. Toda a sua mente estava concentrada em Will, e tinha a faca em sua mão.
Mas Will também não estava desarmado.
Ele havia agarrado a corda quando Lyra a soltou, e agora enrolou-a em volta da mão esquerda para proteger-se da faca.
Moveu-se de lado entre o rapaz e o sol, para que seu adversário tivesse que piscar e apertar os olhos. Ainda melhor: a estrutura de vidro lançava reflexos brilhantes nos olhos do rapaz, e Will percebeu que por um instante o outro ficou quase cego.
Saltou para o lado esquerdo do seu oponente, o lado oposto à faca, erguendo a mão esquerda, e chutou com força o joelho do outro. Fizera pontaria com cuidado, e o pé acertou no alvo. O homem caiu com um gemido alto e rolou para longe desajeitadamente.
Will saltou atrás dele, golpeando-o com ambas as mãos e chutando inúmeras vezes, acertando onde conseguia alcançar, forçando-o a recuar cada vez mais na direção da estufa. Se conseguisse levá-lo até o alto da escada... Dessa vez o homem caiu com mais força, e sua mão direita, segurando a faca, bateu no chumbo aos pés de Will.
No mesmo instante Will pisou nela com força, esmagando os dedos do rapaz entre o cabo da faca e o telhado de chumbo, e depois enrolou a corda com mais força em torno da mão e pisoteou pela segunda vez. O rapaz gritou e soltou a faca. De imediato Will chutou-a para longe, tendo sorte por seu sapato ter pegado no cabo, e a faca saiu girando sobre o chumbo até parar na calha, junto a um dos orifícios de drenagem. A corda tinha se desenrolado de novo da sua mão, e parecia haver uma surpreendente quantidade de sangue vindo de algum lugar sobre o chumbo e em seus próprios sapatos. O homem estava se levantando...
— Cuidado! — Lyra gritou, mas Will pusera-se alerta.
No momento em que o outro estava desequilibrado, Will jogou-se em cima dele, batendo com toda força no abdômen do outro. O homem caiu de costas sobre o vidro, que se estilhaçou no mesmo instante, e a frágil estrutura de madeira também não resistiu. Ele caiu sobre os destroços, metade do corpo pendurado sobre o poço da escada, agarrou-se à moldura da porta, mas ela já não estava presa e cedeu. Ele despencou no buraco, sob outra chuva de vidro. E Will correu até a calha e pegou a faca, a luta terminara. O rapaz, machucado e arranhado, subiu de novo os degraus e viu Will de pé acima dele, segurando a faca, encarou-o com uma raiva alucinada, depois virou-se e fugiu.
— Ai! — fez Will, sentando-se. — Ai...
Alguma coisa estava muito errada e ele não tinha percebido. Deixou cair a faca e apertou a mão esquerda contra o corpo. A corda estava encharcada de sangue, e quando ele a tirou...
— Os seus dedos! — Lyra suspirou. — Ah, Will...
O dedo mínimo e o anular caíram junto com acorda.
Ele sentiu uma vertigem. O sangue jorrava com força dos tocos que restaram dos dedos, e ele tinha o jeans e os sapatos encharcados. Teve que recostar-se e fechar os olhos por um instante. A dor não era tão grande, e uma parte do seu cérebro registrou esse fato com uma surpresa sem emoção: era mais como um estrondo baixo e persistente, em vez daquela sensação breve e aguda que a pessoa sente quando se corta superficialmente. Ele nunca se sentira tão fraco.
Achou até que tinha adormecido por um momento. Lyra estava fazendo alguma coisa no seu braço. Ele endireitou-se para olhar o estrago, e sentiu náuseas. O velho estava ali por perto, mas Will não conseguia ver o que estava fazendo, e enquanto isso Lyra falava com ele.
— Se ao menos a gente tivesse um pouco de musgo-de-sangue... — ela dizia. — É o que os ursos usam. Eu ia poder curar isso, Will, ia mesmo. Escuta, vou amarrar este pedaço de corda em volta do seu braço para segurar o sangue, porque não posso amarrar em volta de onde eram os dedos, não tem onde prender... Fique quieto...
Ele deixou que ela fizesse isso, e olhou em volta à procura dos dedos. Ali estavam, curvados como aspas sanguinolentas, sobre o chumbo. Ele riu.
— Ei, pode parar — disse ela. — Agora levante-se. O Sr. Paradisi tem um remédio, uma pomada, sei lá o que é. Você tem que descer. Aquele outro foi embora, nós vimos ele sair correndo pela porta. Já sumiu. Você derrotou ele. Vamos, Will, vamos...
Com autoridade e um pouco de bajulação ela conseguiu que ele descesse a escada, e eles atravessaram os cacos de vidro e farpas de madeira até um quarto exíguo e fresco que dava para o patamar da escada. As paredes eram cobertas de estantes com garrafas, frascos, potes, pilões e almofarizes, e balanças de farmácia. Sob a janela suja havia um tanque de pedra onde o ancião estava derramando alguma coisa com as mãos trêmulas, de uma garrafa maior para um frasco pequeno.
— Sente-se aqui e beba isto — disse ele, e encheu um copinho com um líquido escuro.
Will sentou-se e pegou o copo. O primeiro gole desceu por sua garganta como fogo. Lyra pegou o copo para que ele não caísse enquanto Will engasgava.
— Beba tudo — ordenou o homem.
— Que é isso?
— Conhaque de ameixa. Beba.
Will bebericou com mais cautela. Sua mão agora doía de verdade.
— Consegue curar ele? — Lyra perguntou com desespero na voz.
— Ah, sim, temos remédio para tudo. Você, menina, abra aquela gaveta e me traga uma gaze.
Will viu a faca sobre a mesa no centro do aposento, mas antes que pudesse pegá-la o ancião veio mancando em sua direção com uma jarra com água.
— Beba mais — disse.
Will agarrou o copo com força e fechou os olhos enquanto o homem fazia alguma coisa na sua mão. A ardência foi horrível, mas em seguida ele sentiu a fricção áspera de uma toalha em seu pulso e alguma coisa enxugando a ferida com mais suavidade. Então houve uma sensação fria por um instante, depois começou a doer de novo.
— Esta é uma pomada preciosa — disse o ancião. — Muito difícil de obter. Muito boa para ferimentos.
Era uma bisnaga velha e empoeirada de pomada antisséptica comum, que Will poderia comprar em qualquer farmácia do seu mundo. O ancião segurava-a como se fosse feita de mirra. Will desviou os olhos. E enquanto o homem fazia um curativo, Lyra sentiu Pantalaimon chamando-a silenciosamente para ir espiar pela janela. Ele era um gavião empoleirado na moldura da janela aberta, e tinha percebido um movimento lá embaixo. Ela juntou-se a ele e viu uma figura conhecida: a menina Angélica corria para seu irmão mais velho, Tullio, que estava parado com as costas apoiadas no muro do outro lado da passagem lateral, mexendo os braços no ar como se tentasse manter longe do rosto uma nuvem de morcegos. Ele então se virou e começou a passar as mãos pelas pedras do muro, examinando cada uma delas com atenção, contando-as, tateando pelas beiradas, curvando-se como se fugisse de alguma coisa às suas costas, sacudindo a cabeça. Angélica estava desesperada, assim como o pequeno Paolo atrás dela, ambos chegaram até o irmão, agarraram-no pelos braços e tentaram puxá-lo para longe do que quer que o estivesse perturbando. Com um espasmo de náusea, Lyra compreendeu o que estava acontecendo: o rapaz estava sendo atacado pelos Espectros. Angélica sabia disso, embora naturalmente não conseguisse vê-los, e o pequeno Paolo chorava e golpeava o ar, tentando afastá-los, mas não adiantava, Tullio estava perdido. Seus movimentos ficaram cada vez mais letárgicos, e finalmente cessaram de todo. Angélica agarrou-se ao irmão mais velho, estremecendo e sacudindo o braço dele, mas nada o despertava; e Paolo gritava o nome do irmão sem cessar, como se isso fosse trazê-lo de volta. Então foi como se Angélica sentisse que Lyra a observava, e olhou para cima. Por um instante seus olhos se encontraram. Lyra teve um estremecimento, como se a garota a tivesse golpeado de verdade, tão intenso era o ódio nos olhos dela, e então Paolo viu-a olhando e olhou para cima também, e gritou com sua voz de menino:
— Nós vamos te matar! Você fez isso com Tullio. Nós vamos te matar!
As duas crianças viraram-se e saíram correndo, deixando para trás o irmão ferido, e Lyra, sentindo-se assustada e culpada, afastou-se da janela e fechou-a.
Os outros nada tinham ouvido. Giacomo Paradisi estava colocando mais pomada nos ferimentos, e Lyra tentou tirar da cabeça aquilo que tinha presenciado e concentrar-se em Will.
— Tem que amarrar alguma coisa em volta do braço dele para segurar o sangue. Senão não vai parar.
— É, é, eu sei — disse o velho, mas com tristeza.
Will manteve os olhos desviados enquanto eles faziam um curativo e bebeu o conhaque de ameixa aos golinhos. Finalmente sentiu-se aliviado e distante, embora a mão agora lhe doesse insuportavelmente.
— Agora, aqui está, pegue a faca, ela é sua — disse Giacomo Paradisi.
— Eu não quero — disse Will. — Não quero ter nada a ver com ela.
— Você não tem escolha — afirmou o ancião. — Agora é o portador.
— Pensei que fosse o senhor — intrometeu-se Lyra.
— O meu tempo acabou. A faca sabe quando deixar uma mão e procurar outra, e eu sei distinguir. Não acredita em mim.
Ele ergueu a mão esquerda. O dedo mínimo e o anular estavam faltando, exatamente como os de Will.
— É, eu também — disse. — Lutei e perdi os mesmos dedos. É o emblema do portador. E também não sabia de antemão.
Lyra sentou-se, de olhos arregalados. Will apoiou-se na mesa empoeirada com a mão boa. Esforçava-se para encontrar as palavras.
— Mas eu... Só viemos aqui porque... Um homem roubou uma coisa de Lyra e ele queria a faca, e disse que se a gente levasse a faca para ele, então ele ia...
— Conheço esse homem. Ele é mentiroso, um vigarista. Não ia lhes dar coisa alguma, não se enganem. Ele quer a faca, e quando a tiver vai trair vocês. Ele nunca será o portador. A faca é sua por direito.
Com pesada relutância Will virou-se para a própria faca e puxou-a em sua direção. Era uma adaga de aparência comum: lâmina de dois gumes, de metal fosco, com uns 20 centímetros de comprimento, um travessão curto do mesmo metal e cabo de pau-rosa. Ao examiná-la com mais atenção, o garoto percebeu que na madeira do cabo estavam encastoados fios dourados formando um desenho que ele não reconheceu até virar a faca e ver do outro lado um anjo de asas dobradas, no lado oposto havia um anjo diferente, com as asas abertas. Os fios ressaltavam um pouco da madeira, permitindo uma pegada firme, e ao segurar a faca na mão Will sentiu que ela era leve, forte e tinha um equilíbrio perfeito, e que a lâmina afinal não era fosca — aliás, parecia que sob a superfície do metal havia um redemoinho de cores nubladas: os roxos de um hematoma, os azuis do mar, os marrons da terra, os cinzentos das nuvens e os verde-escuros que se encontram sob uma árvore de copa densa, as sombras que se agrupam na boca de uma sepultura quando a tarde cai sobre um cemitério deserto.
Se existe algo como sombras coloridas, era o que refletia a lâmina da faca sutil.
Mas os gumes eram diferentes — aliás, os dois gumes eram diferentes entre si. Um era de aço claro e brilhante, que logo se fundia àquelas sutis sombras coloridas, mas um aço de agudeza incomparável, Will não conseguiu manter o olhar nele, tão afiado ele parecia. O outro gume era igualmente afiado, mas de cor prateada, e Lyra, que olhava por cima do ombro de Will, exclamou:
— Já vi esta cor! É a mesma da lâmina que iam usar para me separar do Pan, a mesma!
— Este gume corta qualquer material no mundo — disse Giacomo Paradisi, tocando o aço com o cabo de uma colher. — Vejam.
O ancião apertou a colher de prata contra a lâmina. Will, que segurava a faca, sentiu uma resistência mínima enquanto a ponta do cabo era cortada e caía sobre a mesa. Ele continuou:
— O outro gume é ainda mais sutil. Com ele você consegue cortar uma abertura para fora deste mundo. Experimente agora. Faça o que eu digo, você é o portador. Tem que saber. Só eu posso lhe ensinar e não tenho muito tempo. Fique de pé e escute.
Will empurrou a cadeira para trás e ficou de pé, segurando a faca com dedos frouxos. Sentia-se tonto, enjoado, revoltado.
— Eu não quero... — começou a dizer.
Mas Giacomo Paradisi sacudiu a cabeça.
— Silêncio! — ordenou. — Então não quer? Você não tem escolha! Escute o que eu digo, pois o tempo é curto. Agora segure a faca na sua frente, assim. Não é só a faca que tem que cortar, é a sua mente também. Você tem que pensar nisso. Portanto, faça o seguinte: coloque sua mente na pontinha da faca. Concentre-se, garoto. Enfoque a sua mente. Não pense nesse ferimento, ele vai sarar. Pense na ponta da faca. É onde você está. Agora movimente-a devagar. Você está procurando uma fresta tão pequena que nunca poderia enxergá-la com os olhos, mas aponta da faca vai conseguir encontrá-la, se você colocar a sua mente ali. Vá movimentando pelo ar até sentir uma minúscula fenda no mundo...
Will tentou — mas sua cabeça zunia, sua mão esquerda latejava horrivelmente e ele tornou a ver seus dois dedos caídos no telhado, e então pensou na mãe, coitada... O que ela iria dizer? Como ela iria consolá-lo? E como ele poderia consolá-la?
O menino colocou a faca sobre a mesa e agachou-se, abraçando a mão ferida e pôs-se a chorar. Tudo aquilo era demais para ele. Os soluços arranhavam-lhe a garganta e o peito, e as lágrimas o cegavam, e ele deveria estar chorando por ela, a pobre querida, assustada e infeliz, ele a tinha abandonado, abandonado...
Estava desconsolado. Mas então sentiu a coisa mais estranha, e enxugou os olhos com as costas da mão direita para ver a cabeça de Pantalaimon em seu joelho.
O dimon, em forma de lobo, erguia para ele os olhos cheios de tristeza e ternura, e então pôs-se a lamber suavemente a mão ferida de Will, várias vezes, depois tornou a descansar a cabeça no joelho do garoto.
Will não tinha ideia do tabu que no mundo de Lyra impedia que uma pessoa tocasse no dimon de outra, se ele ainda não tinha tocado em Pantalaimon, isso tinha sido por educação, não por conhecimento da proibição. Lyra estava atônita. Seu dimon fizera isso por iniciativa própria, e agora recuava, voejava até o ombro dela como a menor das vespas. O ancião observava com interesse, mas não com incredulidade. Já devia ter visto dimons, certamente viajara para outros mundos.
O gesto de Pantalaimon funcionou: Will suspirou fundo e tornou a ficar de pé enxugando as lágrimas dos olhos.
— Está bem, vou tentar outra vez — declarou. — O que é que eu tenho que fazer?
Dessa vez ele forçou a mente a fazer o que Giacomo Paradisi dizia, rilhando os dentes, tremendo com o esforço, suando. Lyra estava doida para interromper, pois conhecia esse processo — assim como a Dra. Malone, e como o poeta Keats, fosse ele quem fosse, todos eles sabiam que não adiantava forçar. Mas ficou calada, apertando as mãos.
— Pare — disse o ancião com suavidade. — Relaxe. Não force. É uma faca mágica, não uma espada pesada. Você está segurando a faca com muita força. Afrouxe os dedos. Deixe a mente descer pelo seu braço até a mão, depois para o cabo da faca, e depois seguir pela lâmina, sem pressa, não force. Devagar .Então vá até a pontinha, onde o gume é mais afiado. Você se torna a ponta da faca. Faça isso agora. Vá até lá, sinta isso e então volte.
Will tentou outra vez. Lyra via a Intensidade do corpo dele, a mandíbula contraída, e então viu que uma autoridade descia sobre ele, acalmando, relaxando e esclarecendo. A autoridade era do próprio Will — ou do seu dimon, talvez. Como ele devia sentir falta de um dimon! Tanta solidão... Não era de espantar que ele tivesse chorado e Pantalaimon estava certo em fazer o que fez, embora ela tivesse tido uma sensação muito estranha. Estendeu os braços para seu amado dimon, e, em forma de arminho, ele deslizou para o colo dela.
Juntos observaram Will, que tinha parado de tremer. Continuava concentrado, não menos intensamente, porém de maneira diferente, e a faca também parecia diferente. Talvez fossem aquelas cores nubladas ao longo da lâmina, talvez fosse o modo como ela assentava tão naturalmente na mão de Will, o fato é que o pequeno movimento que ele agora fazia com a ponta da faca parecia cheio de propósito, e não mais casual. Ele tateou para um lado, depois girou a faca e tateou para o outro, sempre usando o gume prateado e então pareceu ter encontrado uma fenda no ar vazio.
— O que é isto? É a abertura? — perguntou com voz rouca.
— É, sim. Não force. Volte agora, volte para si mesmo.
Lyra imaginou que via a alma de Will fluindo de volta ao longo da lâmina até a mão dele, e dali pelo braço até o coração. Ele deu um passo para trás, baixou a mão, pestanejou.
— Eu senti uma coisa ali — disse a Giacomo Paradisi. — No princípio a faca estava só passando pelo ar, e de repente eu senti...
— Muito bem. Agora faça de novo. Desta vez, quando sentir a fenda, deslize a faca para dentro dela e para o lado. Faça um corte. Não hesite. Não fique surpreso. Não deixe a faca cair.
Will teve que agachar-se e respirar fundo duas ou três vezes e colocar a mão esquerda sob o braço direito antes de poder continuar. Mas estava decidido, depois de alguns segundos tornou a levantar-se, a faca apontada para a frente.
Dessa vez foi mais fácil — tendo experimentado uma vez, ele sabia o que devia procurar, e em menos de um minuto tornou a sentir a curiosa fenda. Era como procurar delicadamente o espaço entre dois pontos cirúrgicos com a ponta do bisturi. Ele tocou, afastou aponta da faca e tornou a tocar para ter certeza, e então fez o que o ancião lhe ensinara e cortou para o lado com o gume prateado.
Ainda bem que Giacomo Paradisi tinha avisado para ele não ficar surpreso. Will manteve a faca cuidadosamente segura na mão e pousou-a sobre a mesa, antes de ceder à surpresa.
Lyra já estava de pé, sem fala, pois no meio do quartinho empoeirado havia uma janela exatamente como aquela sob os carpinos: um buraco no ar através do qual eles podiam enxergar outro mundo.
E como estavam no alto da torre, estavam bem acima da parte norte de Oxford. Aliás, acima de um cemitério, virado na direção da cidade. Pouco à frente deles lá estavam os carpinos, havia casas, árvores, estradas e, à distância, as torres e obeliscos da cidade.
Se já não tivessem visto a primeira janela, teriam pensado que se tratava de algum tipo de truque. Mas não era apenas ótico, por ali entrava ar e eles sentiam o cheiro dos veículos coisa que não existia no mundo de Cittàgazze. Pantalaimon virou uma andorinha e voou para o outro lado, adorando o ar livre, depois abocanhou um inseto antes de voar de volta para o ombro de Lyra.
Giacomo Paradisi observava com um sorriso curioso e triste. Então disse:
— Já aprendeu a abrir. Agora precisa aprender a fechar.
Lyra recuou para dar espaço a Will, e o ancião veio postar-se ao lado dele.
— Para isso, vai precisar dos dedos — explicou. — Basta uma das mãos. Procure a borda como fez com a faca antes de abrir. Só vai conseguir encontrar se colocar a alma na ponta dos dedos. Tateie com muita delicadeza, até encontrar as bordas. Então aperte uma contra a outra. Só isso. Experimente.
Mas Will tremia. Não conseguia levar a mente de volta ao delicado equilíbrio que ele sabia ser necessário, e foi ficando cada vez mais frustrado. Lyra via o que estava acontecendo. Levantou-se, pegou-o pelo braço direito e disse:
— Escute, Will, sente-se e vou lhe contar como se faz. Sente-se só um minuto, porque sua mão está doendo e está distraindo a sua mente. É natural. Vai melhorar daqui apouco.
O ancião ergueu ambas as mãos, então mudou de ideia, deu de ombros e tornou a sentar-se.
Will sentou-se também e olhou para Lyra.
— O que é que estou fazendo de errado? — perguntou.
Ele estava sujo de sangue, tremendo, com o olhar desvairado. Estava uma pilha de nervos: tinha a mandíbula contraída, ofegava e batia o pé no chão.
— É o seu ferimento — ela disse. — Você não está errado. Está fazendo tudo certo, mas a sua mão não deixa você se concentrar. Não conheço um jeito fácil de resolver isso, mas quem sabe, se você não tentasse reprimir...
— Como assim?
— Você está tentando fazer duas coisas com a mente, as duas ao mesmo tempo. Está tentando ignorar a dor e fechar essa janela. Eu me lembro que uma vez estava lendo o aletiômetro quando estava com medo, e pode ser que eu já estivesse acostumada com ele, não sei, mas ainda estava assustada o tempo todo enquanto lia ele. Simplesmente relaxe os seus pensamentos e diga sim, está doendo, eu sei. Não tente abafar a dor.
Ele fechou os olhos por um instante. Sua respiração ficou um pouco mais lenta.
— Está bem, vou tentar — ele disse.
E dessa vez foi muito mais fácil. Ele tateou à procura da borda, encontrou-a num minuto e fez o que Giacomo Paradisi tinha ensinado: apertou as bordas uma contra a outra. Era a coisa mais fácil do mundo. Sentiu um entusiasmo breve e calmo, e a janela sumiu. O outro mundo estava fechado. O ancião entregou-lhe uma bainha de couro com um contraforte de chifre sólido, com fivelas para manter a faca no lugar, pois o menor movimento da lâmina cortaria o couro mais grosso. Will deslizou a faca para dentro da bainha e afivelou-a como podia, usando desajeitadamente uma só mão.
— Esta devia ser uma ocasião solene — declarou Giacomo Paradisi. — Se nós dispuséssemos de dias e semanas eu poderia começar a contar-lhes a história da faca sutil e da Liga da Torre degli Angeli, e toda a triste história deste mundo corrompido e descuidado. Os Espectros são culpa nossa, só nossa. Eles vieram porque os meus predecessores, alquimistas, filósofos, homens eruditos, estavam pesquisando a natureza mais profunda das coisas. Ficaram curiosos sobre o aglutinante que mantinha unidas as mais ínfimas partículas de matéria. Sabe o que eu quero dizer com aglutinante? É o mesmo que cola, grude. Bem, esta era uma cidade comercial, uma cidade de mercadores e banqueiros. Nós pensávamos que sabíamos tudo sobre todas as coisas... Mas sobre esse aglutinante nós estávamos enganados. Nós o desmanchamos e deixamos os Espectros entrarem.
— De onde vêm os Espectros? — Will quis saber. — Por que deixaram uma janela aberta debaixo daquelas árvores, a janela por onde eu entrei? Existem outras janelas no mundo?
— De onde os Espectros vêm é um mistério. De outro mundo, da escuridão do espaço, quem sabe? O que importa é que estão aqui, e nos destruíram. Se existem outras janelas para este mundo? Sim, umas poucas, porque de vez em quando um portador da faca pode se descuidar ou esquecer, ou então ficar sem tempo para parar e fechar como deveria. E quanto à janela que você atravessou, sob os carpinos... Eu mesmo deixei aquela janela aberta, num momento de tolice imperdoável. O homem que vocês mencionaram, pensei que ele cairia na tentação de atravessar para cá, onde seria vítima dos Espectros. Mas acho que ele é inteligente demais para cair num truque desses. Ele quer a faca. Por favor, nunca deixe que ele a tenha.
Will e Lyra se entreolharam.
— Bem, tudo que posso fazer é entregar-lhe a faca e ensinar-lhe como usá-la — terminou o ancião, abrindo os braços. — Isso eu já fiz; devo também contar-lhe quais costumavam ser as regras da Liga antes que ela entrasse em decadência. Primeira: nunca abrir sem fechar. Segunda: nunca deixar outra pessoa usar a faca. Ela é só sua. Terceira: nunca usar com propósito vil. Quarta: guardar segredo. Se existem outras regras, eu as esqueci, e se as esqueci foi porque elas não eram importantes. Você tem a faca. Você é o portador. Não devia ser uma criança. Mas o nosso mundo está se esfacelando, e a marca do portador é inconfundível. Nem sei o seu nome. Agora saiam. Vou morrer logo, pois sei onde estão guardadas as drogas venenosas e não pretendo esperar a chegada dos Espectros quando a faca tiver ido embora.
— Mas, Sr. Paradisi... — Lyra começou.
Mas ele sacudiu a cabeça e continuou:
— Não há tempo. Vocês vieram aqui com um propósito, e talvez não saibam qual é esse propósito, mas os anjos que os trouxeram até aqui sabem. Vão. Você é corajoso e a sua amiga é inteligente. E você tem a faca. Saiam.
— Então vai mesmo se envenenar? — Lyra quis saber, inconformada.
— Vamos, Lyra — Will chamou.
— E que história é essa de anjos? — ela insistiu.
Will puxou-a pelo braço.
— Vamos embora — tornou a chamar. — Temos que ir. Obrigado, Sr. Paradisi.
Ele estendeu a mão direita, suja de sangue e poeira, e o velho apertou-a delicadamente. Apertou a mão de Lyra também e fez um aceno para Pantalaimon, que como resposta baixou a cabeça de arminho. Segurando a faca em sua bainha de couro, Will desceu na frente pelos degraus largos e escuros que levavam ao térreo, e saiu da torre. A luz do sol era quente na pracinha, e o silêncio era profundo. Lyra olhou em volta com imensa cautela, mas a rua estava deserta. E era melhor não preocupar Will contando-lhe o que tinha visto, já havia problemas em número suficiente. Ela o levou para longe da rua onde tinha visto as crianças e onde Tullio ainda estava parado, imóvel, como se estivesse morto.
— Eu queria... — disse ela, quando estavam quase saindo da praça e pararam para olhar para trás. — É horrível pensar em... E os dentes dele, coitadinho, todos quebrados, e ele mal podia enxergar... Vai simplesmente engolir veneno e morrer agora, e eu queria...
Ela estava à beira das lágrimas.
— Psiu — fez Will. — Ele não vai sentir dor. Vai simplesmente adormecer. É melhor do que os Espectros, foi o que ele disse.
— Ah, o que é que nós vamos fazer, Will? O que é que nós vamos fazer? Você tão machucado, e aquele pobre velhinho... Odeio este lugar, odeio mesmo, tenho vontade de botar fogo em tudo. O que é que nós vamos fazer agora?
— Bom, isso é fácil — ele respondeu. — Temos que pegar o aletiômetro de volta, então vamos ter que roubar ele. É isso que vamos fazer.

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