11 de fevereiro de 2017

7. O Rolls Royce

Lyra acordou cedo, a manhã era cálida e quieta, como se a cidade nunca tivesse tido outra estação além daquele calmo verão. Ela saltou da cama, desceu a escada e, ao ouvir vozes de crianças na praia, saiu para ver o que elas estavam fazendo.
Em frente ao porto ensolarado, três meninos e uma menina em dois pedalinhos apostavam corrida na água em direção aos degraus. Ao verem Lyra, interromperam a corrida, mas logo voltaram a ela. Os vencedores bateram nos degraus com tanta força, que um deles caiu na água, e depois tentou subir para o outro pedalinho, virando-o, ficaram todos brincando dentro d’água como se o terror da noite anterior nunca tivesse acontecido. Pareciam mais novas do que a maioria das crianças que estavam junto à torre. Lyra juntou-se a elas na água, com Pantalaimon a seu lado na forma de peixinho brilhante. Ela nunca tivera dificuldades em se relacionar com outras crianças, e logo estavam todas reunidas em volta dela, sentadas em poças d’água na pedra quentinha, suas camisas secando rapidamente sob o sol. O pobre Pantalaimon teve que voltar para o bolso dela, em forma de sapo, por causa do pano molhado e frio.
— Que é que vocês vão fazer com aquela gata?
— Vocês conseguem mesmo tirar o azar?
— De onde vocês vieram?
— O seu amigo, ele não tem medo dos Espectros?
— O Will não tem medo de nada — Lyra afirmou. — Nem eu. Por que vocês têm medo de gatos?
— Não sabe? — perguntou o menino mais velho em tom incrédulo. — Os gatos, eles têm o diabo dentro, têm mesmo. É preciso matar todo gato que aparecer. Eles mordem, colocam o diabo dentro da gente, também. E o que você estava fazendo com aquele bicho enorme?
Ela compreendeu que ele estava falando de Pantalaimon em forma de leopardo, e sacudiu a cabeça inocentemente.
— Você deve ter sonhado — disse. — As coisas ficam diferentes ao luar. Mas eu e Will, de onde a gente vem não tem Espectros, de modo que não sabemos muita coisa sobre eles.
— Se você não consegue ver os Espectros, tudo bem, você está segura — explicou um garoto. — Mas se vir, pode ficar sabendo que eles vão te pegar. Foi o que papai disse, e depois pegaram ele. Daquela vez ele nem viu eles.
— E eles estão aqui em volta de nós agora?
— É — disse a menina. Ela estendeu a mão e agarrou um punhado de ar, bradando: — Peguei um!
— Eles não conseguem nos machucar — disse um dos garotos. — E nós não podemos machucar eles, também.
— E sempre teve Espectros neste mundo? — Lyra quis saber.
— É — disse um dos meninos. Mas o outro o desmentiu:
— Nada disso! — retrucou a menina. — Minha avó disse que eles vieram porque as pessoas eram más e Deus mandou eles para nos castigar.
— A sua avó não sabe de nada — disse um menino. — Ela tem barba, a sua avó. Igual a um bode.
— Que negócio é esse de Liga? — Lyra insistiu.
— Sabe a Torre degli Angeli, a torre de pedra? Certo, ela pertence à Liga, e tem um lugar secreto lá. A Liga, eles lá sabem todo tipo de coisa. Filosofia, alquimia, todo tipo de coisa eles sabem. E foram eles que deixaram os Espectros entrarem.
— Isso não é verdade — disse outro menino. — Eles vieram das estrelas.
— É, sim! Foi isso mesmo que aconteceu: um sujeito da Liga, há muitos séculos, estava separando um metal. Chumbo. Ele ia transformar em ouro. Cortou, cortou cada vez menor até que ficou o menor pedaço que ele conseguiu fazer. Não existe nada menor. Tão pequeno que a gente nem consegue enxergar. Mas ele cortou esse pedaço também, e dentro do pedacinho mais pequenininho era onde estavam todos os Espectros juntos, enrolados e dobrados, tão apertados que quase não ocupavam lugar. Mas depois que ele cortou, bum! Eles saíram todos, e estão por aí até hoje. Foi o que o meu pai me contou.
— Tem algum homem da Liga na torre agora? — Lyra perguntou.
— Não! Eles fugiram como todo mundo — contou a menina.
— Não tem ninguém na torre. É mal-assombrado, aquele lugar — declarou um menino. — Foi por isso que a gata veio de lá. A gente não entra lá, de jeito nenhum. Nenhuma criança vai lá. Dá medo.
— Os homens da Liga não têm medo de entrar lá — comentou outro.
— Eles devem ter uma mágica especial, ou coisa assim. São ambiciosos, vivem às custas dos pobres — disse a menina.
— Os pobres trabalham e os homens da Liga vivem lá de graça.
— Mas não tem ninguém na torre agora? — Lyra perguntou. — Nenhum adulto?
— Não tem nenhum adulto na cidade inteira!
— Eles não têm coragem, de jeito nenhum.
Mas ela havia visto um rapaz lá em cima. Tinha certeza.
E havia alguma coisa no jeito daquelas crianças falarem: como mentirosa experiente, Lyra reconhecia outros mentirosos, e sabia que aquelas crianças estavam escondendo alguma coisa. E de repente ela se lembrou: o pequeno Paolo tinha dito que ele e Angélica tinham um irmão mais velho, Tullio, que também estava na cidade, e Angélica tinha mandado o menino se calar... O rapaz que ela viu poderia ser esse irmão?
As crianças foram buscar os pedalinhos para trazê-los de volta à praia, e Lyra voltou a entrar para fazer café e verificar se Will estava acordado. Mas ele ainda dormia, com a gata enrodilhada a seus pés, e Lyra estava impaciente para visitar novamente a sua Catedrática, portanto, escreveu um bilhete e deixou-o no chão junto à cama dele, depois pegou a mochila e saiu para procurar a janela.
O caminho que tomou levou-a através da pracinha que tinham visto na véspera. Estava vazia agora, e o sol batia na fachada da torre, ressaltando os entalhes ao lado da porta: figuras humanas com asas dobradas, as feições erodidas por séculos de exposição ao tempo, mas de alguma forma, em sua imobilidade, exprimindo poder, compaixão e força intelectual.
— Anjos — fez Pantalaimon, um grilo no ombro dela.
— Talvez Espectros — retrucou ela.
— Não! Eles disseram que isto aí é alguma coisa “angeli” — ele insistiu. — Aposto que quer dizer anjos.
— Vamos entrar? — Olharam para a grande porta de carvalho com suas ferragens negras, a meia dúzia de degraus que levavam a ela estavam muito gastos, e a própria porta estava ligeiramente aberta. Nada havia para impedir que Lyra entrasse, a não ser seu próprio medo.
Ela subiu os degraus pé ante pé e espiou pela abertura.
Tudo que conseguia enxergar era um saguão escuro, com piso de pedra, e só uma parte dele, mas Pantalaimon esvoaçava ansiosamente em seu ombro, exatamente como tinha feito quando ela trocara os crânios na cripta da Universidade Jordan, e agora ela era um pouco mais esperta. Aquele era um lugar ruim. Lyra desceu correndo os degraus e saiu da praça rumando para o sol brilhante da avenida de palmeiras. E, assim que se certificou de que ninguém estava olhando, atravessou a janela e entrou na Oxford de Will.


Quarenta minutos depois, Lyra estava mais uma vez dentro do prédio da Física, discutindo com o porteiro, mas dessa vez tinha um trunfo.
— Pergunte à Dra. Malone — disse em voz doce. — Basta fazer isso. Pergunte a ela.
O porteiro pegou o telefone, apertou alguns botões e falou, enquanto Lyra observava com pena: ele não tinha sequer uma guarita para ficar, como qualquer universidade na Oxford de verdade, só um grande balcão de madeira, como se aquilo fosse uma loja.
— Está certo — disse o porteiro, virando-se para Lyra. — Ela disse para subir. Não vá para outro lugar.
— Não vou, não — disse ela em tom obediente, como uma menina boazinha fazendo o que lhe mandavam. No alto da escada, porém, ela teve uma surpresa, pois, quando estava passando por uma porta com um desenho de uma mulher, a porta se abriu e ali estava a Dra. Malone, chamando-a com gestos.
Ela entrou, intrigada. Ali não era o laboratório, era um banheiro, e a Dra. Malone estava nervosa.
— Lyra, tem gente lá no laboratório, policiais ou coisa assim, eles sabem que você veio me visitar ontem, não sei o que estão procurando, mas não gostei. O que é que está acontecendo?
— Como é que eles sabem que eu vim?
— Não sei! Eles não sabem o seu nome, mas eu compreendi de quem eles estavam falando...
— Ah, bom, a gente pode mentir para eles. É fácil.
Uma voz de mulher chamou do corredor:
— Dra. Malone, viu a menina?
— Vi, sim — respondeu a Dra. Malone. — Eu estava mostrando a ela onde era o banheiro...
Lyra achou que não havia necessidade de ficar tão nervosa, mas talvez a mulher não estivesse acostumada com o perigo.
A mulher no corredor era jovem e estava muito bem vestida, e tentou sorrir quando Lyra saiu, mas seus olhos continuaram hostis e cheios de suspeita.
— Olá! Você é a Lyra, não é?
— Sou, sim. Qual é o seu nome?
— Sou a sargento Clifford. Entre aqui.
Lyra achou que a outra era muito cara-de-pau, agindo como se o laboratório fosse seu, mas assentiu humildemente. Foi o momento em que sentiu o primeiro espasmo de arrependimento. Sabia que não devia estar ali, sabia o que o aletiômetro queria que ela fizesse, e não era aquilo. Indecisa, ficou parada à porta.
No aposento já estava um homem alto e corpulento, de sobrancelhas brancas. Lyra conhecia a aparência de um Catedrático, e nenhum daqueles dois se parecia com um.
— Entre, Lyra — disse a Sargento Clifford. — Está tudo bem. Este é o Inspetor Walters.
— Olá, Lyra — fez o homem. — A Dra. Malone já me falou muito de você. Gostaria de lhe fazer umas perguntas, se você não se importa.
— Que tipo de perguntas?
— Nada difícil — disse ele, sorrindo. — Entre e sente-se Lyra.
Ele empurrou uma cadeira na direção dela, a menina sentou-se cautelosamente e ouviu a porta se fechar. A Dra. Malone estava de pé perto dela. Pantalaimon, em forma de grilo no bolso de Lyra, estava agitado: ela o sentia de encontro ao seu peito, e esperava que o tremor dele não fosse visível.
Mandou-lhe um pensamento para ficar quieto.
— De onde você vem, Lyra? — perguntou o Inspetor Walters. Se ela respondesse “de Oxford”, eles poderiam checar facilmente. Mas não poderia dizer “de outro mundo”; aquelas pessoas eram perigosas, iam querer saber mais. Lyra pensou no único nome que conhecia nesse mundo: o lugar de onde Will tinha vindo...
— De Winchester — respondeu.
— Você esteve brigando, não esteve, Lyra? — perguntou o inspetor. — Onde arranjou esses machucados? Tem uma equimose no rosto, outra na perna... Alguém andou batendo em você?
— Não — disse Lyra.
— Você estuda, Lyra?
— Estudo, sim. De vez em quando — acrescentou.
— Não devia estar na escola hoje?
Ela não respondeu. Sentia-se cada vez mais inquieta. Olhou para a Dra. Malone, cujo rosto estava tenso e infeliz.
— Vim visitar a Dra. Malone — disse Lyra.
— Está hospedada em Oxford, Lyra? Onde está hospedada?
— Com umas pessoas — disse ela. — Uns amigos.
— Qual é o endereço deles?
— Não sei exatamente como se chama o lugar. Sei chegar lá, mas não me lembro do nome da rua.
— Quem são essas pessoas?
— Uns amigos do meu pai, só isso.
— Ah, entendo. Como foi que conheceu a Dra. Malone?
— Porque meu pai é físico e conhece ela.
Ela achava que as coisas estavam ficando mais fáceis, começou a relaxar e a mentir com mais fluência.
— E ela lhe mostrou o que estava fazendo, não foi?
— Foi. O motor com a tela... É, isso tudo.
— Você está interessada nesse tipo de coisa? Ciência, coisas assim?
— É. Especialmente a física.
— Vai ser cientista quando crescer?
Aquele tipo de pergunta merecia como resposta um olhar inexpressivo, e foi o que recebeu. O homem não se perturbou: com seus olhos claros olhou de relance para a outra mulher, depois para Lyra.
— E ficou surpresa com o que a Dra. Malone lhe mostrou?
— Bem, mais ou menos, eu já esperava.
— Por causa do seu pai?
— É. Porque ele está fazendo o mesmo tipo de trabalho.
— Ah, sei. Você compreende esse trabalho?
— Só uma parte.
— Então seu pai está estudando a matéria escura?
— É.
— Está tão adiantado quanto a Dra. Malone?
— Não do mesmo jeito. Algumas coisas ele faz melhor, mas o motor com as palavras na tela, isso ele não tem.
— Will também está hospedado com os seus amigos?
— É, ele...
Ela se calou, sabendo que tinha acabado de cometer um erro terrível. Eles também perceberam, e no mesmo instante ficaram de pé para impedir que ela fugisse, mas a Dra. Malone estava no caminho e a sargento tropeçou e caiu, bloqueando a passagem do inspetor. Isso deu a Lyra tempo para sair correndo, bater a porta atrás de si e disparar para a escada. Dois homens de jaleco branco saíram de uma porta e ela trombou com eles, e de repente Pantalaimon era um corvo a grasnar e bater asas, assustando tanto os dois que eles recuaram, ela desvencilhou-se das mãos deles e disparou escada abaixo, chegando à portaria no mesmo instante em que o porteiro desligava o telefone e saía em sua direção chamando:
— Ei! Pare aí! Ei, você!
Mas o pedaço do tampo do balcão que ele tinha que levantar para sair ficava na outra extremidade, e ela chegou à porta giratória antes que ele conseguisse pegá-la.
Atrás dela, as portas do elevador se abriram, e delas irrompeu o homem de cabelos claros, tão forte e tão veloz... E a porta não girava!
Pantalaimon grasnou para ela: estava empurrando para o lado errado!
Ela soltou um grito de medo e virou-se para a outra parede divisória, jogando seu corpinho leve contra o vidro pesado, querendo com todas as suas forças que ela girasse, conseguiu movê-la bem a tempo de evitar que o porteiro a agarrasse. O porteiro estava no caminho do homem de cabelos claros, de modo que Lyra conseguiu sair e afastar-se antes que este saísse pela porta. Ela atravessou a rua — ignorando os carros, as freadas e os pneus cantando — e entrou num beco entre prédios altos, depois virou em outra rua com carros indo em ambas as direções, mas ela foi rápida, desviando-se das bicicletas, sempre com o homem de cabelos claros logo atrás dela — tão apavorante!
Entrou num jardim, saltou uma cerca e atravessou um bosquezinho de arbustos, com Pantalaimon, em forma de pássaro, esvoaçando acima da sua cabeça, indicando-lhe o caminho, depois Lyra agachou-se atrás de um recipiente de guardar carvão enquanto ouvia o homem de cabelos claros passar correndo — ele nem sequer estava ofegando, era muito veloz e estava em ótima forma!
Pantalaimon instruiu:
— Agora volte para aquela rua...
Ela esgueirou-se para fora de seu esconderijo e atravessou de volta o gramado do jardim, saiu pelo mesmo portão e encontrou-se outra vez na amplidão da Rua Banbury; mais uma vez atravessou a rua e mais uma vez ouviu pneus cantando e então entrou correndo na Norham Gardens, uma rua tranquila, orlada de árvores, com altas casas vitorianas, perto do Parque. Ela parou para recuperar o fôlego.
Havia uma cerca-viva alta diante de um dos jardins, tendo à frente uma mureta, e ali ela se sentou, enfiando-se o mais que pôde sob os alfeneiros.
— Ela nos ajudou! — disse Pantalaimon. — A Dra. Malone atrapalhou eles! Ela está do nosso lado, não do deles!
— Ah, Pan, eu não devia ter dito aquilo do Will... Eu devia ter sido mais cuidadosa...
— Não devia ter vindo — disse ele severamente.
— Eu sei. Isso, também...
Mas não teve tempo de se lamentar, pois Pantalaimon esvoaçou para seu ombro, dizendo:
— Cuidado, atrás de você...
E imediatamente transformou-se outra vez em grilo e mergulhou no bolso dela. Ela levantou-se, pronta para correr, e viu um sedã azul-escuro deslizando silenciosamente para junto da calçada.
A menina preparou-se para fugir, mas a janela traseira do carro desceu e por ela assomou um rosto que ela reconheceu.
— Lizzie! — fez o velho do museu. — Que bom ver você de novo! Posso lhe dar uma carona?
Ele abriu a porta e recuou para dar lugar a ela ao seu lado. Pantalaimon mordiscou-lhe a pele através do pano fino, mas ela entrou imediatamente, agarrada à mochila, e o homem, inclinando-se sobre ela, fechou a porta do carro.
— Parece que você está com pressa — disse. — Aonde quer ir?
— Para Summertown, por favor.
O motorista usava um quepe pontudo. Tudo naquele carro era bonito, macio e poderoso, e o cheiro da água-de-colônia do homem era forte naquele espaço fechado. O carro afastou-se da calçada sem o menor ruído.
— Então, que foi que você andou fazendo, Lizzie? — perguntou o velho. Descobriu mais alguma coisa sobre aqueles crânios?
— É — disse ela, virando-se para olhar para a janela traseira. Não havia sinal do homem de cabelos claros. Ela conseguira escapar!
E ele nunca a encontraria, agora que ela estava em segurança num carro poderoso, com um homem rico como aquele. Lyra teve uma breve sensação de triunfo.
— Eu também fiz algumas pesquisas — ele disse. — Um antropólogo meu amigo me disse que eles têm muitos outros além dos que estão em exibição. Alguns são realmente muito antigos. De Neandertal, sabia?
— É. Foi o que eu soube também — disse Lyra, sem ter a menor ideia do que ele estava falando.
— E como vai o seu amigo?
— Qual amigo? — perguntou Lyra, assustada, tinha contado a ele também sobre Will?
— Onde você está hospedada.
— Ah, a minha amiga. Ela vai muito bem, obrigada.
— O que é que ela faz? É arqueóloga?
— Não, é... física. Estuda a matéria escura — disse Lyra, ainda um pouco descontrolada.
Naquele mundo era mais difícil contar mentiras do que ela havia imaginado que seria. E alguma coisa a estava incomodando: aquele velho lhe parecia familiar de alguma maneira, e ela não conseguia localizar de onde era.
— Matéria escura? — ele repetiu. — Que coisa fascinante! Ainda hoje de manhã li alguma coisa sobre isso no Times. O universo está repleto dessa coisa misteriosa, que ninguém sabe o que é! E a sua amiga está estudando isso?
— É. Ela sabe um monte de coisas sobre esse assunto.
— E o que você vai fazer depois, Lizzie? Vai estudar física também?
— Pode ser — disse ela. — Depende.
O motorista pigarreou discretamente e diminuiu a velocidade do carro.
— Bem, chegamos a Summertown — disse o velho. — Onde quer ficar?
— Ah, logo depois dessas lojas. Daqui posso ir caminhando — disse Lyra. — Obrigada.
— Vire à esquerda no Passeio Público e encoste do lado direito, Allan — ele instruiu.
— Sim, senhor — fez o motorista.
No minuto seguinte estavam parados diante de uma biblioteca pública. O velho abriu a porta do seu próprio lado, de modo que Lyra, para sair, teve que passar por cima dos joelhos dele. Havia bastante espaço, mas por um motivo qualquer aquilo era constrangedor, e ela não queria ter contato físico com ele, por mais bonzinho que ele fosse.
— Não esqueça a mochila — ele disse, estendendo-lhe o objeto.
— Obrigada.
— Vamos nos ver de novo, espero, Lizzie. Dê minhas lembranças à sua amiga.
— Adeus — fez Lyra.
Deixou-se ficar parada na calçada até o carro virar a esquina e sumir de vista, só então saiu na direção dos carpinos.
Tinha uma sensação estranha em relação àquele homem de cabelos claros, e queria consultar o aletiômetro.


Will estava outra vez lendo as cartas do pai. Sentado no terraço, ouvindo os gritos distantes das crianças que mergulhavam da borda do porto, lia a caligrafia firme nas finas folhas de papel de carta via aérea, tentando visualizar o homem a quem ela pertencia, voltando várias vezes à referência ao bebê — que era ele próprio.
Ouviu os passos de Lyra correndo ainda à distância, guardou as cartas no bolso e levantou-se, e quase no mesmo instante Lyra apareceu, com olhos assustados e Pantalaimon rosnando como um gato selvagem, perturbado demais para pensar em esconder-se. Ela, que nunca chorava, estava soluçando de dor, tinha o peito ofegante, rilhava os dentes, e jogou-se sobre ele, agarrando-lhe os braços, gritando:
— Eu mato ele! Eu mato ele! Quero que ele morra! Ah, se Iorek estivesse aqui... Ah, Will, eu agi mal. Sinto muito...
— O que foi? Qual é o problema?
— Aquele velho... não passa de um ladrão sujo... ele me roubou, Will! Ele roubou o meu aletiômetro! Aquele velho podre, com suas roupas de rico, seu carro com motorista... Ah, fiz tanta coisa errada hoje... Ah, eu...
E pôs-se a soluçar tão desesperadamente que ele pensou: um coração pode se despedaçar de verdade, e o dela está se despedaçando agora — pois ela caiu no chão, tremendo, gemendo alto. Ao lado dela, Pantalaimon transformou-se em lobo e pôs-se a uivar com amargo sofrimento. Longe, na saída do porto, as crianças interromperam o que estavam fazendo e sombrearam os olhos com as mãos para ver melhor. Will sentou-se ao lado de Lyra e sacudiu-a pelo ombro.
— Pare! Pare de chorar! Conte-me do princípio. Que velho é esse? O que foi que aconteceu?
— Você vai ficar tão zangado... Prometi que não ia fazer isso, denunciar você, eu prometi, e agora... — ela soluçou.
Pantalaimon tornou-se um cãozinho jovem e desajeitado, de orelhas caídas e rabo encolhido, rastejando de vergonha e Will compreendeu que Lyra tinha feito alguma coisa da qual se envergonhava demais para conseguir lhe contar, e então falou com o dimon:
— O que foi que aconteceu? Conte-me.
Pantalaimon contou:
— Fomos até a Catedrática, e tinha mais gente lá, um homem e uma mulher, e eles nos prepararam uma armadilha, fizeram muitas perguntas e depois perguntaram sobre você, e antes que a gente percebesse, a gente já tinha revelado que conhecia você, e então fugimos...
Lyra tinha o rosto escondido nas mãos, a cabeça apertada contra a calçada.
Pantalaimon, em sua agitação, mudava de uma forma para outra: cão, pássaro, gato, arminho branco como a neve.
— Como era o homem? — Will quis saber.
— Grandão — fez a voz abafada de Lyra. — E muito forte, de olhos claros...
— Ele viu você voltar pela janela?
— Não, mas...
— Bom, então ele não vai saber onde estamos.
— Mas o aletiômetro! — ela exclamou, sentando-se com decisão, as feições rígidas de emoção como uma máscara grega.
— É, fale sobre isso — Will pediu.
Entre soluços e ranger de dentes ela lhe contou o que acontecera: que o velho a tinha visto usar o aletiômetro no museu no dia anterior, e que ele hoje tinha parado o carro e ela entrou para escapar do homem louro, e o carro tinha estacionado do outro lado, de modo que ela precisou pular por cima dele para sair, e ele deve ter agido depressa, roubando o aletiômetro quando lhe passou a mochila...
Will percebia como ela estava desesperada, mas não entendia por que deveria se sentir culpada. E então ela disse:
— Will, ah, Will, fiz uma coisa horrível. Porque o aletiômetro me disse que eu tinha que parar de procurar o Pó e tratar de ajudar você. Eu tinha que ajudar você a encontrar o seu pai. E eu podia mesmo, podia levar você onde ele estiver, se eu tivesse o aletiômetro. Mas eu não quis ouvir. Simplesmente fiz o que queria fazer, mas não devia...
Ele já a tinha visto usar o aletiômetro, e sabia que o instrumento podia mesmo contar-lhe a verdade. Então deu-lhe as costas. Ela agarrou o pulso dele, mas ele desvencilhou-se e caminhou até a beira d’água. As crianças brincavam novamente no outro extremo do porto. Lyra correu até ele, e disse:
— Will, estou tão arrependida...
— De que adianta isso? Não quero saber se está arrependida ou não. Você errou.
— Mas Will, nós temos que ajudar um ao outro, você e eu, porque não temos mais ninguém.
— Não vejo como.
— Nem eu, mas...
Ela cortou a frase no meio, e seus olhos brilharam. Virou-se e saiu correndo de volta à mochila abandonada na calçada, pondo-se a remexer febrilmente dentro dela.
— Sei quem ele é! E onde mora! Veja! — disse, estendendo o pequeno cartão de visita. — Ele me deu isso no museu! Podemos ir lá pegar o aletiômetro de volta!
Will pegou o cartão e leu:

Sir Charles Latrom
Comandante da Ordem do Império Britânico
Mansão Limefield
Old Headington
Oxford

— Ele é importante — comentou. — É um Cavalheiro. Isso quer dizer que as pessoas vão automaticamente acreditar nele e não em nós. De qualquer maneira, o que é que você quer que eu faça? Chame a polícia? A polícia está me caçando! Se não estavam ontem, agora estarão. E se você for, eles sabem quem você é, e sabem que você me conhece, de modo que isso também não ia funcionar .
— Podíamos roubar o aletiômetro. Podíamos ir até a casa dele e roubar o aletiômetro. Sei onde fica Headington, existe esse lugar na minha Oxford também. Não é longe. Podíamos chegar lá em uma hora a pé, facilmente.
— Você é tão boba!
— Iorek Byrnison iria lá direto e arrancaria a cabeça dele. Queria que ele estivesse aqui. Ele iria...
Lyra silenciou. Will simplesmente olhava para ela, e ela se sentiu intimidada. Teria se intimidado do mesmo modo se um urso de armadura tivesse olhado para ela desse jeito, porque havia alguma coisa parecida com Iorek nos olhos de Will, por mais jovem que ele fosse.
— Nunca ouvi uma coisa tão estúpida — disse ele. — Acha que podemos simplesmente ir até a casa dele, entrar escondidos e roubar o aletiômetro? Você tem que pensar, usar essa sua porcaria de inteligência. Se ele é assim tão rico, deve ter todo tipo de alarmes contra ladrões e coisas assim, deve haver sirenes que disparam, trancas especiais e luzes infravermelhas que acendem automaticamente...
— Nunca ouvi falar nestas coisas — disse Lyra. — Não temos nada disso no meu mundo. Eu não sabia, Will.
— Está bem, então pense no seguinte: ele tem a casa inteira para esconder o aletiômetro, e quanto tempo um ladrão teria para procurar em todos os armários e gavetas e esconderijos da casa inteira? Aqueles homens que entraram na minha casa tiveram horas para procurar e não encontraram o que queriam, e aposto que a casa dele é muito maior que a minha. E ele com certeza tem cofre, também. Então, mesmo conseguindo entrar na casa, nós não vamos ter tempo para encontrar o aletiômetro antes que a polícia chegue.
Ela baixou a cabeça. Infelizmente aquilo tudo era verdade.
— Então, o que é que vamos fazer? — perguntou.
Ele não respondeu. Mas tratava-se de nós, sem dúvida — agora, gostando ou não, estava preso a ela.
Caminhou até a beira d’água e de volta ao terraço, e novamente até a água. Batia as mãos uma na outra, procurando em vão uma resposta, e sacudia a cabeça com raiva.
— Ir até lá — disse finalmente. — Ir até lá falar com ele. Não adianta pedir ajuda à sua Catedrática, também, se a polícia já chegou até ela. Ela certamente vai acreditar neles e não em nós. Pelo menos, entrando na casa dele, vamos ver onde ficam os aposentos principais. Já é um começo.
Sem outra palavra ele entrou na casa e guardou as cartas debaixo do travesseiro no quarto onde estava dormindo. Assim, se fosse preso, eles nunca teriam as cartas.
Lyra estava esperando no terraço, com Pantalaimon empoleirado em seu ombro como andorinha. Ela parecia mais animada.
— Vamos pegar ele de volta — afirmou. — Eu sinto que vamos.
Ele não respondeu, e os dois partiram rumo à janela.


Caminharam uma hora e meia até chegarem a Headington. Lyra indicava o caminho, evitando o centro da cidade, Will vigiava em volta, sem nada dizer.
Para Lyra as coisas estavam muito mais difíceis agora do que até mesmo no Ártico a caminho de Bolvangar, pois naquela ocasião lá estavam os gípcios e Iorek Byrnison, e mesmo que a tundra estivesse cheia de perigos, era possível reconhecer o perigo quando ele surgia.
Aqui, nesta cidade que era sua e não era, o perigo podia ter aparência amigável, e a traição sorria e cheirava bem e mesmo que não fossem matá-la ou separá-la de Pantalaimon, tinham roubado dela o seu único guia. Sem o aletiômetro ela era apenas uma menininha perdida.
A Mansão Limefield tinha a cor cálida do mel, e metade da fachada estava coberta de hera. Ficava num jardim amplo e bem tratado, com uma cerca-viva a um lado e uma alameda de cascalho para automóveis que serpenteava até a porta principal. O Rolls Royce estava parado diante de uma garagem dupla, à esquerda. Tudo que Will enxergava cheirava a dinheiro e poder, o tipo de superioridade informal e estabelecida que algumas pessoas da aristocracia inglesa ainda achavam natural. Havia alguma coisa naquilo tudo que o fazia cerrar os dentes, e ele não sabia por quê, até que de repente lembrou-se de uma ocasião, quando era bem novinho — sua mãe o levara a uma casa parecida com essa... Os dois usavam suas melhores roupas, e ele tinha que se comportar o melhor possível, e um casal de velhos fez a mãe dele chorar, e eles foram embora da casa, ela ainda chorando... Lyra viu que ele tinha a respiração acelerada e os punhos cerrados, mas ela era suficientemente sensível para não fazer perguntas: era algo que dizia respeito a ele, não a ela. Will respirou fundo.
— Bom, não custa tentar — disse.
Subiu a alameda, com Lyra logo atrás. Sentiam-se muito vulneráveis. A porta tinha um puxador antiquado, como os do mundo de Lyra, e Will não conseguiu descobrir como se tocava a campainha até que Lyra lhe mostrou. Quando o puxaram, a campainha tocou longe, dentro da casa. O homem que abriu a porta era o motorista do carro, só que sem o quepe. Primeiro ele olhou para Will, depois para Lyra, e sua expressão modificou-se um pouco.
— Queremos ver Sir Charles Latrom — Will anunciou.
Tinha o queixo erguido, como na véspera, ao enfrentar as crianças que jogavam pedras junto à torre. O criado assentiu.
— Esperem aqui — disse. — Vou avisar Sir Charles.
Ele fechou a sólida porta de carvalho, com duas trancas pesadas, e fechos em cima e embaixo — embora Will achasse que nenhum ladrão sensato iria tentar a porta da frente. E havia um alarme contra ladrões instalado em lugar bem visível na fachada da casa, e um grande holofote em cada esquina, nunca conseguiriam se aproximar da casa, muito menos penetrar nela. Passos regulares vieram até a porta, que tornou a se abrir. Will olhou para o rosto daquele homem que já possuía tanta coisa e ainda cobiçava mais, e achou-o intrigantemente tranquilo e seguro de si, nem um pouco culpado ou embaraçado.
Sentindo que a seu lado Lyra se encontrava impaciente e zangada, Will disse depressa:
— Com sua licença, Lyra acha que quando pegou uma carona com o senhor, hoje mais cedo, ela esqueceu um objeto dentro do carro.
— Lyra? Não conheço nenhuma Lyra. Que nome incomum! Conheço uma menina chamada Lizzie. Quem é você?
Amaldiçoando-se por ter esquecido, Will disse:
— Sou Mark, o irmão dela.
— Entendo. Olá Lizzie, ou Lyra. É melhor entrarem.
Ele deu um passo para o lado. Nem Will nem Lyra esperavam por isso, e entraram com hesitação. O vestíbulo estava em penumbra e cheirava a cera de abelha e flores. Todas as superfícies estavam limpas e enceradas, e uma estante de mogno encostada à parede continha delicadas figurinhas de porcelana. Will viu o criado de pé à distância, como se esperasse ser chamado.
— Vamos para o meu escritório — disse Sir Charles, abrindo outra porta do vestíbulo.
Ele estava se mostrando cortês, até mesmo acolhedor, mas havia em seus modos alguma coisa que deixou Will em guarda. O escritório era amplo e confortável, um ambiente de charutos e poltronas de couro, e parecia estar cheio de estantes, quadros, troféus de caça. Havia três ou quatro estantes com portas de vidro contendo antigos instrumentos científicos: microscópios de cobre, telescópios encapados em couro verde, sextantes, bússolas; era óbvio o seu motivo para querer o aletiômetro.
— Sentem-se — disse Sir Charles, indicando um sofá de couro. Acomodou-se na cadeira atrás da escrivaninha e continuou: — E então? O que é que vocês têm a dizer?
— O senhor roubou... — Lyra começou, com raiva.
Mas Will olhou para ela, e ela silenciou.
— Lyra acha que deixou uma coisa no seu carro — tornou a dizer ele. — Viemos pegar de volta.
— Está falando deste objeto? — disse, abrindo uma gaveta da escrivaninha.
Tirou de dentro um embrulho de veludo. Lyra levantou-se. Ele a ignorou e desdobrou o pano, mostrando o esplendor dourado do aletiômetro descansando na palma da sua mão.
— É, sim! — explodiu Lyra, estendendo a mão para o aletiômetro. Mas o homem fechou a mão. A escrivaninha era larga, e Lyra não conseguia ultrapassá-la, e antes que ela pudesse fazer alguma coisa ele girou e colocou o aletiômetro numa estante de porta de vidro, trancou-a e colocou a chave no bolsinho do colete.
— Mas isso não é seu, Lizzie — disse. — Ou Lyra, se é este o seu nome.
— É meu, sim! É o meu aletiômetro!
Ele sacudiu a cabeça com ar triste, como se estivesse a repreendê-la e isso lhe causasse dor, mas era para o próprio bem dela.
— Acho que no mínimo existem sérias dúvidas quanto a isso — disse.
— Mas é dela! — disse Will! — Eu juro! Ela mostrou ele para mim! Sei que é dela!
— Entendam, acho que vocês teriam que provar isso — o homem retrucou. — Eu não preciso provar coisa alguma, porque tenho a posse dele, então parte-se do princípio de que ele é meu, como todos os outros itens da minha coleção. Devo dizer, Lyra, que fico surpreso ao perceber que você é tão desonesta...
— Eu não sou desonesta nada! — Lyra gritou.
— Ah, é, sim. Você me disse que o seu nome era Lizzie, agora vejo que não é. Francamente, você não tem a menor chance de convencer alguém que uma peça preciosa como esta lhe pertence. Vou lhe dizer o que vamos fazer: vamos chamar a polícia.
Ele se virou para chamar o criado.
— Não, espere — disse Will, antes que Sir Charles abrisse a boca, mas Lyra correu em volta da mesa, e de repente Pantalaimon estava nos braços dela, um feroz gato selvagem mostrando os dentes e rosnando para o velho. Sir Charles pestanejou diante daquela aparição, mas não se perturbou.
— O senhor nem sabe o que roubou! — Lyra bradou. — Me viu usando ele e resolveu roubar ele, e roubou. Mas o senhor, o senhor é pior do que a minha mãe, ela pelo menos sabe que o aletiômetro é importante, e o senhor vai colocar ele numa estante e não vai fazer nada com ele! O senhor devia morrer! Se eu puder, vou fazer alguém matar o senhor. O senhor não merece ficar vivo. O senhor é...
Ela não conseguiu dizer mais nada, a única coisa que podia fazer era cuspir na cara dele — e foi o que fez, com toda força.
Will continuava sentado, imóvel, observando, olhando em volta, memorizando onde ficava cada coisa.
Sir Charles calmamente pegou um lenço de seda e limpou-se.
— Não sabe se controlar? — falou. — Vá se sentar, sua pivete imunda.
Lyra sentiu lágrimas saltando de seus olhos com a força do tremor do seu corpo, e jogou-se sobre o sofá. Pantalaimon, com a cauda ereta, ficou no colo dela, com os olhos em brasa fixos no homem.
Will continuou sentado, confuso. Sir Charles poderia tê-los expulsado muito tempo antes; o que ele estava pretendendo?
E então ele viu algo tão bizarro que achou que tinha imaginado. Da manga do paletó de linho de Sir Charles, junto ao punho branco da camisa, assomou a cabeça cor de esmeralda de uma cobra. A língua branca surgiu e vibrou para um lado e para outro, e a cabeça cheia de escamas, com seus olhos negros orlados de dourado, moveram-se de Lyra para Will e de volta para a garota. Lyra estava zangada demais para perceber essa cena, e Will viu-a apenas durante uns segundos, antes que a cobra se retraísse novamente para dentro da manga do paletó do velho, mas foi o suficiente para que ele arregalasse os olhos de susto.
Sir Charles foi até a janela e calmamente sentou-se no banco sob ela, ajeitando o vinco das calças.
— Acho melhor me escutar, em vez de se comportar deste modo descontrolado — declarou. — Você não tem escolha. O instrumento está comigo e vai continuar comigo. Eu o quero para mim. Sou colecionador. Você pode cuspir, bater pé e gritar quanto quiser, mas quando tiver conseguido convencer alguém a escutá-la, já terei muitos documentos provando que eu o comprei. Posso fazer isso com a maior facilidade. E então você nunca vai tê-lo de volta.
As crianças nada disseram, pois ele ainda não tinha terminado. Uma enorme perplexidade pesava no coração de Lyra, tornando o aposento muito quieto. Ele continuou:
— No entanto, existe uma coisa que eu desejo ainda mais. E não consigo obtê-la por mim mesmo, de modo que estou preparado para fazer um trato com vocês. Vocês me trazem o objeto que eu quero, e eu lhes devolverei esse... Como foi mesmo que você chamou?
— Aletiômetro — disse Lyra em voz fraca.
— Aletiômetro... Que interessante! Aletheia, verdade... Os símbolos... É, estou entendendo.
— Qual é essa coisa que o senhor quer? — Will perguntou. — E onde é que ela está?
— Num lugar aonde eu não posso ir, mas vocês podem. Sei perfeitamente que vocês encontraram uma porta em algum lugar. Acredito que não seja muito distante de Summertown, onde eu deixei Lizzie, ou Lyra, esta manhã. E do outro lado da porta existe um outro mundo, sem pessoas adultas. Estou certo até agora? Bem, o homem que fez aquela porta tem uma faca. Neste momento ele está escondido nesse outro mundo, com muito medo. E tem razão para ter medo. Se ele está onde eu penso que está, é numa velha torre de pedra com anjos entalhados em volta da porta. A Torre degli Angeli.
E finalizou:
— De modo que é lá que vocês têm que ir, e não me importo como vão fazer isso, mas quero aquela faca. Tragam-na para mim e poderão ficar com o aletiômetro. Vai ser uma pena perdê-lo, mas sou um homem de palavra. É isto que vocês têm que fazer: me trazer a faca.

6 comentários:

  1. Que droga! Aaagh
    E ele conseguiu decifrar os símbolos? Naaaao

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  2. Esquece, aquela coisa é um Daemon, ele provavelmente veio do mundo da Lyra

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  3. Luamara feiticeira dimon dragão12 de março de 2017 10:52

    Beco sem saída. se ele tiver a faca vai abrir outra passagem.

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  4. Que ve q se ela pega a faca sutil o cara vai ter dois de tres objetos magicos o tercero deve ser a luneta ambar e os tres juntos devem servir pra algo , altas aventuras lyra n cai na dele n ele tem um dimommmmmm cobra e cobras sao traisueiras sera q n é o consul das feiticeiras

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    1. estilo reliquias da morte? Também acho, ele enganou ela uma vez, não confio nele parece o tipo de pessoa que ta atras de poder,ele com seu deamom cobra, quem na terra seria confiavel com u deamom cobra??

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    2. O deamon do cônsul das bruxas é uma serpente

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Boa leitura :)