4 de fevereiro de 2017

7. John Faa

AGORA que tinha uma missão pela frente, Lyra se sentia muito melhor. Ajudar a Sra. Coulter tinha sido muito bom, mas Pantalaimon tinha razão: ela não estava trabalhando de verdade, era apenas um bichinho de estimação. No barco gípcio, havia trabalho de verdade a fazer, e a Mãe Costa fazia com que ela trabalhasse: Lyra limpava e varria, descascava batatas e fazia chá, lubrificava os rolamentos do eixo da hélice, mantinha limpa a grade protetora da hélice, lavava pratos, abria comportas, amarrava o barco nos trapiches, e em poucos dias estava tão à vontade nessa vida nova como se tivesse nascido gípcia.
O que ela não percebia era que os Costa estavam o tempo todo alertas, observando se as pessoas nas margens demonstravam sinais de interesse em Lyra. Embora não tivesse consciência disso, ela era importante, e a Sra. Coulter e o Conselho de Oblação certamente estariam procurando por ela em toda parte. Realmente, Tony ouviu, nas fofocas dos bares ao longo do caminho, que a polícia estava revistando casas, fazendas, canteiros de obras e fábricas sem qualquer explicação, embora houvesse um boato de que estavam procurando uma menina sumida. E isso era estranho, considerando que tantas crianças tinham sumido sem terem sido procuradas. Tanto os gípcios quanto as pessoas de terra estavam ficando cada vez mais nervosos e agitados.
E havia outra razão para o interesse dos Costa em Lyra, mas ela só saberia disso alguns dias depois.
Assim, mantinham a menina na cabine sempre que passavam pela casa de um guardador de comporta ou por um porto de canal, ou onde quer que pudesse haver gente. Uma vez passaram por uma cidade onde a polícia estava revistando todos os barcos que vinham pelo canal, prendendo o trânsito em ambas as direções. Mas os Costa sabiam como enfrentar esse tipo de coisa: havia um compartimento secreto debaixo da cama de Mãe Costa, onde Lyra ficou apertada durante duas horas, enquanto a polícia percorria o barco de uma ponta a outra, inutilmente.
— Mas por que os dimons deles não me encontraram? — ela perguntou depois.
Mamãe mostrou o forro do esconderijo: cedro, que tinha um efeito sonífero nos dimons; e era verdade, pois Pantalaimon tinha passado o tempo todo dormindo tranquilamente junto à cabeça de Lyra.
Lentamente, com muitas paradas e muitos desvios, o barco dos Costa se aproximava dos Pântanos, aquela vasta extensão nunca inteiramente desbravada, com céus imensos e pântanos infindáveis, na Anglia oriental. A borda do terreno se misturava aos riachos e lagoas de maré do mar raso, e o outro lado do mar se confundia com a Holanda; e partes dos Pântanos tinham sido drenadas e fechadas com diques pelos holandeses, alguns dos quais haviam se estabelecido lá, de modo que a língua nos Pântanos tinha muita influência holandesa. Mas algumas áreas não foram drenadas, plantadas ou desbravadas, e nas regiões centrais — as mais selvagens, onde enguias deslizavam e pássaros aquáticos se juntavam, onde sinistros fogos-fátuos tremeluziam e criaturas atraíam os viajantes descuidados para a morte nos pântanos — o povo gípcio sempre encontrara segurança para se reunir.
E agora, através de mil canais, regatos e cursos d’água serpenteantes, barcos gípcios seguiam para o Byanplats, a única área de terreno ligeiramente mais alto em meio às centenas de quilômetros quadrados de pântanos e atoleiros. Havia lá uma espécie de auditório num pavilhão antigo, feito de madeira, com algumas moradias permanentes em volta, cais e píeres e um Mercado de Enguias. Quando um Encontro era marcado, quando havia uma convocação de gípcios, tantos barcos enchiam os cursos d’água que uma pessoa podia caminhar mais de um quilômetro em qualquer direção passando de um barco a outro — era o que se dizia. Os gípcios mandavam nos Pântanos; ninguém mais ousava entrar lá, e, como os gípcios mantinham a paz e comerciavam com honestidade, as autoridades terrestres faziam vista grossa ao contrabando incessante e às disputas ocasionais. Se o cadáver de um gípcio aparecia numa praia levado pela maré, ou vinha numa rede de pesca, bem, era só um gípcio.
Lyra escutava fascinada as histórias dos habitantes dos Pântanos, do grande cão-fantasma Concha Negra, dos fogos-fátuos subindo das bolhas de óleo de feiticeira, e mesmo antes de chegarem aos Pântanos ela já começava a se sentir uma gípcia. Logo voltou a ter o sotaque de Oxford, e agora estava pegando o sotaque gípcio, inclusive com algumas palavras em pântano-holandês. Mãe Costa teve que lhe recordar algumas coisas:
— Você não é gípcia, Lyra. Com alguma prática poderia passar por gípcia, mas não é só a língua gípcia; dentro de nós há coisas muito fortes. Nós somos totalmente um povo da água, e você não é, você é do fogo. O que mais parece com você é o fogo-fátuo, é o lugar que você tem no esquema gípcio; você tem óleo de feiticeira na alma. Enganadora é o que você é, criança.
Lyra ficou magoada.
— Nunca enganei ninguém! A senhora pergunte...
Não havia a quem perguntar, naturalmente, e Mãe Costa riu, mas com bondade.
— Não está vendo que estou lhe fazendo um elogio, sua bobinha?
Ouvindo isso, Lyra se acalmou, embora não tivesse entendido.
Chegaram ao Byanplats à tardinha, e o sol estava prestes a se pôr num céu manchado de vermelho. A ilha baixa e o Zaal estavam acocorados de encontro à luz, como o amontoado de construções em volta; fios de fumaça subiam no ar parado, e dos numerosos barcos apinhados em volta deles vinham cheiros de peixe fritando, de folha de fumo, de gim.
Atracaram perto do Zaal, num lugar que Tony disse ter sido usado por várias gerações da sua família. Logo Mãe Costa pôs a frigideira para funcionar, com duas gordas enguias sibilando e espirrando gordura, e ferveu água para preparar o purê de batata em pó. Tony e Kerim passaram óleo nos cabelos, colocaram suas melhores jaquetas de couro e lenços azuis no pescoço, encheram os dedos de anéis de prata e foram cumprimentar alguns velhos amigos nos barcos vizinhos e beber alguma coisa no bar mais próximo. Voltaram com novidades importantes.
— Chegamos bem na hora. O Encontro vai ser esta noite mesma. E estão dizendo na cidade, imaginem só, estão dizendo que a criança desaparecida está num barco gípcio e que vai aparecer esta noite no Encontro!
Ele riu alto e despenteou os cabelos de Lyra. Desde que tinham entrado nos Pântanos, ele vinha ficando cada vez mais bem-humorado, como se a expressão feroz que seu rosto mostrava fosse apenas um disfarce. E Lyra sentiu a excitação crescer em seu peito enquanto comia às pressas e lavava a louça antes de pentear os cabelos, enfiando o aletiômetro dentro do bolso do casaco de pele de lobo e saltando para terra com todas as outras famílias que subiam a ladeira para o Zaal.
Ela achava que Tony estava brincando. Logo descobriu que ele não estava, ou então ela se parecia menos com uma gípcia do que havia imaginado, pois muita gente ficou olhando para ela, e as crianças apontavam; quando chegaram aos grandes portões do Zaal, estavam caminhando isolados no meio de uma multidão de pessoas que se afastaram deles para poderem observar e para lhes dar espaço.
Então Lyra começou a ficar nervosa de verdade. Não saiu de perto de Mãe Costa, e para tranquilizá-la Pantalaimon tomou sua forma de pantera, a maior que conseguia tomar. Mãe Costa subiu os degraus como se nada no mundo pudesse obrigá-la a parar ou a andar mais depressa, e Tony e Kerim caminhavam orgulhosamente, como príncipes, um de cada lado.
O auditório estava iluminado por lamparinas de nafta, que permitiam que se visse bem os rostos e os corpos das pessoas, mas deixavam as imensas traves do telhado ocultas na escuridão. Aqueles que estavam entrando tinham que se esforçar para encontrar lugar no chão, pois os bancos já estavam lotados; mas as famílias se apertavam para abrir espaço, as crianças iam para o colo e os dimons se enrodilhavam debaixo dos bancos ou se empoleiravam fora do caminho, nas rústicas paredes de madeira.
Na frente do Zaal, havia um tablado com oito cadeiras de madeira entalhada. Enquanto Lyra e os Costa encontravam lugar de pé ao longo da parede do auditório, oito homens surgiram das sombras atrás do tablado e pararam diante das cadeiras. Uma onda de excitação percorreu a plateia enquanto as pessoas pediam silêncio ou tentavam se sentar nas extremidades dos bancos próximos. Finalmente tudo ficou em silêncio e sete dos homens no tablado se sentaram.
O único que ficou de pé tinha mais de 70 anos, mas era alto e forte, com pescoço musculoso. Usava paletó de lonita e camisa quadriculada, como muitos gípcios; não havia nada nele que o distinguisse, além do ar de poder e autoridade. Lyra reconheceu esse ar: tio Asriel o tinha, e também o Reitor da Jordan. O dimon desse homem era uma gralha muito parecida com o corvo-fêmea do Reitor.
— Este é John Faa, o chefe dos gípcios do Oriente — Tony cochichou.
John Faa começou a falar devagar, em voz profunda.
— Gípcios! Bem-vindos ao Encontro. Viemos escutar e viemos decidir. Todos vocês sabem a razão: há muitas famílias aqui que perderam um filho. Algumas perderam dois. Alguém está levando essas crianças. É verdade que os da terra também estão perdendo crianças. Nesse ponto nossa situação não é muito diferente.
Fez uma pausa e continuou:
— Ora, andam falando de uma criança e de uma recompensa. Eis a verdade, para acabar com as fofocas: o nome da criança é Lyra Belacqua, e ela está sendo procurada pela polícia terrestre. Há uma recompensa de mil soberanos para quem entregar a garota. Ela é uma criança dos terrestres, está sob os nossos cuidados e assim vai continuar. Qualquer pessoa que se sentir tentada por esses mil soberanos é melhor que vá encontrar um lugar para se esconder que não seja nem na terra, nem na água. Não vamos entregar a criança.
Lyra sentiu que estava ficando vermelha desde a raiz dos cabelos até a sola do pé; Pantalaimon virou uma mariposa marrom para se esconder. Todos os olhos estavam voltados para eles, e ela só conseguiu olhar para Mãe Costa em busca de segurança.
Mas John Faa estava falando novamente:
— Por mais que a gente converse, não vai mudar nada. Se quisermos mudar as coisas, vamos ter que agir. Eis mais um fato para vocês: os Gobblers, esses ladrões de crianças, estão levando seus prisioneiros para uma cidade no extremo Norte, bem lá dentro da terra das trevas. Não sei o que fazem com elas lá. Algumas pessoas dizem que matam, outras dizem outra coisa. Não sabemos. O que sabemos é que eles fazem isso com a ajuda da polícia terrestre e dos padres. Todos os poderes em terra estão ajudando. Não esqueçam disso: eles sabem o que está acontecendo e ajudam sempre que podem.
Depois de outra pausa, ele continuou:
— Então o que estou propondo não é fácil. Preciso da autorização de vocês. Estou propondo que a gente mande um bando de guerreiros para o Norte para libertar as crianças e trazer todas de volta vivas. Estou propondo que a gente use o nosso ouro e toda a esperteza e a coragem que conseguirmos juntar. Sim, Raymond van Gerrit?
Um homem na plateia havia levantado a mão, e John Faa se sentou para deixá-lo falar.
— Com licença, Lorde Faa. Lá tem crianças terrestres também, além das gípcias. Está dizendo que a gente vai salvar essas também?
John Faa ficou de pé para responder.
— Raymond, você está dizendo que a gente devia passar por todo tipo de perigo para chegar a um grupinho de crianças assustadas e então dizer para algumas delas que elas vão voltar para casa e dizer para as outras que elas têm que ficar? Não, você é bondoso demais para isso. Bem, temos a aprovação de todos, meus amigos?
A pergunta pegou todo mundo de surpresa, pois houve um instante de hesitação; mas então um rugido encheu o salão, e as pessoas começaram a bater palmas de braços estendidos, sacudir o punho fechado, levantar a voz num clamor excitado. As traves do Zaal estremeceram, e de seus poleiros lá em cima na escuridão um bando de pássaros que dormiam despertaram apavorados e bateram asas, provocando uma pequena precipitação de poeira.
John Faa deixou o clamor prosseguir por um minuto, depois ergueu a mão pedindo silêncio.
— Vai levar algum tempo para organizar isso tudo. Quero que os chefes das famílias façam uma coleta e reúnam homens. Tornaremos a nos reunir daqui a três dias. Enquanto isso, vou conversar com a criança e com Farder Coram, e fazer um plano para apresentar a vocês. Boa noite para todos.
Sua presença forte, simples e imponente teve o poder de acalmar a multidão. As pessoas começaram a sair pelos grandes portões para o frio da noite, voltando para seus barcos ou indo encher os bares do pequeno povoado. Lyra perguntou a Mãe Costa:
— Quem são os outros homens no tablado?
— Os chefes das seis famílias, e o outro homem é Farder Coram.
Era fácil entender o que ela queria dizer com “o outro homem”, porque ele era o mais idoso ali. Caminhava com uma bengala e durante todo o tempo que estivera sentado atrás de John Faa ele tremera como se tivesse febre.
— Venha, é melhor levar você para cumprimentar John Faa. Você deve chamá-lo de Lorde Faa. Não sei o que ele vai perguntar, mas trate de dizer a verdade.
Pantalaimon era um pardal agora, cheio de curiosidade, empoleirado no ombro de Lyra, as garras cravadas no casaco de pele de lobo, enquanto ela acompanhava Tony através da multidão até o tablado.
Foi ele que a suspendeu e colocou em cima do tablado. Sentindo que todos que ainda estavam no salão olhavam para ela, e consciente daqueles mil soberanos que de repente ela passara a valer, Lyra ficou vermelha e hesitou. Pantalaimon saltou para o colo dela e se transformou num gato-do-mato, sibilando baixinho enquanto olhava em volta com expressão vigilante.
Lyra sentiu um empurrão e caminhou na direção de John Faa. Ele era sério, enorme, sem expressão no rosto, era mais como uma coluna de pedra do que um homem, mas se abaixou e estendeu a mão para ela apertar. Quando ela colocou a mão na dele, sua mãozinha quase desapareceu.
— Seja bem-vinda, Lyra — disse ele.
De perto ela sentia a voz dele ressoar como a própria terra. Teria ficado amedrontada se não fosse por Pantalaimon, e pelo fato de que a expressão pétrea de John Faa tinha se amenizado um pouco. Ele estava sendo delicado com ela.
— Obrigada, Lorde Faa — ela respondeu.
— Agora venha à sala das conversas e vamos ter uma conversa — disse John Faa. — Estão alimentando você direito, os Costa?
— Ah, estão, sim. Comemos enguias no jantar.
— As verdadeiras enguias dos Pântanos, eu imagino.
A sala das conversas era um lugar confortável, com uma grande lareira acesa, prateleiras carregadas de prata e porcelana e uma mesa pesada escurecida pelos anos, tendo em volta 12 cadeiras.
Os outros homens no tablado não estavam ali, mas o ancião trêmulo estava. John Faa o ajudou a se sentar.
— Agora você se sente aqui à minha direita — John Faa disse a Lyra.
Ele se sentou à cabeceira, e Lyra ficou bem em frente a Farder Coram. Sentia um pouco de medo do rosto encaveirado e do tremor contínuo dele. O dimon dele era uma linda gata com as cores do outono, enorme, que atravessou a mesa com andar elegante, de cauda erguida, e examinou Pantalaimon, encostando o focinho no dele antes de se acomodar no colo de Farder Coram, entrecerrar os olhos e começar a ronronar baixinho.
Uma mulher que Lyra não tinha notado saiu das sombras com uma bandeja cheia de copos que deixou junto a John Faa, fez uma leve reverência e saiu. John Faa serviu pequenos cálices de aguardente de cereais de um frasco de pedra para si mesmo e para Farder Coram, e vinho para Lyra.
— Quer dizer, Lyra, que você fugiu — disse John Faa.
— Foi.
— E quem era a dama de quem você fugiu?
— O nome dela é Sra. Coulter. E eu achava que ela era boa, mas descobri que ela é dos Gobblers. Ouvi alguém dizendo o que os Gobblers eram, eles eram chamados de Conselho Geral de Oblação, e ela estava encarregada de tudo, era tudo ideia dela. E todos eles estavam planejando uma coisa, sei lá o que era, só sei que iam me fazer ajudar a pegar as crianças para ela. Mas eles não sabiam...
— O que eles não sabiam?
— Bom, primeiro, não sabiam que eu conhecia umas crianças que eles roubaram. Meu amigo Roger, que era ajudante de cozinha na Jordan, e Billy Costa, e uma menina do Mercado Coberto em Oxford. E outra coisa... o meu tio, sabe, o Lorde Asriel, eu ouvi quando falaram das viagens dele para o Norte, e não acho que ele tenha alguma coisa a ver com os Gobblers. Porque eu espionei o Reitor e os Catedráticos da Jordan, sabe, me escondi na Sala Privativa onde ninguém pode entrar além deles, e ouvi quando ele contou a todos sobre a expedição para o Norte, e o Pó que ele viu, e ele trouxe de volta a cabeça de Stanislaus Grumman, os tártaros tinham feito um buraco nela. E agora os Gobblers prenderam ele em algum lugar. Os ursos de armadura estão vigiando ele. E eu quero ir salvar ele.
Ali sentada, pequenina contra o encosto alto da cadeira entalhada, ela parecia feroz e decidida. Os dois anciãos não conseguiram reprimir um sorriso, mas, enquanto o sorriso de Farder Coram era uma expressão hesitante, rica e complicada que tremulou pelo seu rosto como um raio de sol perseguindo sombras num dia ventoso de final de inverno, o sorriso de John Faa era lento, cálido, simples e bondoso.
— É melhor você nos contar o que ouviu seu tio dizer naquela noite — pediu John Faa. — Não deixe nada de fora, está ouvindo? Conte tudo para nós.
Lyra assim fez, mais lentamente do que tinha contado aos Costa, porém com mais franqueza; tinha medo de John Faa, e o que mais temia nele era a bondade. Quando ela terminou, Farder Coram falou pela primeira vez. Tinha a voz rica e musical, com tantos tons quantas eram as cores do pelo de seu dimon.
— Esse Pó, eles alguma vez usaram outro nome para ele, Lyra?
— Não, só Pó. A Sra. Coulter me contou o que era, partículas elementares, foi o que ela falou.
— E eles acham que fazendo alguma coisa com crianças eles vão conseguir descobrir mais sobre isso?
— É. Mas não sei o que é. Meu tio... Esqueci de contar uma coisa. Quando ele estava mostrando os fotogramas, ele tinha um outro. Era a Orora...
— Era o quê? — interrompeu John Faa.
— A Aurora Boreal — disse Farder Coram. — Não é isso, Lyra?
— É isso aí. E nas luzes da tal Orora dava pra ver que tinha uma cidade. Cheia de torres e igrejas e cúpulas e tal. Era um pouco como Oxford, pelo menos eu achei. E o tio Asriel, ele estava mais interessado nisso, eu acho, mas o Reitor e os outros Catedráticos estavam mais interessados no Pó, como a Sra. Coulter e o Lorde Boreal e eles.
— Entendo — disse Farder Coram. — Isso é muito interessante.
— Agora, Lyra, eu vou lhe contar uma coisa — disse John Faa. — Farder Coram, ele é um sábio. Um vidente. Ele vem acompanhando tudo que está acontecendo com o Pó e os Gobblers e Lorde Asriel e tudo, e vem acompanhando você. Toda vez que os Costa iam para Oxford, ou meia dúzia de outras famílias também, eles traziam algumas notícias. Sobre você, menina. Sabia disso?
Lyra sacudiu a cabeça. Estava começando a ficar assustada. Pantalaimon estava rosnando baixo demais para alguém ouvir, mas ela sentia o rosnado dele nas pontas dos dedos enfiados nos pelos dele.
— Ah, sim, tudo que você fazia vinha parar aqui nos ouvidos de Farder Coram.
Lyra não conseguiu se controlar:
— Nós não estragamos nada! Juro! Foi só um pouquinho de lama! E não fomos muito longe...
— De que está falando, menina? — perguntou John Faa.
Farder Coram riu. Quando ria, seu tremor cessava e seu rosto ficava jovem e brilhante.
Mas Lyra não estava rindo. Com lábios trêmulos ela disse:
— E mesmo que a gente tivesse encontrado a rolha, não íamos tirar ela! Era só uma brincadeira. Não íamos afundar o barco, nunca!
Então John Faa começou a rir também. Deu um tapa tão forte na mesa que os copos tilintaram, e seus ombros enormes estremeceram, e ele teve que enxugar as lágrimas dos olhos.
Lyra nunca vira uma coisa como aquela, nunca ouvira uma gargalhada assim; era como uma montanha gargalhando.
— É, sim — ele disse, quando conseguiu falar. — Nós ouvimos essa história também, garotinha! Eu soube que depois disso os Costa não vão a lugar nenhum sem que escutem piadinhas. É melhor deixar um vigia no seu barco, Tony, dizem. Temos garotas ferozes por aqui! Ora, esse caso se espalhou por toda parte nos Pântanos, filha. Mas não vamos castigar você por isso. Não, não! Fique tranquila.
Ele olhou para Farder Coram, e os dois tornaram a rir, mas de um jeito menos exagerado. E Lyra se sentiu bem e segura.
Finalmente John Faa sacudiu a cabeça e ficou de novo sério.
— Eu estava dizendo, Lyra, que conhecemos você desde pequena. Desde bebê. Você devia saber o que nós sabemos. Não posso imaginar o que eles lhe contaram na Faculdade Jordan sobre de onde você veio, mas eles não conhecem toda a verdade. Alguma vez lhe contaram quem eram os seus pais?
Agora Lyra estava inteiramente atordoada.
— Contaram, sim — respondeu. — Disseram que eu era... disseram que eles... disseram que Lorde Asriel me levou para lá quando meu pai e minha mãe morreram num acidente de aeronave. Foi o que me disseram.
— Ah, foi? Bem, menina, vou lhe contar uma história, mas uma história real. Sei que é real porque uma gípcia me contou, e todos eles dizem a verdade a John Faa e a Farder Coram. Então é a verdade sobre você, Lyra. Seu pai não morreu num acidente de aeronave, porque seu pai é o Lorde Asriel.
Lyra estava pasma. John Faa continuou:
— Foi assim que aconteceu: quando era rapaz, Lorde Asriel saiu explorando todo o Norte e voltou com uma grande fortuna. E era um homem temperamental, que se zangava facilmente, um homem apaixonado.
“E sua mãe, ela também era apaixonada. Não tão bem-nascida quanto ele, mas uma mulher inteligente. Estudiosa, e aqueles que a viam diziam que era muito bonita. Ela e seu pai se apaixonaram assim que se conheceram.
“Mas acontece que sua mãe já era casada. Era casada com um político. Ele era do partido do Rei, um de seus homens de confiança. Um político em ascensão.
“Ora, quando sua mãe descobriu que estava grávida, teve medo de contar ao marido que a criança não era dele. E quando você nasceu, não era nada parecida com o marido dela, e sim com o seu pai verdadeiro, e ela achou melhor esconder você e dizer que o bebê havia morrido.
“Então levaram você para Oxfordshire, onde o seu pai tinha propriedades, e a entregaram para uma mulher gípcia criar. Mas alguém contou tudo ao marido da sua mãe, e ele veio voando e invadiu a cabana onde a gípcia estivera, só que ela havia fugido para a casa grande; e o marido enganado foi atrás, com intenções assassinas.
“Seu pai estava caçando, mas ficou sabendo e voltou o mais rápido que pôde, chegando a tempo de encontrar o marido da sua mãe ao pé da grande escada; mais um minuto e ele teria forçado a porta do armário onde a gípcia estava escondida com você, mas Lorde Asriel o desafiou e eles duelaram ali mesmo, e Lorde Asriel o matou.
“A mulher gípcia ouviu e viu tudo, Lyra, e foi assim que soubemos.
“A consequência foi um enorme processo judicial. Seu pai não é o tipo de homem de esconder ou negar a verdade, e isso criou um problema para os juízes. Ele tinha matado, sim, derramara sangue, mas estava defendendo seu lar e sua filha de um invasor. Por outro lado, a lei permite que um homem vingue a violação do seu casamento, e os advogados do morto alegaram que era isso que ele estava fazendo.
“O processo se arrastou durante semanas, com horas de discussão. No fim, os juízes puniram Lorde Asriel confiscando todas as propriedades e as terras dele, deixando-o pobre; e ele tinha sido mais rico que um rei.
“Quanto à sua mãe, ela não quis saber de nada, nem de você. Deu as costas a tudo isso. A gípcia me disse que muitas vezes ela teve medo pensando em como a sua mãe ia tratar você, porque era uma mulher orgulhosa e cheia de desprezo. Agora chega de falar dela.
“E além disso havia você. Se as coisas tivessem sido diferentes, Lyra, você poderia ter crescido como gípcia, porque a gípcia implorou ao tribunal que deixassem você com ela; mas nós, gípcios, somos pouco considerados pela lei. O tribunal decidiu que você seria colocada num Convento, e assim você foi para as Irmãs da Obediência em Watlington. Você não se lembra.
“Mas Lorde Asriel não permitiu isso. Ele odiava abades, monges e freiras, e sendo um homem impulsivo, ele um dia apareceu e levou você embora de lá. Não para cuidar ele mesmo, nem para dar aos gípcios; levou você para a Faculdade Jordan e desafiou a lei a tirar você de lá.
“Bem, a lei deixou as coisas por isso mesmo. Lorde Asriel voltou para as suas explorações, e você cresceu na Faculdade Jordan. A única coisa que ele, seu pai, disse, a única condição que impôs, foi que sua mãe não podia visitar você. Se alguma vez tentasse, teria que ser impedida, e ele teria que ser informado, porque toda a raiva que havia em sua natureza tinha se voltado contra ela. O Reitor prometeu fazer isso. E o tempo passou.
“Então começou toda essa aflição por causa do Pó. E no país inteiro, no mundo inteiro, sábios e sábias começaram também a se preocupar. Para nós, gípcios, isso não tinha a menor importância, até que começaram a levar nossas crianças. Foi quando começamos a nos interessar. E temos ligações em lugares que você nem imaginaria, inclusive na Faculdade Jordan. Você não sabia, mas havia uma pessoa tomando conta de você e nos contando tudo desde que você foi para lá. Porque temos interesse em você, e aquela mulher que a criou, ela nunca deixou de se preocupar com você.”
— Quem é que tomava conta de mim? — Lyra quis saber.
Ela estava se sentindo imensamente importante e estranhava que os seus atos pudessem preocupar pessoas tão afastadas dela.
— Era um criado da cozinha. Bernie Johansen, o confeiteiro. Ele é meio gípcio. Você não sabia disso, aposto.
Bernie era um homem bondoso, solitário, uma das raras pessoas que têm o dimon do mesmo sexo. Foi com Bernie que ela havia gritado em desespero quando Roger tinha sido levado. E Bernie contava tudo aos gípcios! Ela ficou impressionada. John Faa continuou:
— Bem, nós ouvimos dizer que você ia sair da Faculdade Jordan, e que nessa mesma ocasião Lorde Asriel estava preso e não poderia impedir. E nos lembramos do que ele dissera ao Reitor para jamais fazer, e nos lembramos que o homem com quem sua mãe tinha se casado, o tal político que Lorde Asriel matou, se chamava Edward Coulter.
— A Sra. Coulter... — disse Lyra, sem querer acreditar. — Ela não é a minha mãe, é?
— É, sim. E se o seu pai estivesse livre, ela jamais teria a ousadia de desafiá-lo, e você ainda estaria na Jordan sem saber de nada. Mas o que o Reitor pretendia, deixando você ir embora, é um mistério que não consigo explicar. Ele estava encarregado de tomar conta de você. Só posso imaginar que ela tenha algum poder sobre ele.
Lyra entendeu de repente o curioso comportamento do Reitor na manhã da sua partida.
— Mas ele não queria... — ela começou, tentando se lembrar exatamente. — Ele... ele mandou me chamar de manhã bem cedo, e eu não podia contar à Sra. Coulter... era como se ele quisesse me proteger da Sra. Coulter...
Ela se interrompeu e olhou atentamente para os dois homens; então resolveu contar toda a verdade sobre a Sala Privativa.
— Sabem, tem outra coisa. Naquela noite que me escondi na Sala Privativa, vi o Reitor tentar envenenar Lorde Asriel. Vi quando ele colocou um pozinho no vinho, e eu contei ao meu tio e ele derrubou a garrafa da mesa e derramou o vinho. Quer dizer que eu salvei a vida dele. Nunca entendi por que o Reitor queria envenenar Lorde Asriel, que sempre foi tão bom. Então, na manhã em que fui embora, ele me chamou cedinho à sala das conversas, eu tive que ir escondido para que ninguém ficasse sabendo, e ele disse... — Lyra se concentrou para tentar recordar exatamente o que o Reitor tinha dito, mas não adiantou. Ela sacudiu a cabeça. — A única coisa que consegui entender foi que ele me deu uma coisa que eu tinha que esconder dela, da Sra. Coulter. Acho que não tem problema contar para vocês...
Lyra enfiou a mão no bolso do casaco de pele de lobo e tirou o embrulho de veludo. Ela o colocou sobre a mesa e sentiu sobre ele, como um holofote, a curiosidade simples e sólida de John Faa e a inteligência cintilante de Farder Coram.
Quando ela desembrulhou o aletiômetro, foi Farder Coram quem falou primeiro:
— Nunca pensei que ia tornar a ver um desses. É um leitor de símbolos. Ele lhe contou alguma coisa sobre isso, filha?
— Não. Só disse que eu ia ter que descobrir sozinha como fazer isso funcionar. E chamou de aletiômetro.
— Que quer dizer isso? — John Faa perguntou, se voltando para o companheiro. — Acho que vem do grego alétheia, que quer dizer “verdade”. É um medidor de verdade. E você descobriu como é que se usa? — perguntou à menina.
— Não. Consigo fazer os três ponteiros menores apontarem para figuras diferentes, mas não consigo controlar o ponteiro grande. Ele se mexe para toda parte. A não ser às vezes, é, sim, às vezes, quando estou bem concentrada, consigo fazer o ponteiro grande ir para um lado ou outro só pensando.
— O que ele faz, Farder Coram? E como é que se lê? — John Faa perguntou.
Farder Coram segurou delicadamente o instrumento na direção do olhar forte de John Faa e disse:
— Todas essas figuras ao redor da borda são símbolos, e cada um deles tem vários significados. A âncora, por exemplo: o primeiro significado dela é esperança, porque a esperança nos prende como uma âncora, de modo que a gente não cede. O segundo significado é firmeza. O terceiro significado é impedimento, ou prevenção. O quarto é o mar. E assim por diante, com dez, 12, talvez uma série infinita de significados.
— E você conhece todos?
— Conheço alguns, mas para ler tudo eu precisaria do livro. Já vi o livro e sei onde ele está, mas não está comigo.
— Depois falaremos sobre isso; continue a explicar como se lê — pediu John Faa.
— Existem esses três ponteiros que podemos controlar, e são usados para fazermos uma pergunta. Apontando para três símbolos, se pode fazer qualquer pergunta, porque cada uma tem muitos níveis. Depois de feita a pergunta, o ponteiro grande gira e aponta para outros símbolos, que darão a resposta.
— Mas como ele sabe em qual nível a gente está pensando quando faz a pergunta? — John Faa quis saber.
— Ah, ele sozinho não sabe. Só funciona se quem pergunta pensar nesses níveis. Primeiro é preciso conhecer todos os significados, e deve haver mais de mil. Depois tem que conseguir manter os níveis na mente sem perder a paciência, e ficar observando os movimentos do ponteiro grande. Quando ele tiver dado uma volta completa, a pessoa saberá qual é a resposta. Sei como isso funciona porque já vi um sábio em Uppsala mexendo com um desses, e foi a única vez que vi. Sabe que eles são raríssimos?
— O Reitor me disse que só seis foram fabricados — Lyra contou.
— Sejam quantos forem, são pouquíssimos.
— E você guardou segredo da Sra. Coulter, como o Reitor pediu? — John Faa perguntou.
— Guardei, sim. Mas o dimon dela, sabem, ele costumava entrar no meu quarto. E ele descobriu, eu tenho certeza.
— Entendo. Bem, Lyra, não sei se algum dia vamos chegar a compreender tudo, mas tenho um palpite, nada mais que isso: Lorde Asriel encarregou o Reitor de tomar conta de você e não deixar sua mãe chegar perto. E foi o que ele fez, por mais de dez anos. Então os amigos da Sra. Coulter na Igreja ajudaram sua mãe a criar esse tal de Conselho de Oblação, ainda não sabemos com que intenção, e ela ficou tão poderosa quanto Lorde Asriel. Seus pais, os dois poderosos, os dois ambiciosos, e o Reitor da Jordan mantendo você no meio entre eles.
“Bom, o Reitor tem mil coisas para cuidar; sua primeira preocupação é a faculdade e o aprendizado lá, de modo que se surgir uma ameaça, ele tem que agir contra ela. E a Igreja, ultimamente, Lyra, tem ficado mais autoritária. Criaram conselhos disso e daquilo; estão falando em reviver o Ofício da Inquisição, Deus me livre. E o Reitor tem que pisar com cuidado entre todos esses poderes. Tem que manter a Faculdade Jordan nas graças da Igreja, senão ela não vai sobreviver.
“Outra preocupação do Reitor é você, minha filha. Bernie Johansen sempre foi muito claro sobre isso: o Reitor da Jordan e os outros Catedráticos amam você como se fosse filha. Fariam qualquer coisa para que você fique em segurança, não só porque prometeram a Lorde Asriel, mas por sua causa também. Então, se o Reitor entregou você à Sra. Coulter depois de prometer a Lorde Asriel que não faria isso, ele deve ter achado que você estaria mais segura com ela do que na Faculdade Jordan, apesar das aparências. E quando ele resolveu envenenar Lorde Asriel, deve ter achado que as coisas que Lorde Asriel estava fazendo iam colocar todos eles em perigo, e talvez todos nós também; talvez o mundo inteiro. Considero o Reitor um homem que tem que fazer escolhas terríveis; seja qual for a sua escolha, isso vai causar dano; mas, talvez, se ele fizer a coisa certa, o dano será um pouco menor do que se ele escolher de maneira errada. Deus me livre de ter que fazer esse tipo de escolha.
“E quando as coisas chegaram ao ponto de ter que deixar você partir, ele lhe deu o leitor de símbolos e pediu que você o guardasse. Fico me perguntando o que ele pretendia que você fizesse com o instrumento; como você não sabe fazer a coisa funcionar, não entendo o que ele estava querendo.”
— Ele disse que tio Asriel deu o aletiômetro de presente à Faculdade Jordan há muitos anos — Lyra contou. — Ia dizer mais alguma coisa, mas bateram na porta, e ele teve que parar. O que eu achei foi que ele podia querer que eu escondesse o aletiômetro de Lorde Asriel também.
— Ou o contrário — opinou John Faa.
— Como assim, John? — quis saber Farder Coram.
— Ele podia estar pretendendo pedir a Lyra para devolver isto a Lorde Asriel, como uma espécie de compensação por tentar envenená-lo. Pode ter achado que o perigo que Lorde Asriel representava tinha passado. Ou que Lorde Asriel conseguiria tirar algum proveito deste instrumento e desistir da sua intenção. Se Lorde Asriel está preso agora, isso poderia ajudar a libertá-lo. Bem, Lyra, é melhor você guardar em segurança este leitor de símbolos. Se conseguiu até agora, não me preocupo. Mas pode chegar a hora de precisarmos consultá-lo, e então vamos pedir que nos empreste.
Ele embrulhou o instrumento no veludo e deslizou-o por cima da mesa. Lyra queria fazer todo tipo de perguntas, mas de repente ficou tímida diante daquele homenzarrão de olhos tão vivos e bondosos no rosto cheio de rugas.
Mas uma coisa ela precisava perguntar.
— Quem foi a mulher gípcia que me amamentou?
— Ora, foi a mãe de Billy Costa, é claro. Ela não iria contar a você porque eu não permiti, mas sabe qual é o assunto desta nossa conversa. Aliás, é melhor você voltar para ela agora. Tem muita coisa em que pensar, filha. Daqui a três dias vamos ter outro encontro e discutir o que se há de fazer. Comporte-se. Boa noite, Lyra.
— Boa noite, Lorde Faa. Boa noite, Farder Coram — ela disse educadamente, apertando o aletiômetro contra o peito com uma das mãos e pegando Pantalaimon com a outra.
Ambos os anciãos sorriram para ela com bondade. Do lado de fora da sala, Mãe Costa estava à espera e, como se nada tivesse acontecido desde que Lyra nascera, a gípcia a levantou em seus braços enormes e a beijou antes de levá-la para a cama.

5 comentários:

  1. Nossa, que confusão. Depois, a relação de Percy com os parentes divinos que era difícil, meu Deus :O

    ResponderExcluir
  2. No começo do capítulo eu já tava tipo "EITA, ELA DEVE SER FILHA DA COULTER" e pensei em comentar isso e esperar pra ver se a Karina ia dizer que era spoiler, mas o livro foi bem direto e.e

    ResponderExcluir
  3. LUAMARA Cahill Madrigal infiltrada Ekhaterina6 de março de 2017 10:06

    depois de ler sobre os Cahill eu achei q estaria preparada,mas meu Zeus que confusão !

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)