11 de fevereiro de 2017

6. Os voadores luminosos

— Grumman? — repetiu o barbudo mercador de peles. — Da Academia de Berlim? Um insensato! Eu o conheci há cinco anos, lá no extremo norte dos Urais. Pensei que tivesse morrido.
Sentado no bar, enfumaçado e recendendo a nafta, do Samirsky Hotel, Sam Cansino, um velho conhecido e texano como Lee Scoresby, bebeu de um só gole a vodca estupidamente gelada. Depois empurrou o prato de peixe em conserva e pão preto na direção de Lee, que comeu um bocado e assentiu para que Sam lhe contasse mais coisas.
— Ele pisou numa armadilha montada por aquele idiota do Yakovlev e cortou a perna até o osso — continuou o mercador. — Em vez de usar remédio normal, ele cismou de passar um negócio que os ursos usam, chamado musgo-sanguíneo, musgo-de-sangue, uma espécie de líquen, não é um musgo de verdade, de qualquer maneira, ele ficava deitado no trenó, alternando rugidos de dor com instruções para os homens que trabalhavam para ele. Estavam fazendo medições das estrelas, e tinham que fazer direito, senão ele dava uma grande bronca, e, pode acreditar, a língua dele era igual a arame farpado. Um homem magro, duro, forte, curioso, queria saber tudo. Sabia que ele havia sido iniciado como tártaro?
— Não diga! — fez Lee Scoresby.
Enquanto falava, vertia mais vodca no copo de Sam. Seu dimon Hester estava deitado no balcão junto ao seu cotovelo, os olhos semicerrados como de costume, as orelhas estendidas ao longo das costas. Lee havia chegado naquela tarde, trazido a Nova Zembla pelo vento que as bruxas tinham chamado, e depois de guardar o equipamento ele se dirigiu diretamente para o Samirsky Hotel, perto do posto de embalagem de pescado. Aquele era um lugar onde os andarilhos do Ártico paravam para trocar notícias, procurar trabalho ou deixar recados, e Lee Scoresby no passado tinha ficado muitos dias por lá, esperando um contrato ou um passageiro ou um vento bom, de modo que nada havia de estranho em seu comportamento atual.
E com as grandes mudanças que eles intuíam estarem acontecendo no mundo à sua volta, era natural que as pessoas se reunissem e conversassem. A cada dia que passava, surgiam mais notícias: o rio Yenisei estava degelado — e nessa época do ano! — parte do oceano tinha esvaziado, expondo estranhas formações regulares de pedra em seu leito; um polvo de 30 metros de comprimento tinha arrancado três pescadores de um barco e despedaçado todos os três...
E a névoa continuava a chegar do norte, densa e fria, ocasionalmente encharcada da luz mais estranha que se poderia imaginar, na qual se podia ver vagamente formas enormes, e ouvir vozes misteriosas.
De maneira geral, era um tempo ruim para trabalhar, por isso o bar do Samirsky Hotel estava repleto.
— Você disse Grumman? — quis saber a pessoa sentada ao lado dele junto ao balcão do bar, um homem de idade, usando trajes de caçador de foca, cujo dimon-lêmure espiava solenemente de dentro do bolso do seu casaco. — Ele era mesmo tártaro. Eu estava lá quando ele entrou para aquela tribo. Vi quando furaram o crânio dele. Ele ganhou outro nome, também. Um nome tártaro. Daqui a pouco me lembro qual era.
— Ora, quem diria! — fez Lee Scoresby. — Deixe-me pagar-lhe uma bebida, amigo. Estou procurando notícias desse homem. Para qual tribo ele entrou?
— Os pakhtars de Yenisei. No sopé da Serra Semyonov. Perto da confluência do Yenisei com o rio... Esqueci o nome. Um rio que desce dos morros. Existe uma pedra do tamanho de uma casa no local de pouso.
— Ah, certo, agora me lembro — disse Lee. — Já voei por cima dela. E Grumman teve o crânio perfurado? É mesmo? E por quê?
— Ele era um xamã — disse o velho caçador de focas. — Acho que, antes da adoção, a tribo reconheceu que ele era um xamã. Foi uma cerimônia e tanto, aquela perfuração. O ritual dura dois dias e uma noite. Usam uma broca de arco, como se faz para acender fogo.
— Ah, isso explica o modo como a equipe dele obedecia. — Sam Cansino comentou. — Era a turma de velhacos mais braba que já vi, mas corriam para cumprir as ordens dele como meninos amedrontados. Pensei que eram os palavrões dele que tinham esse efeito. Se eles pensavam que ele era um xamã, faz até mais sentido. Mas, sabe, a curiosidade daquele sujeito era forte como os dentes de um lobo, ele simplesmente não desistia. Me fez contar tudo que eu sabia sobre o terreno das vizinhanças, e os hábitos dos lobos e das raposas. Estava sentindo bastante dor por causa da maldita armadilha de Yakovlev, a perna aberta, e ele anotando os efeitos daquele musgo-sanguíneo, musgo-de-sangue, medindo a temperatura, vendo a cicatriz se formar, anotando tudinho... Um homem estranho. Havia uma bruxa que queria ser amante dele, mas ele recusou.
— É mesmo? — fez Lee, pensando na beleza de Serafina Pekkala.
— Ele não devia ter feito isso — disse o caçador de focas.
— Se uma bruxa nos oferece seu amor, temos que aceitar. Se não, a culpa é nossa se coisas ruins nos acontecerem. É como ter que escolher entre uma bênção e uma maldição. A única coisa que não podemos fazer é deixar de escolher uma das duas.
— Ele podia ter seus motivos — disse Lee.
— Se ele tinha algum juízo, o motivo tinha que ser muito bom.
— Ele era cabeça-dura — disse Sam Cansino.
— Talvez por fidelidade a outra mulher — Lee sugeriu. — Ouvi contar outra coisa sobre ele, que ele conhecia o paradeiro de um objeto mágico, não sei o que poderia ser, que protegia qualquer pessoa que o tivesse. Já ouviram essa história?
— Já ouvi isso, sim — disse o caçador de focas. — Ele não tinha essa coisa, mas sabia onde estava. Um homem tentou fazer ele contar, mas Grumman matou o sujeito.
— O dimon dele, isso é curioso — interpôs Sam Cansino —, era uma águia, uma águia preta com cabeça e peito brancos, um tipo que eu nunca tinha visto, não sei que bicho era aquele.
— Era uma águia-pesqueira — disse o barman. — Vocês estão falando do Stan Grumman? O dimon dele era uma águia-pesqueira. Um gavião-pescador.
— Que foi que aconteceu com ele? — perguntou Lee Scoresby.
— Ah, ele se envolveu nas guerras dos escraelingues em Beringland. A última notícia que tive foi que atiraram nele — disse o caçador de focas. — Morreu na hora.
— Pois eu soube que eles cortaram a cabeça dele — disse Lee Scoresby.
— Não, vocês dois estão errados — contestou o barman. — E eu sei, porque quem me contou foi um esquimó que estava com ele na ocasião. Parece que estavam acampados em algum lugar de Sakhalin e houve uma avalanche. Grumman ficou soterrado por toneladas de pedra. O esquimó viu isso acontecer.
— O que eu não entendo é o que o sujeito estava fazendo — Lee Scoresby comentou, oferecendo a garrafa em roda. — Procurando óleo pétreo, talvez? Ou ele era militar? Ou era alguma coisa filosófica? Você falou em medidas, Sam. Que seria isso?
— Estava medindo a luz das estrelas. E a aurora boreal. Ele tinha paixão pela aurora boreal. Mas seu maior interesse eram ruínas, eu acho. Coisas antigas.
— Sei quem poderia lhe contar mais coisas — disse o caçador de focas. — No alto da montanha existe um observatório que pertence à Real Academia Moscovita. Lá eles saberão informar. Sei que ele subiu até lá mais de uma vez.
— Afinal, por que você quer saber, Lee? — Sam Cansino perguntou.
— Ele me deve dinheiro — Lee Scoresby respondeu.
Essa explicação era tão satisfatória, que a curiosidade dos outros cessou na mesma hora. A conversa mudou para o assunto na boca de todos: as mudanças catastróficas que estavam ocorrendo e que ninguém conseguia ver.
— Os pescadores, eles dizem que se pode navegar direto até esse mundo novo — declarou o caçador de focas.
— Existe um mundo novo? — Lee perguntou.
— Assim que essa maldita neblina clarear, vamos enxergar esse tal mundo — contou-lhes em tom confidencial o caçador de focas. — Quando aconteceu, eu estava no meu caiaque olhando para o norte, por acaso. Nunca vou esquecer o que vi. Em vez da terra se curvar no horizonte, ela continuava reta. Eu enxergava longe, e só via terra e costa, montanhas, portos, árvores verdes e campos de milho, infindavelmente, no céu. Eu lhes digo, amigos, valeu a pena trabalhar 50 anos para ver aquilo. Eu teria remado para o céu naquele mar calmo, sem olhar para trás; mas então veio a neblina...
— Nunca vi uma névoa como esta — resmungou Sam Cansino. — Parece que vai ficar um mês inteiro, talvez mais. Mas você está sem sorte se quer receber dinheiro de Stanislaus Grumman, Lee, o cara morreu.
— Ah, lembrei o nome tártaro dele! — exclamou o caçador de focas. — Acabei de me lembrar como ele era chamado durante a perfuração. Qualquer coisa como “Jopari”.
— Jopari? Nunca ouvi esse tipo de nome — Lee comentou.
— Deve ser nipônico, imagino. Bom, se quero meu dinheiro, talvez eu possa procurar os herdeiros dele. Ou talvez a Academia de Berlim possa pagar a dívida. Vou perguntar no observatório, ver se eles têm um endereço que eu possa procurar.


O observatório ficava a alguma distância para o norte, e Lee Scoresby alugou um trenó puxado por cães e um guia. Não foi fácil encontrar alguém disposto a arriscar-se a viajar na neblina, mas Lee era convincente, ou o seu dinheiro o era, e finalmente, depois de uma prolongada negociação, um velho tártaro da região do Ob concordou em levá-lo.
Felizmente o guia não se orientava pela bússola, pois seria impossível usá-la. Ele navegava por outros sinais — seu dimon-raposa polar, por exemplo, que ficava sentado na frente do trenó farejando atentamente o caminho. Lee, que levava sua bússola consigo para toda parte, já tinha constatado que o campo magnético da Terra estava tão perturbado quanto tudo mais. Quando pararam para fazer um café, o velho guia disse:
— Já aconteceu antes, esta coisa.
— O quê? O céu se abrir? Isso já aconteceu antes?
— Há muitos milhares de gerações. Meu povo se lembra. Muito tempo atrás, muitos milhares de gerações.
— O que é que falam?
— O céu abre e os espíritos passam entre este mundo e o outro. Todas as terras se movem. O gelo derrete, depois torna a congelar. Os espíritos fecham o buraco depois de um tempo. E selam. Mas as bruxas dizem que lá o céu é fino, atrás das luzes do Norte.
— O que é que vai acontecer, Umaq?
— A mesma coisa que antes. Tudo igual outra vez. Mas só depois de grande perturbação, grande guerra. Guerra de espíritos.
O guia não quis dizer mais, e logo seguiram viagem, percorrendo lentamente as ondulações, crateras e erupções de pedra escura na névoa clara, até que o velho disse:
— Observatório lá em cima. Agora você anda. Caminho ruim para trenó. Se quer voltar, espero aqui.
— É, vou querer voltar quando terminar, Umaq. Faça uma fogueira, amigo, sente-se e descanse um pouco. Vou levar três, quatro horas, talvez.
Lee Scoresby partiu, com Hester dentro do casaco, e depois de meia hora de árdua subida deparou com um conjunto de edificações que pareciam ter sido colocadas ali pela mão de um gigante. Mas o efeito devia-se apenas a uma clareira momentânea na neblina, e depois de um minuto ela tornou a fechar-se. Ele viu o grande domo do observatório principal, um domo menor ali perto e, entre eles, um grupo de prédios de administração e alojamento de empregados. Não havia luz alguma, pois as janelas eram permanentemente vedadas para não atrapalhar a escuridão necessária aos seus telescópios. Alguns minutos depois de sua chegada, Lee estava conversando com um grupo de astrônomos ansiosos por qualquer notícia que ele pudesse lhes trazer, e poucos filósofos naturais ficam tão frustrados quanto um astrônomo durante uma neblina.
Ele contou-lhes tudo que tinha visto e, esgotado o assunto, pediu notícias de Stanislaus Grumman. Havia semanas que os astrônomos não recebiam uma visita, e falaram de bom grado.
— Grumman? Ah, sim, vou lhe contar uma coisa sobre ele — disse o Diretor. — Ele era inglês, apesar do nome. Eu me lembro...
— Claro que não — contestou o Vice-Diretor. — Ele era membro da Academia Imperial Alemã. Eu o conheci em Berlim. Estava certo de que ele era alemão.
— Não. Acho que você vai constatar que ele era inglês. Seu domínio desse idioma era impecável — replicou o Diretor .
— Mas concordo, ele certamente era membro da Academia de Berlim. Era um geólogo...
— Não, está enganado — disse outra pessoa. — Ele de fato estudava a Terra, mas não como geólogo. Tive uma longa conversa com ele, certa vez. Acho que se poderia chamá-lo de paleoarqueólogo.
Os cinco estavam sentados em volta de uma mesa no aposento que servia de salão, refeitório, bar, sala de recreação e mais ou menos todo o resto. Dois eram moscovitas, um era polonês, um era iorubá e o outro, escraelingue. Lee Scoresby sentia que a pequena comunidade ficava feliz ao receber uma visita, quanto mais não fosse porque isso proporcionava uma mudança na conversa. O polonês tinha sido o último a falar, e então o iorubá perguntou:
— Que quer dizer paleoarqueólogo? Os arqueólogos já estudam o que é velho, por que é preciso colocar um prefixo que também significa “velho”?
— O campo de estudos dele recuava muito mais do que seria de se esperar, é isso. Ele estava procurando vestígios de civilizações de 20 a 30 mil anos atrás — respondeu o polonês.
— Besteira! — exclamou o Diretor. — Total idiotice! O camarada estava brincando com você. Civilizações há 30 mil anos? Ora! Onde estão as provas?
— Debaixo do gelo — disse o polonês. — O problema é esse. Segundo Grumman, o campo magnético da Terra mudou drasticamente várias vezes no passado, e até o eixo da Terra moveu-se, de modo que regiões temperadas ficaram cobertas de gelo.
— Como assim? — quis saber o iorubá.
— Ah, ele tinha uma teoria complicada. O caso é que qualquer evidência que possa haver de antigas civilizações está há muito tempo coberta pelo gelo. Ele dizia ter fotogramas de formações rochosas incomuns...
— Bah! Isso é tudo? — fez o Diretor.
— Só estou relatando, não estou defendendo o sujeito — disse o polonês.
— Há quanto tempo vocês conhecem Grumman? — Lee Scoresby perguntou.
— Bem, deixe-me ver... Faz sete anos que eu o conheço — disse o Diretor.
— Ele criou fama um ou dois anos antes disso, com seu trabalho sobre as variações do polo magnético — contou o iorubá. — Mas veio do nada. Quero dizer, ninguém o conheceu quando estudante ou viu qualquer trabalho seu anterior a esse...
Conversaram durante algum tempo, trocando reminiscências e oferecendo sugestões sobre o paradeiro de Grumman, embora a maioria deles achasse que ele estava morto. Enquanto o polonês foi fazer mais café, Hester, o dimon-lebre de Lee, cochichou:
— Examine o escraelingue, Lee.
O escraelingue tinha falado pouco. Lee imaginara que ele era naturalmente taciturno, mas, levado por Hester, no primeiro intervalo da conversa, ele olhou de modo casual e viu o dimon do sujeito, uma coruja branca, dardejando-lhe um olhar malévolo com seus olhos de um alaranjado vivo. Bem, essa era mesmo a aparência das corujas, elas realmente encaravam as pessoas — mas Hester tinha razão, havia no dimon hostilidade e suspeita, que não transpareciam no rosto do homem.
E então Lee percebeu outra coisa: o escraelingue usava um anel com o símbolo da Igreja. De repente ele entendeu a razão do silêncio do outro. Ouvira dizer que todo estabelecimento de pesquisa filosófica tinha que incluir na equipe um representante do Magisterium para atuar como censor e reprimir as notícias de qualquer descoberta herética.
Percebendo isso, e recordando algo que ele tinha ouvido Lyra dizer, Lee perguntou:
— Digam-me, senhores, por acaso sabem se Grumman alguma vez estudou a questão do Pó?
E imediatamente fez-se silêncio no aposento abafado, e a atenção de todos voltou-se para o escraelingue, embora ninguém tenha olhado diretamente para ele. Lee sabia que Hester ficaria impassível, com os olhos semicerrados e as orelhas estendidas ao longo das costas. E ele próprio fez uma expressão de jovialidade inocente enquanto olhava de um rosto para outro.
Finalmente fixou o olhar no escraelingue e perguntou:
— Perdão. Será que perguntei alguma coisa proibida?
O escraelingue perguntou de volta:
— Onde ouviu mencionarem esse assunto, Sr. Scoresby?
— Foram uns passageiros que transportei há algum tempo — Lee respondeu com naturalidade. — Eles nunca disseram o que era, mas pelo modo como falavam parecia o tipo de coisa que o Dr. Grumman poderia ter estudado. Entendi que era alguma coisa celestial, como a aurora boreal. Mas achei estranho, porque como aeróstata conheço muito bem os céus, e nunca vi essa coisa. O que é, afinal?
— Como você disse, um fenômeno celestial — respondeu o escraelingue. — Não tem a menor importância prática.
Finalmente Lee achou que era hora de partir, não descobrira mais nada, e não queria deixar Umaq esperando. Deixou os astrônomos em seu observatório cercado de névoa e pôs-se a descer a trilha invisível, acompanhando Hester, cujos olhos estavam mais perto do chão. E depois de 10 minutos na trilha, alguma coisa passou pela cabeça dele na neblina e mergulhou sobre Hester. Era o dimon-coruja do escraelingue.
Mas Hester pressentiu o ataque e atirou-se ao solo bem na hora, escapando por pouco às garras da coruja. Hester sabia lutar: também tinha garras afiadas, e era forte e corajosa. Lee sabia que o escraelingue devia estar por perto, e pegou o revólver no cinto.
— Atrás de você, Lee — disse Hester, e ele girou, mergulhando, uma flecha assobiou perto do seu ombro.
Atirou imediatamente. O escraelingue caiu, gemendo, quando a bala cravou-se em sua perna. No momento seguinte, o dimon-coruja, girando no ar com suas asas silenciosas, mergulhou e caiu ao lado dele, e ficou caído na neve, lutando para fechar as asas.
Lee Scoresby armou a pistola e segurou-a junto à testa do outro.
— Certo, seu maldito idiota — disse. — Por que tentou isso? Não vê que estamos todos com o mesmo problema, agora que aconteceu essa coisa no céu?
— É tarde demais — declarou o escraelingue.
— Tarde demais para quê?
— Tarde demais para impedir. Já mandei um pássaro mensageiro. O Magisterium vai ficar sabendo das suas perguntas, e vão ficar contentes em saber sobre Grumman...
— Que é que tem ele?
— Saber que outras pessoas estão procurando por ele. Isso confirma o que pensávamos. E que outras pessoas sabem do Pó. Você é um inimigo da Igreja, Lee Scoresby. Pelos frutos os conhecereis. Por suas perguntas vereis a serpente devorando o coração deles...
A coruja gemia fracamente, erguendo e baixando as asas. Seus olhos brilhantes estavam nublados de dor. Havia uma poça vermelha na neve em volta do escraelingue: mesmo no meio da névoa Lee via que o outro ia morrer.
— Pelo jeito, a bala deve ter atingido uma artéria — disse. — Solte o meu braço para eu fazer um torniquete.
— Não! — bradou o escraelingue. — Estou feliz por morrer! Terei a palma do manírio! Você não vai me privar disso!
— Então morra, se quiser. Só me diga uma coisa...
Mas Lee Scoresbynão teve tempo de completar a pergunta, porque com um leve estremecimento a coruja desapareceu: a alma do escraelingue tinha partido.
Lee vira certa vez um quadro em que um santo da Igreja estava sendo atacado por assassinos. Enquanto eles espancavam seu corpo moribundo, o dimon do santo era levado para o céu por querubins, recebendo uma palma, o símbolo do martírio. O rosto do escraelingue tinha agora a mesma expressão do santo naquele quadro: um êxtase intenso, uma ânsia pelo esquecimento. Lee soltou-o com desagrado. Hester fez um muxoxo.
— Devia ter imaginado que ele mandaria uma mensagem — disse. — Pegue o anel dele.
— Para quê, droga? Não somos ladrões, ou somos?
— Não, somos renegados — disse ela. — Não por escolha nossa, mas por causa da maldade dele. De qualquer maneira estaremos perdidos quando a Igreja tomar conhecimento do que houve. Enquanto isso, vamos obter todas as vantagens que pudermos. Ande logo, pegue o anel e esconda, pode ser que nos seja útil.
Lee compreendeu que ela estava com a razão e retirou o anel do dedo do cadáver. Perscrutando a neblina, ele viu que a trilha tinha de um lado um precipício, e rolou para lá o corpo do escraelingue. Demorou algum tempo até ouvir o impacto do corpo no solo lá embaixo. Lee nunca gostara de violência e odiava matar, embora por três vezes já tivesse sido obrigado a isso.
— Não adianta pensar nisso — Hester interveio. — Ele não nos deu uma chance, e não atiramos para matar. Droga, Lee, ele queria morrer. Essa gente é louca.
— Acho que tem razão — concordou ele, guardando a pistola. No final da trilha encontraram o guia com os cachorros já arreados e prontos para a partida.
Enquanto partiam de volta para o posto de embalagem de pescado, Lee perguntou:
— Diga-me, Umaq, você já ouviu falar de um homem chamado Grumman?
— Ah, claro — disse o guia. — Todo mundo conhece o Dr. Grumman.
— Sabia que ele tinha um nome tártaro?
— Tártaro, não. Está falando de Jopari? Não é tártaro.
— Que foi que aconteceu com ele? Morreu?
— Se o senhor me pergunta isso, eu tenho que dizer que não sei. Portanto nunca vai saber a verdade por mim.
— Entendo. Então a quem posso perguntar?
— Melhor perguntar na tribo dele. Melhor ir até o Yenisei, perguntar a eles.
— A tribo dele... Está falando dos que o iniciaram? Que perfuraram o crânio dele?
— É. Melhor perguntar a eles. Talvez não morreu, talvez morreu. Talvez nem morto, nem vivo.
— Como é que ele pode estar nem morto nem vivo?
— No mundo dos espíritos. Talvez esteja no mundo dos espíritos. Já falei demais. Agora não falo mais.
E não falou.
Mas quando voltaram ao posto, Lee foi logo às docas procurar um barco que pudesse levá-lo à foz do Yenisei.


Enquanto isso, as bruxas também estavam procurando.
A Rainha Ruta Skadi da Latvia voou na companhia de Serafina Pekkala durante muitos dias e noites, através da névoa e dos redemoinhos, sobrevoando regiões devastadas por enchentes e avalanches. O certo era que estavam num mundo que nenhuma delas conhecera antes, com ventos estranhos, perfumes estranhos no ar, grandes pássaros desconhecidos que as atacavam ao vê-las e tinham que ser repelidos com rajadas de flechas e quando encontravam terra para fazerem um descanso, as próprias plantas eram estranhas.
Mesmo assim algumas dessas plantas eram comestíveis, e havia pequenas criaturas, não muito diferentes de coelhos, que forneciam uma refeição saborosa, e não havia carência de água. Poderia ser um bom lugar para se morar, se não fossem as formas espectrais que vagavam como névoa acima das campinas e se reuniam perto de regatos ou lagos. Em certas condições de luz elas quase não apareciam, visíveis apenas como uma qualidade da luz, uma evanescência rítmica, como véus de transparência girando diante de um espelho.
As bruxas nunca tinham visto algo assim, e encheram-se de suspeitas.
— Acha que estão vivas, Serafina Pekkala? — perguntou Ruta Skadi enquanto voavam em círculo nas alturas acima de um grupo daquelas coisas, que estavam imóveis na borda de um trecho de floresta.
— Vivas ou mortas, são cheias de maldade — respondeu Serafina. Sinto isso daqui. E não quero chegar mais perto sem saber qual tipo de arma pode acabar com elas.
Os Espectros pareciam presos ao chão, sem o poder de voar, para sorte das bruxas. Mais tarde, nesse mesmo dia, elas viram o que os Espectros podiam fazer.
Aconteceu junto a um local de travessia de um rio, onde uma estrada empoeirada cruzava uma ponte baixa de pedra ao lado de um grupo de árvores.
O sol do final da tarde caía em raios oblíquos sobre a campina, realçando a cor verde intensa do chão e um dourado embaciado no ar, e àquela rica luz oblíqua, as bruxas avistaram um bando de viajantes demandando a ponte, alguns a pé, alguns em carroças puxadas por cavalos, dois deles cavalgando. Não tinham visto as bruxas, pois não tinham motivo para olhar para cima, mas eram as primeiras pessoas que as bruxas viam naquele mundo, e Serafina estava prestes a descer para falar com eles quando se ouviu um grito de alarme.
Veio do cavaleiro que ia à frente. Ele apontava para as árvores, onde as bruxas viram uma torrente dessas formas espectrais espalhando-se pela campina, parecendo fluir sem esforço na direção das suas presas — os viajantes. Todos debandaram. Serafina ficou chocada ao ver o líder dar meia-volta e fugir galopando, sem ficar para ajudar os companheiros, e o segundo cavaleiro o imitou, fugindo com toda rapidez em outra direção.
— Voem mais baixo e observem, irmãs — instruiu Serafina Pekkala. — Mas não interfiram até eu mandar.
Viram que o pequeno bando continha crianças também, algumas viajando nas carroças, outras caminhando ao lado delas. E estava claro que as crianças não conseguiam ver os Espectros, e os Espectros não estavam interessados nelas: em vez disso, dirigiam-se para os adultos. Uma mulher idosa sentada numa carroça segurava duas crianças no colo, e Ruta Skadi ficou furiosa com a covardia: a mulher tentava esconder-se atrás delas, empurrando-as para a frente, na direção do Espectro que se aproximara, como se as oferecesse para salvar a própria pele.
As crianças desvencilharam-se da mulher e saltaram da carroça, e agora, como as outras crianças, corriam, assustadas, de um lado para outro, ou juntavam-se em grupos, chorando, enquanto os Espectros atacavam os adultos. A anciã na carroça logo foi envolvida por um brilho transparente que se mexia sem parar, alimentando-se de alguma maneira invisível que deixou Ruta Skadi doente só de ver. O mesmo destino coube a todos os adultos do grupo, com exceção dos dois que tinham fugido a cavalo.
Fascinada e horrorizada, Serafina Pekkala desceu ainda mais. Havia um pai com o filho que tentara atravessar o rio para fugir, mas um Espectro os alcançara e, enquanto a criança agarrava-se às costas do pai, chorando, o homem parou, com água até a cintura, indefeso.
O que estava acontecendo com ele? Serafina pairou acima da água a poucos metros de distância, observando, horrorizada. Ouvira de viajantes de seu próprio mundo a lenda do vampiro, e pensou nela enquanto observava o Espectro alimentando-se de... alguma coisa, alguma qualidade que aquele homem tinha, sua alma, talvez seu dimon, pois naquele mundo, evidentemente, os dimons ficavam dentro das pessoas. Os braços do homem perderam as forças e a criança caiu na água ao lado dele, em vão tentava segurar a mão do pai, engasgando-se, chorando, mas o homem simplesmente girou a cabeça devagar e ficou olhando, com absoluta indiferença, enquanto seu filho se afogava ao seu lado.
Aquilo era demais para Serafina. Ela baixou ainda mais e tirou a criança da água, nisso Ruta Skadi gritou:
— Cuidado, irmã! Atrás de você...
E Serafina sentiu por um instante uma terrível apatia no coração e estendeu a mão para a mão de Ruta Skadi, que a puxou para fora do perigo. Voaram mais alto, a criança gritando, agarrada à sua cintura com dedos fortes, e Serafina viu o Espectro atrás de si, uma lufada de névoa girando sobre a água, sem dúvida procurando sua presa perdida. Ruta Skadi desfechou uma flecha para o meio daquela coisa, sem qualquer efeito.
Serafina colocou a criança na margem do rio, certificando-se de que ela não corria perigo, e tornaram a levantar voo.
O pequeno bando de viajantes não mais iria prosseguir viagem, os cavalos pastavam na grama ou sacudiam a cabeça por causa das moscas, as crianças choravam e agarravam-se umas às outras, observando de longe, e todos os adultos estavam imóveis. Tinham os olhos abertos, alguns estavam de pé, embora a maioria tivesse se sentado e sobre eles pairava uma terrível imobilidade.
Quando o último dos Espectros deslizou para longe, saciado, Serafina veio pousar diante de uma mulher sentada na grama, uma jovem forte e de aparência saudável, de faces vermelhas e cabelos louros brilhantes.
— Mulher, está me ouvindo? — Serafina chamou. Não houve resposta. — Está me vendo?
Sacudiu a mulher pelo ombro. Com um esforço imenso a mulher ergueu o olhar. Mal parecia perceber. Tinha os olhos vagos, e quando Serafina beliscou-lhe o braço, ela simplesmente baixou os olhos devagar e depois desviou-os.
As outras bruxas andavam pelas carroças dispersas, contemplando as vítimas. Enquanto isso, as crianças reuniam-se numa pequena elevação a certa distância, observando as bruxas e cochichando, temerosas.
— O cavaleiro está vigiando — disse uma bruxa.
Ela apontou para o lugar onde a estrada passava por um desfiladeiro entre dois morros. O cavaleiro que fugira tinha parado ali para olhar para trás, protegendo os olhos com as mãos para melhor enxergar.
— Vamos falar com ele — disse Serafina, e lançou-se ao ar. Apesar do comportamento do homem diante dos Espectros, ele não era covarde: ao ver as bruxas se aproximando, pegou o rifle e cutucou o cavalo para que o animal avançasse para a campina onde ele podia enfrentá-las em terreno aberto. Mas
Serafina Pekkala pousou devagar e estendeu o arco à frente antes de colocá-lo no solo diante de si.
Mesmo que esse gesto não existisse ali, seu significado era inconfundível. O homem baixou o rifle e esperou, olhando de Serafina para as outras bruxas, e para os dimons delas, que voavam em círculos no céu lá em cima. Mulheres jovens, de aparência feroz, vestidas de farrapos de seda negra e cavalgando ramos de pinheiro pelo céu — não havia coisa assim no mundo dele, mas ele as enfrentou com uma cautelosa tranquilidade. Ao chegar mais perto, Serafina viu também dor no rosto dele, e força. Era difícil conciliar isso com a lembrança da fuga enquanto os companheiros pereciam.
— Quem são vocês? — ele perguntou.
— Meu nome é Serafina Pekkala. Sou a rainha das bruxas do Lago Enara, que fica em outro mundo. Qual é o seu nome?
— Joachim Lorenz. A senhora disse bruxas? Então têm trato com o diabo?
— Se tivéssemos, isso faria de nós inimigas suas?
Ele meditou por alguns instantes e acomodou o rifle sobre o colo.
— Podia ser que sim, há mais tempo, mas os tempos mudaram — disse. — Por que vieram para este mundo?
— Porque os tempos mudaram. Que criaturas são aquelas que atacaram o seu grupo?
— Bem, os Espectros... — disse ele, dando de ombros, espantado. — Não conhecem os Espectros?
— Nunca vimos no nosso mundo. Presenciamos a sua fuga, e ficamos sem saber o que pensar. Agora entendo.
— Não há defesa contra eles — disse Joachim Lorenz. — Só as crianças estão a salvo. Diz a lei que cada grupo de viajantes tem que incluir um homem e uma mulher a cavalo, e eles têm que fazer o que fizemos, senão as crianças não terão quem cuide delas. Mas os tempos estão difíceis agora, as cidades estão repletas de Espectros, e antes não havia mais que uma dúzia em cada lugar.
Ruta Skadi estava olhando em volta. Viu o outro cavaleiro voltando na direção das carroças, e viu que se tratava, realmente, de uma mulher. As crianças correram ao encontro dela.
— Mas diga-me o que estão procurando — prosseguiu Joachim Lorenz. — Não me respondeu antes. Não teriam vindo sem motivo. Responda agora.
— Estamos procurando uma criança, uma menina do nosso mundo — contou Serafina. — O nome dela é Lyra Belacqua, chamada também Lyra da Língua Mágica. Mas não fazemos ideia de onde ela pode estar. Não viu uma menina desconhecida, sozinha?
— Não. Mas na outra noite vimos anjos indo para o Polo.
— Anjos?
— Batalhões de anjos no ar, com armaduras brilhantes. Nestes últimos anos eles não têm sido tão comuns, embora costumassem passar com frequência através deste mundo, no tempo do meu avô; pelo menos era o que ele costumava contar.
Protegeu os olhos com a mão e olhou na direção das carroças. A mulher a cavalo tinha desmontado e estava consolando algumas crianças. Serafina seguiu o olhar dele e perguntou:
— Se acamparmos com vocês esta noite e ficarmos montando guarda contra os Espectros, você nos contará mais sobre este mundo e os anjos que viu?
— Certamente. Venha comigo.
As bruxas ajudaram a levar as carroças para mais adiante na estrada, do outro lado da ponte e longe das árvores de onde os Espectros tinham saído. Os adultos atacados tinham que ficar onde estavam, embora fosse doloroso ver as criancinhas agarradas à mãe que não mais lhes respondia, ou puxando a manga do pai que nada dizia e olhava para nada com olhos vazios. As crianças mais novas não conseguiam entender por que tinham que abandonar seus pais, as mais velhas, algumas das quais já tinham perdido os pais e já tinham presenciado esse tipo de coisa, estavam simplesmente chocadas e emudecidas. Serafina pegou no colo o menininho que tinha caído no rio e que chamava pelo pai, estendendo a mão por cima do ombro de Serafina na direção da figura silenciosa ainda parada dentro da água, indiferente. Serafina sentia as lágrimas dele na sua pele nua.
A mulher a cavalo, que usava grosseiras calças de lona e cavalgava como homem, não se dirigiu às bruxas. Tinha uma expressão soturna no rosto. Levava as crianças, falando-lhes com severidade, ignorando suas lágrimas. O sol da tarde enchia o ar de uma luz dourada na qual cada detalhe era claro e nada era ofuscante, e o rosto das crianças, do homem e da mulher pareciam também imortais, fortes e belos.
Mais tarde, enquanto as brasas de uma fogueira brilhavam num círculo de pedras sujas de cinza e os grandes montes eram tranquilos ao luar, Joachim Lorenz contou a Serafina e Ruta Skadi a história do seu mundo. Já tinha sido um mundo feliz. As cidades eram espaçosas e elegantes, os campos eram férteis e bem cuidados. Navios mercantes percorriam os mares azuis e pescadores traziam redes repletas de bacalhau e atum, perca e tainha, nas florestas a caça abundava, e nenhuma criança passava fome. Nas alamedas e praças das grandes cidades, embaixadores do Brasil e de Benin, da Irlanda e da Coreia misturavam-se a vendedores de tabaco, a atores de comédia de Bérgamo, a vendedores de bilhetes da sorte. A noite, amantes mascarados encontravam-se sob os caramanchões de rosas ou nos jardins iluminados por lamparinas, e o ar recendia a jasmim e vibrava com a música das cordas do mandarone¹.
As bruxas escutavam de olhos arregalados aquela história de um mundo tão parecido com o seu, no entanto tão diferente.
— Mas não deu certo — ele continuou. — Há 300 anos alguma coisa saiu errada. Algumas pessoas acham que a Liga dos filósofos da Torre degli Angeli, a Torre dos Anjos, na cidade que acabamos de deixar, é a culpada. Outros dizem que foi um castigo por algum grande pecado, embora eu nunca tenha encontrado concordância a respeito de qual seria esse pecado. Mas de repente, do nada, surgiram os Espectros, e desde então somos caçados. Vocês viram o que eles podem fazer, agora imaginem o que é viver num mundo com Espectros. Como podemos prosperar, quando não podemos confiar que alguma coisa continue como era? A qualquer momento um pai pode ser atacado, ou uma mãe, e a família se desagrega, um mercador pode ser atacado, e sua empresa fracassa, e todos os seus funcionários perdem o emprego e como os amantes podem confiar em seus votos de amor? Toda a confiança e toda a virtude abandonaram o nosso mundo quando os Espectros chegaram.
— Quem são esses filósofos? — Serafina quis saber. — E onde fica essa Torre?
— Na cidade que acabamos de deixar, Cittàgazze. A cidade das gralhas. Sabe por que tem esse nome? Porque as gralhas roubam, e é só isso que podemos fazer agora. Nada criamos, nada construímos há centenas de anos, tudo que podemos fazer é roubar de outros mundos. Ah, sim, temos conhecimento dos outros mundos. Aqueles filósofos da Torre degli Angeli descobriram tudo que precisamos saber sobre o assunto. Eles têm um feitiço que, quando alguém o pronuncia, consegue atravessar uma porta que não existe, e passa para outro mundo. Alguns dizem que não é um feitiço, mas uma chave que consegue abrir até mesmo quando não há fechadura. Quem sabe? Seja como for, isso deixou os Espectros entrarem. E os filósofos ainda o usam, pelo que sei. Eles passam para outros mundos, roubam deles e trazem de volta o que encontram. Ouro e joias, é claro, mas outras coisas também, como ideias, sacos de milho, lápis. São a fonte de toda a nossa riqueza, essa Liga de ladrões — arrematou com amargura.
— Por que os Espectros não fazem mal às crianças? — quis saber Ruta Skadi.
— Este é o maior mistério de todos. Na inocência das crianças existe algum poder que repele os Espectros da Indiferença. Mas é mais que isso. As crianças simplesmente não os enxergam, embora não possamos entender por quê. Nunca conseguimos. Mas são comuns os órfãos dos Espectros, como vocês podem imaginar; crianças cujos pais foram atacados. Elas se juntam e andam por aí em bandos, e às vezes alugam-se para os adultos, para procurar comida e suprimentos em áreas cheias de Espectros, e às vezes simplesmente vagueiam sem rumo, saqueando.
Ele fez uma pausa, depois continuou:
— Assim é o nosso mundo. Ah, nós conseguimos viver com essa maldição. Eles são verdadeiros parasitas: não matam a sua presa, embora retirem dela quase toda a vida. Mas havia um certo equilíbrio até recentemente, até a grande tempestade. Foi uma fortíssima tempestade, parecia que o mundo inteiro estava rachando e se esfacelando, ninguém se lembra de ter visto uma igual. Depois veio a névoa que durou muitos dias e cobriu todo o mundo que conhecemos, e ninguém podia viajar e quando a névoa clareou, as cidades estavam cheias de Espectros, centenas e milhares deles. Então fugimos para as montanhas e para o mar, mas desta vez não há como escapar deles, onde quer que a gente vá. Como vocês mesmas viram. Agora é a sua vez: contem-me como é o seu mundo e por que o deixaram para vir para este.
Serafina contou-lhe toda a verdade — ele era um homem honesto, e não era necessário esconder qualquer coisa dele. Ele escutou com atenção, sacudindo a cabeça de espanto, e disse, quando ela terminou:
— Eu lhes falei do poder que dizem que têm os nossos filósofos de abrir o caminho para outros mundos; bem, algumas pessoas acham que eles ocasionalmente deixam uma porta aberta, por esquecimento, eu não ficaria surpreso se de tempos em tempos viajantes de outros mundos encontrassem o caminho para cá. Sabemos que os anjos passam, afinal.
— Anjos? — repetiu Serafina Pekkala. — Você já os mencionou. Nunca ouvimos falar em anjos. Quem são eles?
— Quer saber sobre anjos? Muito bem. Eles se dão o nome de bene elim, segundo eu soube. Algumas pessoas os chamam de Vigilantes. Não são seres de carne como nós, são seres de espírito, ou talvez a carne deles seja mais etérea que a nossa, mais leve e mais clara, não sei dizer, mas não são como nós. Transportam mensagens dos céus, esta é a missão deles. Às vezes os vemos no céu, passando através deste mundo a caminho de outro, brilhando como vaga-lumes bem lá no alto. Numa noite sossegada, pode-se até ouvir o ruflar das asas deles. Eles têm preocupações diferentes das nossas, embora nos tempos antigos eles descessem e tratassem com homens e mulheres, e também se acasalassem conosco, dizem alguns.
Joachim Lorenz respirou fundo e continuou:
— E quando veio a névoa, depois da grande tempestade, eu estava encurralado nas montanhas atrás da cidade de Sant’Elia, a caminho da minha casa. Refugiei-me na choupana de um pastor junto a uma nascente ao lado de um bosque de bétulas, e durante toda a noite ouvi vozes acima de mim na neblina, gritos de susto e raiva, e batidas de asas, também, mais perto do que eu jamais tinha ouvido antes e perto do amanhecer ouvi o som de combate, o silvar de flechas e o clangor de espadas. Mas não ousei sair para investigar, pois tive medo, embora estivesse muito curioso. Eu estava inteiramente apavorado, se querem saber. Quando o céu ficou tão claro quanto poderia ficar naquela névoa, aventurei-me a olhar para fora e vi uma figura enorme caída, ferida, perto da nascente. Sentia que eu estava vendo coisas que não tinha o direito de ver: coisas sagradas. Tive que desviar os olhos, e quando tornei a olhar, a figura tinha sumido.
Em seguida, ele continuou:
— Foi o mais perto que já estive de um anjo. Mas como lhes contei, nós os vimos outra noite, bem no alto, entre as estrelas, indo para o Polo, como uma frota de poderosos navios de guerra... Alguma coisa está acontecendo, e aqui embaixo não sabemos o que pode ser. Poderia ser uma guerra prestes a explodir. Certa vez houve uma guerra no céu, há milhares de anos, mas não sei qual foi o desfecho dela. Não seria impossível haver outra. Mas a destruição seria enorme, e as consequências para nós... Não consigo sequer imaginar.
Ele se ergueu para avivar o fogo.
— Embora esse desfecho possa ser melhor do que eu imagino continuou. — Pode ser que uma guerra no céu leve os Espectros deste mundo de volta para o fosso de onde saíram. Que bênção seria, ah, como viveríamos felizes, livres dessa praga terrível!
No entanto, Joachim Lorenz, a contemplar as chamas, parecia tudo, menos esperançoso. A luz tremeluzente lançava sombras que se moviam em seu rosto, mas não modificavam a expressão de suas feições; ele parecia triste e soturno.
Ruta Skadi perguntou então:
— O Polo, senhor. Disse que esses anjos iam para o Polo, sabe por que fariam isso? É lá que fica o céu?
— Não sei. Não sou um homem erudito, isso se percebe facilmente. Mas o Norte do nosso mundo, bem, dizem que lá é a morada dos espíritos. Se os anjos estivessem se reunindo, é para lá que iriam, e se pretendessem atacar o céu, acho que é lá que construiriam sua fortaleza, de onde partiriam para o ataque.
Ele ergueu os olhos e as bruxas seguiram o seu olhar. As estrelas neste mundo eram as mesmas do mundo delas: a Via Láctea brilhava cruzando o domo do céu, e inúmeros pontos de luz empoeiravam a escuridão, e seu brilho quase se igualava ao da lua...
— Senhor, já ouviu falar no Pó? — Serafina quis saber.
— Pó? Imagino que está falando outra coisa, não da poeira das estradas. Não, nunca ouvi. Mas vejam, lá vai uma tropa de anjos...
Ele apontou para a constelação de Ofiúco. E realmente, alguma coisa se movia através dela — um pequeno grupo de seres iluminados. E eles não vagavam a esmo, mas moviam-se com o voo determinado dos gansos ou dos cisnes.
Ruta Skadi ficou de pé.
— Irmã, é hora de me separar de você — disse ela a Serafina. — Vou subir lá e falar com esses anjos, seja lá o que forem eles. Se vão até Lorde Asriel, irei com eles. Se não, vou continuar procurando sozinha. Obrigada pela sua companhia, e boa sorte.
Beijaram-se, e Ruta Skadi pegou seu ramo de pinheiro-nubígeno e saltou para o ar. Seu dimon Sergi, um rouxinol acompanhou-a.
— Vamos voar alto? — ele perguntou.
— Até a altura daqueles voadores luminosos em Ofiúco. Eles estão indo depressa, Sergi. Vamos alcançá-los!
Ela e o dimon subiram velozmente, voando mais depressa do que fagulhas de uma fogueira, o ar soprando através dos raminhos do seu galho de pinheiro-nubígeno e seus cabelos negros como uma esteira atrás dela. Ela não tornou a olhar para a pequena fogueira na imensa escuridão, para as crianças adormecidas e para as bruxas suas companheiras, aquela etapa da viagem estava encerrada e, de mais a mais, aquelas criaturas brilhantes à frente dela ainda não estavam mais próximas, e não mantivesse os olhos fixos nelas, poderia facilmente perdê-las naquele enorme cenário de estrelas reluzentes. De modo que ela continuou voando sem perder os anjos de vista, e, à medida que se aproximava deles, passou a vê-los mais claramente. Eles brilhavam, não como se estivessem ardendo, mas como se, onde quer que estivessem e por mais escura que fosse a noite, a luz do sol brilhasse neles. Eram como os humanos, porém com asas, e muito mais altos, como estavam nus, a bruxa conseguia ver que três deles eram do sexo masculino e dois do sexo feminino.
As asas nasciam nas omoplatas, e tinham o tórax bastante musculoso. Ruta Skadi ficou atrás deles por algum tempo, observando, avaliando a força deles, caso fosse necessário combatê-los. Não estavam armados, mas por outro lado estavam voando com facilidade por seu próprio poder, e poderiam até voar mais depressa que ela se houvesse uma perseguição. Preparando o arco por via das dúvidas, ela avançou e passou a voar ao lado deles, gritando:
— Anjos! Parem e me escutem! Sou a bruxa Ruta Skadi, e quero falar com vocês.
Eles se viraram. Suas grandes asas bateram para dentro, diminuindo a velocidade, e os corpos tomaram a posição vertical até ficarem em pé no ar, mantendo a posição através de curtos movimentos das asas. Rodearam-na, cinco figuras enormes brilhando no ar escuro, acesas por um sol invisível. Ela olhou em volta, sentada em seu galho de pinheiro-nubígeno, orgulhosa e destemida, embora seu coração batesse forte com a estranheza de tudo aquilo, e seu dimon aproximou-se e sentou-se perto do calor do seu corpo.
Cada anjo era um indivíduo em separado, no entanto tinha mais coisas em comum com os outros anjos do que com qualquer humano que ela tivesse conhecido. O que tinham em comum era uma manifestação brilhante e dinâmica de inteligência e sentimento, que parecia dominar todos eles simultaneamente. Estavam nus, mas ela se sentiu nua sob o olhar deles, tão penetrante, indo tão fundo.
Mesmo assim ela não se envergonhava do que era, de modo que retribuiu de cabeça ergui da o olhar deles.
— Então vocês são anjos — disse. — Ou Vigilantes, ou bene elim. Aonde vão?
— Estamos atendendo a um chamado — disse um.
Ela não tinha certeza de qual deles tinha falado. Poderia ter sido qualquer um, ou todos ao mesmo tempo.
— Chamado de quem? — ela perguntou.
— De um homem.
— De Lorde Asriel?
— Poderia ser.
— Por que estão fazendo isso?
— Porque queremos — foi a resposta.
— Então, onde quer que ele esteja, vocês podem me levar até ele — ela ordenou.
Ruta Skadi tinha 416 anos e todo o orgulho e o conhecimento de uma bruxa-rainha adulta. Era muito mais sábia do que qualquer humano vida-curta, mas não tinha a menor ideia de como parecia infantil ao lado daqueles seres imemoriais. Tampouco imaginava até que ponto a consciência deles se espalhava além dela como tentáculos até os cantos mais remotos de universos nunca sonhados por ela e tampouco que os enxergava como formas humanas simplesmente porque seus olhos esperavam isso, se fosse percebê-los em sua forma verdadeira, eles pareceriam mais uma arquitetura do que um organismo, como imensas estruturas compostas de inteligência e sentimento. Mas eles esperavam isso mesmo — afinal, ela era muito jovem. Imediatamente bateram as asas e saltaram para a frente, e ela disparou com eles, surfando na turbulência que essas asas causavam no ar e adorando a velocidade e a força que isso conferia ao seu voo.
Voaram durante toda a noite. As estrelas giravam ao seu redor, e desmaiavam e desapareciam à medida que a aurora subia do leste. O mundo explodiu em luz quando a borda do sol apareceu, e então passaram a voar através de um céu azul e um ar claro, fresco, doce e úmido. A luz do dia, os anjos eram menos visíveis, embora a sua singularidade ficasse óbvia para qualquer um. A luz que permitia que Ruta Skadi os visse ainda não era a do sol que agora se erguia no céu, mas alguma outra luz, vinda de outro lugar.
Incansavelmente voaram, e incansavelmente ela os acompanhava. Sentia uma alegria intensa possuí-la por poder ter à sua disposição aquelas presenças imortais. E alegrava-se por seu sangue e sua carne, pela áspera casca de pinheiro-nubígeno que ela sentia perto da pele, alegrava-se porque seu coração batia e pela vida de todos os seus sentidos, pela fome que agora estava sentindo e pela presença de seu dimon rouxinol de voz tão doce, e pela terra lá embaixo e pela vida de cada criatura, tanto planta quanto animal e deliciava-se em ser da mesma substância daquilo tudo, e em saber que, quando morresse, sua carne iria nutrir outras vidas como elas a tinham nutrido. E alegrava-se, também, por estar indo ver novamente Lorde Asriel.
Outra noite chegou, e os anjos continuavam a voar. E em certo momento a qualidade do ar mudou, não para pior ou melhor, mas mudou, e Ruta Skadi percebeu que tinham saído daquele mundo e entrado em outro. Como isso acontecera, ela não tinha a menor ideia.
— Anjos! — chamou, quando sentiu a mudança. — Como foi que deixamos o mundo onde os encontrei? Onde fica a fronteira?
— Existem no ar lugares invisíveis, portas para outros mundos — foi a resposta. — Podemos vê-los, você não.
Ruta Skadi não conseguiu enxergar a porta invisível, e nem era necessário: as bruxas conseguiam orientar-se melhor que os pássaros. Assim que o anjo falou, ela fixou sua atenção em três picos pontiagudos lá embaixo, memorizando sua configuração exata. Agora poderia encontrar de novo a porta, se precisasse, apesar do que os anjos pudessem pensar. Continuaram voando, e finalmente ela ouviu uma voz de anjo:
— Lorde Asriel está neste mundo, e ali vemos a fortaleza que ele está construindo...
Estavam voando mais devagar, fazendo círculos no céu como águias. Ruta Skadi olhou para onde um anjo apontava.
O primeiro alvor tingia o leste, embora todas as estrelas acima brilhassem com a intensidade de sempre contra o veludo profundamente negro dos céus. E na própria borda do mundo, onde a luz aumentava a cada momento, uma grande serra erguia seus picos — aguçados picos de pedra negra, poderosas lajes irregulares e cristas serrilhadas empilhadas caoticamente, como ruínas de uma catástrofe universal. Mas no ponto mais alto, que enquanto ela olhava foi tocado e delineado pelos primeiros raios do sol matinal, havia uma estrutura: uma imensa fortaleza cujas ameias eram formadas por lajes do basalto com a metade da altura de um monte, e cuja extensão só podia ser medida em termos de tempo de voo.
Sob essa fortaleza colossal, ardiam fogueiras e chaminés soltavam fumaça na escuridão do início do amanhecer e, a muitos quilômetros de distância, Ruta Skadi ouviu o clangor de martelos e o ruído de grandes oficinas. E de todas as direções ela via grupos de anjos voando para lá, e não apenas anjos, mas máquinas também, naves com asas de aço deslizando como albatrozes, cabines de vidro sob tremeluzentes asas de libélulas, zepelins que zumbiam como enormes abelhas — todos na direção da fortaleza que Lorde Asriel estava construindo nas montanhas no fim do mundo.
— Lorde Asriel está lá? — ela perguntou.
— Está, sim — responderam os anjos.
— Então vamos voar ao encontro dele. Vocês precisam ser minha guarda de honra.
Obedientemente eles abriram as asas e partiram na direção da fortaleza orlada de dourado, com a ansiosa bruxa voando à frente.


1 Mandarone — instrumento provavelmente imaginário; nenhuma referência foi encontrada. [N.T.]

3 comentários:

  1. Se eu tivesse lá ,já ia mandar um EXPECTO PATRONUM!!

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  2. Parece que tudo de estranho acontece no Norte...

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Boa leitura :)