4 de fevereiro de 2017

6. As tarrafas

ELA caminhou depressa, se afastando do rio, porque a calçada ao longo da margem era larga e bem iluminada. Havia uma confusão de ruelas entre aquele lugar e o Régio Instituto do Polo Ártico, que era o único lugar que Lyra tinha certeza de conseguir localizar, e foi nesse labirinto escuro que ela penetrou.
Se ao menos conhecesse Londres tão bem quanto conhecia Oxford! Então saberia as ruas a serem evitadas, ou onde conseguiria comida, ou, melhor que tudo, em que porta bater para conseguir abrigo. Naquela noite fria, os becos escuros à sua volta estavam repletos de movimento e segredos, e ela não sabia nada sobre isso.
Pantalaimon virou um gato-do-mato, passando a examinar a escuridão com seus olhos que enxergavam no escuro. A todo momento, ele parava, ficava arrepiado, e ela desviava da ruela em que estava prestes a entrar. A noite estava cheia de ruídos; gargalhadas de bêbados, duas vozes estridentes se elevando numa canção, estalidos e rangidos vindos de alguma máquina mal lubrificada num porão qualquer. Lyra caminhava cuidadosamente por isso tudo, mantendo-se nas sombras e nos becos estreitos, seus sentidos aumentados e misturados com os de Pantalaimon.
De vez em quando, ela precisava atravessar uma rua mais larga, bem iluminada, onde os bondes zumbiam e faiscavam sob seus fios anbáricos. Havia regras para atravessar as ruas londrinas, mas ela não dava atenção a isso, e quando alguém gritava, ela fugia.
Era ótimo estar livre outra vez! Ela sabia que Pantalaimon, caminhando com seus passinhos de gato-do-mato a seu lado, sentia a mesma alegria por estar ao ar livre, mesmo sendo o poluído ar londrino, carregado de fumaça e fuligem, e repleto de barulho. Eles logo teriam que refletir sobre o significado do que tinham ouvido no apartamento da Sra. Coulter, mas ainda não era o momento. E em algum momento teriam que encontrar um lugar para dormir. Numa esquina onde havia uma grande loja de departamentos, com vitrines cujo brilho se espelhava na calçada molhada, havia também uma banca de café: uma barraquinha sobre rodas com um balcão sob a janela de madeira que se abria para cima e ficava como um toldo. Lá dentro brilhava uma luz amarela, e o cheiro do café se espalhava pelo ar. O proprietário, de jaleco branco, estava debruçado sobre o balcão, conversando com dois ou três fregueses.
Aquilo era tentador; Lyra estava andando havia uma hora, e a noite estava fria e úmida. Com Pantalaimon transformado em pardal, ela foi até o balcão e levantou a mão para chamar a atenção do proprietário.
— Um café e um sanduíche de presunto — pediu.
— Está na rua até tarde, minha cara — disse um cavalheiro de cartola e cachecol de seda.
— É — disse ela, virando de costas para observar o movimentado cruzamento.
Num teatro ali perto, o espetáculo terminara e grupos de pessoas ocupavam a calçada iluminada, chamando os táxis aos gritos, vestindo os sobretudos. Na outra direção ficava a entrada de uma Estação de Trem Ctônico, com muita gente subindo e descendo a escada.
— Pronto, meu bem — disse o dono da barraca. — São dois xelins.
— Deixe que eu pago — ofereceu o homem de cartola.
Lyra pensou: por que não? Consigo correr mais depressa que ele, e mais tarde posso precisar de todo o meu dinheiro. O homem de cartola jogou uma moeda no balcão e sorriu para ela. Seu dimon era uma lêmure; agarrada à lapela dele, ela encarava Lyra de olhos arregalados.
Lyra mordeu o sanduíche, com os olhos voltados para o movimento da rua. Não tinha ideia de onde estava, porque nunca havia visto um mapa de Londres e sequer sabia o tamanho da cidade e se teria que caminhar muito para chegar ao campo.
— Qual é o seu nome? — o homem perguntou.
— Alice.
— Que lindo nome. Me deixe colocar uma gotinha disso no seu café... Para esquentar...
Ele estava tirando a tampa de um frasco de prata.
— Não gosto — protestou ela. — Gosto só de café.
— Aposto que nunca tomou conhaque assim antes.
— Tomei, sim. Vomitei tudo. Tomei uma garrafa inteira, ou quase.
— Como quiser — disse o homem, colocando o conhaque em seu próprio café. — Aonde está indo, assim sozinha?
— Vou me encontrar com meu pai.
— E quem é ele?
— É um assassino.
— Ele é o quê?
— Já disse, um assassino. É a profissão dele. Está fazendo um trabalho esta noite. Estou trazendo roupas limpas para ele, porque em geral ele fica coberto de sangue no final de um trabalho.
— Ah, você está brincando.
— Não estou, não.
A lêmure soltou um miado baixo e passou para trás da cabeça do homem, de onde ficou espiando Lyra. Sem se perturbar, a menina bebeu o café e comeu o resto do sanduíche.
— Boa noite — disse finalmente. — Estou vendo papai chegando. Ele parece meio zangado.
O homem de cartola olhou em volta, e Lyra partiu na direção da multidão em frente ao teatro. Por mais que tivesse vontade de conhecer o Trem Ctônico (que a Sra. Coulter tinha dito que não era para pessoas de sua classe social), ela estava com medo de ficar presa debaixo da terra; melhor ficar ao ar livre, onde poderia correr se precisasse.
Prosseguiu em sua caminhada pelas ruas cada vez mais escuras e desertas. Estava garoando, mas, mesmo se não houvesse nuvens no céu da cidade, as luzes não iam deixar ver as estrelas. Pantalaimon achava que estavam indo para o norte, mas quem poderia ter certeza?
Ruas e mais ruas, de casinhas de tijolos idênticas, com quintais onde só cabia uma lata de lixo; grandes e sombrias fábricas atrás de cercas de arame, com uma única luz anbárica no alto de um muro e um vigia noturno cochilando junto ao seu braseiro; de vez em quando um oratório desolado, que só se diferenciava de um armazém pelo crucifixo na fachada. Ela experimentou a porta de um deles, e ouviu um gemido vindo de um banco a um metro dela, na escuridão. Percebeu que a entrada do oratório estava repleta de vultos adormecidos, e fugiu.
— Onde é que vamos dormir, Pantalaimon? — ela perguntou, enquanto desciam uma rua de lojas fechadas.
— Numa soleira qualquer.
— Mas não quero que me vejam, e elas são tão abertas...
— Há um canal ali embaixo...
Ele estava olhando para uma rua lateral à esquerda. Realmente, uma mancha de brilho escuro denunciava água, e quando os dois foram cautelosamente até lá, encontraram um porto na margem de um canal onde cerca de uma dúzia de balsas estavam amarradas aos ancoradouros, algumas altas na água, outras mais afundadas sob o peso da carga, perto dos guindastes que mais pareciam forcas. Uma luz fraca brilhava na janela de uma cabana de madeira, e um fio de fumaça subia da chaminé de metal; fora isso, as únicas luzes ficavam no alto — na parede de um armazém ou na cabine de um guindaste —, deixando as partes mais baixas na escuridão. Nos ancoradouros, havia pilhas de barris com álcool de carvão, pilhas de grandes troncos redondos, rolos de cabos cobertos de borracha.
Lyra foi na ponta dos pés até a cabana e olhou pela janela. Um velho estava lendo com dificuldade um jornal de história em quadrinhos e fumando um cachimbo, com seu dimon-spaniel dormindo enrodilhado sobre a mesa. Enquanto Lyra espiava, o homem se levantou e foi buscar no fogão de ferro uma chaleira escurecida, e colocou um pouco de água numa caneca rachada, antes de tornar a se acomodar com o jornal.
— Será que devemos pedir para ele nos deixar entrar, Pan? — ela sussurrou.
Mas ele estava ocupado, se transformando em morcego, depois em coruja, depois novamente em gato-do-mato; ela olhou em volta, sentindo o pânico dele, e então os viu ao mesmo tempo que ele: dois homens correndo para ela, um de cada lado, o mais próximo segurando uma tarrafa.
Pantalaimon soltou um grito agudo e se transformando em leopardo pulou sobre a raposa de aparência feroz que era o dimon do homem mais próximo, jogando-a para trás, de modo que a raposa caiu sobre as pernas do homem. O homem xingou e se desviou para o lado, e Lyra passou correndo por ele, na direção da área aberta do ancoradouro; o que não podia era ficar encurralada num canto.
Pantalaimon, agora uma águia, mergulhou sobre ela e gritou:
— À esquerda! À esquerda!
Ela se desviou para aquele lado e viu um espaço aberto entre os barris de álcool de carvão e o final de um barracão de chapas de ferro, e disparou para lá.
Mas aquelas tarrafas!
Ela ouviu um assobio no ar, e alguma coisa caiu sobre ela como um chicote, picando dolorosamente no rosto, e cordões imundos de piche ficaram enrolados por sua cabeça, seus braços, suas mãos, prendendo-a; ela caiu no chão, rosnando e lutando em vão.
— Pan! Pan!
Mas o dimon-raposa atacou o Pantalaimon-gato, e Lyra sentiu a dor em sua própria carne, e soltou um grito forte e soluçado quando ele caiu. Um homem começou a enrolar a rede em volta das pernas dela, da garganta, do corpo, da cabeça, rolando-a de um lado para outro no chão. Ela estava indefesa, exatamente como uma mosca sendo enrolada pelo fio da aranha.
O coitado do Pan estava se arrastando em sua direção, com o dimon-raposa lhe atacando as costas, e não tinha forças sequer para mudar de forma; e o outro homem estava deitado numa poça, com uma flecha atravessada no pescoço...
O mundo inteiro ficou imóvel quando o homem que a enrolava na rede também viu.
Pantalaimon se levantou até ficar sentado e pestanejou, e então houve um ruído baixo e seco, e o homem da tarrafa caiu, engasgado e ofegante, bem por cima de Lyra, que gritou de horror: havia sangue jorrando de dentro dele!
Passos apressados, e alguém arrastou o homem para longe e se inclinou sobre ele; então outras mãos colocaram Lyra em pé, uma faca cortou e puxou, e os fios da tarrafa caíram um por um, e ela se soltou, cuspindo, e correu para se ajoelhar junto a Pantalaimon.
Nessa posição, ela virou a cabeça para olhar os recém-chegados. Três homens morenos, um deles armado com um arco, os outros com facas; quando a viu, o arqueiro levou um susto.
— Não é a Lyra?
A voz era familiar, mas ela não a reconheceu até que ele avançou um passo, e uma luz próxima mostrou seu rosto e o dimon-falcão no ombro dele. Então ela o reconheceu: um gípcio! Um gípcio de Oxford!
— Sou Tony Costa — ele explicou. — Lembra? Você brincava com meu irmãozinho Billy nos barcos em Jericó, antes de os Gobblers pegarem ele.
— Ah, meu Deus, Pan, estamos salvos! — ela soluçou.
Mas então um pensamento lhe veio à cabeça: tinha sido dos Costa o barco que ela roubara; e se ele se lembrasse?
— É melhor vir com a gente — ele disse. — Está sozinha?
— Estou. Eu fugi...
— Tá bem, não fale agora. Fique quieta. Jaxer, leve os corpos para um lugar escuro. Kerim, fique de olho.
Lyra se levantou, Pantalaimon-gato-do-mato no colo. Ele tentava girar o corpo para ver alguma coisa; ela seguiu o olhar dele, compreendendo e de repente curiosa também: o que tinha acontecido aos dimons dos mortos? Eles estavam esmaecendo, essa era a resposta; se apagando e se dispersando no ar como átomos de fumaça, embora se esforçassem para ficar agarrados aos homens. Pantalaimon desviou o olhar, e Lyra correu às cegas atrás de Tony Costa.
— O que você está fazendo aqui? — ela perguntou.
— Quieta, garota. Já temos problemas suficientes. Vamos conversar no barco.
Ele a levou por uma pontezinha de madeira para o coração do porto. Os outros dois homens os acompanhavam silenciosamente. Tony seguiu ao longo da beira do cais e saiu para um píer de madeira; passou para um barco estreito e abriu a porta da cabine.
— Entre depressa — instruiu.
Lyra obedeceu, apalpando a bolsa (que não soltara nem uma vez, mesmo presa na rede) para ter certeza de que o aletiômetro ainda estava lá. Na cabine comprida e estreita, à luz de uma lamparina presa num gancho, ela viu uma mulher forte e corpulenta, de cabelos grisalhos, sentada a uma mesa com um jornal. Lyra reconheceu a mãe de Billy.
— Quem é esta? — a mulher quis saber. — Ora, será a Lyra?
— Isso mesmo. Mamãe, temos que sair daqui. Matamos dois homens lá no porto. Pensamos que eram Gobblers, mas acho que eram mercadores turcos. Tinham agarrado a Lyra. Vamos deixar a conversa para depois, quando estivermos em movimento.
— Venha cá, criança — chamou Mamãe Costa.
Lyra obedeceu, meio feliz, meio apreensiva, pois Mãe Costa tinha mãos como porretes, e agora ela tinha certeza: fora mesmo o barco deles que ela capturara com Roger e outros amigos das faculdades. Mas a mulher colocou as mãos de cada lado do rosto de Lyra, e seu dimon — um enorme cachorro cinzento que parecia um lobo — se inclinou para lamber delicadamente a cabeça de gato-do-mato de Pantalaimon. Então Mãe Costa rodeou Lyra com seus braços enormes e a apertou contra os seios.
— Não sei o que você tá fazendo aqui, mas parece cansadinha. Pode usar a cama do Billy, depois que eu lhe der alguma coisa quente para beber. Sente aqui, criança.
Parecia que o ato de pirataria tinha sido perdoado, ou pelo menos esquecido. Lyra deslizou pela almofada do banco atrás de uma mesa de tampo de pinho enquanto o ronco baixo do motor a gasolina sacudia o barco.
— Aonde vamos? — Lyra perguntou.
Mãe Costa estava colocando uma panela de leite sobre o fogão de ferro e cutucando por entre a grade para avivar o fogo.
— Para longe daqui. Não fale agora. Vamos conversar de manhã.
E não disse mais nada; entregou uma xícara de leite quente a Lyra e subiu para o convés quando o barco se pôs em movimento, trocando cochichos com os homens de vez em quando.
Lyra bebeu o leite devagar e ergueu uma ponta da cortina para observar os ancoradouros escuros que passavam pela janela. Minutos depois estava dormindo profundamente.


Despertou numa cama estreita, com o reconfortante ronco do motor soando lá embaixo.
Ela se sentou, bateu com a cabeça, soltou um palavrão, tateou em volta e se levantou com mais cuidado. Uma luz cinzenta permitia ver três outras camas, todas vazias e bem arrumadas, uma abaixo da dela e as outras duas do outro lado da minúscula cabine. Ela percebeu que estava usando apenas suas roupas de baixo, e viu o vestido e o casaco de pele de lobo dobrados na ponta da cama, junto com a bolsa. O aletiômetro ainda estava lá.
Vestiu-se depressa e saiu pela porta no fundo do compartimento, indo para a cozinha do barco, onde estava mais quente por causa do fogão. Não havia ninguém ali. Pelas janelas, ela viu um lençol de neblina espessa, com formas escuras que poderiam ser prédios ou árvores.
Antes que pudesse subir para o convés, a porta de saída se abriu, e Mãe Costa desceu, enrolada num velho casaco de lã escocesa, sobre o qual a umidade tinha formado milhares de pequenas pérolas.
— Dormiu bem? — perguntou, pegando uma frigideira. — Agora vá se sentar fora do meu caminho e eu vou lhe fazer um café da manhã. Não fique aí de pé; isso aqui é muito apertado.
— Onde estamos? — Lyra perguntou.
— No Canal Grand Junction. Você fique escondida, criança. Não quero ver você lá fora. Temos problemas.
Ela colocou duas fatias de bacon e um ovo na frigideira.
— Que tipo de problemas?
— Nada que a gente não consiga resolver, se você ficar escondida.
E não quis dizer mais nada até Lyra ter acabado de comer. Em certo momento, o barco diminuiu a velocidade e alguma coisa bateu na lateral dele, e ela ouviu vozes masculinas irritadas; então uma piada de alguém fez com que rissem, as vozes se afastaram e o barco retomou seu caminho.
Dali a pouco Tony Costa desceu para a cabine. Como a mãe, ele tinha pérolas de umidade na roupa e sacudiu a touca de lã sobre o fogão para fazer as gotas saltarem sobre a chapa quente.
— O que vamos dizer a ela, Mãe?
— Perguntar primeiro, contar depois.
Ele serviu café numa xícara de lata e se sentou. Era um homem forte e sério, e à luz do dia Lyra viu em seu rosto uma expressão de tristeza.
— Certo — ele concordou. — Agora você vai nos contar o que fazia em Londres, Lyra. Pensávamos que tinha sido levada pelos Gobblers.
— Eu estava morando com uma dama, certo, então...
Com dificuldade Lyra juntou e arrumou sua história, como se estivesse preparando um baralho para uma partida. Contou tudo a eles, menos sobre o aletiômetro.
— E então ontem à noite na tal festa eu descobri o que eles faziam mesmo. A Sra. Coulter faz parte dos Gobblers, e ia me usar para ajudar a pegar mais crianças. E o jeito de fazer isso é...
Mãe Costa saiu da cabine e foi para o convés. Tony esperou até que ela fechasse a porta e disse:
— Sabemos o que eles fazem. Pelo menos uma parte. Sabemos que elas não voltam. As crianças são levadas para o Norte, bem longe, e eles fazem experiências com elas. No princípio, a gente achava que testavam doenças e remédios, mas não há motivo para começar isso de repente, há dois ou três anos. Então ficamos achando que eram os tártaros, talvez algum acordo secreto que estivessem fazendo lá pela Sibéria; porque os tártaros querem ir para o Norte tanto quanto o resto, por causa do álcool de carvão e das minas de fogo, e os boatos de guerra começaram antes dos Gobblers. E achamos que os Gobblers estivessem usando as crianças para subornar os chefes tártaros, porque os tártaros comem crianças, não é? Assam e comem.
— Essa não!
— Comem, sim. Têm muitas outras coisas para contar. Você já ouviu falar nos Nälkäinens?
— Não, nunca. Nem pela Sra. Coulter. Quem são eles?
— Um tipo de fantasma que existe lá em cima naquelas florestas. São do tamanho de uma criança, mas não têm cabeça. De noite se guiam pelo tato, e se a pessoa está dormindo na floresta eles pegam e não soltam por nada neste mundo. Essa palavra, nälkäinen, vem do Norte. E os chupadores de ar também são perigosos. Ficam deslizando pelo ar. Às vezes a gente encontra um monte deles boiando, ou presos nos galhos. Assim que eles tocam na pessoa, ela perde toda a força. A gente não consegue ver esses fantasmas, só uma espécie de ondulação no ar. E os sem-ar...
— Quem são eles?
— São guerreiros semimortos. Estar vivo é uma coisa, estar morto é outra, mas estar meio-morto é pior que tudo. Eles não conseguem morrer e não podem mais viver. Ficam vagando para sempre. São chamados de sem-ar por causa do que fazem a eles.
— O quê? — perguntou Lyra de olhos arregalados.
— Os tártaros do norte abrem as costelas deles e tiram os pulmões. Fazer isso é uma arte; os guerreiros não morrem, mas seus pulmões só trabalham quando seus dimons os bombeiam manualmente, de modo que o resultado é que estão sempre no meio do caminho entre respirar e não respirar, entre a vida e a morte. Estão meio-mortos, entende? E os dimons deles têm que bombear dia e noite, para não morrerem junto com os guerreiros. Dizem que às vezes na floresta a gente encontra um pelotão inteiro de sem-ar. E existem também os panserbjornes, já ouviu falar? Significa ursos de armadura. São uma espécie de ursos polares, só que...
— É, já ouvi falar deles! Ontem à noite um dos homens disse que o meu tio, o Lorde Asriel, está preso numa fortaleza vigiado pelos ursos de armadura.
— É mesmo? E o que seu tio estava fazendo por lá?
— Explorando. Mas pelo jeito que o homem estava falando, acho que meu tio não está do lado dos Gobblers. Acho que estavam felizes por ele estar preso.
— Bom, ele não vai conseguir fugir se os ursos de armadura estiverem vigiando. São como mercenários, sabe o que isso quer dizer? Vendem sua força para quem pagar. Têm mãos como os homens, e há muito tempo aprenderam o segredo de trabalhar o ferro, principalmente o ferro meteórico, e fazem grandes folhas e chapas para se cobrirem. Há séculos eles atacam os escraelingues. São assassinos ferozes, absolutamente impiedosos. Mas respeitam a palavra dada. Quem faz um acordo com um panserbjorne pode confiar.
Lyra pensou nesses horrores com temor.
— Mamãe não gosta de ouvir falar no Norte — Tony acrescentou depois de alguns minutos. — Por causa do que pode ter acontecido com o Billy. Sabemos que eles levaram o Billy para o Norte, entende?
— Como sabem disso?
— Pegamos um dos Gobblers e o obrigamos a falar. Foi assim que soubemos um pouco do que eles fazem. Aqueles dois ontem à noite não eram Gobblers; eram desajeitados demais. Se fossem Gobblers, a gente ia pegar eles vivos. Sabe, nós, o povo gípcio, nós fomos os mais atingidos por esses Gobblers, e estamos nos juntando para resolver o que vamos fazer. Era o que a gente estava fazendo naquele porto essa noite, abastecendo, porque vamos fazer uma grande reunião nos Pântanos, o que a gente chama de Encontro. E o que eu acho é que vamos mandar um grupo de resgate, depois que ouvirmos o que os outros gípcios sabem, depois que juntarmos nossos conhecimentos. É o que eu faria, se fosse o John Faa.
— Quem é John Faa?
— O rei dos gípcios.
— E vocês vão mesmo salvar as crianças? E quanto ao Roger?
— Quem é Roger?
— O ajudante de cozinha da Faculdade Jordan. Ele foi levado no mesmo dia que o Billy, na véspera de eu vir embora com a Sra. Coulter. Aposto que se eu fosse presa ele ia me salvar. Se vocês vão salvar o Billy, eu quero ir também e salvar o Roger.
“E o tio Asriel também”, ela pensou, mas não falou sobre isso.

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