17 de fevereiro de 2017

6. Absolvição antecipada

Contas, relíquias, bulas, indulgências, beatos, bonzos, peregrinos, frades, em mil juntos montões, brincos de vento...
John Milton, Canto III

— Pois bem, Frei Pavel — disse o Inquisidor do Tribunal Consistorial de Disciplina — quero que se lembre exatamente, se puder, das palavras que ouviu a bruxa dizer no navio.
Os 12 membros do Tribunal observaram o clérigo no banco das testemunhas sob a luz fraca do entardecer, era a última testemunha. Era um padre com a aparência de estudioso, cujo dimon tinha a forma de um sapo. O Tribunal vinha ouvindo os depoimentos daquele caso já há oito dias, no prédio antigo, de torres altas, da Faculdade de São Jerônimo.
— Não consigo me lembrar com exatidão das palavras da bruxa — disse Frei Pavel, em tom fatigado. — Nunca tinha presenciado tortura antes, conforme já expliquei ao Tribunal ontem, e descobri que me deixava tonto e nauseado. De modo que, exatamente 25 palavras que ela disse, não sei dizer, mas me lembro do significado. A bruxa disse que a menina Lyra tinha sido reconhecida pelos clãs do norte como aquela que realizaria uma profecia de que tinham conhecimento há muito tempo. Ela teria o poder de fazer uma escolha importantíssima e que o destino de todos os mundos dependeria dessa escolha. Além disso, havia um nome que faria com que recordássemos um caso semelhante e que faria com que a Igreja a odiasse e a temesse.
— E a bruxa revelou este nome?
— Não. Antes que pudesse pronunciá-lo, uma outra bruxa, que estivera presente graças a um feitiço que lhe dava invisibilidade, conseguiu matá-la e fugir.
— Então, nessa ocasião, a mulher Coulter também não poderia ter ouvido o nome?
— Exatamente.
— E pouco depois a Sra. Coulter partiu?
— Exato.
— E o que descobriu depois disso?
— Descobri que a criança tinha ido para aquele outro mundo através da fenda aberta por Lorde Asriel e que lá ela conseguiu a ajuda de um menino que possui, ou obteve, o uso de uma faca com poderes extraordinários — respondeu Frei Pavel. Então ele pigarreou nervosamente e prosseguiu. — Posso falar com franqueza e inteira liberdade para este tribunal?
— Com total liberdade, Frei Pavel — veio a resposta na voz de tom áspero e claro do Presidente. — Não será punido por nos contar as coisas de que tem conhecimento, que lhe foram ditas por outros. Por favor, continue.
Tranquilizado, o padre prosseguiu.
— A faca que está em poder desse garoto é capaz de fazer aberturas entre os mundos. Além disso, ela tem um poder maior que esse, por favor, mais uma vez, tenho medo do que estou dizendo... É capaz de matar os anjos de mais alta hierarquia e o que existe acima deles. Não há nada que esta faca não possa destruir.
Ele estava suando e tremendo, e seu dimon rã caiu da beirada do banco das testemunhas para o chão, tamanha era sua agitação. Frei Pavel arquejou de dor e a recolheu rapidamente, deixando que bebesse um pouco da água do copo que tinha diante de si.
— E perguntou mais alguma coisa sobre a menina? — perguntou o Inquisidor. — Descobriu o tal nome de que a bruxa falou?
— Descobri. Mais uma vez suplico que me deem a garantia de que...
— O senhor tem essa garantia — declarou o Presidente em tom brusco. — Não tenha medo. O senhor não é um herege. Relate o que descobriu e não perca mais tempo.
— Realmente suplico que me perdoem. A criança, portanto, está na posição de Eva, a mulher de Adão, a mãe de todos nós e origem de todo pecado.
As estenógrafas anotando todas as palavras eram freiras da ordem de Santa Filomela, que haviam feito voto de silêncio, mas, ao ouvir as palavras de Frei Pavel, uma delas não conseguiu conter uma exclamação abafada e houve uma agitação de mãos enquanto elas faziam o sinal-da-cruz. Frei Pavel estremeceu e prosseguiu:
— Por favor, lembrem-se, o aletiômetro não faz previsões, ele diz: “Se certas coisas ocorrerem de tal maneira, então as consequências serão...”, e assim por diante. E ele diz que se calhar de ocorrer de a criança ser tentada, como Eva foi, então é provável que ela caia em tentação. Do resultado disso dependerá... tudo. E se essa tentação realmente ocorrer e se a criança ceder a ela, então o Pó e o pecado triunfarão.
O silêncio foi total na sala do Tribunal. A luz pálida do sol que se filtrava através das grandes janelas com esquadrias e molduras de chumbo sustentava em seus raios inclinados um milhão de partículas douradas, mas eram de poeira, não Pó, embora mais de um dos membros do Tribunal tivesse visto nelas uma imagem daquele outro Pó invisível que pousava sobre todos os seres humanos, por mais ordeiros e respeitadores da lei que fossem.
— Para finalizar, Frei Pavel — disse o Inquisidor — diga-nos o que sabe sobre onde se encontra a criança atualmente.
— Ela está nas mãos da Sra. Coulter — respondeu Frei Pavel. — E estão no Himalaia. Até o momento, isso foi tudo o que consegui descobrir. Irei imediatamente pedir uma localização mais precisa e tão logo a tiver comunicarei ao Tribunal, mas...
Ele se calou, se encolhendo de medo, e levou o copo até os lábios com a mão trêmula.
— Sim, diga, Frei Pavel — pediu o Padre MacPhau. — Não esconda nada.
— Senhor Presidente, creio que a Sociedade da Obra do Espírito Santo sabe mais a respeito disso do que eu. — A voz de Frei Pavel estava tão baixa que era quase um sussurro.
— É verdade? — perguntou o Presidente, seus olhos parecendo irradiar sua paixão, enquanto faiscavam.
O dimon de Frei Pavel emitiu um pequeno coaxar. O religioso tinha conhecimento da rivalidade entre as duas divisões do Magisterium, e sabia que ser apanhado no fogo cruzado entre elas seria muito perigoso, mas esconder as informações que conhecia seria ainda mais perigoso.
— Eu acredito — prosseguiu, tremendo — que estão mais próximos de descobrir, exatamente, onde a criança está. Eles dispõem de outras fontes de conhecimento que me são proibidas.
— Sem dúvida — concordou o Inquisidor. — E o aletiômetro lhe falou a respeito disso?
— Falou sim.
— Muito bem. Frei Pavel, deve continuar a seguir esta linha de investigação. Se precisar de qualquer coisa em termos de assistência religiosa ou de secretariado, é só pedir. Por favor, pode descer.
Frei Pavel fez um mesura, e com seu dimon rã no ombro, reuniu suas anotações, e saiu da sala de audiência. As freiras flexionaram os dedos. O Padre MacPhail tamborilou com um lápis no tampo de carvalho da mesa à sua frente.
— Irmã Agnes, Irmã Mônica — disse — podem se retirar agora. Por favor, deixem a transcrição sobre a minha mesa de trabalho ao final do dia.
As duas freiras assentiram baixando a cabeça e se foram.
— Cavalheiros — disse o Presidente, pois esta era a forma de tratamento no Tribunal Consistorial — vamos suspender a sessão.
Os 12 membros, do mais velho (Padre Makepwe, muito idoso, de olhos remelentos) ao mais jovem (Padre Gomez, pálido e trêmulo de zelo fanático), reuniram suas anotações e seguiram o Presidente até a câmara do conselho, onde poderiam encarar uns aos outros sentados à mesa e conversar com a mais absoluta privacidade.
O atual Presidente do Tribunal Consistorial era um escocês chamado Hugh MacPhail. Havia sido eleito jovem: o cargo de presidente era vitalício e ele estava apenas com 40 e poucos anos, de modo que esperava-se que o Padre MacPhail moldasse o destino do Tribunal Consistorial e, dessa maneira, de toda a Igreja, por muitos anos ainda. Era um homem de feições sombrias, alto e imponente, com uma massa de cabelos crespos grisalhos, e teria sido gordo não fosse pela disciplina brutal que impunha a seu corpo: só bebia água e só comia pão e frutas, além disso, praticava exercícios diariamente, uma hora por dia, sob a supervisão de um treinador de atletas campeões. Em resultado disso, era esquelético, mas com a musculatura bem delineada, enrugado e irrequieto. Seu dimon era um lagarto.
Depois que estavam sentados, o Padre MacPhail disse:
— De modo que este é o estado atual das coisas. Parece haver vários pontos que devemos ter em mente.
“Em primeiro lugar, Lorde Asriel. Uma bruxa simpática à Igreja relatou que ele está reunindo um grande exército, incluindo forças que podem ser angelicais. Suas intenções, até onde a bruxa tem conhecimento, são malévolas com relação à Igreja e com relação à própria Autoridade.
“Em segundo lugar, o Conselho de Oblação. As ações deles ao criar o programa de pesquisa em Bolvangar e ao financiar as atividades da Sra. Coulter sugerem que estão na esperança de substituir o Tribunal Consistorial de Disciplina como o braço mais poderoso e eficaz da Santa Igreja. Fomos passados para trás, cavalheiros. Eles agiram impiedosa e habilmente. Deveríamos nos sentir repreendidos por nossa lassidão ao permitir que isso acontecesse. Voltarei a abordar o que poderíamos fazer a respeito disso brevemente.
“Em terceiro lugar, o garoto mencionado no depoimento de Frei Pavel, com a faca que pode fazer aquelas coisas extraordinárias. Claramente, devemos encontrá-lo e nos apoderar da faca o mais rápido possível.
“Em quarto lugar, o Pó. Tomei providências para descobrir o que o Conselho de Oblação sabe a respeito do assunto. Um dos teólogos experimentais trabalhando em Bolvangar foi persuadido a nos contar exatamente o que eles descobriram. Conversarei com ele hoje à tarde, lá embaixo.”
Um ou dois padres se mexeram incomodados, pois “lá embaixo” significava os porões no subsolo do prédio: salas de ladrilhos brancos, com tomadas para passagem de corrente anbárica, à prova de som e com bom escoamento de líquidos.
— Contudo, independentemente do que descobrirmos a respeito do Pó — prosseguiu o Presidente — devemos manter nosso propósito em mente com muita firmeza. O Conselho de Oblação fez esforços para compreender os efeitos do Pó: nós devemos destruí-lo totalmente. Nada menos que isso. Se, para destruir o Pó, também tivermos de destruir o Conselho de Oblação, o Colegiado dos Bispos, todas as agências individuais através das quais a Santa Igreja faz o trabalho da Autoridade, assim seja. Pode ser, cavalheiros, que a própria Santa Igreja tenha sido criada para realizar exatamente esta tarefa e para perecer ao fazê-lo. Mas melhor um mundo sem Igreja e sem Pó que um mundo onde a cada dia temos que lutar sob o fardo odioso do pecado. Melhor um mundo purgado de tudo isso!
Com os olhos faiscantes, o Padre Gomez assentiu apaixonadamente.
— E, finalmente — disse o Padre MacPhail — a criança. Ainda apenas uma criança, creio. Essa Eva, que será tentada e que, se a precedente de alguma forma servir de exemplo, cairá e cederá à tentação, e sua queda trará a ruína de todos nós. Cavalheiros, de todas as maneiras de lidar com o problema que ela representa para nós, vou propor a mais radical e tenho confiança em que obterei sua concordância — depois de uma breve pausa, ele prosseguiu. — Proponho que enviemos um homem para encontrá-la e matá-la antes que ela possa ser tentada.
— Padre Presidente — interveio o Padre Gomez imediatamente — venho fazendo penitências por antecipação todos os dias de minha vida adulta. Estudei, treinei...
O Presidente levantou a mão. Penitência e absolvição antecipadas eram doutrinas pesquisadas e desenvolvidas pelo Tribunal Consistorial, mas não conhecidas pela grande maioria dos membros da Igreja. Implicavam fazer penitência por um pecado ainda não cometido, penitência fervorosa e intensa, acompanhada por castigos e auto-flagelação, de maneira a acumular, por assim dizer, uma reserva de crédito. Quando a penitência tivesse atingido o nível apropriado para um pecado em particular, o penitente recebia a absolvição antecipada, embora pudesse nunca ser conclamado a cometer o pecado. Por vezes, era necessário matar pessoas, por exemplo: e era muito menos perturbador para o assassino se ele pudesse fazê-lo em estado de graça.
— Eu havia pensado em você — o Padre MacPhail retrucou gentilmente. — Então tenho o acordo do Tribunal? Sim. Quando o Padre Gomez partir, com nossa bênção, ele estará sozinho, não poderá ser contatado ou chamado de volta. Independentemente do que acontecer com qualquer outra coisa, ele seguirá seu caminho como a flecha de Deus, seguindo direto para a criança, e a abaterá. Ele será invisível, chegará à noite, como o anjo que destruiu os assírios, será silencioso. Quão melhor seria para todos nós se tivesse havido um Padre Gomez no jardim do Éden! Nunca teríamos saído do paraíso.
O jovem padre estava quase chorando de orgulho. O Tribunal concedeu sua bênção.
E, no canto mais escuro do teto, escondido entre as vigas escuras de carvalho, estava sentado um homem do tamanho de um palmo. Seus calcanhares estavam armados com esporas e ele ouviu todas as palavras que eles disseram.


Nos porões, o homem de Bolvangar, vestindo apenas uma camisa branca suja e calças frouxas, sem cinto, estava de pé sob a lâmpada, segurando as calças com uma das mãos e seu dimon coelho com a outra. Diante dele, na única cadeira, sentava-se o Padre MacPhail.
— Dr. Cooper — começou o Presidente — por favor, sente-se.
Não havia mobília exceto a cadeira, o catre de madeira e um balde. A voz do Presidente ecoou desagradavelmente nos ladrilhos brancos que revestiam a parede e o teto.
O Dr. Cooper sentou no catre. Não conseguia tirar os olhos do rosto esquálido, de cabelos grisalhos, do Presidente. Lambeu os lábios ressecados e esperou para ver que nova provação estaria por vir.
— Então, quase teve sucesso em fazer o corte e separar a criança de seu dimon? — perguntou Padre MacPhail.
Com a voz trêmula, o Dr. Cooper respondeu:
— Chegamos à conclusão que não adiantaria nada esperar, uma vez que a experiência deveria se realizar de qualquer maneira, e pusemos a criança na câmara experimental, mas então a Sra. Coulter interveio pessoalmente e levou a criança para seus aposentos.
O dimon coelho abriu os olhos redondos e lançou um olhar assustado para o Presidente, depois tornou a fechá-los e escondeu o rosto.
— Isso deve ter sido aflitivo — comentou o Padre MacPhail.
— O programa todo era tremendamente difícil — disse o Dr. Cooper, apressando-se em concordar.
— Fico surpreendido que não tenham procurado a ajuda do Tribunal Consistorial, onde temos nervos de aço.
— Nós... Eu... nós tínhamos conhecimento de que o programa havia sido autorizado pelo... Era um assunto do Conselho de Oblação, mas disseram-nos que tinha a aprovação do Tribunal Consistorial de Disciplina. Caso contrário, nunca teríamos participado. Nunca!
— Não, é claro que não. E agora, passando para uma outra questão. Vocês tinham alguma ideia — disse Padre MacPhail, abordando o verdadeiro tema de sua visita — do que tratavam as pesquisas de Lorde Asriel? De qual poderia ter sido a fonte da energia colossal que ele conseguiu utilizar em Svalbard?
O Dr. Cooper engoliu em seco. No silêncio, uma gota de suor caiu de seu queixo para o chão de concreto e ambos os homens a ouviram nitidamente.
— Bem... — começou ele — houve alguém em nossa equipe que observou que durante o processo de corte havia uma liberação de energia. Controlá-la envolveria forças imensas, mas, exatamente como uma explosão atômica é detonada por explosivos convencionais, isto poderia ser feito através da concentração de uma poderosa corrente anbárica... Contudo, ele não foi levado a sério. Eu não dei atenção a suas ideias — acrescentou com sinceridade — por saber que sem a devida autorização seriam heréticas.
— Muito prudente. E este colega agora, onde está?
— Ele foi um dos que morreram durante o ataque.
O Presidente sorriu. Era uma expressão tão gentil que o dimon do Dr. Cooper estremeceu e desmaiou em seu peito.
— Coragem, Dr. Cooper — disse o Padre MacPhail. — Precisamos que seja forte e bravo! Há um trabalho muito importante a ser feito e uma grande batalha a ser travada. Precisa merecer o perdão da Autoridade através de plena cooperação conosco, sem nos esconder nada, nem mesmo especulações insensatas, nem sequer disse-me-disse. Agora quero que dedique toda a sua atenção ao que se recorda de ter ouvido seu colega dizer. Ele chegou a conduzir alguma experiência? Deixou anotações? Relatou suas ideias a mais alguém? Que tipo de equipamento estava usando? Pense em tudo, Dr. Cooper. Terá uma caneta e papel e todo o tempo de que precisar.
“E esta sala não é muito confortável. Vou mandar transferi-lo para um local mais adequado. Há alguma outra coisa de que precise, alguma peça de mobiliário, por exemplo? Prefere escrever sobre uma mesa ou uma escrivaninha? Gostaria de uma máquina de escrever? Ou será que prefere ditar para uma estenógrafa?
“Diga aos guardas o que quer e terá tudo o que precisar. Mas em todos os momentos, Dr. Cooper, quero que pense em seu colega e se lembre de sua teoria. Sua grande tarefa é se recordar e, se necessário, redescobrir o que ele sabia. Depois que souber de que instrumentos vai precisar, também os receberá. É uma tarefa importante, Dr. Cooper! É uma bênção que lhe tenha sido confiada! Agradeça à Autoridade.”
— Eu agradeço, Padre Presidente! Agradeço!
Agarrando a cintura frouxa de suas calças, o filósofo se levantou e fez uma mesura, quase sem perceber, depois continuou fazendo mesuras enquanto o Presidente do Tribunal Consistorial de Disciplina deixava a cela.


Naquela noite, o Cavaleiro Tialys, o espião galivespiano, foi seguindo seu caminho pelas ruas e vielas de Genebra para se encontrar com sua colega, Lady Salmakia. Era uma jornada perigosa para ambos: perigosa para qualquer um ou qualquer coisa que tentasse impedi-los também, mas certamente cheia de perigos para os pequeninos galivespianos. Mais de um gato à espreita havia encontrado a morte em suas esporas, mas apenas uma semana antes o Cavaleiro quase perdera o braço para os dentes de um cachorro vira-lata, só a ação rápida da Lady o salvara.
Eles se encontraram no sétimo dos locais combinados de encontro, entre as raízes de um plátano, numa pracinha maltratada, e trocaram as notícias. O contato de Lady Salmakia na Sociedade lhe relatara que um pouco antes, naquela noite, tinham recebido um convite amistoso do Presidente do Tribunal Consistorial para se reunirem e discutirem questões de interesse mútuo.
— Trabalho rápido — comentou o Cavaleiro. — Contudo, aposto 100 contra um que ele não vai falar a respeito de seu assassino.
Contou a ela sobre o plano para matar Lyra. Não ficou surpreendida.
— É a coisa lógica a fazer — observou. — São pessoas muito lógicas. Tialys, acha que algum dia veremos essa criança?
— Não sei, mas eu gostaria de ver. Boa sorte, Salmakia. Amanhã, na fonte.
Naquelas últimas breves palavras, não havia sido mencionada a única coisa a respeito da qual eles nunca falavam: o breve tempo que tinham de vida, se comparado com o tempo de vidas humanas. Os galivespianos viviam nove ou dez anos, raramente mais, e Tialys e Salmakia já estavam em seu sétimo ano de vida. Eles não temiam a velhice, a gente de seu povo morria na plenitude da força e do vigor, repentinamente, e tinham uma infância muito breve, mas, comparada à deles, a vida de uma criança como Lyra se estenderia tão longe no futuro como a vida das bruxas se estendia muito além da vida de Lyra.
O Cavaleiro retornou para a Faculdade de São Jerônimo e começou a redigir a mensagem que enviaria para Lorde Roke através do magneto ressonante.
Mas enquanto ele estava no local do encontro, conversando com Salmakia, o Presidente tinha mandado chamar o Padre Gomez. Em seu estúdio, os dois rezaram juntos durante uma hora e então o Presidente concedeu ao jovem padre a absolvição antecipada que transformaria o assassinato de Lyra em algo que não era de forma alguma assassinato. O Padre Gomez parecia transfigurado, a certeza que pulsava em suas veias parecia tornar incandescentes até mesmo seus olhos.
Discutiram questões práticas como dinheiro, e assim por diante, e então o Presidente disse:
— Depois que sair daqui, Padre Gomez, estará completamente isolado, para sempre, de qualquer auxílio que possamos dar. Nunca poderá voltar, nunca mais terá notícias nossas. Não posso lhe dar melhor conselho do que o seguinte: não procure a criança. Isto revelaria suas intenções. Em vez disso, procure a tentadora. Siga a tentadora e ela o conduzirá à criança.
— Ela? — perguntou o Padre Gomez chocado.
— Sim, ela — confirmou o Padre MacPhail. — Descobrimos muita coisa através do aletiômetro. O mundo de onde vem a tentadora é um mundo estranho. Verá muitas coisas que o surpreenderão, Padre Gomez. Não permita que essas coisas estranhas o distraiam da tarefa sagrada que tem que cumprir. Eu tenho fé — acrescentou gentilmente — na força de sua fé. A mulher está vagando, guiada pelos poderes de mal, para um lugar onde poderá, finalmente, encontrar a criança a tempo de oferecer-lhe a tentação. Isto é, claro, se não tivermos sucesso em acabar com a menina no local onde se encontra atualmente. Este permanece sendo nosso primeiro plano. O senhor, Padre Gomez, é nossa derradeira garantia de que, se isso falhar, ainda assim os poderes infernais não vencerão.
O Padre Gomez assentiu. Seu dimon, um grande besouro de dorso verde iridescente, estalou os élitros. O Presidente abriu uma gaveta e entregou ao jovem padre um maço de documentos dobrados.
— Aqui está tudo o que sabemos sobre a mulher — disse — e o mundo de onde ela vem, o lugar onde foi vista pela última vez. Lê com atenção, meu caro Luís, e vá com minha bênção.
Ele nunca havia usado o nome de batismo do padre antes. Padre Gomez sentiu lágrimas de alegria arderem em seus olhos enquanto dava um beijo de despedida no Presidente.


... você é Lyra.
Então ela compreendeu o que aquilo significava. Sentiu-se tonta, mesmo em seu sonho, sentiu um grande fardo se acomodar sobre seus ombros. E para torná-lo ainda mais pesado, o sono estava ficando de novo mais intenso e o rosto de Roger estava começando a se desfazer em sombra.
— Bem, eu sei... eu sei... Há uma porção de gente diferente do nosso lado, como a Dra. Malone... sabe que existe uma outra Oxford, Roger, exatamente como a nossa? Bem, ela... eu a encontrei na... Ela ajudaria... Mas existe apenas uma pessoa em quem realmente...
Agora havia se tornado quase impossível para ela ver o garotinho, e seus pensamentos estavam se espalhando e se dispersando como ovelhas num campo.
— Mas podemos confiar nele, Roger, juro — disse, fazendo um esforço final.

3 comentários:

  1. O que aconteceu com a Dra Marlone depois daquilo mesmo?

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    1. Acho que não chegou a mostrar pra onde ela foi. Mas logo ela aparece.
      E essa foto 😱

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  2. Será que a Dra Marlone é a tentadora? O que será que ela vai oferecer a Lira?o.O

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Boa leitura :)