11 de fevereiro de 2017

5. Papel de carta via aérea

— Will! — Lyra chamou.
Ela falou em tom baixo, mas mesmo assim ele levou um susto: a menina estava sentada no banco ao lado dele, e ele nem percebera!
— De onde você surgiu?
— Encontrei o meu Catedrático! Na verdade, é uma Catedrática. Ela se chama Dra. Malone. E tem uma máquina que consegue enxergar o Pó e ela vai fazer a máquina falar...
— Nem vi você chegar!
— Porque não estava prestando atenção — ela explicou. — Devia estar pensando em outra coisa. Ainda bem que eu vi você. Escute, é fácil enganar as pessoas. Veja...
Dois policiais em patrulha vinham na direção deles: um homem e uma mulher, com as camisas brancas da farda de verão, com seus rádios, seus cassetetes e seus olhos cheios de suspeitas. Antes que chegassem perto, Lyra estava de pé falando com eles.
— Por favor, pode me dizer onde fica o museu? — pediu. — Meu irmão e eu ficamos de encontrar nossos pais lá, e nos perdemos.
O policial olhou para Will, e o menino, controlando a raiva, deu de ombros como se dissesse: ela tem razão, nós nos perdemos, não foi uma tolice? O homem sorriu. A mulher perguntou:
— Qual museu? O Ashmoleano?
— Esse mesmo — disse Lyra, e fingiu escutar cuidadosamente as instruções que a mulher lhe dava.
Will levantou-se e agradeceu, e afastou-se com Lyra. Não olharam para trás, mas os policiais já tinham perdido o interesse neles.
— Viu só? Se estavam procurando você, eu atrapalhei — disse Lyra. — Porque eles não estão procurando alguém com uma irmã. É melhor eu ficar com você de agora em diante — continuou, em tom de reprimenda, depois de virarem a esquina. — Não está seguro sozinho.
Ele não respondeu. Seu coração batia forte, de raiva.
Seguiram em frente, na direção de um prédio redondo com um grande domo de chumbo, situado numa praça rodeada de prédios universitários cor de mel, uma igreja e árvores de grandes copas acima de altos muros. O sol da tarde realçava os tons mais quentes, e o ar estava repleto disso tudo, quase da cor de vinho dourado. Todas as folhas estavam imóveis, e naquela pracinha até mesmo o ruído do trânsito era abafado. Ela finalmente tomou consciência do estado de espírito de Will e perguntou:
— Qual é o problema?
— Se falar com as pessoas, você atrai a atenção delas — disse ele, em voz trêmula. — Devia ter ficado quieta, parada, e eles não iam prestar atenção. Fiz isso a minha vida inteira. Sei fazer isso. Do seu jeito, você só consegue... se fazer visível. Não devia fazer isso. Não devia brincar com isso. Você não está sendo séria.
— Você acha? — fez ela, e sua raiva explodiu. — Acha que não sei mentir? Sou a melhor mentirosa que já existiu. Mas não minto para você, e nunca mentirei, eu juro. Você está em perigo, e se eu não tivesse feito aquilo naquela hora você teria sido preso. Não viu que estavam olhando para você? Estavam, sim. Você não é cuidadoso. Se quer a minha opinião, é você que não é sério.
— Se eu não sou sério, que é que estava fazendo, esperando você, quando podia estar a quilômetros de distância? Ou escondido, em segurança, naquela cidade? Tenho as minhas coisas para resolver, mas estou plantado aqui para poder ajudar você. Não me diga que não sou sério.
— Você tinha que atravessar — ela retrucou, furiosa. Ninguém podia falar com ela assim, era uma aristocrata. Era Lyra. — Você precisava, senão não ia descobrir nada sobre o seu pai. Você fez isso por sua causa, não por mim.
Estavam discutindo apaixonadamente, mas em voz baixa, por causa do silêncio da praça e das pessoas que passavam.
Quando ela disse isso, porém, Will estacou. Teve que se encostar no muro atrás de si. Tinha o rosto pálido.
— O que é que você sabe do meu pai? — perguntou baixinho.
Ela respondeu no mesmo tom:
— Não sei nada de nada. Tudo que sei é que você está procurando por ele. Foi só isso que eu perguntei.
— Perguntou? A quem?
— Ao aletiômetro, é claro.
Ele levou um instante para se lembrar. E então pareceu tão zangado e desconfiado que ela pegou o aletiômetro na mochila e disse:
— Está bem, vou lhe mostrar.
Sentou-se no muro de pedra em volta ao gramado no meio da praça, inclinou a cabeça sobre seu instrumento dourado e pôs-se a girar os ponteiros, movendo os dedos quase depressa demais para a vista, e fez uma pausa de alguns segundos enquanto o ponteiro mais fino girava no mostrador, parando aqui e ali, ela então tornou a mover os ponteiros com a mesma rapidez para uma nova posição. Will olhou em volta cautelosamente, mas não havia ninguém perto para ver; um grupo de turistas olhava para o domo no alto do prédio, um sorveteiro empurrava seu carrinho ao longo da calçada, mas ninguém prestava atenção neles.
Lyra pestanejou e suspirou, como se despertasse.
— A sua mãe está doente, mas está em segurança — disse em voz baixa. — Uma mulher está tomando conta dela. E você pegou umas cartas e fugiu. E um homem, acho que era um ladrão, você matou ele. E está procurando o seu pai, e...
— Está bem, cale a boca — disse Will. — Chega. Você não tem o direito de revistar a minha vida desse jeito. Nunca mais faça isso. Isso é espionagem.
— Eu sei a hora de parar de perguntar — ela retrucou. — Sabe, o aletiômetro é quase como uma pessoa. Eu sei mais ou menos quando ele vai ficar zangado ou quando não quer que eu saiba de alguma coisa. Eu sinto. Mas quando você surgiu do nada ontem, eu tinha que perguntar quem você era, para saber se eu estava segura. Tinha que fazer isso. E ele disse... — Ela baixou mais ainda a voz. — Ele disse que você era um assassino, e eu pensei: que bom, isto é ótimo, posso confiar nele. Mas não perguntei mais nada até agora, e se você não quiser que eu pergunte, prometo que não vou fazer isso. O aletiômetro não é um aparelho de bisbilhotice. Se eu simplesmente espionasse os outros, ele pararia de funcionar. Sei disso tão bem quanto conheço a minha Oxford.
— Você poderia ter perguntado a mim, em vez de perguntar a essa coisa. Ele disse se o meu pai está vivo ou morto?
— Não, porque eu não perguntei.
Estavam ambos sentados. Will, exausto, descansou a cabeça nas mãos.
— Bem, acho que vamos ter que confiar um no outro — disse finalmente.
— Tudo bem. Eu confio em você.
Will assentiu desanimado. Estava muito cansado, e não havia a menor possibilidade de dormir naquele mundo. Lyra não costumava ser tão perceptiva, mas alguma coisa no jeito dele a fez pensar: ele está com medo, mas está dominando o medo, como Iorek Byrnison disse que temos que fazer; como eu fiz na peixaria junto ao lago congelado.
— Will, não vou contar seu segredo a ninguém. Prometo — ela acrescentou.
— Ótimo.
— Uma vez eu fiz isso. Traí uma pessoa. E foi a pior coisa que já fiz. Na verdade, pensei que estava salvando a vida dele, só que estava levando ele direto para o lugar mais perigoso que poderia existir. Fiquei com ódio de mim mesma por isso, por ter sido tão idiota. De modo que vou tentar com todas as minhas forças não ser descuidada, nem me distrair e denunciar você sem querer.
Ele não respondeu; esfregou os olhos e pestanejou várias vezes, para tentar manter-se acordado.
— Não podemos atravessar a janela tão cedo — disse. — Foi imprudência termos atravessado durante o dia. Não podemos arriscar que alguém veja. E agora temos que esperar horas...
— Estou faminta — Lyra declarou.
— Já sei! — exclamou ele então. — Podemos ir ao cinema!
— Ao quê?
— Vou lhe mostrar. Lá poderemos comer alguma coisa, também.
Havia um cinema perto do centro da cidade, a 10 minutos de distância. Will pagou a entrada de ambos e comprou cachorros-quentes, pipocas e Coca-Cola. Os dois se acomodaram na plateia bem na hora em que o filme ia começar.
Lyra ficou maravilhada. Já tinha visto fotogramas projetados, mas nada no mundo dela a tinha preparado para o cinema. Ela engoliu o cachorro-quente e as pipocas, bebeu de uma vez a Coca-Cola e ficou a exclamar e rir de prazer diante das personagens na tela. Felizmente a plateia era ruidosa, cheia de crianças, e a empolgação dela não chamou atenção. Will logo fechou os olhos e adormeceu.
Acordou ao ouvir o ruído das pessoas saindo, e pestanejou por causa da luz acesa. Seu relógio mostrava 20h15. Lyra saiu do cinema com relutância.
— Foi a melhor coisa que já vi em toda a minha vida — disse ela. — Sei lá por que nunca inventaram isso no meu mundo. Lá algumas coisas são melhores do que aqui, mas isto é melhor do que qualquer coisa que a gente tenha lá.
Will sequer conseguia lembrar o nome do filme. Do lado de fora ainda estava claro, e as ruas estavam movimentadas.
— Quer ver outro?
— Claro!
Então foram ao cinema seguinte, a poucas centenas de metros virando a esquina, e fizeram a mesma coisa. Lyra acomodou-se com os pés sobre o assento, abraçada ao joelho, e Will deixou a mente vagar. Quando saíram, dessa vez, eram quase 23h, muito melhor.
Lyra estava com fome novamente, então compraram hambúrgueres numa carrocinha e comeram enquanto caminhavam — outra novidade para ela.
— Nós sempre nos sentamos para comer. Nunca vi alguém comer andando — ela contou. — Este lugar aqui é diferente em muitas coisas. O trânsito, por exemplo. Não gosto. Gostei do cinema e de hambúrguer. Gostei muito. E aquela Catedrática, a Dra. Malone, ela vai fazer aquela máquina usar palavras. Sei que vai. Amanhã vou voltar lá e ver como ela está indo. Aposto que posso ajudar. Eu poderia provavelmente fazer os Catedráticos lhe darem o dinheiro que ela quer, também. Sabe como o meu pai fez isso? O Lorde Asriel? Ele os enganou...
Enquanto seguiam pela Rua Banbury, ela contou sobre a noite em que se escondeu no armário e viu Lorde Asriel mostrar aos Catedráticos da Jordan a cabeça decepada de Stanislaus Grumman na caixa térmica. Como Will era um ótimo ouvinte, Lyra foi em frente e contou-lhe o resto da sua história, desde a fuga do apartamento da Sra. Coulter até o momento horrível em que ela percebeu que tinha levado Roger para a morte nos penhascos gelados de Svalbard. Will escutou sem fazer comentários, mas prestando atenção, solidário.
A narrativa da viagem num balão, de bruxas e ursos de armadura, de um braço vingativo da Igreja, tudo parecia combinar com seu próprio sonho fantástico de uma linda cidade à beira-mar, deserta, silenciosa e segura: não podia ser verdade, simplesmente.
Mas finalmente chegaram ao trevo e aos carpinos. Havia pouco trânsito: um carro a cada minuto, não mais que isso.
E lá estava a janela no ar. Will sorriu: ia dar tudo certo.
— Espere até não vir carro — instruiu. — Vou atravessar agora.
E no instante seguinte ele estava no gramado sob as palmeiras, e logo em seguida Lyra veio atrás.
Sentiam-se como se estivessem em casa. A noite cálida, o cheiro de flores e do mar, o silêncio — tudo isso os engolfava como um banho de água calmante.
Lyra espreguiçou-se e bocejou, e Will sentiu-se livre de um grande peso. Passara o dia inteiro carregando esse peso, e não tinha percebido o esforço que vinha fazendo; mas agora sentia-se leve, livre e em paz. E então Lyra agarrou-lhe o braço com força. No mesmo segundo ele ouviu o motivo desse gesto. Em algum lugar, numa das ruelas atrás do café, alguma coisa berrava.
Will partiu de imediato naquela direção e Lyra seguiu-o por um beco escuro, escondido do luar. Depois de várias curvas e voltas, eles surgiram na praça diante da torre de pedra que tinham visto pela manhã. Cerca de 20 crianças faziam um semicírculo na base da torre, e algumas seguravam pedaços de pau, outras jogavam pedras no que quer que estava encurralado contra a parede da torre. A princípio Lyra achou que era outra criança, mas de dentro do semicírculo vinha um ganido horrível que não era humano. E as crianças também gritavam de medo e de ódio. Will correu até lá e puxou uma delas pelo ombro. Era um menino mais ou menos da sua idade, usando uma camiseta listrada. Quando ele se virou, Lyra viu as estranhas bordas brancas em volta das pupilas dele; então as outras crianças perceberam o que estava acontecendo e pararam para olhar.
Angélica e seu irmãozinho também estavam lá, com pedras nas mãos, e os olhos de todas as crianças brilhavam ferozmente ao luar. Ficaram todos em silêncio. Só o ganido continuava, e então Will e Lyra viram o que era: uma gata encolhida contra a parede da torre, a orelha rasgada e a cauda torcida. Era a gata que Will tinha visto na Avenida Sunderland, aquela que se parecia com Moxie, aquela que o levara à janela. Assim que ele a viu, jogou para o lado o menino que estava segurando pelo ombro. O garoto caiu no chão, mas levantou-se em seguida, furioso; mas os outros o contiveram.
Will já estava ajoelhado junto à gata.
E logo ela estava em seus braços. Quando ela saltou para o peito dele, ele a segurou junto ao corpo e ergueu-se para enfrentar as crianças; por um segundo Lyra teve a ideia louca de que o dimon dele tinha finalmente aparecido.
— Por que estão machucando esta gata? — ele perguntou.
Ninguém soube responder. Todos tremiam diante da raiva de Will, ofegantes, segurando seus paus e pedras, e não conseguiam falar . Mas então a voz de Angélica soou com clareza:
— Você não é daqui! Não é de Ci’gazze! Não sabia dos Espectros, não sabe dos gatos também. Não é como nós!
O menino de camiseta listrada que Will tinha derrubado estava cheio de vontade de lutar, e se não fosse pelo gato nos braços de Will ele o teria atacado com punhos, dentes e pés, e Will adoraria entrar nessa briga: havia uma corrente elétrica de ódio entre os dois que apenas a violência conseguiria dissipar. Mas o menino tinha medo da gata.
— De onde você veio? — ele perguntou em tom de desprezo.
— Não importa de onde nós viemos. Se estão com medo desta gata, eu vou levar ela para longe de vocês. Se ela para vocês é sinal de azar, para nós será de sorte. Agora saiam da frente.
Por um instante Will pensou que o ódio deles seria maior do que o medo, e estava prestes a colocar a gata no chão e lutar, mas então ouviu-se um rosnado baixo e forte vindo de trás das crianças, elas se viraram e viram Lyra de pé com a mão no ombro de um enorme leopardo pintado, cujos dentes brilhavam quando ele rosnava. Até mesmo Will, que reconheceu Pantalaimon, ficou assustado por um segundo. O efeito nas crianças foi drástico: elas fugiram imediatamente.
Segundos depois a praça estava deserta. Mas antes de se afastar de lá, Lyra olhou para o alto da torre.
Um rosnado de Pantalaimon a fez fazer isso, e por um segundo ela viu alguém lá bem no alto, olhando por cima das ameias, e não era uma criança, mas um rapaz de cabelos cacheados.
Meia hora depois, estavam no apartamento em cima do café. Will tinha encontrado uma lata de leite condensado, que a gata bebeu com ar faminto, pondo-se depois a lamber suas feridas. Pantalaimon tinha se tornado um gato, por curiosidade, e a princípio a gata tinha se arrepiado, cheia de suspeitas, mas logo percebeu que, fosse o que fosse Pantalaimon, não era um gato de verdade nem uma ameaça, e passou a ignorá-lo.
Lyra observou com fascinação Will cuidar da gata. Os únicos animais que ela vira de perto em seu mundo (além dos ursos de armadura) eram animais de trabalho: os gatos serviam para manter a Jordan livre dos ratos, não para animais de estimação.
— Acho que a cauda dela está quebrada — disse Will. — Não sei o que fazer. Talvez se cure sozinha. Vou colocar um pouco de mel na orelha dela. Li em algum lugar que é antisséptico...
Foi uma operação melada, mas pelo menos aquilo ia manter a gata ocupada lambendo o mel, e a ferida ia ficando cada vez mais limpa.
— Tem certeza que foi esta que você viu? — Lyra perguntou.
— Ah, tenho, sim. E, além disso, se todos aqui têm tanto medo, não deve haver gatos neste mundo. Ela com certeza não conseguiu encontrar o caminho de volta.
— Pareciam loucos — Lyra comentou. — Iam matar a coitadinha. Nunca vi crianças agindo assim.
— Eu já — disse Will.
Mas sua expressão era sombria: era evidente que ele não queria falar sobre aquilo, e ela achou melhor não perguntar. Sabia que não devia perguntar sequer ao aletiômetro. Estava muito cansada, de modo que logo foi para a cama e adormeceu.


Pouco mais tarde, quando a gata enrodilhou-se para dormir, Will pegou uma xícara de café e o escrínio de couro verde, e foi sentar-se na sacada. Havia luz suficiente entrando pela janela e ele queria ler os papéis. Não havia muitos.
Como ele pensava, eram cartas, escritas em papel de via aérea com tinta preta. Aquelas letras tinham sido feitas pela mão do homem que ele tanto queria encontrar; passou os dedos sobre elas muitas vezes e apertou-as contra o rosto, tentando chegar mais perto da essência do seu pai. Então pôs-se a ler.

Fairbanks, Alasca
Quarta-feira, 19 de junho de 1985
Minha querida; a costumeira mistura de eficiência e caos — todas as provisões já chegaram, mas o físico, um idiota genial chamado Nelson, não tomou nenhuma providência para levar seus malditos balões para o alto das montanhas — temos que ficar ociosos enquanto ele procura um transporte. Mas isso serviu para me dar a oportunidade de conversar com um velhote que conheci na expedição passada, um minerador de ouro chamado Jake Petersen — segui o rastro dele até um bar modesto e sob o som de uma partida de beisebol na TV eu lhe perguntei sobre a anomalia.
Ele não queria conversar ali. Me levou ao seu apartamento. Com a ajuda de uma garrafa de Jack Daniels, ele falou durante muito tempo. Ele mesmo não tinha visto, mas tinha conhecido um esquimó que viu, e o cara disse a ele que era uma porta para o mundo dos espíritos, que eles sabem disso há séculos e que faz parte da iniciação de um xamã esquimó atravessar e trazer de volta um troféu qualquer, mas muitos não voltaram. De qualquer maneira, o velho Jake tinha um mapa da região e marcou nele o lugar onde o companheiro disse que a coisa ficava. (Só para garantir: é 69°02’11”N, 157°12’19”0, num contraforte da Serra Lookout, a uns dois ou três quilômetros ao norte do Rio Colville.) Então passamos a conversar sobre outras lendas do Ártico — o navio norueguês que está vagando sem tripulação há 60 anos, coisas assim. Os arqueólogos são uma turma legal, estão ansiosos para começar o trabalho, contendo a impaciência com Nelson e seus balões. Nenhum deles jamais ouviu falar na anomalia, e pode acreditar que vou deixar que isso continue assim.
Muito amor e carinho para vocês dois.
Johnny.


Umiat, Alasca
Sábado, 22 de junho de 1985
Minha querida: e eu que chamei o homem de idiota genial — o físico Nelson não é nada disso, e se não estou enganado ele também está procurando a anomalia. O atraso em Fairbanks foi planejado por ele, dá para acreditar?
Sabendo que o resto da equipe não iria querer esperar por qualquer coisa abaixo de um argumento irrespondível como o transporte, ele pessoalmente mandou cancelar os veículos que tinham sido alugados. Descobri isso por acidente, e ia perguntar que diabos ele estava planejando, mas ouvi quando ele falava com alguém pelo rádio descrevendo a anomalia, só que ele não sabia a localização.
Mais tarde paguei-lhe uma bebida, banquei o soldado meio tapado, o veterano no Ártico, tipo existem mais coisas entre o céu e a terra do que podemos explicar, coisas desse tipo, fingi brincar com ele a respeito das limitações da ciência (aposto que você não consegue explicar o Abominável Homem das Neves etc.).
Fiquei só observando. Então falei da anomalia — uma lenda esquimó de uma porta para o mundo dos espíritos, invisível, em algum lugar perto da Serra Lookout, dá para acreditar, é para onde estamos indo, imagine só. E você sabe que ele teve um choque? Sabia exatamente do que eu estava falando. Fingi que não percebi e passei a falar em bruxaria, contei a história do leopardo do Zaire — espero que ele tenha me tomado por um milico supersticioso. Mas estou certo, Elaine, que ele também está procurando a mesma coisa. A questão é: devo contar a ele ou não?
Tenho que descobrir qual é o jogo dele.
Todo o meu amor e carinho para vocês dois.
Johnny.


Collvile Bar, Alasca
24 de junho de 1985
Querida: não terei oportunidade de enviar outra carta durante algum tempo — esta é a última cidade antes de subirmos para as montanhas, a Serra Brooks. Os arqueólogos estão doidos para chegar lá em cima. Um sujeito está convencido de que vai encontrar provas de habitação humana de período muito anterior ao que se imagina — perguntei de quanto tempo atrás e por que ele estava convencido disso, ele falou de uns entalhes em marfim de narval que ele encontrou numa escavação; pelo carbono 14, eles tinham uma idade inacreditável, muito superior ao que se imaginava antes — uma anomalia, na verdade. Não seria estranho se esses entalhes tivessem vindo de outro mundo através da minha anomalia. Por falar nisso, o físico Nelson agora é o meu maior amigo, brinca comigo, insinua que sabe que eu sei que ele sabe etc. Eu finjo ser o Major Parry, um sujeito confiável durante uma crise, mas não muito dotado de miolos, ora — mas sei que ele está procurando. Para começar, embora ele seja um acadêmico de verdade, sua verba vem do Ministério da Defesa, conheço os códigos financeiros que eles usam. Além disso, os seus balões meteorológicos não são nada disso — espiei dentro do caixote: tem um traje antirradiação, se é que conheço essas coisas. Muito esquisito, minha querida. Vou manter o meu plano: levar os arqueólogos para o destino deles e tirar alguns dias para ir sozinho procurar a anomalia. Se eu esbarrar com Nelson vagando pela Serra Lookout, vou agir segundo as circunstâncias.
Mais tarde — um lance de sorte. Encontrei o esquimó amigo de Jake Petersen, Matt Kigalik. Jake tinha me dito onde encontrá-lo, mas não ousei ter esperança de que ele estivesse lá. Ele me contou que os soviéticos também andaram procurando a anomalia — no início do ano ele encontrou um homem no alto da serra e observou-o por alguns dias sem ser visto, porque adivinhou o que o outro estava fazendo, e tinha razão, e o homem era russo, um espião, ele só me contou isso.
Tive a impressão que ele liquidou com o sujeito. Mas ele me descreveu a coisa. É como um buraco no ar, uma espécie de janela. A gente olha por ela e vê o outro mundo. Mas não é fácil de encontrar, porque aquela parte do outro mundo é parecida com a nossa — pedras, musgo, etc. Fica na margem norte de um regato, uns 50 passos a oeste de uma pedra alta que tem a forma de um urso de pé, e a posição que Jake me forneceu não está correta — é mais 12”N do que 11.
Torça por mim, minha querida. Vou levar para você um troféu do mundo dos espíritos.
Te amo eternamente. Um beijo no garoto.
Johnny.

Os ouvidos de Will zumbiam.
Seu pai estava descrevendo exatamente o que ele próprio tinha descoberto sob os carpinos. Ele também tinha encontrado uma janela — tinha até usado o mesmo nome para ela!
Então devia estar no caminho certo. E era isso que os homens haviam procurado... Então era perigoso, também.
Will tinha um ano de idade quando aquela carta foi escrita. Seis anos depois disso, acontecera aquela manhã no supermercado, quando ele ficou sabendo que a mãe corria um perigo terrível e ele tinha que protegê-la, e então, nos meses seguintes, aos poucos ele percebeu que o perigo estava na mente dela, e por isso tinha que protegê-la mais ainda.
E então, de maneira brutal, a revelação de que afinal nem todo o perigo estava na mente dela. Havia mesmo alguém atrás dela. Depois, essas cartas, essa informação.
Mas ele não tinha ideia do que isso significava. Sentia-se profundamente feliz por compartilhar com o pai uma coisa tão importante; por John Parry e seu filho Will terem, separadamente, descoberto aquela coisa extraordinária. Quando se encontrassem, poderiam conversar sobre isso, e o pai teria orgulho por Will ter seguido seus passos.
A noite estava quieta, e o mar, parado. Ele guardou as cartas e adormeceu.

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