4 de fevereiro de 2017

5. A festa

NOS dias que se seguiram, Lyra foi a toda parte com a Sra. Coulter, quase como se ela própria fosse um dimon. A Sra. Coulter conhecia muita gente, e as duas frequentavam vários tipos de lugar. De manhã podia haver uma reunião de geógrafos no Régio Instituto do Polo Ártico, a que Lyra assistia; depois a Sra. Coulter podia almoçar com um político ou um religioso num restaurante elegante, onde todos eram muito simpáticos com Lyra e lhe ofereciam pratos especiais, e ela aprendia a comer aspargos e o sabor de tripas de carneiro. À tarde talvez fossem às compras, pois a Sra. Coulter estava preparando sua expedição — era preciso comprar peles, lonas e botas à prova d’água, assim como sacos de dormir, facas e instrumentos de desenho que deliciaram Lyra. Depois disso talvez fossem tomar chá com algumas damas tão bem vestidas quanto a Sra. Coulter, embora não tão belas ou talentosas: eram mulheres tão diferentes das Catedráticas, ou das mães de família dos barcos gípcios, ou das criadas das faculdades, que quase pareciam ser de um sexo diferente, com perigosos poderes e qualidades tais como elegância, charme e graça. Lyra se vestia com capricho para essas ocasiões, e as damas a paparicavam, incluindo-a em suas conversas leves e agradáveis, que eram sempre sobre pessoas: um artista, um político, dois amantes.
E quando chegava a noite, a Sra. Coulter talvez levasse Lyra ao teatro, onde também haveria muitas pessoas elegantes com quem conversar e por quem ser admirada, pois parecia que a Sra. Coulter conhecia todas as pessoas importantes de Londres.
Nos intervalos de tantas atividades, a Sra. Coulter ensinava a Lyra os rudimentos de geografia e matemática. A cultura da menina tinha grandes lacunas, como um mapa-múndi roído por ratos, pois na Jordan ela aprendia sem muita ordem: mandavam um Professor-assistente para lhe ensinar certas matérias e ela comparecia às aulas com alguma resistência durante uma semana, mais ou menos, até que “se esquecia” de aparecer, para grande alívio do Professor. Ou então um Catedrático se esquecia do que deveria ensinar a ela e lhe aplicava um curso intensivo sobre o que estivesse pesquisando na época, qualquer coisa que fosse; assim, não é de admirar que seu conhecimento se assemelhasse a uma colcha de retalhos. Ela conhecia alguma coisa sobre átomos e partículas elementares, cargas ambaromagnéticas, as quatro forças fundamentais e mais um ou outro item da teologia experimental, mas nada sobre o sistema solar. Na verdade, quando a Sra. Coulter percebeu isso e lhe explicou que a Terra e os outros cinco planetas giravam ao redor do Sol, Lyra riu da piada.
No entanto, estava ansiosa para mostrar que sabia algumas coisas, e quando a Sra. Coulter estava lhe falando dos elétrons, ela afirmou, com ar sábio:
— É, são partículas com carga negativa. Um pouco parecidos com o Pó, mas o Pó não tem carga.
Assim que ela disse isso, o dimon da Sra. Coulter ergueu a cabeça para olhar para ela, e todos os pelos dourados se eriçaram, como se eles próprios fossem carregados. A Sra. Coulter pousou a mão no dorso do dimon.
— Pó? — ecoou, em tom de pergunta.
— Sim. Do espaço, a senhora sabe. Aquele Pó.
— O que você sabe sobre isso, Lyra?
— Ah, que ele vem do espaço e acende as pessoas; se a gente tiver uma câmera especial, dá para ver. Mas as crianças, não. Ele não afeta as crianças.
— Onde foi que aprendeu isso?
A essa altura, Lyra percebeu que havia uma forte tensão no ar, porque Pantalaimon tinha se esgueirado como um arminho para o colo dela e tremia violentamente.
— Uma pessoa lá na Jordan — disse a menina em tom vago. — Não me lembro quem. Acho que foi um dos Catedráticos.
— Foi durante uma aula?
— É, pode ter sido, ou então pode ter sido dito de passagem. É, acho que foi isso. Aquele Professor, acho que ele era da Nova Dinamarca, estava conversando com o Capelão sobre o Pó e eu estava passando e achei interessante. Então tive que parar e escutar. Foi isso.
— Entendo — disse a Sra. Coulter.
— Está correto o que ele me disse? Eu entendi errado?
— Bem, não sei. Tenho certeza de que você sabe muito mais que eu. Vamos voltar para os elétrons...
Mais tarde Pantalaimon disse:
— Lembra quando o dimon dela se arrepiou todo? Bom, eu estava atrás dele, e ela agarrou a pele dele com tanta força que os nós dos dedos dela ficaram brancos. Não dava para você ver. Demorou muito até ele voltar ao normal. Pensei que ia pular em cima de você.
Aquilo era estranho, sem dúvida, mas nenhum dos dois tinha ideia do porquê. E, finalmente, havia outro tipo de aulas, dadas com tanta sutileza que não pareciam aulas: como lavar os cabelos, como escolher as cores que a favoreciam, como dizer não de maneira tão encantadora que não causasse ofensa, como passar batom, pó, perfume. É verdade que a Sra. Coulter não ensinou estas últimas artes diretamente, mas sabia que Lyra estava observando enquanto ela se maquilava, e tomava cuidado para que Lyra visse onde ela guardava os cosméticos e para lhe deixar um tempo livre para explorar e experimentar aquelas novidades.


O tempo passou, e o outono começou a virar inverno. De vez em quando Lyra pensava na Faculdade Jordan, que lhe parecia pequena e sossegada em comparação com a vida agitada que ela levava agora. De vez em quando, pensava em Roger, também, e ficava inquieta, mas havia sempre uma ópera, ou um vestido novo, ou uma visita ao Régio Instituto do Polo Ártico, e ela tornava a se esquecer dele.
Quando já havia cerca de seis semanas que Lyra morava lá, a Sra. Coulter resolveu dar uma festa. Lyra tinha a impressão de que havia uma coisa a ser comemorada, embora a Sra. Coulter não dissesse o que era. Ela encomendou flores, debateu drinques e canapés com a firma do bufê, passou horas com Lyra decidindo quem convidar.
— Temos que chamar o Arcebispo. Não posso deixá-lo de fora, embora ele seja um velho odiento e esnobe. O Lorde Boreal está na cidade; ele é divertido. E a Princesa Postnikova. Acha que seria correto convidar Erik Andersson? Não sei se já está na hora de admiti-lo...
Erik Andersson era o mais recente dançarino da moda. Lyra não tinha ideia do que significava “admitir”, mas mesmo assim gostava de dar sua opinião. Anotou todos os nomes que a Sra. Coulter sugeriu, com muitos erros de ortografia, depois os rabiscava quando a Sra. Coulter mudava de ideia.
Quando Lyra foi para a cama, Pantalaimon cochichou:
— Ela nunca irá para o Norte! Vai nos prender aqui para sempre. Quando é que vamos fugir?
— Vai, sim — Lyra cochichou de volta. — É que você não gosta dela. Bem, azar o seu; eu gosto. E por que ela ia nos ensinar navegação se não quisesse mesmo nos levar para o Norte?
— Para que você não fique impaciente, só por isso. Não acredito que você vai querer ficar nessa festa toda simpática e bonitinha. Ela está fazendo de você um bichinho de estimação.
Lyra virou para o outro lado e fechou os olhos. Mas o que Pantalaimon tinha dito era verdade: ela vinha se sentindo presa e oprimida por aquela vida de boas maneiras, por mais luxuosa que fosse. A garota daria qualquer coisa por um dia com seus amigos moleques de Oxford, com uma batalha nos Barreiros e uma corrida ao longo do canal. A única coisa que lhe fazia ser educada e atenciosa com a Sra. Coulter era a tentadora esperança de ir para o Norte — talvez encontrassem Lorde Asriel, talvez ele e a Sra. Coulter se apaixonassem, se casassem e adotassem Lyra, e salvassem Roger dos Gobblers.
Na tarde da festa, a Sra. Coulter levou Lyra a um cabeleireiro da moda, onde seus rebeldes cachos louros foram amaciados e penteados, e suas unhas foram lixadas e pintadas; aplicaram-lhe até um pouco de maquilagem nos olhos e nos lábios, para ensinar como fazer isso. Depois elas foram buscar o vestido que a Sra. Coulter tinha mandado fazer para Lyra, e compraram sapatos de verniz; então chegou a hora de voltar para o apartamento, verificar as flores e se vestir.
Lyra saiu do quarto radiante com a sensação da sua própria formosura.
— A bolsa a tiracolo, não, querida — disse a Sra. Coulter.
Lyra tinha o hábito de levar sempre com ela uma bolsinha a tiracolo de couro branco, para ter o aletiômetro sempre perto. A Sra. Coulter, ajeitando um buquê de rosas que tinha sido mal colocado dentro de um vaso, viu que Lyra não se movia e olhou fixamente para a porta.
— Ah, por favor, Sra. Coulter, eu adoro esta bolsa!
— Não dentro de casa, Lyra. É absurdo usar uma bolsa a tiracolo em sua própria casa. Vá guardar isso imediatamente e venha me ajudar a verificar essas taças...
Não foi apenas o tom irritado como também as palavras “dentro de casa” que fizeram Lyra resistir com teimosia. Pantalaimon voou para o chão e imediatamente virou um gambá, arqueando as costas contra as meias soquetes brancas que ela usava. Assim encorajada, Lyra disse:
— Mas ela não vai atrapalhar. E é a única coisa que eu gosto mesmo de usar. Acho que ela realmente combina com...
Ela não terminou a frase, pois o dimon da Sra. Coulter saltou do sofá como um raio dourado e prendeu Pantalaimon no tapete antes que ele pudesse se mover. Lyra soltou uma exclamação de susto, depois de medo e dor, enquanto Pantalaimon se contorcia, guinchando e rosnando, sem conseguir se soltar das garras do macaco dourado. Poucos segundos depois, o macaco o havia dominado: tinha uma das patas negras em volta da garganta de Pantalaimon e as duas patas traseiras prendendo as pernas do gambá; com a outra pata dianteira o macaco agarrou uma das orelhas de Pantalaimon e começou a puxá-la como se quisesse arrancá-la.
Não parecia fazer aquilo com raiva, mas com uma força fria que era horrível de ver e ainda pior de sentir.
Lyra soluçava de terror.
— Não! Por favor! Pare de nos machucar!
A Sra. Coulter ergueu os olhos das flores.
— Então faça o que eu mando — disse.
— Eu prometo!
O macaco dourado largou Pantalaimon, como se de repente se sentisse entediado.
Pantalaimon voou para Lyra, que o pegou no colo para acariciá-lo e beijá-lo.
— Agora, Lyra — disse a Sra. Coulter.
Lyra foi para seu quarto e bateu a porta, mas não demorou nem um instante e a porta estava aberta novamente e a Sra. Coulter estava parada a menos de um metro.
— Lyra, se você se comportar desta maneira grosseira e vulgar, vamos brigar, e eu vou vencer. Largue esta bolsa imediatamente. Desmanche esta careta desagradável. Nunca mais bata uma porta, na minha presença ou longe dela. Agora, os primeiros convidados vão chegar em poucos minutos, e vão achar você simpática, encantadora, inocente, educada, de comportamento impecável. Este é o meu desejo, está me entendendo, Lyra?
— Sim, Sra. Coulter.
— Então me dê um beijo.
Ela se inclinou e ofereceu a face; Lyra teve que ficar na ponta dos pés para beijá-la. Notou a maciez da pele e o cheiro leve e curioso da carne da Sra. Coulter: perfumado, mas um pouco metálico. Ela se afastou e colocou a bolsa sobre a penteadeira, antes de seguir a Sra. Coulter de volta à sala.
— O que está achando das flores, querida? — a Sra. Coulter perguntou como se nada tivesse acontecido. — Escolher rosas é garantia de não errar, mas o exagero pode ficar feio... Será que o pessoal do bufê trouxe gelo suficiente? Por favor, vá verificar. Bebida quente é horrível...
Lyra achou muito fácil fingir estar alegre e ser simpática, embora o tempo todo estivesse consciente da aversão de Pantalaimon e do ódio dele pelo macaco dourado. Em poucos minutos, soou a campainha da porta, e logo a sala estava repleta de senhoras vestidas com elegância e cavalheiros atraentes ou distintos. Lyra andava entre eles oferecendo canapés ou sorrindo com doçura e dando respostas bonitinhas quando falavam com ela. Ela se sentia um bichinho de estimação universal; e no instante em que pensou isso, Pantalaimon estendeu suas asas de pintassilgo e piou bem alto.
Ela sentiu a satisfação dele ao ter acertado, e ficou um pouco mais retraída.
— E onde estuda, querida? — perguntou uma dama idosa, examinando Lyra através de um pincenê.
— Não vou para a escola — respondeu Lyra.
— É mesmo? Pensei que sua mãe teria matriculado você na antiga escola dela. Um lugar bastante satisfatório...
Lyra ficou perplexa, até entender o engano da velha senhora.
— Ah, ela não é minha mãe! Eu sou só a assistente dela. Sou a secretária — disse, em tom importante.
— Entendo. E quem são seus pais?
Mais uma vez Lyra precisou de um tempo para entender o que ela queria dizer, antes de responder:
— Um conde e uma condessa. Morreram num acidente aeronáutico no Norte.
— Que conde?
— O Conde Belacqua. Ele era irmão de Lorde Asriel.
O dimon da dama, uma espécie de papagaio vermelho, mudou de um pé para o outro, como se estivesse irritado. A velha senhora estava começando a mostrar forte curiosidade, de modo que Lyra sorriu com doçura e seguiu em frente.
Estava passando por um grupo de homens e uma mulher jovem perto do sofá grande quando ouviu a palavra “Pó”. A essa altura, ela já conhecia suficientemente a sociedade para perceber quando homens e mulheres estavam paquerando, e observava o processo com fascínio, embora ficasse mais fascinada pela menção do Pó, e ficou por ali para escutar. Os homens pareciam ser Catedráticos; pelo modo como a moça os interrogava, Lyra concluiu que ela era estudante.
— Quem descobriu foi um moscovita, um homem chamado Rusakov — dizia um homem de meia-idade, enquanto a moça o contemplava com admiração. — Se já souber dessas coisas, me avise. Bom, elas costumam ser chamadas de Partículas de Rusakov, por causa dele. Partículas elementares que não interagem com outras de maneira alguma. Muito difíceis de serem detectadas. Mas o extraordinário é que parece que elas são atraídas pelos seres humanos.
— É mesmo? — disse a jovem, arregalando os olhos.
— Ainda mais extraordinário: por alguns seres humanos mais do que por outros — prosseguiu ele. — Os adultos as atraem, mas não as crianças. Pelo menos não muito, e mesmo assim só depois da adolescência. Aliás, foi exatamente por isso... — Ele baixou a voz e chegou mais perto da moça, colocando a mão no ombro dela. — Foi exatamente por isso que o Conselho de Oblação foi criado. Aliás, como a nossa boa anfitriã poderia lhe contar.
— É mesmo? Ela está envolvida com o Conselho de Oblação?
— Minha cara, ela é o próprio Conselho de Oblação. O projeto é inteiramente dela...
O homem ia contar mais alguma coisa quando reparou em Lyra. Ela o encarou sem receio, e talvez ele tivesse bebido um pouco demais, ou talvez estivesse ansioso para impressionar a moça, pois disse:
— Esta senhorita sabe tudo sobre isso, aposto. Você está a salvo do Conselho de Oblação, não está, minha cara?
— Ah, sim — disse Lyra. — Aqui estou a salvo de todo mundo. Onde eu morava, em Oxford, havia todo tipo de coisas perigosas. Havia os gípcios, eles roubam crianças e vendem como escravas para os turcos. E em Port Meadow, na lua cheia, há um lobisomem que sai do velho convento em Godstow. Uma vez eu escutei o uivo dele. E também os Gobblers...
— É disso que estou falando — interrompeu o homem. — É assim que chamam o Conselho de Oblação, não é?
Lyra sentiu Pantalaimon estremecer de repente, mas ele estava muito bem comportado. Os dimons dos dois adultos, uma gata e uma borboleta, pareciam não ter notado.
— Gobblers? — repetiu a moça. — Que nome estranho! Por que chamam de Gobblers?
Lyra estava prestes a contar a ela uma das histórias de arrepiar os cabelos que ela havia inventado para assustar os garotos de Oxford, mas o homem já estava falando.
— Deve ter sido por causa da lenda de um bicho devorador que come crianças. Ninguém sabe direito, nem o próprio Conselho de Oblação. Conselho Geral de Oblação... Uma ideia bem antiga, aliás. Na Idade Média, os pais davam os filhos para a Igreja, para serem monges ou freiras. E as coitadas das crianças eram conhecidas como oblatos. Significa um sacrifício, uma oferta, algo assim. De modo que essa ideia foi aproveitada quando estavam pesquisando esse negócio do Pó... como nossa amiguinha provavelmente sabe. Por que não vai conversar com Lorde Boreal? — acrescentou, falando diretamente com Lyra. — Tenho certeza de que ele gostaria de conhecer a protegida da Sra. Coulter... É aquele ali, o homem de cabelos grisalhos e um dimon-serpente.
Lyra sabia que ele queria se livrar dela para conversar mais tranquilamente com a jovem. Mas a moça, ao que parecia, ainda estava interessada em Lyra e se afastou do homem para conversar com ela.
— Espere um instante... qual é o seu nome?
— Lyra.
— Eu sou Adèle Starminster. Sou jornalista. Podemos conversar um pouco?
Achando muito natural que as pessoas quisessem conversar com ela, Lyra disse simplesmente:
— Sim.
O dimon-borboleta se ergueu no ar, voejando para a esquerda e a direita, e baixou um pouco para cochichar alguma coisa, e Adèle Starminster disse:
— Vamos até o banco da janela.
Era o lugar favorito de Lyra; dali podia ver o rio, e àquela hora da noite as luzes da margem oposta brilhavam acima de seus reflexos na água escura da maré alta. Uma fila de balsas subia o rio, puxada por um rebocador. Adèle Starminster se sentou e deslizou pela almofada para deixar lugar para Lyra.
— O Professor Docker disse que você tem uma certa ligação com a Sra. Coulter.
— É verdade.
— Que ligação é? Você não é filha dela, ou algo assim? Acho que eu deveria conhecer...
— Não! Claro que não. Sou a secretária dela — Lyra esclareceu.
— Secretária dela? Você é um pouco novinha para isso, não é? Pensei que fosse uma parenta, ou coisa assim. Como ela é?
— É muito inteligente — disse Lyra. Antes dessa noite, ela teria dito muito mais, porém as coisas estavam mudando.
— Sim, mas pessoalmente — insistiu Adèle Starminster. — Quero dizer, ela é amigável, ou impaciente, ou o quê? Você mora aqui com ela? Como ela é na vida particular?
— É muito boazinha — disse Lyra, inabalável.
— Que tipo de coisas você faz? Como é o seu trabalho?
— Faço cálculos, coisas assim. Para navegação, por exemplo.
— Ah, entendo... E de onde você vem? Como é mesmo o seu nome?
— Lyra. Venho de Oxford.
— Por que a Sra. Coulter escolheu você para...
De repente ela emudeceu, porque a Sra. Coulter em pessoa tinha aparecido ao lado dela.
Pelo modo como Adèle Starminster olhou para ela, e pela agitação da borboleta esvoaçando em volta da cabeça da jornalista, Lyra entendeu que a jovem não fora convidada para a festa.
— Não sei o seu nome, mas vou descobrir dentro de cinco minutos, e então você nunca mais vai trabalhar como jornalista — disse a Sra. Coulter em voz baixa. — Agora se levante com muita calma, sem fazer cena, e vá embora. Devo acrescentar que quem quer que tenha trazido você aqui vai sofrer também.
A Sra. Coulter parecia estar carregada de alguma espécie de força anbárica. Chegava a ter um cheiro diferente: um cheiro quente, como metal aquecido, saía de seu corpo. Lyra sentira um pouco dele mais cedo, mas agora ela o via dirigido a outra pessoa, e a pobre Adèle Starminster não teve forças para resistir. Seu dimon caiu em seu ombro e bateu duas vezes as lindas asas antes de desmaiar, e a própria mulher parecia incapaz de ficar em pé. Com passos tortos e as costas ligeiramente curvadas, ela passou pelos convidados que conversavam ruidosamente e saiu pela porta da sala. Com uma das mãos agarrada ao ombro, ela amparava o dimon desfalecido.
— Bem? — a Sra. Coulter disse para Lyra.
— Não contei nada de importante — Lyra falou.
— O que ela estava perguntando?
— Só o que eu faço e quem eu sou, coisas assim.
Enquanto falava, Lyra percebeu que a Sra. Coulter estava sozinha, sem seu dimon. Como podia ser isso? Mas, no momento seguinte, o macaco dourado apareceu ao lado dela e, inclinando-se, ela pegou a mão dele e num gesto gracioso o puxou para seu ombro. No mesmo instante, ela pareceu tranquila novamente.
— Se encontrar qualquer pessoa que obviamente não foi convidada, querida, por favor me procure e me avise, está bem?
O cheiro quente de metal estava desaparecendo. Talvez Lyra tivesse apenas imaginado aquilo. Ela sentia novamente o perfume da Sra. Coulter, e as rosas, e a fumaça da cigarrilha, e o perfume das outras mulheres. A Sra. Coulter deu a Lyra um sorriso que parecia dizer “Você e eu compreendemos essas coisas, não é?”, e se afastou para conversar com os convidados.
Pantalaimon cochichou no ouvido de Lyra:
— Enquanto ela estava aqui, o dimon dela estava saindo do nosso quarto. Andou espionando por lá. Ele sabe do aletiômetro!
Lyra sentiu que isso provavelmente era verdade, mas nada podia fazer a respeito. O que aquele Catedrático estava dizendo sobre os Gobblers? Olhou em volta à procura dele, mas, no mesmo instante em que o avistou, o porteiro (usando nessa noite um traje de criado) e outro homem tocaram no ombro do Professor e falaram com ele em voz baixa; ele empalideceu e os seguiu para fora da sala. Aquilo não levou mais que dois segundos, e foi feito de forma tão discreta que quase ninguém percebeu. Mas deixou Lyra aflita e se sentindo exposta.
Ela ficou andando pelas duas amplas salas onde a festa estava acontecendo, mal ouvindo as conversas à sua volta, meio interessada no sabor dos coquetéis que não tinha permissão de experimentar, e cada vez mais preocupada. Não havia percebido que alguém a estava observando até que o porteiro surgiu ao seu lado e se inclinou para dizer:
— Srta. Lyra, o cavalheiro perto da lareira gostaria de conversar com você. Se você não sabe, ele é o Lorde Boreal.
Lyra olhou para o outro lado da sala. O homem grisalho de aparência poderosa olhava diretamente para ela; quando os olhares se encontraram, ele assentiu e a chamou com um gesto.
De má vontade, mas agora bastante interessada, ela atravessou a sala.
— Boa noite, filha — disse ele. Sua voz era suave e cheia de autoridade. A cabeça escamosa e os olhos cor de esmeralda do seu dimon-serpente cintilavam à luz da luminária de cristal na parede vizinha.
— Boa noite — respondeu Lyra.
— Como vai meu velho amigo, o Reitor da Jordan?
— Muito bem, obrigada.
— Imagino que todos tenham ficado tristes quando você partiu.
— Ficaram, sim.
— E a Sra. Coulter está mantendo você ocupada? O que ela está lhe ensinando?
Por estar se sentindo revoltada e inquieta, Lyra não respondeu a esta pergunta paternalista com a verdade, ou com um dos costumeiros produtos da sua imaginação, mas disse:
— Estou aprendendo tudo sobre as Partículas Rusakov e sobre o Conselho de Oblação.
Ele imediatamente pareceu se concentrar, como se pode concentrar o facho de uma lanterna anbárica. Toda a atenção dele jorrava sobre ela com força.
— E se você me contar o que sabe? — disse ele.
— Estão fazendo experiências no Norte — Lyra contou. Agora estava se sentindo ousada. — Como o Dr. Grumman.
— Continue.
— Eles têm uma espécie de fotograma especial onde se pode ver o Pó, e quando a gente vê um homem, parece que a luz toda está indo para ele, e nenhuma para uma criança. Pelo menos, não muita.
— A Sra. Coulter lhe mostrou um fotograma assim?
Lyra hesitou, pois isso não era mentir, e sim outra coisa, em que ela não tinha prática.
— Não — respondeu depois de um instante. — Eu vi na Faculdade Jordan.
— Quem foi que lhe mostrou?
— Ele não estava mostrando para mim — Lyra admitiu. — Eu estava passando e vi. E então meu amigo Roger foi levado pelo Conselho de Oblação. Mas...
— Quem lhe mostrou o fotograma?
— O meu tio Asriel.
— Quando?
— Na última vez que ele esteve na Faculdade Jordan.
— Entendo. E que mais você andou aprendendo? Será que ouvi você mencionar o Conselho de Oblação?
— Foi, sim. Mas não ouvi isso dele, ouvi aqui.
O que era a pura verdade, ela pensou.
Ele a estudava com os olhos apertados. Ela devolveu o olhar com toda a inocência que possuía. Finalmente ele assentiu.
— Então a Sra. Coulter deve ter resolvido que você está pronta para ajudá-la nesse trabalho. Interessante. Você já tomou parte?
— Não — disse Lyra.
Ela pensava: de que ele está falando? Pantalaimon, com esperteza, tinha a sua forma mais inexpressiva, uma mariposa, e não poderia delatar os sentimentos dela; e ela estava certa de que conseguiria manter a expressão inocente.
— E ela lhe contou o que acontece com as crianças?
— Não, isso ela não me contou. Eu só sei que tem a ver com o Pó, e elas são uma espécie de sacrifício.
Também isso não era exatamente uma mentira, ela pensou; afinal, não tinha dito que a Sra. Coulter lhe contara isso.
— “Sacrifício” é uma palavra meio forte. O que é feito é para o bem delas, assim como para o nosso. E é claro que todas acompanham a Sra. Coulter por vontade própria. É por isso que ela é tão preciosa. Elas têm que querer fazer parte, e que criança poderia resistir a ela? E se ela vai usar você também para trazê-las, melhor ainda. Estou muito contente.
Ele deu um sorriso como o da Sra. Coulter: como se ambos compartilhassem um segredo. Ela sorriu de volta educadamente, e ele se virou para conversar com outra pessoa.
Ela e Pantalaimon podiam sentir o horror um do outro. Ela queria ficar sozinha e conversar com ele; tinha vontade de ir embora; queria voltar para a Faculdade Jordan e para seu quartinho humilde na Escadaria Doze; queria encontrar Lorde Asriel...
E como em resposta a esse desejo, ela ouviu o nome dele ser mencionado, e com o pretexto de se servir de um canapé numa bandeja sobre a mesa, se aproximou do grupo que conversava ali perto. Um homem com a púrpura de bispo estava dizendo:
— ... Não, eu não acho que Lorde Asriel vai nos incomodar por bastante tempo.
— E onde mesmo ele está preso?
— Na fortaleza de Svalbard, me disseram. Vigiado pelos panserbjornes, sabem, os ursos de armadura. Criaturas formidáveis! Ele não vai conseguir escapar nem em mil anos. O fato é que eu realmente acho que o caminho está bem aberto...
— As últimas experiências confirmaram o que eu sempre acreditei: que o Pó é uma emanação do próprio princípio das trevas e...
— Será que estou detectando a heresia zoroastriana?
— O que costumava ser uma heresia...
— E se pudéssemos isolar o princípio das trevas...
— Você disse Svalbard?
— Ursos de armadura...
— O Conselho de Oblação...
— As crianças não sofrem, tenho certeza disso...
— Lorde Asriel prisioneiro...
Lyra tinha ouvido o suficiente. Ela se virou, e silenciosa como a mariposa Pantalaimon, foi para o seu quarto e fechou a porta, abafando o barulho da festa.
— E então? — cochichou, e Pantalaimon se tornou um pintassilgo no ombro dela.
— Vamos fugir? — ele cochichou em resposta.
— Claro. Se formos agora, com toda essa gente, ela pode demorar a perceber.
— Mas ele vai perceber.
Pantalaimon estava falando do dimon da Sra. Coulter. Quando Lyra pensava naquela figura dourada e esguia, ela sentia náuseas de medo.
— Desta vez vou lutar com ele — afirmou Pantalaimon corajosamente. — Eu posso mudar, e ele não pode; vou mudar tão depressa que ele não vai conseguir me segurar. Desta vez eu vou vencer, você vai ver.
Lyra concordou distraidamente. Que roupa deveria vestir? Como poderia sair sem ser vista?
— Você vai ter que ir espiar — cochichou. — Assim que o caminho estiver livre nós teremos que correr. Seja mariposa — acrescentou. — Não esqueça, quando ninguém estiver olhando...
Ela abriu uma fresta da porta, e ele saiu, um pontinho escuro contra a luz quente e rósea do corredor.
Enquanto isso, ela vestia as roupas mais quentes que possuía e enfiava mais algumas numa das bolsas de seda carbonífera comprada na loja elegante que elas haviam visitado naquela mesma tarde. A Sra. Coulter tinha lhe dado dinheiro como se, em vez de moedas, fossem bombons, e embora Lyra tivesse gastado muito, ainda sobraram vários soberanos, que ela colocou no bolso do seu casaco de pele de lobo.
Finalmente ela guardou o aletiômetro dentro do pedaço de veludo preto. Teria aquele macaco abominável encontrado o aparelho? Certamente que sim; com certeza tinha contado à Sra. Coulter; ah, se o tivesse escondido melhor...
Foi na ponta dos pés até a porta. Por sorte seu quarto dava para o final do corredor mais perto da entrada, e a maioria dos convidados estava nas duas salas mais distantes. Havia o som de vozes conversando em voz bem alta, risos, o ruído abafado de uma descarga sanitária, o tilintar de copos; e então uma vozinha de mariposa disse em seu ouvido:
— Agora! Depressa!
Ela se esgueirou pela porta e saiu para a entrada, e em menos de três segundos estava abrindo a porta da frente do apartamento. Um instante depois já passara por ela, fechando-a atrás de si, e com Pantalaimon novamente como pintassilgo, ela correu para as escadas e fugiu dali.

Um comentário:

  1. viciada em books6 de abril de 2017 12:00

    Lyra do céu agradeço pelo seu dimon ser o pan... Se ñ o q seria de ti menina?
    Ka to amandooo<3

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)