11 de fevereiro de 2017

4. A trepanação

Assim que Lyra seguiu seu caminho, Will procurou um telefone público e discou o número que constava na carta do advogado que ele tinha na mão.
— Alô? Quero falar com o Sr. Perkins.
— Quem está falando, por favor?
— É a respeito do Sr. John Parry. Sou o filho dele.
— Um momento, por favor...
Passou-se um minuto e uma voz masculina disse:
— Alô? Sou Alan Perkins. Quem está falando?
— William Parry. Desculpe-me incomodar. É sobre o meu pai, John Parry. De três em três meses o senhor manda dinheiro do meu pai para a conta bancária da minha mãe.
— Sim...
— Bem, quero saber onde meu pai está, por favor. Ele está vivo ou morto?
— Quantos anos você tem, William?
— Doze. Quero saber sobre o meu pai.
— Sim... A sua mãe, ela... A sua mãe sabe deste telefonema?
Will pensou cuidadosamente.
— Não — disse afinal. — Mas ela não está muito bem de saúde. Não pode me contar muita coisa, e eu quero saber.
— Certo, entendo. Onde é que você está? Em casa?
— Não. Estou... Estou em Oxford.
— Sozinho?
— É.
— E a sua mãe não está bem, foi o que você disse?
— Isso mesmo.
— Ela está no hospital, ou coisa assim?
— Algo parecido. Escute, o senhor pode me contar ou não?
— Bem, posso lhe contar alguma coisa, mas não muita, e não neste momento, e eu prefiro não fazer isso por telefone. Tenho um cliente daqui a cinco minutos... Você poderia vir ao meu escritório às duas e meia?
— Não — fez Will. Seria arriscado demais: o advogado poderia estar sabendo que ele estava sendo procurado pela polícia. Pensou depressa e prosseguiu: — Tenho que pegar um ônibus para Nottingham. Mas o que eu quero saber o senhor pode me contar pelo telefone, não pode? Só quero saber se o meu pai está vivo, e, se estiver, onde é que ele está. O senhor pode me contar isso, não pode?
— Não é tão simples assim. Não posso fornecer informações pessoais sobre um cliente sem ter certeza de que o cliente deseja isso. E de qualquer maneira preciso de uma prova de quem você é.
— Está certo, eu compreendo, mas pode me dizer só se ele está vivo?
— Bem... Isso não seria confidencial, mas infelizmente não posso lhe informar, porque também não sei.
— Hein?
— O dinheiro vem de um legado de família. Ele deixou instruções para que o pagamento seja feito até que ele me dê outra ordem. Desde esse dia não tive mais notícias dele. O que isso quer dizer é que... Bem, acho que ele desapareceu. É por isso que não posso responder à sua pergunta.
— Desapareceu? Sumiu?
— Essa informação é de domínio público. Escute, por que não vem ao meu escritório e...
— Não posso. Vou para Nottingham.
— Bem, então me escreva ou peça à sua mãe para me escrever, e vou informar o que eu puder. Mas tem que entender que não posso fazer isso pelo telefone.
— É, entendo. Está bem. Mas pode me dizer onde foi que ele sumiu?
— Como já lhe disse, isso é de domínio público. Na época muitos jornais publicaram. Você sabe que ele era um explorador?
— Mamãe me contou algumas coisas...
— Bem, ele estava trabalhando como guia para uma expedição que desapareceu. Há uns 10 anos.
— Onde?
— No extremo norte. No Alasca, eu acho. Você pode procurar na biblioteca pública. Por que você não...
Mas nesse ponto acabou o dinheiro que Will colocara no telefone público, e ele não tinha mais trocado. O sinal de discar zumbia em seu ouvido. Ele baixou o fone e olhou em volta. O que queria acima de tudo era falar com a mãe. Teve que fazer força para não discar o número da Sra. Cooper, porque se ouvisse a voz da mãe seria muito difícil não voltar para perto dela, e isso colocaria os dois em perigo. Mas podia mandar-lhe um cartão-postal. Escolheu uma foto da cidade e escreveu: “Mamãe querida, estou bem e logo estarei de volta. Espero que esteja tudo certo. Eu te amo. Will.” Então endereçou-o e comprou um selo, e segurou o cartão junto ao peito por um instante antes de deixá-lo cair na caixa de coleta.
Era o meio da manhã e ele estava na principal rua de comércio, onde os ônibus abriam caminho por entre a massa de pedestres. Ele começou a perceber como estava exposto; era um dia de semana, e uma criança da sua idade deveria estar na escola. Aonde poderia ir?
Não demorou a se esconder. Will conseguia desaparecer com facilidade, pois era bom nisso; tinha até orgulho da sua habilidade. O modo como fazia isso foi parecido com o modo como Serafina Pekkala ficou invisível no navio: ele se fazia intensamente discreto. Tornava-se parte da paisagem. Agora, conhecendo o tipo de mundo em que vivia, ele entrou numa papelaria e comprou uma caneta esferográfica, um bloco de notas e uma prancheta. Muitas vezes as escolas enviavam grupos de alunos para fazer pesquisas de compras, ou algo assim, e, se desse a impressão de estar envolvido num projeto desse tipo, não causaria estranheza. E assim ele vagou, fingindo tomar notas, olhos atentos à procura da biblioteca pública.


Lyra, enquanto isso, estava procurando um lugar sossegado para consultar o aletiômetro. Na sua Oxford haveria uma dúzia de lugares a menos de cinco minutos a pé, mas essa Oxford era tão desconcertante, tão diferente, com trechos de pungente familiaridade vizinhos a trechos inteiramente disparatados.
Por que tinham pintado aquelas linhas amarelas na rua? Que eram aqueles círculos brancos pontilhando as calçadas? (No seu mundo nunca se ouvira falar de goma de mascar). Que poderiam ser aquelas luzes vermelhas e verdes em cada esquina? Era tudo muito mais difícil de decifrar do que o aletiômetro.
Mas ali estavam os portões da Universidade St. John’s, que ela e Roger uma vez saltaram depois que escureceu para plantar fogos de artifício nos canteiros de flores; e aquela pedra no muro, na esquina da Rua Catte — lá estavam as iniciais SP que Simon Parslow tinha feito, as próprias! Ela tinha visto Simon fazer aquilo! Alguém neste mundo, com as mesmas iniciais, parou ali e fez exatamente a mesma coisa. Talvez houvesse um Simon Parslow neste mundo. Talvez houvesse uma Lyra!
Aquela Oxford diferia da dela também em outra coisa: a enorme quantidade de pessoas enchendo todas as calçadas, entrando e saindo de todos os prédios; havia gente de todo tipo — mulheres vestidas como homens, africanos, até mesmo um grupo de tártaros pacificamente seguindo seu líder, todos bem vestidos, levando caixinhas pretas penduradas no pescoço. Ela os contemplou a princípio com medo, porque eles não tinham dimons, e no mundo dela seriam considerados avantesmas, ou coisa pior. Mas o mais estranho era que pareciam inteiramente vivos.
Aquelas criaturas demonstravam vivacidade, exatamente como se fossem humanos, e Lyra teve que admitir que provavelmente eram mesmo humanos, e que seus dimons estavam dentro deles, como o de Will. Depois de vagar por uma hora observando aquela falsa Oxford, ela sentiu fome e comprou uma barra de chocolate com sua nota de 20 libras. O vendedor olhou para ela com estranheza, mas vinha das índias e com certeza não entendia o sotaque dela, embora ela tivesse pronunciado com clareza. Com o troco ela comprou uma maçã no Mercado Coberto, que era muito mais parecido com a Oxford de verdade, e se encaminhou para o parque. Ali se encontrou diante de um prédio grandioso, um prédio do tipo Oxford de verdade, mas que não existia no mundo dela, embora não fosse parecer deslocado lá. Ela sentou-se na grama do lado de fora para comer, e ficou contemplando o prédio com olhar de aprovação.
Descobriu que era um museu. As portas estavam abertas, e lá dentro ela encontrou animais empalhados, esqueletos de fósseis e caixas de minerais, exatamente como o Museu Geológico Real que ela visitara com a Sra. Coulter na sua Londres.
Atrás do grande saguão de ferro e vidro, ficava a entrada para outra parte do museu, e como ali parecia quase deserto, ela entrou e olhou em volta. O aletiômetro ainda era a coisa mais urgente em sua mente, mas naquele segundo salão ela se viu rodeada de coisas que conhecia bem: trajes árticos iguaizinhos ao dela, trenós, objetos entalhados em presas de leões-marinhos, arpões para a caça às focas, uma mistura de mil e um troféus, relíquias, objetos — mágicos, ferramentas e armas, não apenas do Ártico — ela percebeu mas de todas as partes daquele mundo. Ora, que coisa estranha! As peles de caribu eram exatamente iguais às delas, mas tinham atado as tiras do trenó de modo inteiramente errado!
Mas ali estava um fotograma mostrando alguns caçadores samoiedes, a imagem exata dos que tinham raptado Lyra para vendê-la para Bolvangar. Veja só! São os mesmos homens! E aquela corda tinha se esgarçado exatamente no mesmo lugar, que ela conhecia intimamente, tendo passado várias horas de sofrimento amarrada naquele mesmo trenó... O que eram esses mistérios? Haveria, afinal, um único mundo, que passava o tempo sonhando com outros mundos?
E então ela encontrou uma coisa que lhe lembrou novamente o aletiômetro. Numa antiga estante de vidro com moldura de madeira pintada de preto havia alguns crânios humanos, e alguns tinham buracos; alguns na frente, outros do lado, outros no topo. O do centro tinha dois. Uma caligrafia ornamentada, num cartão, informava que aquele processo se chamava “trepanação”. O cartão afirmava também que todos os orifícios tinham sido feitos durante a vida das pessoas porque o tecido cicatrizara em volta da borda. Um deles, no entanto, era diferente: o orifício tinha sido feito por uma flecha de ponta de bronze que ainda estava lá dentro, e a borda era aguçada e irregular, de modo que era óbvio que aquele era outro caso. Era exatamente o que os tártaros do Norte faziam. E o que Stanislaus Grumman tinha feito a si mesmo, segundo os Catedráticos da Jordan que o conheceram. Lyra olhou em volta, não viu ninguém e então pegou o aletiômetro. Focalizou a mente no crânio central e perguntou: a que tipo de pessoa esse crânio pertenceu, e por que ela mandou fazer esses buracos?
Enquanto estava concentrada, à luz empoeirada que se filtrava pelo telhado de vidro e passava pelas galerias superiores, ela não percebeu que estava sendo observada.
Um homem corpulento, de 60 e poucos anos, usando um terno de linho muito bem cortado e segurando um chapéu panamá, estava parado na galeria superior, junto ao parapeito de grade de ferro, olhando para ela. Seus cabelos grisalhos estavam penteados para trás, desnudando a testa lisa, bronzeada, com pouquíssimas rugas. Ele tinha os olhos grandes, escuros e profundos, cílios longos, e a cada minuto sua língua pontuda, de ponta escura, assomava no canto da boca e dardejava umidamente sobre os lábios. O lenço no bolso do paletó, branco como neve, era perfumado com algum perfume forte, como aquelas plantas de estufa tão ricas que se pode sentir o cheiro da sua degenerescência exalado pelas raízes. Ele estava observando Lyra havia alguns minutos.
Tinha acompanhado da galeria superior o percurso da menina no andar abaixo e, quando ela parou junto à estante de crânios, ele ficou a observá-la atentamente, estudando todos os detalhes: os cabelos despenteados, a equimose no rosto, as roupas novas, o pescoço nu curvado sobre o aletiômetro, as pernas nuas.
Ele tirou o lenço do bolso e enxugou a testa, depois se dirigiu para a escada.
Lyra, absorta, estava aprendendo coisas estranhas. Aqueles crânios eram inimaginavelmente velhos; os cartões na estante diziam simplesmente “Idade do Bronze”, mas o aletiômetro, que nunca mentia, disse que o homem a quem aquele crânio pertencera tinha vivido 33.254 anos antes, e que tinha sido um feiticeiro, e que o orifício tinha sido feito para que os deuses entrassem em sua cabeça. E então o aletiômetro, na maneira casual com que às vezes respondia a uma pergunta que Lyra não tinha formulado, acrescentou que havia muito mais Pó em volta dos crânios trepanados do que daquele com a flecha.
O que aquilo poderia significar? Lyra saiu da tranquilidade forçada que compartilhava com o aletiômetro e voltou para o momento presente, onde constatou que já não estava sozinha: contemplando a estante seguinte estava um homem idoso de terno claro e cheiro bom. Ele lembrava-lhe alguém que ela não conseguiu identificar.
Ele percebeu que ela o observava e ergueu os olhos com um sorriso.
— Você está olhando para os crânios trepanados? Que coisas estranhas as pessoas fazem a si mesmas!
— Hum — fez ela, sem expressão.
— Sabe que as pessoas ainda fazem isso?
— É?
— Os hippies, sabe, gente assim. Aliás, você é jovem demais para se lembrar dos hippies. Dizem que é mais eficaz do que usar drogas.
Lyra tinha guardado o aletiômetro na mochila, e estava pensando em como sair dali; ainda não tinha feito a pergunta principal, e agora aquele velho estava puxando assunto com ela.
Ele parecia bonzinho, e certamente cheirava bem. Ele chegou mais perto. Sua mão roçou a dela quando ele se inclinou para a estante.
— Não dá para acreditar, não é mesmo? Nada de anestesia, nem desinfetante. Provavelmente feito com ferramentas de pedra. Eles devem ter sido durões, não concorda? Acho que nunca vi você por aqui antes. Venho sempre aqui. Qual é o seu nome?
— Lizzie — ela respondeu, muito naturalmente.
— Lizzie. Oi, Lizzie, eu sou Charles. Você estuda em Oxford?
Ela não sabia como responder.
— Não — disse finalmente.
— Está de visita? Bom, escolheu um lugar maravilhoso para visitar. Em que tipo de coisa você está especialmente interessada?
Aquele homem deixava-a mais confusa do que qualquer outra pessoa que ela tivesse conhecido durante muito tempo.
Por um lado ele era bonzinho e simpático, muito limpo e bem vestido, mas por outro lado Pantalaimon, dentro do bolso dela, estava pedindo sua atenção e implorando que ela tomasse cuidado, porque ele também estava quase recordando alguma coisa; e ela sentia, vindo de algum lugar, não um cheiro, mas a ideia de um cheiro, e era cheiro de esterco, de putrefação. Isso lhe lembrou o palácio de Iofur Raknison, onde o ar era perfumado mas o chão era coberto de imundície.
— Em que estou interessada? Ah, em tudo, na verdade. Acabei de ficar interessada nesses crânios; não sei como alguém ia querer fazer isso. É horrível.
— Não, eu também não ia gostar, mas juro a você que isso acontece mesmo. Eu poderia levar você para conhecer alguém que fez — ele ofereceu, com ar tão simpático e prestativo que ela quase ficou tentada a aceitar. Mas nesse instante ele dardejou a ponta escura da língua pelos lábios com a rapidez de uma serpente, e ela sacudiu a cabeça.
— Preciso ir — disse. — Obrigada pelo oferecimento, mas não vou poder. E tenho que ir agora porque vou me encontrar com uma pessoa. A minha amiga — acrescentou. — Com quem estou morando.
— Ah, claro — ele respondeu em tom bondoso. — Bem, foi um prazer conversar com você. Até logo, Lizzie.
— Até — fez ela.
— Ah! Só para garantir, eis meu nome e endereço — ele disse, estendendo-lhe um cartãozinho. — Para o caso de você querer saber mais sobre coisas como esta.
— Obrigada — ela respondeu inexpressivamente.
Guardou o cartão no bolso traseiro da mochila, antes de sair, e sentiu que ele a observava durante todo o percurso até a porta. Uma vez fora do museu, ela entrou no parque, que conhecia como um campo de críquete e outros jogos, e encontrou um lugar sossegado sob algumas árvores, onde tentou novamente o aletiômetro.
Dessa vez perguntou onde poderia achar um Catedrático que soubesse do Pó. A resposta que recebeu foi simples: mandava que ela fosse a um certo aposento no prédio alto e quadrado atrás dela. Na verdade, a resposta foi tão direta e veio tão abruptamente que Lyra teve certeza de que o aletiômetro tinha mais alguma coisa a dizer; ela agora estava começando a sentir que ele tinha diferentes estados de espírito, como uma pessoa, e a distinguir quando ele queria lhe contar mais alguma coisa. E ele queria mesmo. O que disse foi: Você tem que se preocupar com o garoto. A sua tarefa é ajudá-lo a encontrar o pai. Concentre-se nisto.
Ela pestanejou. Estava realmente atônita. Will surgira do nada para ajudá-la; certamente isso era óbvio. A ideia de que ela havia ido até ali para ajudá-lo deixou-a sem fôlego.
Mas o aletiômetro ainda não terminara. O ponteiro estremeceu, e ela leu: Não minta para a pessoa que você vai procurar.
Ela embrulhou o aletiômetro no veludo e escondeu-o dentro da mochila. Depois ficou de pé e olhou em volta à procura do prédio onde o seu Catedrático seria encontrado, e encaminhou-se para lá sentindo-se insegura, mas decidida.


Will encontrou a biblioteca com facilidade. A bibliotecária estava perfeitamente preparada para acreditar que ele estava pesquisando para um dever de geografia e ajudou-o a encontrar os exemplares do índice do Times para o ano do nascimento dele, que foi quando o pai tinha desaparecido. Will sentou-se para procurar. Sem dúvida havia várias referências a John Parry em relação a uma expedição arqueológica.
Cada mês ficava num rolo de microfilme separado, ele colocou um por um no projetor, localizou os artigos e leu-os com grande atenção. O primeiro deles contava a partida de uma expedição para o Norte do Alasca. A expedição era patrocinada pelo Instituto de Arqueologia da Universidade de Oxford, e ia estudar uma região onde esperavam encontrar evidências de habitação humana em outras eras. John Parry, um explorador profissional que tinha pertencido à Marinha Real, guiava a expedição.
O segundo artigo era de seis semanas mais tarde. Relatava concisamente que a expedição tinha chegado à Estação de pesquisa Norte-Americana em Noatak, no Alasca. O terceiro datava de dois meses depois do segundo. Dizia que os sinais enviados pela Estação de Pesquisa não estavam recebendo resposta e que se presumia que John Parry e os companheiros estavam mortos. Depois disso houve uma curta série de reportagens descrevendo as expedições que tinham partido em vão à procura deles, os voos de busca acima do Mar Bhering, a reação do Instituto de Arqueologia, entrevistas com parentes.
Seu coração bateu forte, porque havia um retrato da sua própria mãe. Segurando um bebê: ele.
O repórter tinha escrito um artigo padrão — a esposa chorosa esperando angustiada notícias do marido — que Will achou decepcionantemente carente de fatos reais. Havia um breve parágrafo dizendo que John Parry fizera uma carreira de sucesso na Marinha Real e tinha partido para especializar-se em organizar expedições geográficas e científicas — e isso era tudo. No índice não havia outra menção, e Will sentia-se confuso ao levantar-se do leitor de microfilmes. Devia haver mais informações em algum outro lugar; mas aonde ele poderia ir? E se levasse tempo demais nessa busca, acabaria sendo descoberto...
Devolveu os rolos de microfilme e perguntou à bibliotecária:
— Sabe o endereço do Instituto de Arqueologia, por favor?
— Posso descobrir... De que escola você é?
— St. Peter’s — Will respondeu.
— Isto não fica em Oxford, fica?
— Não, é em Hampshire. A minha classe está fazendo uma espécie de pesquisa de campo. Uma espécie de desenvolvimento dos instrumentos de pesquisa ambiental...
— Ah, entendo. O que você queria mesmo... Arqueologia... Pronto, aqui está.
Will copiou o endereço e o telefone; como era seguro admitir que não conhecia Oxford, ele perguntou onde encontrar esse lugar. Não era longe. Ele agradeceu à funcionária e partiu.


Dentro do prédio, Lyra encontrou uma grande escrivaninha ao pé de uma escadaria, e atrás dela um porteiro.
— Aonde você vai? — ele quis saber.
Era como estar em casa de novo. Ela sentiu que Pan, dentro do seu bolso, estava se divertindo.
— Tenho um recado para uma pessoa no segundo andar — ela disse.
— Para quem?
— O Dr. Lister.
— O Dr. Lister fica no terceiro andar. Se tem alguma coisa para ele, pode deixar aqui, que eu aviso a ele.
— Ah, mas é uma coisa de que ele precisa agora mesmo. Acabou de mandar buscar .Não é um objeto, na verdade, é uma coisa que preciso contar a ele.
Ele a estudou atentamente, mas não era páreo para a docilidade humilde que Lyra conseguia afetar quando queria, e finalmente assentiu e voltou ao seu jornal.
O aletiômetro não contava a Lyra o nome das pessoas, é claro. Ela lera o nome do Dr. Lister num escaninho na parede atrás do porteiro, pois é mais fácil conseguir entrar quando a gente finge que conhece alguém. De certo modo Lyra conhecia o mundo de Will melhor que ele.
No segundo andar ela encontrou um corredor comprido onde havia uma porta aberta que dava para um auditório deserto, e outra dando para um aposento menor, onde dois Catedráticos discutiam algo junto a um quadro-negro. Essa sala e as paredes daquele corredor eram vazias e sem adornos, de um modo que Lyra associava à pobreza, não à erudição e ao esplendor de Oxford; no entanto, as paredes de tijolos eram bem pintadas, e as portas eram de madeira pesada e os corrimões de aço polido, de modo que eram caros. Essa era apenas mais uma coisa estranha daquele mundo.
Ela logo encontrou a porta mencionada pelo aletiômetro.
O cartaz preso a ela dizia: “Unidade de Pesquisa de Matéria Escura”, e sob ela alguém rabiscara Descanse em Paz. Outra mão acrescentara a lápis: “Diretor: Lázaro”.
Lyra não entendeu nada daquilo. Bateu à porta e uma voz feminina respondeu:
— Entre!
Era uma sala pequena, atulhada de pilhas instáveis de livros e papéis, e os quadros-negros nas paredes estavam cobertos de algarismos e equações. Preso nas costas da porta aberta Lyra entrevia outro aposento, onde havia uma complicada máquina anbárica desligada.
Lyra, por seu lado, ficou um pouco surpresa ao constatar que o Catedrático que procurava era mulher, mas o aletiômetro não tinha mencionado um homem, e aquele era um mundo estranho, afinal. A mulher estava sentada diante de um mecanismo que mostrava números e formas numa pequena tela de vidro diante da qual todas as letras do alfabeto estavam dispostas em bloquinhos numa bandeja de marfim. A Catedrática tocou num deles e a tela escureceu.
— Quem é você? — perguntou.
Lyra fechou a porta atrás de si. Pensando no que o aletiômetro lhe dissera, ela tentou não fazer o que normalmente faria, e falou a verdade.
— Lyra da Língua Mágica — respondeu. — Qual é o seu nome?
A mulher pestanejou. Tinha seus 30 e tantos anos, Lyra imaginava, talvez um pouco mais velha que a Sra. Coulter, com cabelos negros curtos e faces vermelhas. Usava um jaleco branco aberto sobre uma camisa verde e aquelas calças de lona azul que tanta gente usava neste mundo. Diante da pergunta de Lyra, a mulher passou a mão pelos cabelos e disse:
— Bem, você é a segunda coisa inesperada que me acontece hoje. Sou a Doutora Mary Malone. O que é que você quer?
— Quero que me fale do Pó — disse Lyra, depois de olhar em volta para ver se estavam sozinhas. — Sei que a senhora sabe sobre ele. Posso provar. A senhora tem que nos contar.
— Pó? De que é que você está falando?
— Pode ser que a senhora não chame assim. São partículas elementares. No meu mundo os Catedráticos chamam de Partículas de Rusakov, mas normalmente chamam de Pó. Elas não aparecem facilmente, mas vêm do espaço e se fixam nas pessoas. Não tanto nas crianças. Mais nos adultos. E uma coisa que só descobri hoje: eu estava no museu no fim desta rua e havia uns crânios com buracos, como os tártaros fazem, e havia muito mais Pó em volta deles do que em volta de um que não tinha o mesmo tipo de buraco. Quando foi a Idade do Bronze?
A mulher encarava-a de olhos arregalados.
— A Idade do Bronze? Meu Deus, não sei. Talvez há uns 5 mil anos — disse.
— Ah, bom, então eles erraram quando escreveram aquilo. Aquele crânio com os dois buracos tem 33 mil anos de idade.
Ela então silenciou, porque a Dra. Malone parecia prestes a desmaiar. A cor das faces tinha desaparecido completamente, ela levou uma das mãos ao peito enquanto com a outra agarrava-se ao braço da poltrona, e tinha o queixo caído.
Lyra, firme e sem saber o que pensar, ficou esperando que ela se recuperasse.
— Quem é você? — a mulher perguntou finalmente.
— Lyra da Língua...
— Não, de onde você vem? O que você é? Como é que sabe dessas coisas?
Lyra suspirou de cansaço, tinha se esquecido de como os Catedráticos são complicados. Era difícil contar-lhes a verdade quando eles entenderiam muito mais facilmente uma mentira.
— Eu venho de outro mundo — começou a garota. — E nesse mundo existe uma Oxford como esta aqui, só que diferente, e foi de lá que eu vim. E...
— Espere, espere, espere. Você vem de onde?
— De outro lugar — disse Lyra, com mais cuidado. — Não sou daqui.
— Ah, de outro lugar — repetiu a mulher. — Estou entendendo. Quer dizer, acho que estou.
— E tenho que descobrir o que é esse Pó — Lyra explicou. — Porque as pessoas da Igreja no meu mundo, sabe, elas têm medo do Pó porque acham que é o pecado original. Então é muito importante. E o meu pai... Não! — exclamou com veemência, chegando a bater o pé no chão. — Não era isso que eu ia dizer. Estou fazendo tudo errado!
A Dra. Malone olhou para a expressão de desespero da menina, os punhos cerrados, os machucados na face e na perna, e disse:
— Meu Deus, menina, acalme-se e...
Parou de falar e esfregou os olhos, que estavam vermelhos de cansaço.
— Mas por que estou escutando tudo isso? Acho que estou ficando doida. O caso é que este é o único lugar no mundo onde você conseguiria a resposta que deseja, e estão prestes a fechar isto aqui... O que você está mencionando, o seu Pó, parece uma coisa que estamos estudando já há algum tempo, e o que você diz sobre os crânios no museu me deu um susto, porque... Ah, não, é demais. Estou cansada demais. Quero escutar o que você tem a dizer, acredite, mas não agora, por favor. Eu já lhe contei que vão fechar isso aqui? Tenho uma semana para montar uma proposta para o comitê de financiamento, mas não temos a menor esperança...
Ela bocejou longamente.
— Qual foi a outra coisa inesperada que aconteceu hoje? — Lyra perguntou.
— Ah, sim, uma pessoa que eu esperava que nos apoiasse retirou seu apoio. Afinal, talvez isso não fosse tão inesperado assim.
Ela tornou a bocejar.
— Vou fazer um café — disse. — Senão vou dormir em pé. Quer também?
Encheu de água uma chaleira elétrica e, enquanto ela colocava café solúvel em duas xícaras, Lyra estudava o desenho chinês nas costas da porta.
— O que é aquilo? — quis saber.
— É chinês. Os símbolos do I Ching. Sabe o que é isso? Vocês têm I Ching no seu mundo?
Lyra olhou para ela de olhos apertados, sem saber se a outra estava sendo sarcástica. Respondeu:
— Algumas coisas são iguais e outras são diferentes, só isso. Não sei tudo sobre o meu mundo. Talvez eles tenham essa coisa Ching lá também.
— Desculpe — disse a Dra. Malone. — É, pode ser que tenham.
— O que é matéria escura? — Lyra perguntou. — É o que diz no cartaz, não é?
A Dra. Malone tornou a se sentar e com o pé puxou outra cadeira para Lyra.
— Matéria escura é o que a minha equipe de pesquisa está procurando. Ninguém sabe o que é. Existem mais coisas no universo do que nós podemos ver, o caso é esse. Vemos as estrelas e as galáxias e as coisas que brilham, mas para que tudo isso fique coeso e não se espalhe, precisa haver mais outra coisa. Para fazer a gravidade funcionar, entende? Mas ninguém consegue descobrir essa coisa. De modo que existem muitos projetos de pesquisa tentando descobrir do que se trata, e o nosso é um deles.
Lyra prestava a maior atenção. Finalmente a mulher estava falando sério.
— E o que a senhora pensa que é? — perguntou.
— Bem, o que nós pensamos... — começou a Dra. Malone, mas a água ferveu e ela se levantou para fazer o café. Continuou: — Achamos que é alguma espécie de partícula elementar. Algo completamente diferente de qualquer coisa que foi descoberta até agora. Mas é muito difícil de detectar. Onde é que você estuda? Está estudando física?
Lyra sentiu Pantalaimon mordiscar-lhe a mão, advertindo-a para não ficar zangada. Tudo bem que o aletiômetro lhe mandasse falar a verdade, mas ela sabia o que aconteceria se contasse a verdade inteira. Tinha que pisar com cuidado e evitar as mentiras diretas.
— Sim, sei um pouquinho. Mas não sobre a matéria escura.
— Bem, estamos tentando detectar essa coisa quase imperceptível no meio do ruído de todas as outras partículas em colisão. Normalmente colocam detectores a centenas de metros abaixo do solo, mas o que nós fizemos foi criar um campo eletromagnético em volta do detector para filtrar as coisas que não queremos e deixar passar as que queremos. Então amplificamos o sinal e o passamos pelo computador.
Ela estendeu uma xícara de café. Não havia leite nem açúcar, mas ela encontrou alguns biscoitos de gengibre numa gaveta, e Lyra comeu um com avidez. A Dra. Malone continuou:
— E encontramos uma partícula que combina. Achamos que combina. Mas é tão estranho... Porque estou lhe contando isso? Não devia. Não está publicado. Não tem referências, não está sequer escrito. Estou meio doida, hoje. Bem... — continuou, e bocejou durante tanto tempo que Lyra pensou que ela não iria mais parar. — As nossas partículas são figurinhas esquisitas, sem dúvida. Nós as chamamos de partículas de sombra. Sombras. Sabe o que quase me derrubou da cadeira? Quando você mencionou os crânios no museu. Porque um membro da nossa equipe, entende, é arqueólogo amador. E ele um dia descobriu uma coisa em que não conseguimos acreditar. Mas não podíamos ignorar, porque combinava com a coisa mais louca de todas a respeito dessas Sombras. Sabe o que é? Elas têm consciência. Isso mesmo. As Sombras são partículas de consciência. Já ouviu alguma coisa tão idiota? Não é de estranhar que não queiram renovar o nosso financiamento.
Ela bebericou seu café. Lyra bebia cada palavra como se fosse uma florzinha sedenta.
— Sim, elas sabem que estamos aqui — continuou a Dra. Malone. — Elas respondem. E aí vem a parte louca: você só as enxerga se quiser. Se colocar a mente em certo estado. Tem que estar confiante e relaxada ao mesmo tempo. Tem que ser capaz de... Onde está aquela citação?
Ela remexeu nos papéis sobre a escrivaninha e encontrou um pedaço de papel no qual alguém escrevera com tinta verde. Ela leu:
— “... capaz de passar por incertezas, mistérios, dúvidas, sem qualquer gesto impaciente de procurar o fato e a razão...” Tem que estar nesse estado de espírito. Aliás, isso é do poeta Keats. Encontrei outro dia. A pessoa fica no estado de espírito correto e então olha para a Caverna...
— Caverna? — estranhou Lyra.
— Ah, desculpe, o computador. Nós o chamamos de Caverna. Sombras nas paredes da Caverna, entende, de Platão. Coisa do nosso arqueólogo, também. É um intelectual. Mas ele foi a Genebra para candidatar-se a um emprego, e acho que não voltará... Onde é que eu estava? Certo, a Caverna, isso mesmo. Uma vez ligada ao computador, se a pessoa pensar, as Sombras reagem. Não há a menor dúvida quanto a isso. As Sombras acorrem para o seu pensamento como pássaros...
— E os crânios?
— Já vou chegar a eles. Oliver Payne, o meu colega, um dia estava passando tempo testando coisas com a Caverna. E foi muito estranho. Não fazia sentido, do jeito que um físico esperaria. Ele pegou um pedaço de marfim, um pedaço qualquer, e ele não reagiu, não havia Sombras nele; mas uma peça de jogo de xadrez feita de marfim reagiu. Um pedaço de pau não reagiu, mas uma régua de madeira reagiu. E uma estatueta de madeira entalhada tinha mais... Estou falando de partículas elementares, ora bolas! Como pedacinhos minúsculos de quase nada. Elas sabiam o que eram aqueles objetos. Qualquer coisa associada à manufatura humana e ao pensamento humano era rodeada de Sombras... E então Oliver, o Dr. Payne, conseguiu alguns crânios de fósseis com um amigo no museu e testou-os para ver até onde no passado o efeito alcançava. Encontrou um limite em uns 30 a 40 mil anos atrás. Antes disso não havia Sombras; depois disso, muitas. E foi mais ou menos então, parece, que surgiram os primeiros seres humanos modernos. Os nossos ancestrais remotos, entende, gente não muito diferente de nós, na verdade...
— É Pó — Lyra afirmou com veemência. — É isso o que é.
— Mas eu não posso dizer esse tipo de coisa num pedido de financiamento, se quiser ser levada a sério. Não faz sentido. Não pode existir. É impossível, e se não for impossível é irrelevante, e se não for qualquer dessas coisas, então é embaraçoso.
— Quero ver a Caverna — disse Lyra. Ela ficou de pé.
A Dra. Malone passava as mãos pelos cabelos e pestanejava com força para clarear os olhos cansados.
— Bem, não vejo por que não — disse. — Amanhã pode ser que a gente não tenha mais um computador. Venha comigo.
Ela levou Lyra para a outra sala. Era maior, e estava repleta de equipamento eletrônico.
— Ali — disse, apontando para uma tela que brilhava em cinza. — É ali que fica o detector, atrás de todos esses fios. Para ver as Sombras você tem que estar ligada a alguns eletrodos. Como os que a gente usa para medir as ondas cerebrais.
— Quero experimentar — Lyra pediu.
— Você não vai conseguir enxergar. De qualquer maneira, estou cansada. É complicado demais.
— Por favor! Sei o que estou fazendo!
— Ah, sabe? Eu gostaria de saber. Não, pelo amor de Deus! É uma experiência difícil e cara. Você não pode aparecer assim e se intrometer, como se isto fosse um joguinho eletrônico... Aliás, de onde é que você vem? Não deveria estar na escola? Como foi que chegou até aqui?
Lyra estava tremendo. Diga a verdade, pensou.
— Fui guiada por isto aqui — disse, pegando o aletiômetro.
— Que coisa é esta? Uma bússola?
Lyra deixou que ela o pegasse. A Dra. Malone arregalou os olhos ao sentir o peso dele.
— Meu Deus, é feito de ouro. Mas onde...
— Acho que ele faz o que a sua Caverna faz. É o que eu quero descobrir. Se eu descobrir a resposta a uma pergunta, alguma coisa que a senhora saiba a resposta e eu não saiba, então posso experimentar a sua Caverna? — continuou, desesperada.
— Como é? Agora vamos ler a sorte? Que coisa é esta?
— Por favor! Faça-me uma pergunta, só isso!
A Dra. Malone deu de ombros.
— Ora, está bem. Diga-me... Diga-me o que eu fazia antes.
Ansiosa, Lyra pegou o aletiômetro e girou os ponteiros. Sentia a mente procurar as figuras certas antes mesmo que os ponteiros estivessem apontando para elas, e sentia o ponteiro maior estremecendo, pronto para reagir. Quando ele começou a girar em volta do mostrador, Lyra seguiu-o com os olhos, observando, calculando, acompanhando as longas cadeias de significado até o nível onde estava a verdade.
Então pestanejou, suspirou e saiu do transe temporário.
— A senhora era freira — disse. — Eu nunca teria adivinhado. As freiras costumam ficar para sempre no convento. Mas a senhora parou de acreditar nas coisas da Igreja e eles deixaram que fosse embora. Não é como no meu mundo, nem um pouco.
A Dra. Malone deixou-se cair na única cadeira, os olhos fixos em Lyra. A menina disse:
— Isto é verdade, não é?
— É, sim. E você descobriu nesse...
— No meu aletiômetro. Ele funciona pelo Pó, eu acho. Vim até aqui para saber mais sobre o Pó, e ele me disse para vir procurar a senhora. Então acho que a sua matéria escura deve ser a mesma coisa. Agora posso experimentar a sua Caverna?
A Dra. Malone sacudiu a cabeça, mas não para recusar o pedido apenas por espanto. Estendeu as mãos espalmadas.
— Muito bem. Acho que estou sonhando. Sendo assim, não faz mal irmos até o fim.
Ela girou a cadeira e apertou vários botões, provocando um zumbido elétrico e o ruído do ventilador do computador e ouvindo esse som, Lyra soltou uma exclamação de espanto: o som naquela sala era o mesmo que ela ouvira naquela horrível sala brilhante em Bolvangar, onde a guilhotina de prata quase a separara de seu Pantalaimon. Sentiu-o estremecer em seu bolso e acariciou-o para acalmá-lo. Mas a Dra. Malone não percebeu, estava entretida demais ajustando botões e apertando as letras em outra daquelas bandejas de marfim. À medida que ela fazia isso, a tela mudava de cor e algumas letras e números apareceram.
— Agora você se senta — disse, cedendo a cadeira a Lyra. Depois abriu um vidro e explicou: — Preciso colocar um gel na sua pele para ajudar o contato elétrico. Sai facilmente com água. Agora fique imóvel.
A Dra. Malone pegou seis fios, cada um deles terminando numa ponta achatada, e prendeu-os a vários lugares na cabeça de Lyra. A menina estava decidida a ficar imóvel, mas tinha a respiração acelerada e seu coração batia com força.
— Pronto, você está ligada — disse a Dra. Malone. — A sala está cheia de Sombras. Aliás, o universo está cheio de Sombras. Mas esta é a única maneira de poder vê-las: quando a gente esvazia a mente e olha para a tela. Lá vai.
Lyra olhou. A tela estava escura e vazia. Ela via seu próprio reflexo, mas só. A título de experiência, ela fingiu que estava lendo o aletiômetro, e imaginou-se perguntando: O que é que esta mulher sabe sobre o Pó? Que perguntas ela está fazendo? Moveu mentalmente os ponteiros do aletiômetro em volta do mostrador, e a tela começou a piscar. Atônita, ela perdeu a concentração e a tela escureceu. Não percebeu que a Dra. Malone se endireitava, curiosa, ela chegou para a frente e começou de novo a se concentrar.
Dessa vez a resposta veio instantaneamente. Um jorro de luzes dançantes, parecendo a cortina tremeluzente da aurora boreal, atravessou a tela. Elas formavam desenhos que se mantinham por alguns segundos, antes de se desmancharem e se juntarem em formas diferentes, ou cores diferentes, faziam arcos e volteios, espalhavam-se, irrompiam em chuveiros de luz que de repente mudavam de direção como um bando de pássaros mudando de rumo no céu. E Lyra sentia a mesma sensação de estar à beira da compreensão que se lembrava de ter sentido quando estava começando a ler o aletiômetro. Fez outra pergunta: Isto é o Pó? A mesma coisa que está fazendo estes desenhos move o ponteiro do aletiômetro? A resposta veio em mais arcos de luz. Ela imaginou que isso queria dizer sim. Então outra ideia lhe ocorreu, e ela virou-se para falar com a Dra. Malone, esta estava boquiaberta, a mão na cabeça.
— O que... — começou.
A tela escureceu. A Dra. Malone pestanejou.
— O que foi? — Lyra completou a pergunta.
— Ah, você conseguiu a maior amostra que já vi, só isso — disse a Dra. Malone. — O que é que você estava fazendo? Em que estava pensando?
— Estava pensando que a senhora podia conseguir fazer isto ficar mais claro — disse Lyra.
— Mais claro! Nunca foi tão claro quanto agora!
— Mas o que significa? A senhora consegue ler?
— Bem, não se lê como se lê uma carta, não funciona assim. O que está acontecendo é que as Sombras estão reagindo à atenção que você dedica a elas. Isso por si só já é bastante revolucionário: é à nossa consciência que elas reagem, entende?
— Não, o que eu quero dizer é o seguinte: essas cores e formas aí dentro, elas poderiam fazer outras coisas, essas Sombras. Poderiam fazer a forma que a senhora quisesse. Poderiam formar figuras, se a senhora quisesse. Olhe.
Ela se virou e tornou a focalizar a mente, mas dessa vez fingiu que a tela era o aletiômetro, com todos os 36 símbolos dispostos ao longo da borda. Conhecia-os tão bem que agora seus dedos automaticamente moviam-se no colo como se ela movimentasse os ponteiros imaginários para apontar para a vela (para compreensão), o alfa e ômega (para linguagem) e a formiga (para trabalho), e fez a pergunta: O que aquelas pessoas precisavam fazer para compreender a linguagem das Sombras?
A tela reagiu com a mesma rapidez do pensamento, e da confusão de linhas e clarões formou-se uma série de figuras com perfeita nitidez: bússola, alfa e ômega outra vez, raio, anjo.
Cada figura surgia um número diferente de vezes, e depois vieram outras três: camelo, jardim, lua.
Lyra via claramente o significado delas, e saiu do transe para explicar. Dessa vez, quando se voltou, viu que a Dra. Malone estava recostada na cadeira, pálida, agarrando a borda da mesa.
— Ele está falando a minha linguagem, entende, a linguagem das figuras. Como o aletiômetro. Mas o que ele diz é que poderia usar a linguagem comum também, palavras, se a senhora o preparasse para isso. Podia fazer com que ele pusesse palavras na tela. Mas ia precisar de muito raciocínio com os números, isso era a bússola, entende, e o raio significa energia anbárica, quer dizer, energia elétrica, mais disso. E o anjo, é sobre as mensagens. Há coisas que ele quer dizer. Mas quando foi para o segundo pedaço... Era a Ásia, quase o Extremo Oriente, mas não tanto. Sei lá que país seria. A China, talvez... É um modo que eles têm lá de falar com o Pó, quer dizer, com as Sombras, a mesma coisa que a senhora tem aqui e eu tenho com... Eu tenho com figuras, só que eles usam pauzinhos. Acho que ele estava falando daquela figura na porta, mas não entendi direito. No princípio, quando vi aquilo, achei que era importante, mas não sabia por quê. Então deve haver muitas maneiras de falar com as Sombras.
A Dra. Malone estava sem fôlego.
— O I Ching — disse. — Ele é chinês, sim. Uma espécie de adivinhação. E eles usam pauzinhos. Aquele cartaz só está ali para enfeitar — disse, como se quisesse assegurar a Lyra que ela na verdade não acreditava em I Ching. — Você está me dizendo que quando as pessoas consultam o I Ching elas estão entrando em contato com as partículas de Sombra? Com a matéria escura?
— É — Lyra respondeu. — Existem muitas maneiras, como eu já disse. Eu não sabia disso. Pensei que só havia uma.
— Aquelas figuras na tela... — começou a Dra. Malone.
Lyra sentiu um lampejo de pensamento no fundo da mente, e voltou-se para a tela. Mal tinha começado a formular uma pergunta quando mais figuras apareceram, passando tão depressa que a Dra. Malone mal conseguia acompanhá-las; mas Lyra sabia o que elas estavam dizendo, e virou-se para ela.
— Diz que a senhora também é importante — revelou à cientista. — Diz que a senhora tem uma coisa importante para fazer. Sei lá o que é, mas ele não diria se não fosse verdade. Então a senhora provavelmente deveria fazer ele usar palavras, para poder entender o que ele diz.
A Dra. Malone ficou em silêncio por um instante, depois perguntou:
— Muito bem. De onde você veio?
Lyra fez uma careta. Sabia que a Dra. Malone, que até agora tinha agido influenciada pela exaustão e pelo desespero, normalmente jamais teria mostrado o seu trabalho para uma criança desconhecida que apareceu do nada, e estava começando a se arrepender. Mas Lyra tinha que dizer a verdade.
— Venho de outro mundo — disse. — É verdade. Atravessei para este aqui. Eu estava... tive que fugir, porque pessoas no meu mundo estavam me caçando, para me matar .E o aletiômetro vem... do mesmo lugar. Foi o Mestre da Universidade Jordan quem me deu. Na minha Oxford existe uma Universidade Jordan, mas aqui não. Eu procurei. E aprendi a ler o aletiômetro sozinha. Consigo fazer a minha mente ficar vazia, e então simplesmente vejo o que elas significam. Conforme a senhora falou sobre... dúvidas e mistérios e tudo. Então, quando olhei para a Caverna, fiz a mesma coisa, e funciona do mesmo jeito, então o meu Pó e as suas Sombras são a mesma coisa, também. Então...
Agora a Dra. Malone estava inteiramente desperta. Lyra pegou o aletiômetro e embrulhou-o no veludo, como uma mãe agasalhando o filho, antes de guardá-lo na mochila.
— Quer dizer, a senhora pode fazer esta tela falar com palavras, se quiser. Então poderia falar com as Sombras como eu falo com o aletiômetro. Mas o que eu quero saber é: por que as pessoas no meu mundo odeiam ele? O Pó, quer dizer, as Sombras. Matéria escura. Querem destruir ele. Acham que é mau. Então o que é isso, as Sombras? É bom ou ruim?
A Dra. Malone esfregou o rosto, deixando as faces ainda mais vermelhas.
— É tudo tão constrangedor... — disse. — Sabe como é embaraçoso falar em Bem e Mal num laboratório científico? Tem ideia disso? Uma das razões de me tornar cientista foi para não ter que pensar nesse tipo de coisa.
— Mas a senhora tem que pensar nisso — disse Lyra em tom severo. — Não pode estudar as Sombras, o Pó, seja lá o que for, sem pensar nesse tipo de coisa, o Bem, o Mal, coisas assim. E ele disse que a senhora tem que fazer isso, lembre-se. Não pode recusar. Quando é que vão fechar isto aqui?
— O comitê de financiamento vai decidir no final da semana... Por que...
— Porque então a senhora tem esta noite — disse Lyra. — Poderia ajeitar esta máquina para colocar palavras na tela em vez de figuras, como eu fiz. Ia ser fácil fazer isso. Então a senhora poderia mostrar para eles e eles teriam que lhe dar o dinheiro para continuar. E a senhora poderia descobrir tudo sobre o Pó, as Sombras, e me contar. Sabe, o aletiômetro não me diz tudo que preciso saber — continuou, com certo desdém, como uma duquesa descrevendo uma criada insatisfatória. — Mas a senhora poderia descobrir para mim. Ou então eu provavelmente conseguiria com esse tal Ching, com os pauzinhos. Mas é mais fácil trabalhar com figuras. Pelo menos, eu acho. Vou tirar isto agora — acrescentou, retirando os eletrodos da cabeça.
A Dra. Malone deu-lhe um lenço de papel para limpar o gel, e guardou os fios.
— Então já vai embora? — perguntou. — Bem, você me proporcionou momentos estranhos, sem dúvida.
— Vai fazer ele usar palavras? — Lyra perguntou, pegando a mochila.
— Acho que é tão inútil quanto completar o pedido de verba — suspirou a Dra. Malone. — Não, escute, quero que volte aqui amanhã. Você vai poder? Mais ou menos a esta hora? Quero que você demonstre para outra pessoa.
Lyra franziu a testa. Seria uma armadilha?
— Bom, está certo — concordou. — Mas não se esqueça que eu preciso saber umas coisas.
— Sim, é claro. Você virá?
— Sim. Se digo que venho, venho mesmo. Acho que posso ajudar a senhora.
E partiu. O porteiro ergueu os olhos e logo voltou ao seu jornal.


— A escavação de Nuniatak? — disse o arqueólogo, girando a cadeira. — Você é a segunda pessoa em um mês que quer saber sobre isso.
— Quem foi a outra? — Will perguntou, imediatamente em guarda.
— Acho que ele era jornalista, não tenho certeza.
— Por que ele queria saber sobre isso?
— Tinha ligação com um dos homens que desapareceram naquela viagem. Foi no auge da Guerra Fria que a expedição desapareceu. Guerra nas Estrelas. Você provavelmente é jovem demais para se lembrar. Os americanos e os russos estavam construindo enormes instalações de radar em todo o Ártico... Mas, afinal, em que posso ajudar?
— Bem, na verdade estou só tentando saber coisas sobre aquela expedição — disse Will, tentando ficar calmo. — É para um trabalho da escola sobre o homem pré-histórico. Li sobre essa expedição que desapareceu, e fiquei curioso.
— Bem, você não é o único. Na época houve grande repercussão. Eu pesquisei para o jornalista. Tratava-se de uma investigação preliminar, não exatamente escavações. Não se pode escavar até saber se vale a pena, de modo que aquele grupo foi examinar alguns sítios para fazer um relatório. Era uma meia dúzia de sujeitos. Às vezes, nesse tipo de expedição, juntam-se pessoas de outros campos, sabe, geólogos ou coisa assim, para rachar o custo. Eles estudam as coisas deles, e nós, as nossas. Nesse caso havia um físico no grupo. Acho que ele estava estudando partículas atmosféricas. A aurora boreal, entende, as luzes do Norte. Parece que ele tinha balões com radiotransmissores.
O homem fez uma pausa, depois continuou:
— E havia outro homem com eles. Um ex-militar da Marinha Real, uma espécie de explorador profissional. Iam entrar num território bastante selvagem, e os ursos polares são sempre um perigo no Ártico. Os arqueólogos podem lidar com algumas coisas, mas não somos treinados para atirar, e é muito útil ter alguém que saiba atirar, montar um acampamento, que entenda de navegação e de todo tipo de necessidades de sobrevivência. Mas todos sumiram. Ficaram em contato pelo rádio com uma estação de pesquisa local, mas um dia não responderam ao sinal e nunca mais houve notícias deles. Tinha havido uma tempestade de neve, mas isso era comum. A expedição de busca encontrou o último acampamento deles mais ou menos intacto, embora os ursos tivessem devorado o estoque de comida, mas não havia qualquer sinal de gente. Infelizmente é tudo que tenho para lhe contar.
— Sim... — fez Will. — Muito obrigado. — Fez menção de sair, mas parou à porta. — Hum... Aquele jornalista, o senhor disse que ele estava interessado num dos homens. Qual deles era?
— O explorador. Um homem chamado Parry.
— Como era ele? Quer dizer, o jornalista?
— Por que você quer saber?
— Porque... — Will não conseguiu pensar numa razão plausível. Não deveria ter perguntado. — Perguntei à toa. Só curiosidade.
— Pelo que me lembro, era um homem grande e louro. De cabelos muito claros.
— Certo, obrigado — repetiu Will, e voltou-se para sair.
O homem observou-o partir sem nada dizer, a testa franzida. Will viu-o estender a mão para o telefone e saiu depressa do prédio. Will percebeu que estava tremendo. O jornalista era um dos homens que tinham ido à sua casa: um homem alto, de cabelos tão louros que parecia não ter sobrancelhas ou cílios.
Não era aquele que Will tinha derrubado na escada: era o que tinha aparecido à porta da sala enquanto Will descia correndo e saltava por cima do cadáver.
Mas não era jornalista.
Havia um grande museu ali perto. Will entrou, segurando a prancheta como se estivesse fazendo um trabalho escolar, e sentou-se numa galeria cheia de quadros. Tremia muito e sentia náuseas, oprimido pelo conhecimento de ter matado alguém, de ser um assassino. Até agora tinha mantido o controle, mas estava ficando difícil. Ele tinha tirado a vida de um ser humano.
Ficou meia hora sentado ali, e foi a meia hora mais difícil da sua vida. As pessoas entravam e saíam, contemplavam os quadros, falando em voz baixa, ignorando-o, um funcionário do museu ficou parado à porta durante alguns minutos, mãos atrás das costas, e depois afastou-se devagar e Will, às voltas com o horror daquilo que tinha feito, não movia um músculo. Gradualmente foi ficando mais calmo. Afinal, tinha agido para defender a mãe. Eles a estavam assustando; nas condições dela, eles a estavam perseguindo. Ele tinha o direito de defender o seu lar. O pai iria querer que ele agisse assim. Tinha feito aquilo porque era a coisa certa a fazer. Fez para impedir que roubassem o escrínio de couro verde. Fez para que pudesse encontrar o pai; e não tinha o direito de fazer isso? Todas as suas brincadeiras infantis lhe voltavam agora: ele e o pai, um salvando o outro de avalanches ou combatendo piratas. Bom, agora era de verdade.
“Vou achar você”, prometeu em pensamento. “É só me ajudar, e eu vou achar você, e vamos tomar conta da mamãe, e tudo vai ficar bem...”
Afinal, ele agora tinha um lugar onde se esconder, um lugar tão seguro que ninguém jamais o encontraria lá. E os papéis dentro do escrínio (que ele ainda não tivera tempo de ler) também estavam em segurança debaixo do colchão em Citàgazze.
Finalmente percebeu que todas as pessoas tomavam a mesma direção. Estavam saindo, pois o funcionário avisava que o museu fecharia dali a 10 minutos. Will reuniu forças e partiu. Conseguiu encontrar a rua onde ficava o escritório do advogado e pensou em ir vê-lo, apesar do que tinha dito antes. O homem parecia amigável...
Mas ao decidir atravessar a rua e entrar, ele estacou de repente. O homem alto de sobrancelhas claras estava saindo de um carro. Will virou-se imediatamente e ficou olhando de modo casual para a vitrine de uma joalheria. Viu o reflexo do homem olhar em volta, ajeitar o nó da gravata e entrar no escritório do advogado. Assim que ele entrou, Will afastou-se, o coração novamente disparado: nenhum lugar era seguro. Tomou a direção da biblioteca da universidade para esperar por Lyra.

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