4 de fevereiro de 2017

4. O aletiômetro

— ESPERO que seu lugar no jantar seja ao meu lado — disse a Sra. Coulter, abrindo espaço para Lyra no sofá. — Não estou acostumada com o luxo da Residência de um Reitor. Vai ter que me mostrar quais garfos e facas devo usar.
— A senhora é uma Catedrática? — Lyra perguntou.
Ela considerava as mulheres Catedráticas com o desprezo próprio a uma pessoa da Jordan: elas existiam, mas, coitadas, não podiam ser levadas mais a sério que animais vestidos de gente representando uma peça. A Sra. Coulter, por outro lado, não se parecia com qualquer Catedrática que Lyra já tivesse visto e certamente não com as duas senhoras idosas e sérias que eram as outras convidadas. Lyra havia feito essa pergunta esperando uma resposta negativa, pois a Sra. Coulter tinha um ar elegante que encantou a garota; Lyra mal conseguia tirar os olhos dela.
— Na verdade, não — respondeu a Sra. Coulter. — Pertenço à faculdade da Dama Hannah, porém a maior parte do meu trabalho é feita fora de Oxford... Me fale de você, Lyra. Sempre morou na Faculdade Jordan?
Cinco minutos depois, Lyra tinha contado a ela tudo da sua vida meio selvagem: seus caminhos favoritos pelos telhados, a batalha dos Barreiros, a ocasião em que ela e Roger tinham capturado e assado uma gralha, sua intenção de capturar um barco dos gípcios e ir velejando até Abingdon etc. Contou até (depois de olhar em volta, e baixando a voz) sobre a brincadeira dela e de Roger com as caveiras na cripta.
— E os fantasmas apareceram no meu quarto, sabe, sem cabeça! Não conseguiam falar, só faziam uns barulhos de gorgolejo, mas eu sabia muito bem o que eles queriam. Então no dia seguinte fui até lá embaixo e coloquei as moedas de volta. Senão eles podiam até me matar.
— Quer dizer que você não tem medo do perigo? — disse a Sra. Coulter em tom de admiração.
A essa altura já estavam jantando; como a Sra. Coulter esperava, estavam sentadas juntas. Lyra ignorou completamente seu outro vizinho — o Bibliotecário — e passou a refeição inteira conversando com a Sra. Coulter.
Quando as senhoras se retiraram para o café, Dama Hannah disse:
— Diga-me, Lyra, vão mandá-la para a escola?
— Sei l... Eu não sei — ela corrigiu a tempo. — Provavelmente não — acrescentou, para não errar. — Eu não ia querer dar esse trabalho a eles — continuou, em tom de santinha. — E essa despesa. Certamente é melhor que eu continue morando na Jordan, sendo educada pelos Catedráticos daqui quando eles têm um tempinho livre. Como já estão aqui, certamente vai ser de graça.
— E seu tio, Lorde Asriel, tem algum plano para você? — perguntou a outra senhora, que era uma Catedrática na outra faculdade feminina.
— Acho que sim — disse Lyra. — Mas não uma escola. Ele vai me levar para o Norte na próxima viagem.
— Eu me lembro, foi o que ele me contou — disse a Sra. Coulter.
Lyra pestanejou. As duas Catedráticas se sentaram ligeiramente mais eretas, embora seus dimons, por boa educação ou por preguiça, se limitassem a olhar de relance um para o outro.
— Nós nos encontramos no Régio Instituto do Polo Ártico — continuou a Sra. Coulter. — Aliás, é em parte por causa desse encontro que estou aqui hoje.
— A senhora também é exploradora? — Lyra perguntou.
— De certo modo, sim. Estive várias vezes no Norte. No ano passado, fiquei três meses na Groenlândia fazendo observações da Aurora Boreal.
Foi o que bastou; daí em diante, para Lyra nada — e ninguém — mais existia. Ela contemplava a Sra. Coulter com respeitoso deslumbramento e escutava atenta e encantada as descrições da construção de iglus, das caçadas de focas, das negociações com as feiticeiras da Lapônia. As duas Catedráticas não tinham coisas tão interessantes para contar e ficaram sentadas em silêncio até a chegada dos homens.
Mais tarde, quando os convidados se preparavam para partir, o Reitor disse:
— Fique mais um pouco, Lyra; eu gostaria de conversar um minutinho com você. Vá para a minha sala das conversas, sente-se e espere por mim lá.
Intrigada, cansada e excitada, Lyra obedeceu. O criado Cousins a levou à sala das conversas e deixou a porta aberta propositalmente para poder vigiar do saguão — onde ajudava os convidados com os casacos — o que ela estaria fazendo. Lyra procurou a Sra. Coulter com o olhar, mas não a viu, e então o Reitor entrou no escritório e fechou a porta.
Sentou-se pesadamente na poltrona junto à lareira. Seu dimon esvoaçou para as costas da cadeira e se empoleirou perto da cabeça do Reitor, fixando em Lyra os velhos olhos semicerrados. A lamparina sibilava baixinho. O Reitor disse:
— Bem, Lyra, você andou conversando com a Sra. Coulter; gostou de ouvir o que ela disse?
— Gostei!
— É uma dama notável.
— É maravilhosa. É a pessoa mais maravilhosa que já conheci.
O Reitor suspirou. Com seu terno e gravata pretos, ele se parecia com o seu dimon, e de repente ocorreu a Lyra que um dia não muito distante ele seria enterrado na cripta sob o Oratório, e um artista iria gravar o dimon dele na placa de bronze para o caixão, e o nome do dimon estaria ao lado do dele.
— Eu já devia ter arranjado tempo para ter uma conversa com você, Lyra — ele começou, depois de um instante. — Estava pretendendo mesmo fazer isso, mas parece que já passou mais tempo do que eu imaginava. Você sempre esteve segura aqui na Jordan, minha cara. Acho que tem sido feliz. Não foi fácil para você nos obedecer, mas gostamos muito de você, e você nunca foi uma criança má. Há muita bondade e ternura na sua natureza, e muita determinação. Você vai precisar de tudo isso. No mundo lá fora, estão acontecendo coisas das quais eu gostaria de proteger você, prendendo-a aqui na Jordan, porém isso não é mais possível.
Ela o encarou sem falar. Então ela ia embora?
— Você sabia que um dia teria que ir para a escola — o Reitor continuou. — Nós aqui lhe ensinamos algumas coisas, mas não muito bem, nem de maneira organizada. Nosso conhecimento é de outro tipo. Você precisa aprender coisas que homens idosos não têm condições de lhe ensinar, principalmente na sua idade. Você certamente sabia disso. Não é filha de criados, não poderíamos entregar você para ser adotada por uma família da cidade. Eles poderiam cuidar de você em certas coisas, mas as suas necessidades são diferentes. O que estou querendo dizer, Lyra, é que esta parte da sua vida dentro da Faculdade Jordan está chegando ao fim.
— Não, não! — ela protestou. — Não quero sair da Jordan! Gosto daqui. Quero ficar aqui para sempre!
— Quando a gente é jovem, pensa que as coisas duram para sempre. Infelizmente, elas não duram. Lyra, não falta muito tempo, no máximo poucos anos, para você se tornar uma moça, não mais uma criança. Uma senhorita. Pode acreditar, aí você vai achar a Faculdade Jordan um lugar muito difícil para se morar.
— Mas é o meu lar!
— Tem sido o seu lar. Mas agora você precisa de outra coisa.
— Escola, não. Eu não vou para a escola.
— Você precisa de companhia feminina. De orientação feminina.
A expressão “orientação feminina” fez Lyra pensar nas Catedráticas, e ela fez uma careta involuntária. Ser exilada da imponência da Jordan, do esplendor e fama de seu ensino, para uma faculdade num prédio de tijolos parecendo uma pensão no subúrbio de Oxford, com Catedráticas desmazeladas que cheiravam a repolho e naftalina, como aquelas duas!
O Reitor percebeu a expressão dela e viu piscarem em vermelho os olhos de gambá de Pantalaimon. Perguntou:
— E se por acaso fosse a Sra. Coulter?
No mesmo instante, o pelo de Pantalaimon mudou de marrom-escuro para puro branco.
Lyra arregalou os olhos.
— De verdade?
— Ela é conhecida de Lorde Asriel. O seu tio, naturalmente, está muito preocupado com o seu bem-estar, e quando a Sra. Coulter ouviu falar de você, no mesmo instante se ofereceu para ajudar. Aliás, ela é viúva. O marido morreu num acidente muito triste há alguns anos; então, se lembre disso antes de perguntar alguma coisa.
Lyra assentiu ansiosamente e perguntou:
— E ela vai mesmo... tomar conta de mim?
— Você gostaria?
— Sim!
Lyra mal conseguia ficar sentada. O Reitor sorriu. Isso acontecia tão raramente que ele tinha perdido a prática, e quem estivesse prestando atenção (coisa que Lyra não estava em condições de fazer) pensaria que se tratava de uma careta de desagrado.
— Bem, então é melhor convidá-la para vir conversar sobre isso — disse.
Ele saiu da sala das conversas e quando voltou, um minuto depois, com a Sra. Coulter, Lyra estava de pé, excitada demais para ficar sentada. A Sra. Coulter sorriu, e seu dimon mostrou os dentes brancos numa expressão travessa e satisfeita. Ao passar por Lyra a caminho de uma poltrona, a Sra. Coulter tocou de leve seus cabelos e Lyra sentiu uma onda de carinho cobri-la, e enrubesceu.
Depois que o Reitor serviu brantwijn à Sra. Coulter, ela disse:
— Bem, Lyra, quer dizer que vou ter uma assistente?
— Sim — disse Lyra simplesmente. Teria dito “sim” a qualquer coisa.
— Preciso de ajuda em muita coisa.
— Posso trabalhar!
— E talvez tenhamos que viajar.
— Não me importo. Vou a qualquer lugar.
— Mas pode ser perigoso. Podemos ter que ir para o Norte.
Lyra ficou sem fala. Finalmente conseguiu perguntar:
— Logo?
A Sra. Coulter riu e disse:
— Talvez. Mas sabe que vai ter que trabalhar muito. Vai ter que aprender matemática, navegação, geografia celeste.
— A senhora vai me ensinar?
— Vou. E você vai ter que me ajudar tomando notas, arrumando meus papéis, fazendo vários cálculos básicos e coisas assim. E como vamos visitar algumas pessoas importantes, temos que arrumar roupas bonitas para você. Há muito que aprender, Lyra.
— Não me importo. Quero aprender tudo.
— Tenho certeza de que vai conseguir. Quando voltar à Jordan, será uma viajante célebre. Agora, vamos partir muito cedo amanhã de manhã, pelo zepelim da madrugada, então é melhor você ir dormir. Vejo você no café da manhã. Boa noite!
— Boa noite — retribuiu Lyra. Depois, se lembrou do pouco de bons modos que conhecia, se virou da porta e disse: — Boa noite, Reitor.
Ele assentiu.
— Durma bem.
— E obrigada — acrescentou Lyra, dirigindo-se à Sra. Coulter.


Ela finalmente conseguiu dormir, embora Pantalaimon não tivesse sossegado até ela ralhar com ele, e ele então se transformou em porco-espinho de pura má-criação. Ainda estava escuro quando alguém a sacudiu.
— Lyra... psiu... Não se assuste... acorde, garota!
Era a Sra. Lonsdale. Estava segurando uma vela; ela se inclinou e falou baixinho, segurando Lyra com a mão livre.
— Escute. O Reitor quer falar com você antes de você se encontrar com a Sra. Coulter no café da manhã. Se levante depressa e corra até a Residência. Entre no jardim e bata na porta-janela da sala das conversas. Entendeu?
Completamente acordada e fervendo de curiosidade, Lyra assentiu e enfiou os pés nos sapatos que a Sra. Lonsdale colocou no chão para ela.
— Não precisa se lavar agora. Pode fazer isso depois. Vá direto e volte direto. Vou começar a arrumar sua bagagem e separar alguma coisa para você usar. Vamos, vá logo.
O Quadrilátero escuro ainda estava cheio do ar frio da noite. No céu as últimas estrelas ainda estavam visíveis, mas a luz que vinha do leste gradualmente ocupava o céu acima do Salão. Lyra correu para o Jardim da Biblioteca e ficou por um momento parada na imensa quietude, olhando as pontinhas de pedra da Capela, a cúpula verde-perolada do Prédio Sheldon, o lampião pintado de branco da Biblioteca. Agora que ia deixar aquele lugar, estava se perguntando se sentiria muita saudade.
Alguma coisa se moveu na porta-janela da sala das conversas e um brilho de luz cintilou por um instante. Ela se lembrou do que tinha que fazer e bateu na porta de vidro, que se abriu de imediato.
— Muito bem. Entre depressa. Não temos muito tempo — disse o Reitor, fechando a cortina sobre a janela assim que ela entrou. Ele estava inteiramente vestido de preto, como de costume.
— Quer dizer que eu não vou, afinal? — Lyra perguntou.
— Vai, sim. Não posso impedir — disse o Reitor, sem que Lyra percebesse na ocasião que aquilo era algo estranho de se dizer. — Lyra, quero lhe dar uma coisa, mas você vai ter que prometer que não vai contar a ninguém. Você jura?
— Juro — disse Lyra.
Ele foi até a escrivaninha e tirou de uma gaveta um pacotinho embrulhado em veludo preto. Quando ele abriu o pano, Lyra viu uma coisa como um relógio de pulso grande, ou um relógio de parede pequeno: um disco espesso de ouro e cristal. Podia ser uma bússola ou algo assim.
— O que é isso? — ela perguntou.
— É um aletiômetro. Só existem seis no mundo, Lyra, e novamente eu aviso: guarde segredo. Seria melhor se a Sra. Coulter não soubesse. O seu tio...
— Mas o que isso faz?
— Diz a verdade. Mas como ele funciona, você vai ter que descobrir sozinha. Agora vá, está clareando. Corra de volta ao seu quarto antes que alguém a veja.
Ele dobrou o veludo sobre o instrumento e o colocou nas mãos dela. Era surpreendentemente pesado. Então ele colocou as mãos de cada lado da cabeça da menina e a segurou de leve por um instante.
Ela tentou erguer os olhos para ele e perguntou:
— O que o senhor ia dizer do meu tio Asriel?
— O seu tio deu isso de presente à Faculdade Jordan há alguns anos. Ele podia...
Antes que ele pudesse terminar a frase, ouviram uma batida leve na porta. Ela sentiu as mãos dele estremecerem.
— Vá depressa, agora, criança — ele disse baixinho. — Os poderes deste mundo são muito grandes. Homens e mulheres são movidos por ondas muito mais violentas do que você pode imaginar, que nos arrastam a todos na correnteza. Vá em paz, Lyra. Seja discreta.
— Obrigada, Reitor — ela disse em tom formal.
Apertando o pacote de encontro ao peito, ela saiu da sala das conversas pela porta para o jardim, olhando de relance para trás e vendo o dimon do mestre observando-a do peitoril da janela. O céu já estava mais claro; havia um cheiro novo no ar.
— Que é isso aí? — perguntou a Sra. Lonsdale, fechando a pequena e maltratada mala.
— O Reitor me deu. Será que vai caber na mala?
— Tarde demais. Não vou tornar a abrir. Seja o que for, vai ter que ir no bolso do seu casaco. Vá depressa para a Despensa; não faça os outros esperarem...


Só depois de se despedir dos poucos criados que estavam acordados e da Sra. Lonsdale foi que ela se lembrou de Roger, e então se sentiu culpada por não ter pensado nele uma só vez depois que conhecera a Sra. Coulter. Como as coisas tinham acontecido depressa!
E agora ela estava a caminho de Londres; sentada junto à janela num zepelim, com as pequenas e afiadas garras das patas traseiras de arminho de Pantalaimon enfiadas em sua coxa, enquanto as patas dianteiras do seu dimon se apoiavam na vidraça através da qual ele espiava. Ao lado de Lyra, a Sra. Coulter trabalhava em alguns papéis, mas logo os guardou e começou a conversar. Que conversa interessante! Lyra ficou deslumbrada; dessa vez a conversa não era sobre o Norte, mas sobre Londres, os restaurantes e salões de baile, as festas nas Embaixadas e nos Ministérios, as fofocas entre White Hall e Westminster. Para Lyra a conversa era quase mais fascinante do que a paisagem mutante vista da aeronave. O que a Sra. Coulter estava dizendo parecia ser acompanhado de um perfume de “adultez”, alguma coisa ao mesmo tempo perturbadora e atraente: era o cheiro da elegância.
A aterrissagem em Falkeshall Gardens, a viagem de barco atravessando o rio marrom, o quarteirão de mansões imponentes no Embankment, onde um encarregado corpulento (uma espécie de porteiro condecorado) saudou a Sra. Coulter e piscou para Lyra, que o estudou com expressão impassível.
E depois o apartamento...
Lyra só fazia abrir a boca.
Em sua curta vida, ela já havia visto muita beleza, mas era uma beleza jordaniana, uma beleza oxfordiana — imponente, pétrea, masculina. Na Faculdade Jordan, muita coisa era grandiosa, mas nada era mimoso; no apartamento da Sra. Coulter tudo era mimoso. Ele era cheio de luz, pois as janelas largas eram viradas para o sul e as paredes eram cobertas por um delicado papel listrado em branco e dourado. Quadros encantadores em molduras douradas, um espelho antigo, arandelas interessantes servindo de base para luminárias anbáricas com cúpulas de babados; e babados nas almofadas, também, e sanefas estampadas de flores escondendo o trilho das cortinas, e um macio tapete verde estampado de folhas; e aos olhos inocentes de Lyra parecia que cada superfície estava coberta de lindas caixinhas, pastoras e arlequins de porcelana.
A Sra. Coulter sorriu da admiração da menina.
— É, Lyra, há tanta coisa para lhe mostrar! Tire o casaco e vou lhe mostrar o banheiro. Você pode se lavar, depois vamos almoçar e fazer compras...
O banheiro era outra maravilha. Lyra estava acostumada a se lavar com um duro sabonete amarelo numa bacia trincada, onde a água que pingava das torneiras nunca ficava mais do que morna, e muitas vezes com pedacinhos de ferrugem; mas ali a água era quente, o sabão era cor-de-rosa e as toalhas eram felpudas e macias como nuvens. E em volta do espelho fumê havia pequenas luzes cor-de-rosa, de modo que quando Lyra se olhou no espelho ela viu uma figura suavemente iluminada, bem diferente da Lyra que ela conhecia.
Pantalaimon, que procurava imitar a forma do dimon da Sra. Coulter, estava agachado na beirada da bacia, fazendo caretas para ela. Ela o empurrou para dentro da água com sabão e de repente se lembrou do aletiômetro no bolso do casaco. Tinha deixado o casaco numa cadeira na sala. Tinha prometido ao Reitor guardar segredo da Sra. Coulter...
Ah, aquilo era confuso. A Sra. Coulter era tão boa e sábia, ao passo que Lyra tinha visto o Reitor tentando envenenar tio Asriel. A qual dos dois ela devia mais obediência?
Enxugou-se às pressas e correu de volta para a sala, onde seu casaco ainda estava intocado, naturalmente.
— Pronta? Acho que podemos ir almoçar no Régio Instituto do Polo Ártico. Sou uma das poucas mulheres membros, então é melhor usar os privilégios que tenho.
Uma caminhada de vinte minutos as levou a um imponente prédio com fachada em pedra, onde elas se sentaram num amplo salão de refeições com toalhas brancas como neve e talheres de prata brilhante sobre as mesas, e comeram fígado de vitela e bacon.
— O fígado de vitela não faz mal, nem o de foca, mas se você ficar sem comida no Ártico, não deve comer fígado de urso. Ele é cheio de um veneno que mata em poucos minutos.
Enquanto comiam, a Sra. Coulter comentava sobre algumas pessoas nas outras mesas.
— Está vendo aquele senhor idoso, de gravata vermelha? É o Coronel Carborn. Ele fez o primeiro voo de balão sobre o Polo Norte. E o homem alto perto da janela, aquele que acaba de se levantar, é o Dr. Flecha Partida.
— Ele é scraelingue?
— É, sim. Foi ele quem mapeou as correntes oceânicas do Grande Oceano Ártico...
Lyra olhava todos aqueles grandes homens com curiosidade e respeito. Eram estudiosos, sem dúvida, mas eram exploradores também. O Dr. Flecha Partida sabia sobre o fígado dos ursos; ela duvidava que o Bibliotecário da Jordan soubesse.
Depois do almoço, a Sra. Coulter lhe mostrou algumas das preciosas relíquias do Ártico na Biblioteca do Instituto: o arpão que matara a grande baleia Grimssdur, a pedra com a inscrição numa linguagem desconhecida encontrada na mão do explorador Lorde Rukh, morto por congelamento na solidão da sua barraca, um acendedor de fogo usado pelo Capitão Hudson em sua famosa viagem à Terra de Van Tieren. Ela contou a história de cada relíquia, e Lyra sentiu o coração disparar de admiração por aqueles grandes heróis corajosos e distantes.
Depois foram às compras. Tudo naquele dia extraordinário era uma experiência nova para Lyra, mas fazer compras foi a mais estonteante. Entrar num prédio enorme cheio de roupas lindas, onde as pessoas deixam a gente experimentar, onde a gente se olha nos espelhos... E as roupas eram tão bonitinhas... As roupas de Lyra tinham vindo através da Sra. Lonsdale, e muitas delas eram usadas e bastante remendadas. Ela raramente teve alguma coisa nova, e quando tinha, era uma roupa escolhida pela durabilidade, não pela aparência; e ela mesma nunca escolhera nada. E agora, com a Sra. Coulter sugerindo isto, elogiando aquilo e pagando tudo, e mais ainda...
Quando terminaram, Lyra estava corada e tinha os olhos brilhantes de cansaço. A Sra. Coulter pediu que a maior parte das roupas fosse embalada e entregue em sua casa, mas levou uma ou duas coisas consigo quando ela e Lyra caminharam de volta para o apartamento.
Depois, um banho com espuma espessa e perfumada. A Sra. Coulter entrou no banheiro para lavar os cabelos de Lyra, e ela não esfregava e arranhava como a Sra. Lonsdale. Ela era delicada. Pantalaimon observava com intensa curiosidade até que a Sra. Coulter olhou para ele, que entendeu o que ela queria dizer e se virou de costas, desviando timidamente o olhar daqueles mistérios femininos, como o macaco dourado estava fazendo. Antes disso ele nunca tinha precisado desviar os olhos de Lyra.
Então, depois do banho, um leite quente com ervas, uma camisola nova de flanela com estampado de flores e bainha recortada, e chinelos de lã de carneiro tingida de azul-claro; após isso, cama.
Tão macia, aquela cama! Tão delicada, a luz anbárica na mesa de cabeceira! E o quarto tão aconchegante, com os pequenos armários e a penteadeira e a cômoda onde seriam guardadas suas roupas novas, e um tapete de uma parede à outra, e lindas cortinas cobertas de estrelas, luas e planetas! Lyra, tensa, estava cansada demais para dormir, encantada demais para questionar qualquer coisa.
Depois que a Sra. Coulter lhe desejou uma boa noite e saiu do quarto, Pantalaimon quis chamar sua atenção e puxou seu cabelo. Ela o empurrou de leve, mas ele sussurrou:
— Onde está o negócio?
Ela soube logo o que ele queria dizer. O casaco velho e humilde estava pendurado no armário; segundos depois ela estava de volta na cama, sentada de pernas cruzadas à luz da luminária, com Pantalaimon observando atentamente enquanto ela desdobrava o veludo preto e contemplava aquilo que o Reitor lhe dera.
— Como foi que ele chamou? — ela cochichou.
— Aletiômetro.
Não adiantava perguntar o que isso significava. O objeto pesava nas mãos dela, a face de cristal brilhando, o corpo de ouro muito benfeito. Era muito parecido com um relógio, ou uma bússola, pois havia ponteiros apontando para lugares em volta do mostrador, mas em vez de horas ou pontos cardeais havia várias figuras pequeninas, todas pintadas com precisão extraordinária, como se fosse em marfim, com o mais fino e delicado pincel de visom. Ela girou o mostrador nas mãos para observar todas elas. Havia uma âncora; uma ampulheta encimada por uma caveira; um camaleão, um touro, uma colmeia... Ao todo eram 36 desenhos, e ela nem imaginava o que significavam.
— Há um botão, olhe — Pantalaimon mostrou. — Veja se consegue dar corda nele.
Na verdade, havia três pequenos pinos giratórios facetados, e cada um movimentava um dos três ponteiros menores, que se moviam em volta do mostrador com uma série de pequenos estalidos. Podiam ser apontados para qualquer uma das figuras; e uma vez entrando em posição, apontando exatamente para o centro de cada uma, eles não podiam ser movidos.
O quarto ponteiro era mais comprido e fino, e parecia ser feito de metal menos brilhante do que os outros três. Lyra não conseguiu controlar o movimento dele; ele ia para onde queria, como a agulha de uma bússola, mas não parava.
— O final “metro” significa “medida” — Pantalaimon declarou. — Como termômetro. O Capelão nos ensinou isso.
— É, mas essa é a parte fácil — ela respondeu num cochicho. — Para que será que serve?
Nenhum dos dois conseguiu adivinhar. Lyra passou muito tempo movendo os ponteiros para apontar para um ou outro símbolo (anjo, elmo, golfinho; globo, bandolim, bússolas; vela, raio, cavalo) e observando o ponteiro grande se mover sem uma lógica aparente e sem parar; embora não tenha entendido coisa alguma, ela ficou intrigada e deliciada com a complexidade e o detalhamento. Pantalaimon se transformou num camundongo para poder chegar mais perto e descansou as patas minúsculas na borda, os olhinhos redondos negros de curiosidade enquanto ele observava os movimentos do ponteiro.
— O que você acha que o Reitor quis dizer sobre o tio Asriel? — ela perguntou.
— Talvez a gente tenha que manter isto em segurança e depois entregar a ele.
— Mas o Reitor ia envenenar tio Asriel! Talvez seja o contrário. Talvez ele fosse dizer: não entregue ao seu tio.
— Não — contradisse Pantalaimon. — É dela que temos que manter isto escondido...
Ouviram-se batidas leves na porta. A Sra. Coulter disse:
— Lyra, se eu fosse você, apagava a luz. Você está cansada, e teremos muito trabalho amanhã.
Lyra tinha enfiado depressa o aletiômetro debaixo das cobertas.
— Está certo, Sra. Coulter — disse.
— Então, boa noite.
— Boa noite.
Ela se acomodou e apagou a luz. Antes de adormecer, enfiou o aletiômetro debaixo do travesseiro, por medida de segurança.

3 comentários:

  1. LUAMARA Cahill Madrigal infiltrada Ekhaterina5 de março de 2017 21:31

    Não confiem em ninguém ....... um pequeno trauma dos Cahill, me desculpem.

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  2. Ja viu a rainha vermelha a frase dessa série é todo mundo pode trair todo mundo

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Boa leitura :)