17 de fevereiro de 2017

4. Ama e os morcegos

Ela jazia como se a brincar, a vida lhe havia escapulido, com a intenção de voltar, mas não para já.
Emily Dickinson

Ama, a filha do pastor, ficou com a imagem da menina adormecida marcada na memória: não conseguia parar de pensar nela. Nem por um instante duvidou que fosse verdade o que a Sra. Coulter lhe havia contado. Feiticeiros existiam, sem sombra de dúvida, e era perfeitamente possível que lançassem feitiços que fizessem as pessoas adormecer e que uma mãe cuidasse de sua filha com aquela feroz dedicação e ternura. Ama desenvolveu uma admiração que quase beirava a adoração pela bela mulher na caverna e sua filha encantada. Sempre que podia ia ao pequeno vale, para fazer pequenos favores à mulher ou simplesmente para tagarelar e ouvir, pois a mulher tinha histórias maravilhosas para contar. Repetidamente, ficava na esperança de ver pelo menos de relance a adormecida, mas isso só havia acontecido uma vez, e ela aceitava que provavelmente nunca mais acontecesse.
E durante o tempo que passava ordenhando as ovelhas e fiando a lã, ou moendo a cevada para fazer pão, pensava incessantemente no encantamento que fora lançado e por que isso teria acontecido. A Sra. Coulter nunca lhe contara, de maneira que Ama poderia dar asas à sua imaginação. Um dia ela pegou uma porção de pão arredondado, adoçado com mel, e fez a caminhada de três horas pela trilha até Cho-Lung-Se, onde havia um monastério. Depois de persuadir, lançando mão de bajulação, com muita paciência, e de subornar o porteiro com seu pão de mel, conseguiu obter uma audiência com o grande curandeiro Pagdzin tulku, que havia curado um surto de febre branca apenas um ano antes e que era imensamente sábio. Ama entrou na cela do grande homem, fazendo uma reverência muito respeitosa e oferecendo-lhe o restante do pão de mel com toda a humildade que pôde reunir. O dimon morcego do monge, uma fêmea, esvoaçou e girou rapidamente em torno dela, assustando seu dimon, Kulang, que enfiou-se entre seus cabelos para se esconder, mas Ama tentou se manter imóvel e em silêncio até que Pagdzin tulku falou.
— Diga, criança, o que é? Seja rápida, seja rápida — disse ele, a longa barba grisalha se sacudindo a cada palavra.
Na semiobscuridade, a barba e os olhos brilhantes eram quase tudo o que ela conseguia ver. O dimon do monge se acomodou numa viga acima dele, finalmente se aquietando, de modo que ela disse:
— Por favor, Pagdzin tulku, quero adquirir sabedoria. Eu gostaria de saber como fazer feitiços e encantamentos. Poderia me ensinar?
— Não — respondeu ele.
Ela estava esperando por isso.
— Bem, então poderia me ensinar apenas um remédio? — pediu humildemente.
— Talvez. Mas não vou lhe dizer o que é. Posso lhe dar o remédio, mas não contar seu segredo.
— Está ótimo, muito obrigada, isto é uma grande bênção — disse ela fazendo várias reverências.
— Qual é a doença e quem sofre dela? — perguntou o velho.
— É uma doença do sono — explicou Ama. — E é o filho do primo de meu pai que está sofrendo disso.
Ela estava sendo muitíssimo precavida, sabia, trocando o sexo do doente, apenas para o caso do curandeiro ter ouvido falar da mulher na caverna.
— E que idade tem o menino?
— Três anos mais velho que eu, Pagdzin tulku — arriscou Ama — de modo que ele tem 12 anos de idade. Ele dorme e dorme, não consegue acordar.
— Por que os pais dele não vieram me procurar? Por que mandaram você?
— Porque moram longe, do lado oposto de minha aldeia, e são muito pobres, Pagdzin tulku. Só fiquei sabendo da doença de meu parente ontem e vim imediatamente pedir seu conselho.
— Eu deveria ver o paciente e fazer-lhe um exame completo, investigar as posições dos planetas na hora em que ele adormeceu. Essas coisas não podem ser feitas apressadamente.
— Não existe nenhum remédio que o senhor possa me dar para levar comigo?
A fêmea dimon morcego despencou da viga e esvoaçou furiosamente antes de bater no chão, depois movendo-se rapidamente de um lado para outro do aposento, depressa demais para que Ama pudesse acompanhar, mas os olhos do curandeiro viram exatamente aonde ela ia e quando finalmente se acomodou de cabeça para baixo na viga e fechou suas asas escuras ao seu redor, o velho se levantou e começou a ir de uma prateleira para outra, de jarro em jarro e de caixa em caixa, tirando uma colherada de pó aqui, acrescentando uma pitada de ervas ali, na ordem em que o dimon os havia visitado. Ele colocou todos os ingredientes num almofariz e os triturou juntos, balbuciando um encantamento enquanto o fazia. Então bateu com o pilão na beirada do almofariz, soltando os últimos grãos, e pegou um pincel e tinta, e escreveu alguns caracteres numa folha de papel. Depois que a tinta secou, virou todo o pó sobre a inscrição e dobrou o papel rapidamente fazendo um pequeno embrulho quadrado.
— Diga-lhes para passarem este pó com um pincel nas narinas da criança adormecida, um pouquinho de cada vez, à medida que ele respirar — instruiu — e ele acordará. Isso tem de ser feito com grande cautela. Se inspirar demais, de uma só vez, ele sufocará. Devem usar um pincel muito macio.
— Obrigada, Pagdzin tulku — disse Ama, pegando o embrulho e colocando-o no bolso de sua blusa. — Gostaria de ter mais um pão de mel para lhe oferecer.
— Um é bastante — disse o curandeiro. — Agora vá, e da próxima vez que vier, conte-me toda a verdade, não apenas parte dela.
A menina ficou envergonhada e fez uma reverência muito respeitosa para esconder seu constrangimento. Esperava que não tivesse revelado coisas demais.
Na tarde seguinte correu para o vale assim que pôde, levando uma porção de arroz-doce embrulhada numa folha de couve. Estava impaciente para contar à mulher o que tinha feito, dar-lhe o remédio e receber seus elogios e agradecimentos, mas sobretudo estava ansiosa para que a adormecida enfeitiçada despertasse e conversasse com ela. Poderiam ser amigas!
Mas quando dobrou a curva no caminho e olhou para cima, não viu nenhum macaco dourado, nenhuma mulher paciente sentados junto à entrada da caverna. O lugar estava vazio. Ama correu os últimos metros, temerosa de que tivessem partido para sempre — mas lá estavam a cadeira na qual a mulher sentava, o equipamento de cozinha e tudo o mais.
Ama vasculhou a escuridão mais para o fundo da caverna, o coração batendo acelerado. Mas certamente a adormecida ainda não havia acordado: na semiobscuridade Ama podia distinguir o contorno do saco de dormir, a mancha mais clara que era o cabelo da menina e a curva branca de seu dimon adormecido.
Ela chegou um pouco mais perto. Não havia dúvida — os dois haviam saído e deixado a menina enfeitiçada sozinha. Um pensamento ecoou em Ama como uma nota musical: e se ela a acordasse antes que a mulher voltasse... Mas mal teve tempo para sentir a excitação dessa ideia quando ouviu ruídos vindos do caminho e, com um arrepio de culpa, ela e seu dimon se esconderam correndo num canto, atrás de uma protuberância na rocha num dos lados da caverna. Ela não deveria estar ali. Estava bisbilhotando. Isso era errado. E, agora que o macaco dourado estava agachado na entrada, farejando e virando a cabeça de um lado para outro, Ama o viu mostrar os dentes afiados e sentiu seu dimon se esconder entrando debaixo de suas roupas, sob a forma de camundongo, tremendo de medo.
— Que foi? — perguntou a mulher falando com o macaco, e então a caverna escureceu à medida que sua forma ia surgindo na entrada. — A menina esteve aqui? Sim, lá está a comida que ela deixou. Mas creio que não entrou. Devemos combinar um lugar no caminho para que ela deixe a comida.
Sem lançar um olhar para a adormecida, a mulher se inclinou para atiçar o fogo e colocou uma panela de água para esquentar enquanto o dimon se agachava não muito longe, montando guarda e vigiando o caminho. De tempos em tempos, ele se levantava e passava em revista a caverna e Ama, que estava começando a sentir dormência no corpo e desconforto em seu esconderijo apertado, desejou ardentemente que tivesse esperado do lado de fora em vez de entrar. Quanto tempo ficaria aprisionada ali?
A mulher estava misturando algumas ervas e pós na água aquecida. Ama podia sentir o cheiro das essências adstringentes à medida que subiam com o vapor.
Então houve um som vindo do fundo da caverna: a garota estava murmurando e começando a se mexer. Ama virou a cabeça: podia ver a adormecida enfeitiçada se mexendo, se virando de um lado para o outro, lançando o braço sobre os olhos. Ela estava acordando!
E a mulher não deu a menor atenção!
Sem sombra de dúvida tinha ouvido, porque levantou a cabeça por um instante, mas logo se virou de volta para as ervas na água fervente. Serviu a decocção numa taça e a deixou repousar e, só então, voltou toda a sua atenção para a menina que estava despertando.
Ama não conseguiu entender nenhuma dessas palavras, mas as ouviu com espanto e desconfiança crescentes.
— Calma, querida — disse a mulher. — Não se preocupe. Está em segurança.
— Roger — murmurou a garota, semidesperta. — Serafina! Para onde foi Roger... Onde está ele?
— Não há mais ninguém aqui, só nós — disse sua mãe, em tom monótono, quase como se a estivesse ninando. — Levante-se e deixe mamãe lavar você... Upa, levante-se, meu amor...
Ama observou enquanto a menina, gemendo, lutando para despertar, tentou afastar a mãe, e a mulher molhou uma esponja na tigela de água e limpou o rosto e o corpo da menina antes de secá-la.
A esta altura a garota estava quase acordada e a mulher teve que se mover mais depressa.
— Onde está Serafina? E Will? Ajudem-me, ajudem-me! Não quero dormir. Não, não! Não quero! Não!
A mulher estava segurando a taça com a mão firme como aço, enquanto com a outra tentava levantar a cabeça de Lyra.
— Fique quieta, querida, calma, agora fique quieta, beba seu chá — Mas a garota se debateu e quase derramou a bebida, gritando mais alto:
— Deixe-me em paz! Eu quero ir! Me larga! Will, Will ajude-me.
A mulher estava agarrando seus cabelos e puxando-os com força, obrigando-a a virar a cabeça para trás, empurrando a taça contra sua boca.
— Não quero! Não toque em mim, senão Iorek vai arrancar sua cabeça! Ah, Iorek, onde está você? Iorek Byrnison! Ajude-me, Iorek! Não vou! Não vou...
Então, depois de uma palavra da mulher, o macaco dourado saltou sobre o dimon de Lyra, agarrando-o com os fortes dedos negros. O dimon mudou de uma forma para outra, mais rapidamente do que Ama jamais tinha visto um dimon mudar de forma antes: gato-cobra-rato-raposa-lobo-chita-lagarto-doninha.
Mas as garras do macaco em momento algum afrouxaram, e então Pantalaimon se tornou um porco-espinho.
O macaco guinchou de dor e o soltou. Três longos espinhos estavam enterrados, ainda tremulando, em sua pata. A Sra. Coulter rosnou e com a mão livre deu um forte tapa na cara de Lyra, um tabefe com as costas da mão, dado com tanta violência que a jogou para trás estonteada, e, antes que Lyra pudesse se recuperar, a taça estava em sua boca e ela teria que engolir ou sufocar.
Ama desejou poder cobrir os ouvidos e não ouvir os sons: os goles forçados, o choro, os soluços, as súplicas, as ânsias de vômito eram quase impossíveis de suportar. Mas, pouco a pouco, foram se calando e apenas um ou dois soluços trêmulos era o que se podia ouvir da garota que agora estava mais uma vez mergulhando no sono — sono provocado por feitiço, por encantamento? Que nada, sono provocado por veneno! Aquilo não era sono de verdade, ela estava drogada!
Ama viu uma faixa de pelos brancos se materializar junto do pescoço da garota, enquanto seu dimon se esforçava para assumir a forma de um animal alongado, sinuoso, de pelos cor de neve, com olhos negros brilhantes e a ponta da cauda preta, e se aninhava em volta de seu pescoço.
E a mulher estava cantando baixinho, cantigas de ninar, alisando os cabelos na fronte da garota, acariciando sua face quente e seca, cantarolando cantigas das quais mesmo Ama podia ver que ela não sabia as letras, porque tudo o que cantava eram séries de sílabas sem sentido, la-la-la, ba-ba-booboo, a voz doce emitindo sons sem sentido. Afinal aquilo parou, e então a mulher fez uma coisa curiosa: pegou uma tesoura e aparou o cabelo da garota, segurando a cabeça da menina adormecida e virando-a ora para lá, depois para cá, para ver como ficava melhor. Ela pegou um cacho de cabelos louros queimados e o colocou num medalhão que usava numa corrente em volta do pescoço. Ama sabia por que: ela iria usá-lo para fazer algum outro feitiço. Mas, primeiro, a mulher o levou aos lábios e beijou... Ah, mas aquilo tudo era muito estranho. O macaco dourado arrancou o último espinho e disse alguma coisa para a mulher, que estendeu a mão para pegar um morcego adormecido no teto da caverna. O animalzinho preto se debateu e guinchou numa voz fina, penetrante como uma agulha que espetou a cabeça de Ama de uma orelha à outra, e então ela viu a mulher entregar o morcego a seu dimon, e viu o dimon puxar uma das asas pretas, e puxar, até que ela foi arrancada e se partiu ficando pendurada por um fio branco de músculo, enquanto o morcego moribundo gritava e seus companheiros voavam em círculos, angustiados e desnorteados. Craque-craque — estalo — era o que se ouvia enquanto o macaco despedaçava o bichinho membro por membro e a mulher se deitava com uma expressão melancólica em seu saco de dormir junto da fogueira e lentamente comia uma barra de chocolate.
O tempo foi passando. A luz desapareceu e a lua subiu, e a mulher e seu dimon adormeceram.
Ama, com os músculos enrijecidos e doloridos, se esgueirou para fora de seu esconderijo e passou andando nas pontas dos pés pelas pessoas que dormiam, sem fazer nenhum barulho, até estar a meio caminho na descida da trilha.
Com o medo dando-lhe velocidade, ela correu pela trilha estreita, seu dimon sob a forma de uma coruja batendo as asas silenciosamente a seu lado. O ar limpo e frio, o movimento constante das copas das árvores, o brilho das nuvens iluminadas pelo luar no céu escuro e os milhões de estrelas a acalmaram um pouco.
Ela parou quando avistou o pequeno conjunto de casas de pedra e seu dimon pousou em seu punho.
— Ela mentiu! — exclamou Ama. — Ela mentiu para nós! O que podemos fazer, Kulang? Podemos contar a Papai? O que podemos fazer?
— Não conte — disse o dimon. — Vai causar ainda mais problemas. Temos o remédio. Podemos acordar a menina. Podemos voltar lá quando a mulher estiver fora de novo, acordar a garota, e levá-la embora.
Só pensar naquela ideia enchia os dois de medo. Mas as palavras haviam sido ditas, o embrulhinho de papel estava bem guardado no bolso de Ama e eles sabiam como usá-lo.


... acordar. Não consigo vê-la, acho que ela está por perto, ela me machucou.
— Ah, Lyra, não fique com medo! Se você também ficar com medo, eu vou enlouquecer.
Eles tentaram se abraçar bem apertado, mas seus braços passavam pelo ar vazio.
Lyra tentou explicar o que estivera dizendo, sussurrando bem junto do rosto pálido de Roger na escuridão:
— Eu só estou tentando acordar. Estou com tanto medo de dormir a minha vida inteira e então morrer... Eu quero acordar antes! Não me importaria que fosse apenas por uma hora, desde que eu estivesse realmente viva e acordada. Não sei se isto é mesmo real ou não, mas vou ajudar você, Roger! Juro que vou!
— Mas se você estiver sonhando, Lyra, pode ser que não acredite mais quando acordar. Isso é o que eu faria, pensaria que havia apenas sido um sonho.
— Não! — exclamou ela em tom feroz, e ...

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