17 de fevereiro de 2017

38. O Jardim Botânico

Os gípcios chegaram na tarde do dia seguinte. Não havia porto, é claro, de modo que tiveram que ancorar o navio a alguma distância ao largo da costa e John Faa, Farder Coram e o capitão vieram à terra num grande barco a motor tendo Serafina Pekkala como guia.
Mary tinha contado aos mulefas tudo o que sabia e, quando afinal os gípcios chegaram à costa, desembarcando na praia grande, havia uma multidão curiosa esperando para recebê-los. Ambos os lados, é claro, estavam ardendo de curiosidade com relação ao outro, mas John Faa tinha aprendido a ter cortesia e paciência de sobra em sua longa vida e estava firmemente decidido a que aquele mais estranho de todos os povos recebesse dos gípcios ocidentais unicamente gentil elegância e amizade.
De modo que, durante algum tempo, ficou parado, de pé, sob o sol quente, enquanto o zalif ancião, Sattamax, fazia um discurso de boas-vindas, que Mary deu o melhor de si para traduzir, e ao qual John Faa respondeu, apresentando-lhes as saudações dos Pântanos e dos canais e cursos d’água que eram sua terra natal.
Quando começaram a seguir pela região pantanosa em direção ao povoado, os mulefas perceberam como era difícil para Farder Coram caminhar e imediatamente se ofereceram para transportá-lo. Ele aceitou agradecido e foi assim que chegaram ao monte do pódio de reuniões, onde Will e Lyra vieram encontrá-los.
Quanto tempo havia se passado desde que Lyra tinha visto aqueles homens queridos! A última vez em que tinham estado juntos, conversando, fora nas neves do Ártico, quando estavam a caminho na missão para resgatar as crianças dos Papões. Ela estava quase tímida e estendeu a mão para um cumprimento, com insegurança, mas John Faa levantou-a do chão num abraço apertado e beijou-lhe as duas faces, e Farder Coram fez a mesma coisa, examinando-a dos pés à cabeça, antes de pegá-la no colo apertando-a contra o peito.
— Ela está crescida, John — comentou. — Lembra-se daquela garotinha que levamos para as terras do norte? Olhe só para ela agora! Ah! — exclamou com uma risada de satisfação. — Lyra, minha querida, nem se eu tivesse a língua de um anjo seria capaz de lhe dizer como estou contente em ver você de novo.
Mas ela parece estar tão magoada, tão sofrida, pensou, parece tão frágil e cansada. E nem ele nem John Faa puderam deixar de perceber a maneira como ela ficava perto de Will e como o garoto de sobrancelhas negras e retas estava atento, a cada segundo, a onde ela estava e se assegurava de nunca se afastar muito dela.
Os dois anciões o cumprimentaram respeitosamente, porque Serafina Pekkala lhes havia contado boa parte do que Will tinha feito. De sua parte, Will admirou o ar de poder maciço e autoridade da presença de Lorde Faa, um poder temperado pela cortesia, e pensou que seria uma boa maneira de se comportar quando ele próprio ficasse velho, John Faa era um abrigo e uma força acolhedora.
— Dra. Malone — disse John Faa — precisamos nos reabastecer de água doce e de qualquer coisa que possa nos servir de alimento que seus amigos possam nos vender. Além disso, nossos homens estão embarcados a bordo desse navio já há um bom tempo e temos alguns desentendimentos que precisam ser resolvidos com boas brigas e seria uma bênção se todos eles pudessem passar algum tempo desembarcados de modo que pudessem respirar o ar dessa terra, para depois contar a suas famílias em casa sobre o mundo para onde viajaram.
— Lorde Faa — respondeu Mary — os mulefas me pediram para lhe dizer que fornecerão tudo o que precisa e que ficariam honrados se todos vocês aceitassem ser seus convidados esta noite e viessem compartilhar sua refeição.
— É com grande prazer que aceitamos o convite — disse John Faa.
De modo que, naquela noite, pessoas de três mundos sentaram-se e dividiram pão, carne, frutas e vinho. Os gípcios ofereceram a seus anfitriões presentes de todos os cantos de seu mundo: cântaros de aguardente de zimbro, esculturas entalhadas em marfim de morsa, tapeçarias em seda do Turquestão, canecas de prata das minas de Sveden, pratos esmaltados da Coreia.
Os mulefas os receberam encantados e, em troca, ofereceram objetos de seu próprio artesanato: vasos raros feitos de madeira-de-nó antiquíssima, peças de seus mais requintados trabalhos de cordame, tigelas laqueadas e redes de pesca, tão resistentes e leves, que mesmo os gípcios que viviam nos Pântanos nunca tinham visto igual.
Depois de comparecer ao banquete, o capitão agradeceu a seus anfitriões e partiu para supervisionar o trabalho dos tripulantes enquanto levavam para bordo os mantimentos e a água de que precisavam, porque pretendiam partir assim que a manhã chegasse. Enquanto eles faziam isso, o velho zalif disse a seus convidados:
Uma grande mudança ocorreu em todas as coisas. E, como prova disso, uma responsabilidade nos foi concedida. Gostaríamos de mostrar a vocês o que isso significa.
De modo que John Faa, Farder Coram, Mary e Serafina foram com eles até o lugar onde a terra dos mortos se abria e de onde os fantasmas continuavam saindo, ainda em sua infindável procissão. Os mulefas estavam plantando um bosque ali ao redor, porque era um lugar sagrado, disseram, cuidariam dele para sempre, era uma fonte de alegria.
— Bem, isto é um mistério — comentou Farder Coram — e estou contente por ter vivido o bastante para ver isso. Partir para a escuridão da morte é algo que todos nós tememos, por mais que digamos o contrário. Mas se existe uma saída para aquela parte de nós que tem que descer até lá, então isso deixa meu coração mais leve.
— Você tem razão, Coram — concordou John Faa. — Já vi muita gente morrer, eu mesmo já mandei um bocado de homens lá para baixo para a escuridão, embora fosse sempre no calor da batalha. Saber que depois de passar algum tempo na escuridão voltaremos a sair para uma terra tão bonita como esta, para estarmos livres no céu como os pássaros, bem, essa é a mais bela promessa que qualquer um poderia desejar.
— Precisamos falar com Lyra a respeito disso — comentou Farder Coram — e descobrir como aconteceu e o que significa.
Mary achou extremamente difícil se despedir de Atai e dos outros mulefas. Antes de embarcar no navio, eles lhe deram um presente: um frasco de laca contendo óleo da árvore-das-rodas e, ainda mais preciosa que qualquer coisa, uma pequena sacola de sementes.
Pode ser que elas não cresçam em seu mundo, disse Atai, mas se isso acontecer, você tem o óleo. Não nos esqueça, Mary.
Nunca, declarou Mary. Nunca. Mesmo se eu viver tanto tempo quanto as bruxas e esquecer de tudo o mais, nunca me esquecerei de você e da gentileza de seu povo, Atai.
E assim a jornada de volta para casa começou. O vento estava suave, as águas do mar calmas e, embora eles avistassem o cintilar daquelas enormes asas brancas como neve mais de uma vez, os pássaros se mantiveram bem distantes.
Will e Lyra passavam todas as horas juntos e, para eles, as duas semanas de viagem se passaram num piscar de olhos.
Xaphania tinha dito a Serafina Pekkala que, quando todas as aberturas estivessem fechadas, os mundos retornariam mais uma vez às posições exatas e correspondentes que tinham entre si, e a Oxford de Lyra e a de Will ficariam de novo uma sobre a outra, como imagens transparentes em folhas de filme, sendo levadas cada vez para mais perto uma da outra até se fundirem, embora, na verdade, nunca realmente fossem se tocar.
Naquele momento, contudo, estavam separadas por uma grande distância — uma distância tão grande quanto a que Lyra tivera que percorrer em sua viagem de Oxford para Cittàgazze. A Oxford de Will agora havia chegado, estava bem ali, à distância apenas de um corte de faca. Era de tardinha quando chegaram e, enquanto a âncora caía levantando água, o sol banhava de uma luz morna as colinas verdes, os telhados de terracota, aquela elegante avenida à beira-mar, o porto em ruínas e o pequeno café de Will e Lyra. Uma busca demorada com o telescópio do capitão não havia revelado quaisquer sinais de vida, mas, por via das dúvidas, John Faa estava planejando levar meia dúzia de homens armados para terra. Eles não interfeririam, mas estariam lá se precisassem deles.
Fizeram uma última refeição juntos, vendo a noite cair. Will despediu-se do capitão e de seus oficiais, de John Faa e de Farder Coram. Ele mal parecia ter consciência da presença deles, e eles o viam mais claramente do que Will os via: viam uma pessoa jovem, mas muito forte e profundamente abalada. Finalmente, Will, Lyra e seus dimons, Mary e Serafina Pekkala iniciaram a caminhada pela cidade deserta. E estava deserta, o único som de passadas e as únicas sombras eram as deles. Lyra e Will foram na frente, de mãos dadas, para o lugar onde teriam que se separar, e as mulheres ficaram a alguma distância mais atrás, conversando como irmãs.
— Lyra quer fazer uma pequena visita à minha Oxford — comentou Mary. — Ela tem alguma coisa em mente. Disse que voltará logo depois.
— O que você vai fazer, Mary?
— Eu... vou com Will, é claro. Iremos para meu apartamento, minha casa, esta noite e depois, amanhã de manhã, vamos tratar de descobrir onde está a mãe dele e ver o que podemos fazer para ajudá-la a melhorar. Há tantas regras e regulamentos em meu mundo, Serafina, você tem que dar satisfações às autoridades e responder a milhares de perguntas, eu vou ajudá-lo a resolver as formalidades legais, com os serviços sociais, a questão de moradia e coisas desse tipo, e deixarei que ele se concentre na mãe. Will é um menino forte... Mas vou ajudá-lo. Além disso, eu preciso dele. Não tenho mais meu emprego, nem muito dinheiro no banco, e não ficaria nada surpreendida se a polícia estiver atrás de mim... Ele será a única pessoa no meu mundo inteiro com quem vou poder falar a respeito de tudo isso.
Elas continuaram caminhando pelas ruas silenciosas, passando por uma torre quadrada com uma porta se abrindo para a escuridão, passaram por um pequeno café em que as mesas ficavam na calçada e entraram numa larga avenida arborizada com duas pistas e uma fileira de palmeiras no meio.
— Foi aqui que eu atravessei — declarou Mary.
A janela que Will tinha visto da primeira vez, na rua residencial tranquila, em Oxford, se abria ali, e do lado que ficava em Oxford estava sob vigilância da polícia — ou pelo menos estivera quando Mary os enganara, fazendo-os deixá-la passar. Ela viu Will alcançar o ponto exato e tatear com as mãos rapidamente no ar e a janela desapareceu.
— Vai ser uma surpresa para eles da próxima vez em que olharem — comentou.
A intenção de Lyra era ir para a Oxford de Mary e mostrar uma coisa a Will, antes de voltar com Serafina e, evidentemente, eles tinham que ser cuidadosos na escolha do lugar onde cortariam a janela para atravessar, de modo que as duas mulheres continuaram seguindo atrás deles, caminhando pelas ruas iluminadas pelo luar de Cittàgazze. À direita delas havia um amplo e gracioso terreno de jardins cercados, gramado e arborizado, com uma floresta ao fundo, tendo no centro uma grandiosa mansão com um pórtico clássico que reluzia como uma cobertura de glacê ao luar.
— Quando você me disse qual era a forma de meu dimon — recordou Mary — disse que poderia me ensinar a vê-lo, se tivéssemos tempo... gostaria tanto que tivéssemos.
— Ora, mas nós tivemos tempo — retrucou Serafina — e não estivemos conversando? Eu lhe ensinei alguns conhecimentos e tradições das bruxas, isso teria sido proibido de acordo com os antigos costumes de meu mundo. Mas você está voltando para o seu mundo, e os velhos costumes mudaram. E também aprendi muita coisa com você. De maneira que vamos lá: quando você falou com as Sombras em seu computador, teve que colocar sua mente num certo estado especial, não teve?
— Tive... exatamente como Lyra fazia com o aletiômetro. Está querendo dizer que se eu tentar assim, consigo?
— Mas não é só isso, você tem que usar a visão comum ao mesmo tempo. Faça uma tentativa agora.
No mundo de Mary, eles tinham um tipo de imagem que, quando se olhava pela primeira vez, parecia uma porção de pontos de cor espalhados aleatoriamente, mas quando se olhava de uma certa maneira, a imagem parecia avançar para três dimensões: e ali na frente do papel haveria uma árvore ou um rosto, ou alguma outra coisa surpreendentemente sólida que simplesmente não estava lá antes.
O que Serafina ensinou Mary a fazer naquele momento era parecido com aquilo. Ela deveria manter sua maneira de olhar normal, enquanto, simultaneamente, ia mergulhando no estado de semitranse, de sonhar acordada, em que podia ver as Sombras. Mas agora tinha que manter as duas coisas juntas, a visão de todo dia e o transe, exatamente como você tem que olhar em duas direções ao mesmo tempo para ver as imagens tridimensionais entre os pontos.
E, exatamente como acontece com as imagens de pontos, ela de repente conseguiu.
— Ah! — exclamou e segurou o braço de Serafina para se equilibrar, pois ali, na cerca de metal do jardim, havia um pássaro pousado: um pássaro negro lustroso, com pernas vermelhas e um bico amarelo curvo: uma gralha dos Alpes, exatamente como Serafina havia descrito. O pássaro, ele, estava a apenas uns 30 centímetros ou meio metro de distância, olhando fixamente para ela com a cabeça ligeiramente inclinada para o lado, por mais incrível que parecesse, como se estivesse achando graça.
Mas ela ficou tão surpreendida que sua concentração escapuliu e ele desapareceu.
— Você conseguiu uma vez e da próxima vai ser mais fácil — observou Serafina. — Quando estiver em seu mundo, aprenderá a ver os dimons de outras pessoas também, exatamente da mesma maneira. Contudo, elas não verão o seu, nem o de Will, a menos que lhes ensine o que ensinei a você.
— Certo... Ah, mas isso é extraordinário. Que maravilha!
Mary pensou: “Lyra conversava com seu dimon, não conversava? Será que ela ouviria aquele pássaro assim como o via?” E continuou a andar, radiante de expectativa. Mais à frente, Will estava cortando uma janela, ele e Lyra esperaram que as duas mulheres os alcançassem para que ele pudesse tornar a fechá-la.
— Você sabe onde estamos? — perguntou Will.
Mary olhou ao redor. A rua em que estavam agora, no mundo de Mary, era tranquila e bem arborizada, com grandes casas de estilo vitoriano cercadas por jardins cheios de arbustos.
— Em algum lugar na zona norte de Oxford — disse Mary. — Não muito longe de meu apartamento, na verdade, embora não saiba exatamente que rua é esta.
— Eu quero ir ao Jardim Botânico — disse Lyra.
— Tudo bem. Acho que isso fica a uns 15 minutos de caminhada. Vamos por aqui...
Mary experimentou usar a visão dupla de novo. Descobriu que era mais fácil dessa vez e lá estava a gralha, com ela em seu próprio mundo, empoleirada num galho que se estendia bem baixo quase até a calçada. Para ver o que aconteceria, ela estendeu a mão e ela veio pousar nela sem hesitação. Mary sentiu o ligeiro peso, o aperto firme das garras em seu dedo e delicadamente a levou até o ombro. Ela se acomodou sobre seu ombro como se tivesse estado ali durante a vida inteira de Mary.
“Bem, ela esteve”, pensou, e seguiu adiante.
Não havia muito tráfego na High Street e quando desceram a escadaria defronte à Faculdade Magdalen em direção aos portões do Jardim Botânico estavam completamente sozinhos. Havia uma passagem ornamentada que dava para um caminho com bancos de pedra logo adiante e, enquanto Mary e Serafina sentavam ali, Will e Lyra subiram pela grade de ferro e entraram no jardim propriamente dito.
— Por aqui — disse Lyra, puxando a mão de Will.
Ela o conduziu, passando por um lago com uma fonte que ficava debaixo de uma árvore de grandes ramagens, e depois seguiu para a esquerda, andando em meio aos canteiros de plantas em direção a um pinheiro imenso com um número infindável de galhos. Ali havia um muro maciço de pedras com uma porta de entrada e, mais para dentro, na parte mais distante do jardim, as árvores eram mais jovens e plantadas num arranjo menos formal. Lyra o levou quase até o fim do jardim, passando por uma pequena ponte, até um banco de madeira, que ficava debaixo de uma árvore de galhos abertos e baixos.
— Achei! — exclamou ela. — Eu tinha tanta esperança de que fosse assim e aqui está, exatamente igual... Will, eu costumava vir a este lugar na minha Oxford e sentar exatamente neste mesmo banco sempre que queria ficar sozinha, só eu e Pan. O que pensei foi que se você... talvez apenas uma vez por ano... se pudéssemos vir aqui ao mesmo tempo, para passar uma hora ou coisa assim, então poderíamos fazer de conta que estávamos juntos de novo... porque estaríamos juntos, se você sentasse aqui e eu sentasse bem aqui no meu mundo...
— Isso — disse ele — enquanto eu viver, sempre voltarei aqui. Não importa onde eu esteja no mundo, voltarei aqui.
— No dia do Solstício de Verão — completou ela. — Ao meio-dia. Enquanto eu viver.
Enquanto eu viver...
Ele descobriu que não conseguia enxergar, mas deixou as lágrimas ardentes escorrerem e apenas a abraçou bem apertado.
— E se nós... se mais adiante... — ela estava falando num murmúrio trêmulo — ... se um dia conhecermos alguém de quem gostarmos e se nos casarmos com essas pessoas, então deveremos ser bons com elas e não ficar fazendo comparações o tempo todo, nem desejar que em vez disso tivéssemos nos casado um com o outro... Mas apenas continuar essas vindas até aqui uma vez por ano, apenas por uma hora, só para estarmos juntos...
Eles se abraçaram com força e ficaram assim. Minutos se passaram, uma ave aquática no rio ali perto se agitou e gritou um chamado, de vez em quando passava um carro pela Ponte Magdalen.
Finalmente eles se afastaram.
— Bem — disse Lyra em tom suave.
Tudo nela naquele momento era suave, e aquela seria uma das lembranças favoritas de Will, bem depois — a tensão de sua graça ansiosa suavizada pela meia-luz, seus olhos e mãos e, especialmente, seus lábios, infinitamente suaves.
Ele a beijou uma vez depois da outra e cada beijo chegava mais perto de ser o último de todos os beijos.
Com os corações pesados, mas ao mesmo tempo enternecidos pelo amor, eles foram caminhando de volta até o portão onde Mary e Serafina esperavam.
— Lyra — disse Will.
E ela chamou:
— Will.
Ele cortou uma janela para Cittàgazze. Estavam bem no fundo do terreno ajardinado da grande mansão, não muito longe da beira da floresta. Atravessaram pela última vez e olharam para baixo, para a cidade silenciosa, para os telhados de terracota reluzindo ao luar, a torre acima deles, o navio iluminado esperando, ao largo, nas águas calmas do mar. Will virou-se para Serafina e disse com tanta firmeza quanto conseguiu:
— Obrigado, Serafina Pekkala, por ter nos salvado no belvedere e por todas as outras coisas. Por favor, seja gentil com Lyra enquanto ela viver. Eu a amo mais que qualquer pessoa jamais foi amada.
Em resposta, a rainha-bruxa o beijou nas duas faces. Lyra estivera cochichando no ouvido de Mary e então elas também se abraçaram e, primeiro Mary e depois Will, atravessaram a última janela, voltando para seu próprio mundo, sob as sombras das árvores do Jardim Botânico.
“Trate de se animar, e comece agora”, pensou Will, esforçando-se o máximo que podia, mas era como tentar segurar um lobo lutando em seus braços, quando ele queria arranhar seu rosto e cravar os dentes em sua garganta, mas mesmo assim ele o fez e pensou que ninguém veria o esforço que estava lhe custando.
E sabia que Lyra estava fazendo a mesma coisa, e que aquela tensão e esforço em seu sorriso eram o sinal disso.
Apesar de tudo, ela sorriu.
Um último beijo, apressado e desajeitado, tanto que esbarraram as maçãs do rosto e uma lágrima escorrendo do olho dela passou para a face dele, os dois dimons também trocaram um beijo de despedida e Pantalaimon passou num movimento fluido pela borda da janela e subiu para os braços de Lyra, e então Will começou a fechar a janela, e estava feito, a passagem estava fechada e Lyra se fora.
— Agora — disse ele, tentando não demonstrar sua emoção, mas mesmo assim tendo que dar as costas a Mary — eu tenho que quebrar a faca.
Ele procurou, tateando no ar, da maneira já familiar, até que encontrou uma fenda e tentou trazer de volta à sua mente exatamente o que havia acontecido na ocasião anterior. Estivera prestes a cortar uma abertura para sair da caverna e a Sra. Coulter, de maneira repentina e inexplicável, o recordara de sua mãe e a faca tinha se quebrado porque, refletiu ele, finalmente havia encontrado uma coisa que não podia cortar e isso era seu amor por ela. De modo que tentou fazer a mesma coisa agora, evocando uma imagem do rosto de sua mãe, como a vira da última vez, assustada e confusa, no pequeno corredor estreito da entrada da casa da Sra. Cooper. Mas não funcionou. A faca cortou o ar com facilidade e abriu uma janela para um mundo onde desabava um grande temporal: a chuva forte, de gotas pesadas, passou através da janela, surpreendendo os dois. Ele fechou a janela rapidamente e ficou parado, confuso, por um instante.
Seu dimon sabia o que ele deveria fazer e disse apenas:
— Lyra.
É claro. Ele balançou a cabeça concordando e, com a faca na mão direita, tocou com a mão esquerda o ponto em seu rosto onde ainda estava a lágrima de Lyra.
E dessa vez, com um estalar violento, a faca se espatifou e a lâmina caiu em pedaços no chão, reluzindo sobre as pedras que ainda estavam molhadas da chuva de outro universo.
Will ajoelhou-se para recolhê-los cuidadosamente, Kirjava, com seus olhos de gata, ajudava a encontrar todos eles. Mary estava pondo a mochila no ombro.
— Bem — disse — bem, agora me ouça, Will. Mal tivemos oportunidade de conversar, você e eu... De modo que, em certa medida, ainda somos estranhos um para o outro. Mas Serafina Pekkala e eu trocamos uma promessa, e eu fiz uma promessa para Lyra ainda há pouco, e mesmo que não tivesse feito quaisquer outras promessas, eu faria uma promessa a você a respeito da mesma coisa, que é a seguinte: se você deixar, eu serei sua amiga pelo resto de nossas vidas. Nós dois estamos completamente sozinhos e acho que só nos faria bem ter esse tipo de... O que estou querendo dizer é: não há mais ninguém com quem possamos falar sobre tudo isso, exceto eu com você e você comigo... E nós dois temos que nos habituar a viver com nossos dimons também... E estamos os dois numa situação difícil e, se isso não fizer com que tenhamos alguma coisa em comum, não sei o que fará.
— Você está numa situação difícil? — perguntou Will, olhando para ela.
O rosto franco, amistoso e inteligente olhou diretamente para ele.
— Bem, eu destruí alguns equipamentos no laboratório antes de partir e falsifiquei uma carteira de identidade e... Não é nada que não possamos dar um jeito. E seus problemas, podemos resolver isso também. Podemos encontrar sua mãe e conseguir que ela receba um tratamento adequado. E se precisar de um lugar para morar, bem, se não se importar de morar comigo, se pudermos dar um jeito de conseguir isso, então não terá que ir para uma, sei lá como chamam, instituição de assistência social ou abrigo para jovens. O que quero dizer é que teremos que combinar uma história e nós dois contaremos a mesma história, poderíamos fazer isso, não acha?
Mary era uma amiga. Ele tinha uma amiga. Era verdade. Nunca tinha pensado nisso.
— Claro! — exclamou.
— Bem, então vamos lá. Meu apartamento fica a uns oito quilômetros daqui e sabe do que eu mais gostaria no mundo agora? Tomar uma xícara de chá. Vamos andando, vamos para lá botar a chaleira no fogo.


Três semanas depois do momento em que Lyra viu a mão de Will fechar a janela de seu mundo para sempre, mais uma vez encontrava-se sentada à mesa de jantar na Faculdade Jordan, onde pela primeira vez havia sucumbido aos encantos da Sra. Coulter.
Dessa vez havia um grupo menor: só ela, o Reitor e a Dama Hannah Relf, a diretora da Sta. Sophia, uma daquelas faculdades só para mulheres. A Dama Hannah também estivera presente naquele primeiro jantar e embora Lyra estivesse surpreendida de vê-la ali agora, a cumprimentou muito educadamente e descobriu que sua memória estava enganada: pois esta Dama Hannah era muito mais inteligente e interessante, e de longe muitíssimo mais gentil que a pessoa apagada e de roupas antiquadas de que se lembrava. Uma enorme variedade de coisas havia acontecido enquanto Lyra estivera fora — na Faculdade Jordan, na Inglaterra e no mundo inteiro. Parecia que o poder da Igreja havia aumentado enormemente e que muitas leis brutais tinham sido aprovadas, mas que esse poder havia desaparecido tão rapidamente quanto tinha crescido: rebeliões no Magisterium tinham derrubado os fanáticos e trazido ao poder facções mais liberais. O Conselho Geral de Oblação havia sido dissolvido, o Tribunal Consistorial de Disciplina estava confuso e sem liderança.
E as faculdades de Oxford, depois de um breve e turbulento interlúdio, estavam voltando a se acomodar na calma dos estudos e de seus rituais. Algumas coisas haviam desaparecido, a valiosa coleção de prataria do Reitor tinha sido saqueada, alguns criados da faculdade tinham sumido. O criado do Reitor, Cousins, contudo, ainda estava em seu posto e Lyra estivera pronta para enfrentar sua hostilidade com desafio, pois tinham sido inimigos desde que conseguia se lembrar. Ficou um bocado surpreendida quando ele a recebeu tão calorosamente e apertou a mão dela com as duas mãos: será que aquilo era afeição na voz dele? Bem, ele tinha mudado.
Durante o jantar, o Reitor e a Dama Hannah conversaram sobre o que havia acontecido no período em que Lyra estivera ausente e ela ouviu ora com aflição, ora com tristeza, ora com encantamento. Quando se retiraram para a sala de visitas do Reitor para o café, ele disse:
— Bem, Lyra, mal ouvimos você falar. Mas eu sei que viu muitas coisas. Será que poderia nos contar um pouco das aventuras que viveu?
— Posso — respondeu ela. — Mas não tudo de uma vez. Ainda não compreendo parte delas e outras ainda me fazem tremer e chorar, mas contarei aos senhores, prometo, tudo o que puder. Só que os senhores também têm que me prometer uma coisa.
O Reitor olhou para a senhora de cabelos grisalhos, com o dimon sagui no colo, e trocaram um olhar iluminado por uma centelha de divertimento.
— E o que temos que prometer? — perguntou a Dama Hannah.
— Têm que me prometer acreditar em mim — disse Lyra, muito seriamente. — Eu sei que nem sempre contava a verdade e que só conseguia sobreviver em alguns lugares contando mentiras e inventando histórias. De modo que sei que era assim que eu era, e sei que sabem disso, mas minha história verdadeira é importante demais para mim se só forem acreditar em metade dela. De modo que prometo contar a verdade, se prometerem acreditar nela.
— Está bem, eu prometo — declarou a Dama Hannah.
E o Reitor disse em seguida:
— E eu também.
— Mas sabem qual é a coisa que desejo — disse Lyra — quase... quase mais que qualquer outra? Gostaria tanto de não ter perdido a capacidade de ler o aletiômetro. Ah, foi tão estranho, Reitor, como surgiu logo de início e como simplesmente se foi! Um dia eu o conhecia tão bem... conseguia percorrer de alto a baixo os significados dos símbolos, passar de um nível para outro e fazer todas as conexões... era como... — Ela sorriu e continuou: — Bem, eu era como um macaco pulando de galho em galho nas árvores, eu era tão rápida. Então, de repente... nada. Nada daquilo fazia sentido, não conseguia nem me lembrar de nada, exceto os significados básicos, como, por exemplo, que a âncora significa esperança e que a caveira significa morte. Todos aqueles milhares de significados... Perdidos.
— Porém, não estão perdidos, Lyra — disse a Dama Hannah. — Os livros ainda estão na Biblioteca Bodley. A cátedra que se dedica a estudá-los continua existindo e vai muito bem obrigado.
A Dama Hannah estava sentada defronte ao Reitor, numa das duas poltronas ladeando a lareira, e Lyra estava no sofá entre eles. A lamparina ao lado da poltrona do Reitor era a única luz que havia, mas mostrava claramente as expressões dos dois velhos mestres. E foi o rosto da Dama Hannah que Lyra se descobriu estudando. Gentil, pensou Lyra, e de uma inteligência aguçada, sábia, mas era tão incapaz de ler o que significava quanto era incapaz de ler o aletiômetro.
— Pois então, muito bem — prosseguiu o Reitor. — Temos que pensar a respeito de seu futuro, Lyra.
As palavras dele fizeram Lyra tremer. Ela se preparou e sentou-se bem ereta.
— Todo o tempo em que estive fora — disse Lyra — nunca pensei a respeito disso. Tudo em que eu pensava era o momento que estava vivendo, só o presente. Houve muitas ocasiões em que pensei que não teria nenhum futuro. E agora... Bem, de repente descobrir que tenho uma vida inteira para viver, mas nenhuma... mas sem nenhuma ideia do que fazer com ela, bem, é como ter o aletiômetro e não ter ideia de como lê-lo. Imagino que terei que trabalhar, mas não sei em quê. Meu pais provavelmente eram ricos, mas aposto que nunca pensaram em deixar algum dinheiro para mim e, de qualquer maneira, acho que a esta altura devem ter gasto todo o dinheiro que tinham de alguma forma, de modo que mesmo se eu tivesse algum direito sobre a fortuna deles, não haveria mais nada. Não sei, Reitor. Eu voltei para a Jordan porque isso aqui costumava ser minha casa e não tenho nenhum outro lugar para ir. Acho que o Rei Iorek Byrnison me deixaria viver em Svalbard e creio que Serafina Pekkala me deixaria viver com seu clã de bruxas, mas não sou urso e não sou bruxa, de modo que não me adaptaria muito bem lá, por mais que os ame. Talvez os gípcios me aceitem... Mas realmente não sei mais o que fazer, estou perdida, realmente perdida, agora.
Os dois olharam para ela: seus olhos estavam brilhando mais do que habitualmente, o queixo levantado, com uma expressão que havia aprendido com Will, sem se dar conta. Parecia tão desafiadora quanto perdida, pensou a Dama Hannah, e admirou-a por isso, e o Reitor viu algo — ele viu como a graça inconsciente da criança havia desaparecido e como estava desajeitada em seu corpo mais crescido. Mas ele amava imensamente aquela menina e se sentia metade orgulhoso, metade maravilhado com a bela mulher adulta que ela seria, tão brevemente.
— Você nunca estará perdida enquanto esta faculdade existir, Lyra — disse ele. — Esta é sua casa enquanto precisar dela. E, quanto à questão do dinheiro, seu pai deixou um legado para cuidar de tudo que você possa vir a precisar e me nomeou testamenteiro, de modo que não precisa se preocupar com isso.
Na verdade, Lorde Asriel não tinha feito nada disso, mas a Faculdade Jordan era rica e o Reitor tinha fortuna pessoal, mesmo depois das revoltas recentes.
— Não — prosseguiu ele — eu estava pensando em estudos. Você ainda é muito jovem e sua educação até agora dependeu de... Bem, falando muito francamente, dependia de qual de nossos catedráticos se sentia menos intimidado por você — afirmou, mas estava sorrindo. — Tem sido casual, desordenada. Agora, pode ser que com o passar do tempo seus talentos a levem numa direção que não possamos absolutamente prever. Mas se quisesse fazer do aletiômetro o tema de estudos de sua vida, e se dedicasse a aprender conscientemente o que antes fazia por intuição...
— Sim — disse Lyra, com determinação e confiança.
— ... então seria difícil fazer melhor escolha que se entregar aos cuidados de minha boa amiga, a Dama Hannah. Os conhecimentos que ela tem nesse campo não têm rival.
— Permita-me fazer uma sugestão — disse a senhora — e não precisa responder agora. Pense no assunto durante algum tempo. Muito bem: minha faculdade não é tão antiga quanto a Jordan e de qualquer maneira você ainda é muito moça para se tornar uma estudante universitária, mas, alguns anos atrás, compramos uma casa bastante grande na zona norte de Oxford e decidimos criar ali um internato. Eu gostaria que você fosse até lá comigo, conhecesse a diretora e visse se gostaria de se tornar uma de nossas alunas. Sabe, Lyra, uma coisa de que vai precisar brevemente é ter a amizade de outras meninas de sua idade. Existem coisas que aprendemos umas com as outras quando somos jovens e não creio que a Jordan possa lhe oferecer todas elas. A diretora é uma mulher jovem, inteligente, enérgica, uma pessoa criativa e gentil. Temos muita sorte de tê-la conosco. Você poderá conversar com ela e, se gostar da ideia, ir para lá e fazer da St. Sophia a sua escola, como a Jordan é a sua casa. E se quiser começar a estudar o aletiômetro de maneira sistemática, você e eu poderíamos nos encontrar para algumas aulas particulares. Mas você tem tempo, minha querida, temos tempo de sobra. Não responda agora. Deixe para responder quando estiver pronta.
— Muito obrigada — disse Lyra — muito obrigada, vou fazer isso.
O Reitor tinha dado a Lyra uma chave só para ela da porta do jardim, de modo que pudesse entrar e sair quando quisesse. Mais tarde, naquela noite, justo quando o porteiro estava trancando a casa de guarda, ela e Pantalaimon saíram às escondidas e seguiram pelas ruas escuras, ouvindo todos os sinos de Oxford repicando o toque de meia-noite.
Depois que entraram no Jardim Botânico, Pan saiu correndo pelo gramado, caçando um camundongo, na direção onde ficava o muro, depois o deixou escapar e saltou para o grande pinheiro que ficava ali perto. Era uma delícia vê-lo saltando pelos galhos tão longe dela, mas tinham que ter cuidado para não fazer aquilo quando alguém estivesse olhando, a capacidade mágica que haviam adquirido, como as bruxas, às custas de tanto sofrimento, de se separarem tinha que ser mantida em segredo. Em outros tempos, ela teria adorado exibi-la cheia de orgulho para todos os outros moleques seus amigos e deixá-los de olhos esbugalhados de medo, mas Will tinha lhe ensinado o valor do silêncio e da discrição.
Lyra sentou no banco e esperou que Pan viesse para junto dela. Ele gostava de surpreendê-la, mas geralmente ela conseguia vê-lo antes que a alcançasse, e lá estava sua forma indistinta, movendo-se fluidamente junto da margem do rio.
Ela olhou para o outro lado e fingiu que não o tinha visto, então o agarrou de repente, quando saltou para o banco.
— Quase consegui — disse ele.
— Vai ter que ficar muito melhor do que isso. Ouvi você se aproximando ao longo de todo o caminho, desde o portão.
Ele sentou no encosto do banco com as patas da frente descansando sobre o ombro de Lyra.
— O que vamos dizer a ela? — perguntou.
— Bem, vamos dizer que sim — respondeu. — De qualquer maneira, só vamos conhecer essa diretora. Isso não quer dizer ir para a escola.
— Mas nós vamos acabar indo, não é?
— Vamos — concordou — provavelmente.
— Poderia ser bom.
Lyra se perguntou como seriam as outras alunas. Poderiam ser mais inteligentes que ela, ou mais sofisticadas, e certamente saberiam muito mais do que ela sobre todas as coisas que eram importantes para garotas de sua idade. E ela não poderia contar-lhes nem um centésimo das coisas que sabia. Sem dúvida pensariam que era ingênua e ignorante.
— Você acha que a Dama Hannah realmente sabe ler o aletiômetro? — perguntou Pantalaimon.
— Com os livros, tenho certeza que sim. Quantos livros será que existem? Eu gostaria de saber. Aposto que podemos estudar e aprender todos eles, depois não precisar mais usá-los. Imagine ter que carregar uma pilha de livros para tudo quanto é canto... Pan?
— O quê?
— Você algum dia vai me contar o que você e o dimon de Will fizeram, quando estávamos separados?
— Um dia — disse ele. — E ela vai contar a Will, um dia. Concordamos que saberíamos quando chegasse a hora, mas fizemos um acordo de que não contaríamos a nenhum dos dois até esse momento chegar.
— Está bem — respondeu ela tranquilamente.
Lyra tinha contado tudo a Pantalaimon, mas ele tinha o direito de não revelar seus segredos a ela, depois da maneira como o havia abandonado. E era confortador pensar que ela e Will tinham mais uma coisa em comum. Ela se perguntou se algum dia jamais chegaria uma hora em sua vida em que não pensasse nele, em que não conversasse com ele em sua imaginação, em que não revivesse cada momento que tinham passado juntos, em que não desejaria ouvir sua voz, sentir suas mãos e seu amor. Ela jamais havia sonhado como seria amar tanto alguém, de todas as coisas que lhe haviam causado espanto em suas aventuras, essa era a que mais a espantava. Pensou na terna sensibilidade que deixava em seu coração que era como um machucado, uma dor que nunca iria embora, mas que ela manteria viva na memória com carinho para sempre.
Pan desceu rápido para o banco e se aninhou em seu colo. Estavam seguros ali no escuro, ela, seu dimon e seus segredos. Em algum lugar naquela cidade adormecida estavam os livros que lhe diriam como ler o aletiômetro de novo e a mulher de grande conhecimento que iria lhe ensinar a fazer isso, e as garotas na escola, que sabiam tão mais do que ela. Lyra pensou: elas não sabem ainda, mas vão ser minhas amigas.
— Aquele negócio que Will disse... — murmurou Pantalaimon.
— Quando?
— Na praia, pouco antes de você tentar usar o aletiômetro. Ele disse que não havia nenhum outro lugar. Foi o que o pai dele disse a você. Mas havia mais alguma coisa.
— Eu me lembro. Ele queria dizer que o reino estava acabado, o reino do céu, que estava tudo acabado. Que não deveríamos viver como se o céu fosse mais importante do que esta vida, aqui neste mundo, porque o lugar onde estamos é sempre o lugar mais importante.
— Ele disse que tínhamos que construir alguma coisa...
— Era por isso que precisávamos viver todo o tempo de vida que nos foi destinado, Pan. Nós teríamos ido com Will e Kirjava, não teríamos?
— Teríamos. É claro! E eles teriam vindo conosco. Mas...
— Mas então não poderíamos construí-lo. Ninguém poderia se permitisse a si mesmo vir em primeiro lugar. Temos que ser todas essas coisas difíceis como ser alegres, e gentis, e curiosos, e corajosos, e pacientes, e temos que estudar e pensar, e trabalhar com afinco, todos nós, em todos os nossos mundos diferentes, e então construiremos...
As mãos dela estavam descansando sobre o pelo lustroso de Pan. Em algum lugar no jardim um rouxinol estava cantando e uma brisa ligeira tocou os cabelos dela e agitou as folhas acima. Todos os diferentes sinos da cidade repicaram, uma vez cada um, esse alto, aquele baixo, alguns perto, outros mais distantes, um estridente e mal-humorado, outro grave e melodioso, mas concordando em todas as suas vozes diferentes sobre que horas eram, mesmo se alguns deles fizeram isso um pouco mais devagar do que outros. Naquela outra Oxford onde ela e Will tinham se beijado, se despedido, os sinos também estariam tocando, e um rouxinol estaria cantando, e uma brisa ligeira estaria agitando as folhas no Jardim Botânico.
— E então o quê? — perguntou o dimon, sonolento. — Construir o quê?
— A república do céu — respondeu Lyra.

4 comentários:

  1. Nossa... acabou? Tipo, NÃO PARECE QUE ACABOU

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    1. Pois é! Foi tão... sem desfecho! Triste! ahhhhhh

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  2. Mds e ainda vao transformar isso em filme T-T

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  3. Espero que tenha outro final se tiver um filme. T.T
    Normalmente gosto de filmes que os personagens principais começam bem novinhos fieis ao livro,(como Harry Potter, em que o Daniel Radcliffe tem realmente 12 anos quando faz o primeiro filme, e o oposto do O ladrão de raios em que o Percy também deveria ter 12 e esta mais pra 17)mas acho que eu não ia me importar se fosse o caso da Lira e o Will, ela podia ter uns 14 no minimo, sei lá,só minha opinião.^^

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Boa leitura :)