17 de fevereiro de 2017

36. A flecha quebrada

O dia chegou em que nasceu minha vida, meu amor chegou para mim.
Christina Rosset

Os dois dimons foram andando pelo povoado silencioso, entrando e saindo das sombras, com patas macias, sob a forma de gatos, atravessando o platô iluminado pelo luar que era o pódio de reuniões, parando diante da porta aberta da casa de Mary. Cautelosamente, espiaram o interior da casa e viram apenas a mulher dormindo, de modo que recuaram e seguiram novamente pelo luar, em direção à árvore-abrigo.
Seus galhos longos e baixos estendiam as folhas espiraladas, perfumadas, quase até o chão. Muito lentamente, muito cuidadosamente para não farfalhar uma folha, nem quebrar um graveto caído, as duas formas se esgueiraram pela cortina de folhas e viram o que estavam procurando: o menino e a menina, profundamente adormecidos, nos braços um do outro. Eles se aproximaram andando sobre a grama e muito levemente tocaram as crianças dormindo com o focinho, a pata, os bigodes, banhando-se no calor vivificante que eles irradiavam, mas tendo um cuidado infinito para não acordá-los. Enquanto estavam examinando suas pessoas (delicadamente limpando a ferida quase cicatrizada de Will, levantando uma mecha de cabelo do rosto de Lyra), houve um som suave atrás deles.
Imediatamente, em silêncio total, os dois dimons se viraram rapidamente, transformando-se em lobos: olhos claros ferozes, dentes brancos arreganhados, ameaça em cada linha de seus corpos.
Havia uma mulher parada ali, sua silhueta iluminada pela lua. Não era Mary e quando falou eles a ouviram nitidamente, embora sua voz não tivesse nenhum som.
— Venham comigo — disse ela.
O coração de dimon de Pantalaimon deu um salto em seu peito, mas não disse nada até poder cumprimentá-la longe das crianças que dormiam.
— Serafina Pekkala! — exclamou com alegria. — Por onde você tem andado? Sabe do que aconteceu?
— Psiu. Vamos voar para algum lugar onde possamos conversar — respondeu ela, preocupada com os habitantes do povoado que dormiam.
Seu galho de pinheiro-nubígeno estava encostado ao lado da porta da casa de Mary e, enquanto ela o pegava, os dois dimons se transformaram em pássaros — um rouxinol e uma coruja — e voaram com ela sobre os telhados de colmo, sobre as pradarias, sobre a cadeia de colinas e em direção ao grupo de árvores-das-rodas mais próximo, imenso como um castelo, a copa parecendo coalhada de prata sob a luz do luar.
Ali Serafina Pekkala se acomodou no galho mais alto e confortável, entre as flores abertas que absorviam o Pó, e os dois pássaros se empoleiraram perto dela.
— Vocês não serão pássaros por muito tempo — comentou. — Dentro de muito pouco tempo suas formas definitivas se fixarão. Olhem bem ao redor e guardem esta imagem na memória.
— Que vamos ser? — perguntou Pantalaimon.
— Você vai descobrir mais cedo do que pensa. Escute — disse Serafina Pekkala — vou lhe contar algo que faz parte do saber das bruxas de que ninguém tem conhecimento, só as bruxas. O motivo porque posso fazer isso é o fato de que vocês estão aqui comigo e seus humanos estão lá embaixo, dormindo. Quem são as únicas pessoas para quem isso é possível?
— Bruxas — respondeu Pantalaimon — e xamãs. Então...
— Ao deixar vocês dois nas margens do mundo dos mortos, Lyra e Will fizeram, sem saber, uma coisa que bruxas sempre fizeram desde a primeira vez em que bruxas surgiram no mundo. Existe uma região em nossa terra do norte, um lugar desolado, abominável, onde uma grande catástrofe aconteceu na infância do mundo e onde nada jamais viveu desde então. Nenhum dimon pode entrar lá. Para se tornar bruxa, uma menina tem que atravessar essa região sozinha e deixar para trás o seu dimon. Vocês sabem o sofrimento que têm que suportar. Mas, tendo feito isso, elas descobrem que seus dimons não foram seccionados, como em Bolvangar, ainda são um único ser inteiro, mas podem se deslocar livremente e ir a lugares distantes, ver coisas estranhas e trazer os conhecimentos de volta. E vocês não foram seccionados, certo?
— Não — respondeu Pantalaimon. — Ainda somos um único ser. Mas foi tão doloroso e ficamos com tanto medo...
— Bem — disse Serafina — eles dois não vão voar como bruxas e não viverão tanto tempo quanto nós vivemos, mas, graças ao que fizeram, vocês e eles são bruxas em todos os aspectos, menos esses.
Os dois dimons refletiram sobre a estranheza daquela informação.
— Isso significa que vamos ser pássaros como os dimons de bruxas? — perguntou Pantalaimon.
— Seja paciente.
— E como Will pode ser uma bruxa? Pensei que todas as bruxas fossem mulheres.
— Aqueles dois mudaram muitas coisas. Todos nós estamos aprendendo novos costumes, até as bruxas. Mas uma coisa não mudou: vocês têm que ajudar seus humanos, não criar dificuldades para eles. Têm que ajudá-los, orientá-los e encorajá-los a adquirir sabedoria. É para isso que dimons servem.
Eles ficaram em silêncio. Serafina virou-se para o rouxinol e perguntou:
— Como se chama?
— Não tenho nome. Eu não sabia que tinha nascido até o instante em que fui arrancada do coração dele.
— Então vou chamá-la de Kirjava.
— Kirjava — repetiu Pantalaimon, para ver como soava. — Que quer dizer isso?
— Logo você vai saber o que significa. Mas agora — prosseguiu Serafina — precisam me ouvir com muita atenção, porque vou dizer o que devem fazer.
— Não — disse Kirjava com veemência.
— Estou vendo pelo seu tom de voz que você já sabe o que vou dizer observou — Serafina com imensa delicadeza.
— Não queremos ouvir! — exclamou Pantalaimon.
— É cedo demais — argumentou o rouxinol. — É realmente cedo demais.
Serafina ficou em silêncio, porque concordava com eles e sentia-se muito triste. Mas, apesar disso, era a pessoa de maior saber ali e tinha que orientá-los para que seguissem a conduta certa, porém, deixou que a agitação deles se acalmasse, antes de prosseguir.
— Onde estiveram, durante suas viagens? — perguntou.
— Passamos por muitos mundos — respondeu Pantalaimon.
— Em toda parte onde encontramos uma janela, atravessamos. Existem mais janelas do que havíamos pensado.
— E viram...
— Vimos — respondeu Kirjava — assistimos de perto e vimos o que estava acontecendo.
— Vimos uma porção de outras coisas — acrescentou Pantalaimon rapidamente. — Vimos anjos e falamos com eles. Vimos o mundo de onde vem o povo pequenino, os galivespianos. Também tem gente grande lá que tenta matá-los.
Eles falaram à bruxa sobre as outras coisas que tinham visto e estavam tentando distraí-la, ela sabia, mas deixou-os falar, por causa do amor que sentiam pela voz um do outro. Mas, finalmente, esgotaram as coisas que tinham para contar e eles se calaram. O único som era o sussurro incessante das folhas, até que Serafina Pekkala disse:
— Vocês têm se mantido longe de Will e Lyra para castigá-los. Sei por que estão fazendo isso, meu dimon, Kaisa, fez exatamente a mesma coisa depois que atravessei a terra estéril desolada. Mas depois acabou voltando para mim porque ainda nos amávamos. E, brevemente, eles vão precisar de vocês para ajudá-los a fazer o que tem que ser feito a seguir. Porque vocês têm que contar a eles o que sabem.
Pantalaimon gritou alto, um grito gelado de coruja, um som que nunca tinha sido ouvido antes naquele mundo. Em ninhos e tocas a uma grande distância ao redor, e onde quer que houvesse quaisquer pequeninos animais noturnos caçando, pastando, ou comendo carniça, um novo e inesquecível terror nasceu.
Serafina ficou observando de perto e não sentiu nada, exceto uma enorme compaixão, até que olhou para o dimon de Will, Kirjava, o rouxinol. Lembrou-se da conversa que tivera com a bruxa Ruta Skadi, que havia perguntado, depois de ter visto Will apenas uma vez, se Serafina já o olhara bem nos olhos, e Serafina tinha respondido que não tivera coragem. Aquele pequenino pássaro marrom estava irradiando uma ferocidade implacável, tão palpável quanto o calor, e Serafina teve medo dele.
Finalmente os gritos desesperados de Pantalaimon se calaram e Kirjava disse:
— E temos que contar a eles.
— Sim, têm que contar — respondeu a bruxa com grande gentileza. Gradualmente a ferocidade foi desaparecendo do olhar do passarinho marrom e Serafina conseguiu olhar para ela de novo. Em seu lugar viu uma tristeza desolada.
— Há um navio a caminho — disse Serafina. — Eu o deixei para voar até aqui e encontrar vocês. Vim com os gípcios, lá de nosso mundo. Eles estarão aqui dentro de um ou dois dias.
Os dois pássaros ficaram empoleirados juntos e um instante depois tinham mudado de forma, tornando-se dois pombos. Serafina prosseguiu:
— Esta pode ser a última vez que vocês voam. Posso ver um pouco o futuro, vejo que vocês dois poderão subir a esta altura, desde que haja árvores deste tamanho, mas creio que não serão pássaros quando suas formas se fixarem. Aproveitem tudo o que puderem e depois lembrem-se bem. Eu sei que vocês, Lyra e Will vão pensar seriamente e que vai ser doloroso, e sei que farão a melhor escolha. Mas cabe a vocês fazer essa escolha e a mais ninguém.
Eles não responderam. Ela pegou seu galho de pinheiro-nubígeno, montou e saiu voando, afastando-se das copas gigantescas das árvores, voando em círculos bem alto, sentindo na pele o frescor da brisa e o formigar da luz das estrelas e o peneirar benevolente do Pó que nunca havia visto.
Serafina voou mais uma vez até o povoado e entrou silenciosamente na casa da mulher. Não sabia nada a respeito de Mary, exceto que ela vinha do mesmo mundo que Will e que seu papel nos acontecimentos era crucial. Serafina não tinha como saber se era agressiva ou amistosa, mas tinha que acordar Mary sem assustá-la, e havia um feitiço para isso.
Ela sentou no chão junto da cabeça da mulher e olhou-a fixamente, com os olhos semicerrados, inspirando e exalando, respirando no mesmo compasso que ela.
Pouco depois, através dos olhos entreabertos, a visão começou a lhe mostrar as formas claras que Mary estava vendo em seus sonhos e ajustou sua mente para ressoar com elas, como se estivesse afinando uma corda de instrumento. Depois, com um esforço um pouco maior, a própria Serafina entrou no meio delas. Depois que estivesse lá, poderia falar com Mary, e fez isso com a afeição instantânea e natural que por vezes sentimos por pessoas que conhecemos em sonhos.
Um momento depois elas estavam conversando animadamente em murmúrios de que Mary mais tarde não lembraria nada e andando por uma paisagem tola de leitos de juncos e transformadores elétricos. Estava na hora de Serafina assumir o controle.
— Dentro de poucos instantes — explicou — você vai acordar. Não se assuste. Vai me encontrar a seu lado. Estou acordando você assim para que saiba que está em segurança, que não há nada que vá lhe fazer mal. E então poderemos conversar direito.
Ela se retirou, trazendo consigo a Mary do sonho, até se encontrar de volta na casa, sentada de pernas cruzadas no chão de terra batida, com os olhos de Mary brilhando enquanto olhavam para ela.
— Você deve ser a bruxa — sussurrou Mary.
— Eu sou. Meu nome é Serafina Pekkala. Como se chama?
— Mary Malone. Nunca fui acordada de maneira tão tranquila. Estou mesmo acordada?
— Está. Precisamos ter uma conversa e uma conversa de sonho é difícil de controlar e ainda mais difícil de lembrar. É melhor conversar acordada. Você prefere ficar aqui dentro ou me acompanharia numa caminhada ao luar?
— Vou com você — respondeu Mary, sentando-se e espreguiçando-se. — Onde estão Lyra e Will?
— Dormindo debaixo da árvore.
As duas saíram da casa, passaram pela árvore com sua cortina de galhos que escondia tudo e foram caminhando até a margem do rio.
Mary observou Serafina Pekkala com uma mistura de desconfiança e admiração: nunca tinha visto um ser humano tão esguio e gracioso. Parecia ser mais jovem que a própria Mary, embora Lyra tivesse dito que ela estava com centenas de anos, a única insinuação de idade vinha de sua expressão, cheia de uma complexa tristeza.
Elas sentaram na margem do rio, acima da água preto-prateada, e Serafina contou a Mary o que havia conversado com os dimons das crianças.
— Os dois foram procurá-los hoje — disse Mary — mas alguma outra coisa aconteceu. Will nunca viu seu dimon direito, exceto na ocasião em que eles fugiram da batalha e apenas por um segundo. Ele não sabia com certeza que de fato tinha um.
— Bem, ele tem. E você também.
Mary arregalou os olhos para ela.
— Se pudesse vê-lo — prosseguiu Serafina — veria um pássaro preto com pernas vermelhas e um bico amarelo-vivo, ligeiramente recurvado. Um pássaro das montanhas.
— Uma gralha dos Alpes... Como você pode vê-lo?
— Com meus olhos semicerrados, posso vê-lo. Se tivéssemos tempo, eu poderia lhe ensinar a vê-lo também, e a ver os dimons de outras pessoas em seu mundo. É estranho para nós pensar que vocês não conseguem vê-los.
Então ela contou a Mary o que tinha dito aos dimons e o que significava.
— E os dimons terão que contar a eles? — perguntou Mary.
— Pensei em acordá-los e eu mesma falar com eles. Pensei em dizer a você e deixar que ficasse com essa responsabilidade. Mas estive com os dimons e vi que assim seria melhor.
— Eles estão apaixonados.
— Eu sei.
— Eles acabaram de descobrir isso...
Mary tentou avaliar todas as implicações do que Serafina acabara de lhe contar, mas era duro e difícil demais. Depois de mais ou menos um minuto, Mary perguntou:
— Você pode ver o Pó?
— Não, nunca vi. Até as guerras começarem, nunca tínhamos ouvido falar de Pó.
Mary tirou a luneta do bolso e ofereceu-a à bruxa. Serafina levou-a ao olho e soltou uma exclamação de espanto.
— Aquilo é Pó... É lindo!
— Vire-se para olhar para a árvore-abrigo.
Serafina obedeceu e exclamou de novo.
— Eles fizeram isso? — perguntou.
— Alguma coisa aconteceu hoje, ou ontem, se já for mais de meia-noite — disse Mary, procurando encontrar as palavras para explicar e lembrando-se de sua visão do fluxo de Pó como um grande rio, como o Mississipi. — Alguma coisa minúscula, mas crucial... Se você quisesse desviar um rio enorme para um curso diferente e tudo o que tivesse fosse um único seixo, poderia fazê-lo, desde que o pusesse no lugar certo, para enviar o primeiro gotejar de água naquela direção em vez dessa. Alguma coisa assim aconteceu ontem. Não sei o que foi. Eles se viram de uma maneira diferente, ou algo assim... Até então, não tinham sentido aquilo, mas, de repente, sentiram. E então o Pó foi atraído para eles, de maneira muito poderosa, e parou de fluir na outra direção.
— Então era assim que deveria acontecer! — exclamou Serafina, maravilhada. — E agora está tudo salvo, ou estará, quando os anjos encherem o grande abismo no mundo dos mortos.
Ela contou a Mary sobre o abismo e sobre como tinha ficado sabendo de sua existência.
— Eu estava voando alto — explicou — procurando terra, um ponto para descer, e encontrei um anjo: um anjo mulher. Ela era muito estranha, era velha e jovem ao mesmo tempo — prosseguiu, esquecendo que era assim que ela própria parecia para Mary. — O nome dela era Xaphania. E me contou tantas coisas... Disse que toda a história da vida humana tem sido uma luta entre o conhecimento e a ignorância. Ela e os anjos rebeldes, os seguidores do conhecimento, sempre tentaram abrir as mentes, a Autoridade e suas igrejas sempre tentaram mantê-las fechadas, ignorantes. Ela me deu muitos exemplos de meu mundo.
— Posso pensar em muitos do meu.
— E, durante a maior parte do tempo, o saber teve que trabalhar em segredo, sussurrando suas palavras, movendo-se como um espião pelos lugares mais humildes do mundo, enquanto as cortes e os palácios eram ocupados por seus inimigos.
— Sim — disse Mary — também reconheço isso.
— E agora o combate ainda não acabou, embora as forças do reino tenham tido um sério revés. Elas vão se reorganizar sob um novo comandante e voltar com plena força, e devemos estar prontos para resistir.
— Mas o que aconteceu com Lorde Asriel? — perguntou Mary .
— Ele lutou com o Regente do céu, o anjo Metatron, e, em combate corpo a corpo, conseguiu arrastá-lo para dentro do abismo. Metatron foi-se para sempre. E Lorde Asriel também.
Mary prendeu a respiração.
— E a Sra. Coulter? — perguntou.
A título de resposta, a bruxa tirou uma flecha de sua aljava. Ela demorou algum tempo para escolhê-la: a melhor, a mais reta, a mais perfeitamente equilibrada. E partiu-a em dois pedaços.
— Numa ocasião, em meu mundo — explicou — vi aquela mulher torturando uma bruxa e jurei a mim mesma que lançaria essa flecha em sua garganta. Agora nunca farei isso. Ela se sacrificou com Lorde Asriel para lutar contra o anjo e tornar o mundo seguro para Lyra. Nenhum deles poderia ter feito isso sozinho, mas juntos fizeram.
Angustiada, Mary perguntou:
— Como vou contar isso a Lyra?
— Espere até que ela pergunte — disse Serafina. — E pode ser que não pergunte. De qualquer maneira, ela tem seu instrumento leitor de símbolos, ele dirá qualquer coisa que ela queira saber.
As duas ficaram em silêncio por algum tempo, amigavelmente, enquanto as estrelas lentamente giravam no céu.
— Você pode ver o futuro e adivinhar o que eles vão escolher fazer? — perguntou Mary.
— Não, mas se Lyra voltar para o seu mundo, eu serei sua irmã enquanto ela viver. E você, o que vai fazer?
— Eu... — começou Mary, e descobriu que não havia refletido sobre isso em nenhum momento. — Suponho que meu lugar seja em meu próprio mundo. Vou lamentar deixar este aqui, tenho sido muito feliz aqui. Creio que mais feliz do que já fui em qualquer outra ocasião em minha vida.
— Bem, se você voltar para casa, terá uma irmã em outro mundo — declarou Serafina — e eu também. Nós voltaremos a nos ver de novo, daqui a um ou dois dias, quando o navio chegar, e conversaremos mais durante a viagem de volta para casa, e então nos despediremos para sempre. Agora, abrace-me, irmã.
Mary a abraçou e Serafina Pekkala se foi voando em seu galho de pinheiro-nubígeno, sobrevoando os juncos, depois os baixios de lama, a praia e o mar até que Mary a perdeu de vista.


Mais ou menos naquela mesma hora, um dos grandes lagartos azuis encontrou o corpo do Padre Gomez. Naquela tarde, Will e Lyra tinham voltado para o povoado por um caminho diferente e não o tinham visto, o padre jazia intocado onde Balthamos o havia deitado. Os lagartos eram comedores de carniça, mas eram animais mansos e inofensivos, e através de um acordo antiquíssimo com os mulefas, tinham o direito de levar qualquer criatura que fosse deixada morta, ao ar livre, depois do anoitecer.
O lagarto arrastou o corpo do padre de volta para sua toca e seus filhotes se banquetearam fartamente. Quanto ao rifle, estava caído na relva, onde o Padre Gomez o deixara, silenciosamente virando ferrugem.

2 comentários:

  1. To um pouco confusa o Will tem 12 anos e a Lira tem 10 é isso mesmo?O.o

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    1. Lyra tem doze também. Só pensei que Will tivesse treze

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Boa leitura :)