17 de fevereiro de 2017

35. Além das colinas e muito longe

O dia chegou em que nasceu minha vida, meu amor chegou para mim.
Christina Rosset

— Dra. Malone — disse Lyra logo de manhã — Will e eu temos que procurar nossos dimons. Quando os encontrarmos, saberemos o que temos de fazer. Mas não podemos continuar muito tempo mais sem eles. De modo que queremos sair para procurar.
— Para onde irão? — perguntou Mary, com os olhos pesados e dor de cabeça, depois de sua noite perturbadora. Ela e Lyra estavam na margem do rio, Lyra para se lavar e Mary para procurar, disfarçadamente, as marcas das pegadas do homem. Até o momento não tinha encontrado nenhuma.
— Não sei — respondeu Lyra. — Mas eles estão por aí, em algum lugar. Assim que atravessamos a janela, saindo da batalha, eles fugiram, como se não confiassem mais em nós. Também não posso nem dizer que os culpe por isso. Mas sabemos que estão neste mundo e tivemos a impressão de que os vimos umas duas vezes, de modo que talvez possamos encontrá-los.
— Ouça — disse Mary, com relutância, e contou a Lyra o que tinha visto na noite anterior.
Enquanto falava, Will veio se juntar a elas e tanto ele quanto Lyra ouviram, com os olhos arregalados e o rosto sério.
— Provavelmente é um viajante que encontrou uma janela e a atravessou, vindo de algum outro lugar — disse Lyra, quando Mary concluiu.
Intimamente, ela possuía coisas bastante diferentes em que pensar e esse homem não era interessante como elas eram.
— Como fez o pai de Will — prosseguiu. — Deve haver todo tipo de aberturas agora. De qualquer maneira, se ele simplesmente deu as costas e foi embora, não deve ter querido fazer nada de mau, não acha?
— Não sei. Não gostei daquilo. E estou preocupada com vocês saindo por aí sozinhos, ou ficaria, se não soubesse que já fizeram coisas muito mais perigosas que isso. Ah, eu não sei. Mas, por favor, tenham cuidado. Por favor, examinem bem os lugares por onde vão andar. Pelo menos na pradaria pode-se ver de muito longe quando alguém se aproxima...
— Se os encontrarmos, poderemos fugir direto para um outro mundo, de modo que ele não vai poder nos fazer mal — disse Will.
Estavam decididos a ir e Mary sentia-se relutante em discutir com eles.
— Pelo menos — pediu ela — prometam que não entrarão nos bosques, no meio das árvores. Se esse homem ainda estiver por perto, pode estar se escondendo num bosque ou numa moita e vocês não o veriam a tempo de escapar.
— Nós prometemos — disse Lyra.
— Bem, vou preparar um farnel para vocês, caso fiquem fora o dia inteiro.
Mary juntou alguns dos pães achatados e queijo, algumas frutas vermelhas, doces e suculentas para matar a sede, embrulhou-os num pano e amarrou com um barbante, fazendo uma alça para que um deles levasse o embrulho pendurado no ombro.
— Boa caçada — disse ela, quando iam saindo. — Por favor, tomem cuidado.
Ainda estava preocupada. Ficou parada vendo os dois se afastarem até chegarem ao sopé da encosta.


— Gostaria de saber por que ela está tão triste — comentou Will, enquanto ele e Lyra subiam pela estrada que levava à cadeia de colinas.
— Provavelmente está se perguntando se algum dia tornará a voltar para casa — respondeu Lyra. — E se o laboratório ainda será seu, quando voltar. E talvez esteja triste por causa do homem por quem foi apaixonada.
— Humm — retrucou Will. — Você acha que nós voltaremos para casa algum dia?
— Não sei. De qualquer maneira, não creio que eu tenha uma casa. Eles provavelmente não podem me aceitar de volta na Faculdade Jordan, e não posso viver com os ursos nem com as bruxas. Talvez pudesse viver com os gípcios. Bem que gostaria disso, se me aceitassem.
— E o mundo de Lorde Asriel? Não gostaria de viver lá?
— Não vai dar certo, lembre-se — disse ela.
— Por quê?
— Por causa do que o fantasma de seu pai disse, pouco antes de sairmos. Sobre os dimons e como só podem viver muito tempo se ficarem em seu próprio mundo. Mas provavelmente Lorde Asriel, quero dizer, meu pai não poderia ter pensado nisso, porque ninguém tinha muitos conhecimentos a respeito de outros mundos quando ele começou... Aquilo tudo — comentou em tom de admiração e tristeza — toda aquela bravura e talento... Tudo aquilo, tudo desperdiçado! Tudo para nada!
Continuaram subindo, achando o caminho fácil na estrada de rocha, e quando alcançaram o alto da cadeia de colinas pararam e olharam para trás.
— Will, e se não os encontrarmos? — perguntou ela.
— Tenho certeza que encontraremos. O que ando querendo saber é como será o meu dimon.
— Você a viu. E eu a peguei no colo — disse Lyra, enrubescendo, porque, é claro, era uma tremenda violação das regras de boas maneiras tocar em algo tão pessoal como o dimon de outra pessoa. Era proibido não só por educação, mas também por algo mais profundo que isso, algo como vergonha. Um rápido olhar de relance para as faces vermelhas de Will mostrou que ele sabia disso tão bem quanto ela. Não sabia dizer se ele também sentia aquela sensação estranha, que era metade medo, metade excitação, que ela sentia, aquela sensação que tinha começado a se apoderar dela na noite anterior: ali estava novamente.
Continuaram caminhando lado a lado, de repente tímidos um com o outro. Mas Will, que não se deixava vencer pela timidez, perguntou:
— Quando o dimon da gente para de mudar de forma?
— Mais ou menos... acho que com a sua idade, ou um pouco depois. Costumávamos falar sobre Pan fixar forma, ele e eu. A gente se perguntava que forma ele teria.
— As pessoas não têm nenhuma ideia?
— Não quando ainda são crianças. À medida que você vai crescendo, bem, poderia ser isso ou poderia ser aquilo... E, geralmente, eles acabam fixando forma em alguma coisa que se encaixa. Quero dizer, alguma coisa que combina com sua verdadeira natureza. Como por exemplo, se seu dimon é um cachorro, isso significa que você gosta de ser obediente, de saber quem manda e de cumprir ordens, de agradar as pessoas que estão no comando. Muitos criados são pessoas cujos dimons são cachorros. De modo que ajuda saber que tipo de pessoa você é e descobrir as coisas que saberá fazer bem. Como as pessoas em seu mundo sabem quem e como elas são?
— Não sei. Não conheço muita coisa a respeito de meu mundo. Tudo o que sei é guardar segredos, não me mostrar, ficar bem quieto e escondido, de modo que não sei muita coisa sobre... adultos e amigos. Ou amantes. Acho que seria difícil ter um dimon porque todo mundo saberia tanta coisa a respeito de você só de olhar. Gosto de não me mostrar, guardar meus segredos e de ficar fora do alcance de olhares.
— Então talvez seu dimon seja um animal que sabe se esconder bem. Um desses animais que parecem com um outro... uma borboleta que se pareça com uma vespa, para se disfarçar. Deve haver animais assim em seu mundo, porque nós temos e somos tão parecidos.
Continuaram caminhando juntos em silêncio amigável. Por toda parte, em torno deles, a manhã vasta e clara estava límpida nas ravinas e azul-perolada na atmosfera quente acima. Até onde o olhar podia alcançar, a grandiosa savana se estendia, marrom, dourada, verde-fosca, cintilando na direção do horizonte e vazia. Eles poderiam ter sido as únicas pessoas no mundo.
— Mas na verdade não é vazio — observou Lyra.
— Está falando do tal homem?
— Não. Você sabe o que estou querendo dizer.
— É, sei. Posso ver sombras na relva... talvez sejam passarinhos — disse Will.
Ele estava acompanhando pequenos movimentos dardejantes aqui e ali.
Descobriu que era mais fácil ver as sombras se não olhasse diretamente para elas. Pareciam mais dispostas a se mostrar para os cantos de seu olho e, quando falou disso para Lyra, ela comentou:
— É a capacidade negativa.
— O que é isso?
— Foi o poeta Keats quem falou disso pela primeira vez. A Dra. Malone sabe. É assim que leio o aletiômetro. E é assim que você usa a faca, não é?
— É, imagino que seja. Mas estava pensando agora mesmo que poderiam ser os dimons.
— Eu também, mas...
— Olhe — disse ele — lá está uma daquelas árvores caídas.
Era a árvore da plataforma de Mary. Eles se aproximaram dela cuidadosamente, mantendo um olho vigilante no arvoredo, para o caso de uma outra cair também. Na calma da manhã, com apenas uma ligeira brisa agitando as folhas, parecia impossível que uma coisa imensa e imponente assim pudesse algum dia desabar, mas lá estava ela.
O vasto tronco, apoiado no solo do bosque por suas raízes arrancadas e na relva pela massa de galhos, estava lá no alto, muito acima da cabeça dos dois. Alguns de seus galhos esmigalhados e partidos eram, só eles, de uma circunferência tão grande quanto a das maiores árvores que Will já tinha visto, a copa da árvore, compacta, com ramagens que ainda pareciam robustas, folhas que ainda estavam verdes, erguia-se nas alturas como um palácio em ruínas na atmosfera agradável.
De repente, Lyra agarrou o braço de Will.
— Psiu — cochichou. — Não olhe. Tenho certeza que eles estão lá em cima. Vi alguma coisa se mexer, eu juro que era Pan.
A mão de Lyra estava quente. Ele tinha mais consciência disso do que da grande massa de folhas e galhos acima deles. Fingindo contemplar distraidamente o horizonte, ele deixou sua atenção vagar relaxada para cima, para a massa confusa de verde, marrom e azul, e lá – ela estava com a razão! havia alguma coisa que não era a árvore. E, ao lado, uma outra.
— Afaste-se — cochichou Will. — Vamos para algum outro lugar e ver se eles nos seguem.
— E se não seguirem... Mas, sim, está bem — cochichou Lyra em resposta. Eles fingiram olhar ao redor, puseram as mãos num dos galhos descansando no chão, como se estivessem pretendendo subir nele, fingiram mudar de ideia, sacudindo a cabeça um para o outro e se afastando.
— Gostaria de poder olhar para trás — disse Lyra quando estavam a alguns metros de distância.
— Apenas continue andando. Eles estão nos vendo e não vão se perder. Virão nos procurar quando quiserem vir.
Saíram da estrada preta e entraram na relva alta, que chegava à altura dos joelhos, as pernas se movendo com um som sibilante ao roçar nos talos altos, observando os insetos esvoaçando, dardejando, borboleteando, dando voos rasantes, ouvindo o coro de milhões de vozes chilrear e cricrilar.
— O que você vai fazer, Will? — perguntou Lyra baixinho, depois de terem andado um bom pedaço em silêncio.
— Bem, tenho que voltar para casa — respondeu ele.
No entanto, ela achou que sua voz soava insegura. Esperava que soasse insegura.
— Mas eles ainda podem estar atrás de você — argumentou. — Aqueles homens.
— Mas já enfrentamos coisa pior que eles.
— É, acho que sim... Mas eu queria lhe mostrar a Faculdade Jordan e os Pântanos. Queria que nós...
— Eu sei — concordou ele — e eu queria... Seria bom voltar até mesmo a Cittàgazze. Era um lugar bonito, e se os Espectros tiverem todos ido embora... Mas tenho minha mãe. Tenho que voltar e cuidar dela. Eu simplesmente a deixei com a Sra. Cooper e não é justo com nenhuma das duas.
— Mas não é justo que você tenha que fazer isso.
— Não — concordou ele — mas é um tipo de não ser justo diferente. É exatamente como um terremoto ou uma tempestade. Pode não ser justo, mas não é culpa de ninguém. Mas se eu simplesmente deixar minha mãe com uma senhora idosa que também não está muito bem, isso, então, é um outro tipo de não ser justo. Isso seria errado. Eu tenho que ir para casa, e pronto. Mas provavelmente vai ser difícil voltar a ser como era antes. Agora, provavelmente, o segredo não é mais segredo. Não imagino que a Sra. Cooper tenha conseguido cuidar dela, não se minha mãe tiver passado por um daqueles seus períodos em que fica com medo das coisas. De modo que ela provavelmente teve que procurar ajuda, e quando eu voltar vão me obrigar a ir para algum tipo de instituição.
— Não! Como um orfanato?
— Acho que é o que eles fazem. Na verdade, não sei. Vou detestar.
— Você poderia escapar com a faca, Will! Poderia vir para meu mundo!
— Mas de qualquer maneira o meu lugar é um lugar onde possa estar com ela. Quando for adulto, vou poder cuidar dela direito, na minha casa. Então ninguém vai poder interferir.
— Você acha que vai se casar?
Ele ficou calado durante muito tempo. Contudo, ela sabia que estava pensando.
— Não consigo pensar numa coisa tão distante no futuro — respondeu. —Teria que ser com alguém que pudesse compreender... não acho que exista ninguém assim em meu mundo. E você, se casaria?
— Eu também não — respondeu ela, e sua voz não estava muito firme. “Não com ninguém em meu mundo, não acredito.”
Continuaram andando devagar, sem rumo certo, seguindo em direção ao horizonte. Eles tinham todo o tempo do mundo: todo o tempo que o mundo tinha. Depois de alguns instantes, Lyra perguntou:
— Você vai guardar a faca, não vai? De modo que possa visitar meu mundo?
— É claro. Eu certamente não a daria a nenhuma outra pessoa, nunca.
— Não olhe — disse ela, sem alterar o passo. — Lá estão eles de novo. À esquerda.
— Eles estão nos seguindo — comentou Will, radiante.
— Psiu!
— Bem que achei que nos seguiriam. OK, agora vamos fingir, vamos andar por aí fazendo de conta que estamos procurando por eles e vamos olhar em todos os lugares mais idiotas.
E tornou-se uma brincadeira. Eles encontraram um laguinho e procuraram entre os juncos e na lama, dizendo em voz alta que os dimons deveriam estar com forma de sapos, de besouros d’água ou lesmas, eles arrancaram a casca de uma árvore, há muito caída, na beira de um bosque de eucaliptos, fingindo ter visto os dois dimons se escondendo debaixo dela, sob a forma de lacrainhas, Lyra fez uma cena, dando uma enorme atenção a uma formiga em que ela afirmava ter pisado, lamentando os machucados que havia causado, dizendo que a carinha da formiga era igual à de Pan, perguntando com tristeza fingida por que a formiga se recusava a falar com ela.
Mas quando achou que realmente estavam fora do alcance dos ouvidos dos dimons, disse seriamente para Will, chegando bem perto dele para falar rapidamente:
— Nós tivemos que deixá-los, não tivemos? Realmente não tínhamos escolha, não é?
— Sim, tivemos. Foi pior para você do que para mim, mas nós não tínhamos nenhuma outra escolha. Porque você fez uma promessa a Roger e tinha que cumpri-la.
— E você precisava falar novamente com seu pai...
— E tínhamos que tirar todos eles de lá.
— É, tínhamos. Estou tão feliz por termos feito isso. Um dia, Pan também vai ficar feliz, quando eu morrer. Não vamos ser separados. Aquilo foi uma coisa boa que fizemos.
À medida que o sol subia mais alto no céu e o ar se tornava mais quente, eles começaram a procurar uma sombra. Por volta do meio-dia, estavam na encosta que se elevava em direção ao topo de uma cadeia de colinas e quando chegaram lá, Lyra deixou-se cair na relva e declarou:
— Bem! Se não encontrarmos logo um lugar que esteja na sombra...
Havia um vale que descia até o outro lado, e era coberto de arbustos, de modo que imaginaram que ali também poderia haver uma nascente. Atravessaram a cadeia de colinas até o outro lado da encosta, onde começava a descer para a parte mais alta do vale, e ali, como haviam imaginado, entre samambaias e juncos, uma nascente borbulhava saindo da rocha. Molharam os rostos acalorados na água e beberam satisfeitos, depois foram descendo, seguindo a corrente d’água, observando-a se acumular, formando redemoinhos em miniatura e jorrando sobre minúsculas saliências de pedra, e o tempo todo ia tornando-se mais larga e mais forte, virando um pequeno córrego.
— Como ela faz isso? — perguntou Lyra maravilhada. — Não tem mais água entrando nela, vinda de nenhum outro lugar, mas tem uma quantidade de água tão maior aqui do que lá em cima.
Will, vigiando as sombras pelo canto do olho, as viu se esgueirarem adiante deles, saltando sobre as samambaias para desaparecer nos arbustos mais abaixo. Ele apontou silenciosamente.
— É que vai mais devagar — respondeu. — Não jorra tão depressa como na nascente, de modo que vai se juntando nesses baixios... Eles foram para lá — sussurrou, apontando para um pequeno grupo de árvores na base da encosta.
O coração de Lyra estava batendo tão depressa que o sentia pulsar na garganta. Ela e Will trocaram um olhar, um olhar curiosamente formal e sério, antes de continuarem a seguir o curso d’água. A vegetação rasteira tornou-se mais espessa à medida que entraram no vale, o curso d’água entrava em túneis de verde e emergia em clareiras com áreas de luz e sombra, apenas para despencar sobre um beiço de pedra e se enterrar no verde de novo, e eles tinham que segui-lo tanto com o olhar como com o ouvido. Na base da colina, o curso d’água corria para o interior de um pequeno bosque de árvores de troncos prateados.


O Padre Gomez observava do alto da cadeia de colinas. Não tinha sido difícil segui-los, a despeito da confiança de Mary na savana aberta, havia uma variedade de esconderijos na relva e as moitas ocasionais de eucaliptos e arbustos de seiva de laca. Os dois jovens tinham passado um bocado de tempo olhando ao redor por toda parte, como se pensassem que estivessem sendo seguidos, e ele tinha tido que se manter a uma certa distância, mas à medida que a manhã tinha passado, haviam se tornado cada vez mais interessados um no outro, prestando menos atenção na paisagem. A única coisa que ele não queria fazer era ferir o menino. Ele tinha verdadeiro horror a fazer mal a uma pessoa inocente. A única maneira de se assegurar de acertar seu alvo era chegar perto o suficiente para vê-la claramente, o que significava segui-los e entrar no bosque. Silenciosa e cautelosamente, ele foi descendo seguindo o curso da corrente d’água. Seu dimon, o besouro fêmea de dorso verde, voava logo acima farejando o ar, sua visão era menos aguçada que a dele, mas seu olfato era acuradíssimo e ela sentiu o cheiro da carne das crianças muito claramente.
Podia seguir um pouco mais à frente, pousar num caule de relva e esperar por ele, depois seguir adiante de novo, e à medida que ela farejava o rasto que os corpos deles deixavam no ar, o Padre Gomez viu-se louvando a Deus por sua missão, porque estava mais claro que nunca que o menino e a menina estavam se encaminhando para o pecado mortal.
E lá estava: o movimento louro-escuro que eram os cabelos da menina. Ele se aproximou mais um pouco e empunhou o rifle. Tinha mira telescópica: a lente não era de grande alcance, mas era tão magnificamente feita que olhar através dela era sentir sua visão ficar nítida, bem como ser ampliada. Sim, lá estava ela, e a menina parou e olhou para trás, de modo que ele viu a expressão em seu rosto e não conseguiu entender como alguém tão impregnado pelo mal pudesse ter uma expressão tão radiante de esperança e felicidade.
Seu espanto fez com que ele hesitasse e então o momento passou, as duas crianças tinham entrado no meio das árvores e estavam fora de vista. Bem, não iriam muito longe. Ele as seguiu descendo pela beira do leito do pequeno córrego, movendo-se agachado, segurando o rifle em uma das mãos e se equilibrando com a outra.
Agora, estava tão próximo do sucesso que pela primeira vez se viu tecendo especulações sobre o que faria depois e se daria mais satisfação ao reino do céu voltando para Genebra ou ficando ali para evangelizar aquele mundo. A primeira coisa a fazer ali seria convencer os seres de quatro pernas, que pareciam ter os rudimentos de uma inteligência, de que seu hábito de circular sobre rodas era abominável e satânico, e contrário à vontade de Deus. Se os afastasse daquilo, a salvação se seguiria.
Ele alcançou o sopé da encosta, onde as árvores começavam, e colocou o rifle no chão silenciosamente.
Olhou fixamente para as sombras dourado-esverdeado-prateadas e ficou escutando atentamente, com as duas mãos em concha atrás das orelhas, para captar e localizar quaisquer vozes baixas em meio ao chilrear dos insetos e o borbulhar da água do pequeno córrego. Sim, lá estavam eles. Tinham parado. Ele se abaixou para pegar o rifle, e viu-se emitindo um grito rouco sufocado, enquanto alguma coisa agarrava seu dimon e a levava para longe dele. Mas não havia nada ali! Onde estava ela? A dor era atroz. Ele a ouviu gritando e olhou em volta desesperado, para a esquerda e para a direita, procurando-a.
— Não se mova — disse uma voz saída do ar — e fique calado. Estou com seu dimon em minha mão.
— Mas... onde está você? Quem é você?
— Meu nome é Balthamos — disse a voz.


Will e Lyra seguiram o pequeno córrego e entraram no bosque, andando cautelosamente, falando pouco, até estarem bem no centro.
Havia uma pequena clareira no meio do arvoredo, que era atapetada de grama macia e pedras cobertas de musgo. Os galhos se entrelaçavam acima, quase escondendo o céu e deixando passar pequenas palhetas e lantejoulas dançantes de luz, de modo que tudo estava salpicado de ouro e prata. E era silencioso. Só o borbulhar do pequeno riacho e o farfalhar ocasional das folhas lá no alto, numa pequena ondulação de brisa, quebravam o silêncio. Will pôs no chão o embrulho de comida, Lyra deixou junto sua pequena sacola. Não havia sinal dos dimons sombras em lugar nenhum. Estavam completamente sozinhos.
Tiraram os sapatos e as meias e sentaram nas rochas cobertas de musgo na beira do riacho, mergulhando os pés na água fria e sentindo o choque da temperatura revigorar-lhes o sangue.
— Estou com fome — declarou Will.
— Eu também — disse Lyra, embora estivesse sentindo mais que isso, alguma coisa evidente, silenciosa e urgente, meio feliz, meio dolorosa, de modo que não tinha muita certeza do que era.
Eles desfizeram o embrulho, abriram o pano e comeram pão com queijo. Por algum motivo as mãos deles estavam lentas e desajeitadas, e mal sentiram o gosto da comida, embora o pão estivesse saboroso e crocante por ter sido assado nas pedras bem aquecidas e o queijo fosse macio, salgado e muito fresco.
Então Lyra pegou uma daquelas frutinhas vermelhas. Com o coração batendo acelerado, virou-se para ele e disse:
— Will...
E levou a fruta delicadamente até a boca de Will.
Ela pôde ver pelo olhar de Will que, imediatamente, havia compreendido o que ela queria fazer, e que estava feliz demais para falar. Os dedos de Lyra ainda estavam nos lábios dele e Will os sentiu tremer, e levantou a mão para segurar os dedos dela ali, e nenhum dos dois conseguia olhar para o outro, estavam confusos, estavam transbordando de felicidade.
Como duas mariposas desajeitadamente se esbarrando, sem mais peso que isso, seus lábios se tocaram. Então, antes que soubessem como havia acontecido, estavam abraçados, cada um cegamente apertando o rosto colado no do outro.
— Como Mary disse... — sussurrou ele — você sabe imediatamente quando gosta de alguém... quando você estava dormindo, na montanha, antes que ela levasse você embora, eu disse a Pan...
— Eu ouvi — sussurrou ela — estava acordada e queria dizer a mesma coisa para você, e agora sei o que eu estava sentindo o tempo todo: eu amo você, Will, eu amo você...
A palavra amor incendiou os nervos de Will. Seu corpo inteiro se encheu de prazer ao ouvi-la e ele respondeu com as mesmas palavras, beijando a face quente de Lyra uma porção de vezes, todos os sentidos absorvendo com adoração o aroma de seu corpo, dos cabelos mornos perfumados de mel e a boca úmida de Lyra que tinha o sabor da frutinha vermelha.
Ao redor deles não havia nada senão um grande silêncio, era como se o mundo inteiro estivesse prendendo a respiração.


Balthamos estava aterrorizado.
Ele foi subindo o curso do leito do rio e se afastou do bosque, segurando o dimon inseto que picava, mordia e arranhava, e tentando se esconder, tanto quanto podia, do homem que vinha cambaleando atrás deles. Não podia deixar que ele o alcançasse. Sabia que o Padre Gomez o mataria num instante. Um anjo de sua hierarquia não era adversário para um homem, mesmo se o anjo fosse forte e saudável, e Balthamos não era nenhuma dessas duas coisas, além disso, estava enfraquecido pela tristeza por ter perdido Baruch e pela vergonha de ter abandonado Will antes. Não tinha mais forças nem para voar.
— Pare, pare — implorou o Padre Gomez. — Por favor, fique parado. Eu não consigo ver você... vamos conversar, por favor, não machuque meu dimon, eu suplico...
Na verdade, o dimon estava machucando Balthamos. O anjo podia ver vagamente a coisinha verde através das costas de suas mãos cerradas e ela estava cravando suas mandíbulas poderosas repetidamente nas palmas de suas mãos. Se abrisse as mãos apenas por um instante, ela escaparia. Balthamos as manteve fechadas, bem apertadas.
— Por aqui — disse ele — siga-me. Afaste-se desse bosque. Quero falar com você e este não é o lugar certo.
— Mas, quem é você? Não consigo ver você. Chegue mais perto... Como posso saber o que você é se não vejo você? Pare, não ande tão depressa!
Mas andar depressa era a única defesa que Balthamos tinha. Tentando ignorar as picadas do dimon, foi seguindo adiante, evitando obstáculos, subindo pelo pequeno vale estreito por onde corria o riacho, saltando de pedra em pedra.
Então ele cometeu um erro: tentando olhar para trás, escorregou e pôs um pé na água.
— Ah — veio um suspiro de satisfação quando o Padre Gomez ouviu a água se agitar e respingar.
Balthamos imediatamente tirou o pé da água e prosseguiu rapidamente mas, agora, uma pegada molhada aparecia nas pedras secas cada vez que ele pisava nelas. O padre viu isso, saltou para frente e sentiu penas roçarem em sua mão.
Ele estacou, espantadíssimo: a palavra anjo reverberou em sua mente.
Balthamos aproveitou o momento para sair cambaleando de novo e o padre sentiu-se arrastado atrás dele, enquanto uma outra pontada brutal lhe torcia o coração. Balthamos disse por sobre o ombro:
— Um pouco mais adiante, só até o topo da cadeia de colinas, e então conversaremos, prometo.
— Fale aqui! Pare onde está e juro que não tocarei em você!
O anjo não respondeu: estava muito difícil se concentrar. Ele tinha que dividir sua atenção em três direções: ver o que vinha atrás dele, para evitar o homem, ver o que estava à frente, para ver para onde estava indo, e se concentrar no dimon, a coisa furiosa que estava torturando suas mãos. Já o padre estava com a mente funcionando a pleno vapor. Um adversário realmente perigoso teria matado seu dimon imediatamente e encerrado a questão ali, na mesma hora: este antagonista estava com medo de atacar. Com isso em mente, deixou-se tropeçar e emitiu pequenos gemidos de dor, e suplicou uma ou duas vezes que o outro parasse — o tempo todo vigiando atentamente, chegando cada vez mais perto, calculando que tamanho o outro teria, com que velocidade poderia se deslocar, para que lado estava olhando.
— Por favor — implorou, como se estivesse sucumbindo — você sabe como isso dói... eu não posso lhe fazer nenhum mal... por favor, vamos parar e conversar?
Ele não queria perder de vista o bosque. Agora estavam no ponto onde a nascente começava e podia ver a forma dos pés de Balthamos comprimindo muito levemente a relva. O padre observou cada centímetro do caminho e agora tinha certeza que o anjo estava de pé.
Balthamos se virou. O padre levantou os olhos para o lugar onde achava que o rosto do anjo estaria e o viu pela primeira vez: apenas uma cintilação no ar, mas não havia dúvida de que estava ali.
Contudo, ainda não estava bastante próximo para alcançá-lo num só movimento e, na verdade, o afastamento de seu dimon tinha sido doloroso e debilitante. Talvez devesse dar mais um ou dois passos...
— Sente-se — ordenou Balthamos. — Sente aí, onde está. Não dê mais nem um passo.
— O que você quer? — perguntou o Padre Gomez, sem se mover.
— O que eu quero? Quero matar você, mas não tenho força para isso.
— Mas você é um anjo?
— Que importância tem isso?
— Você pode ter cometido um erro. Poderíamos estar do mesmo lado.
— Não, não estamos. Eu venho seguindo você. Sei de que lado você está... não, não, não se mova. Fique aí.
— Não é tarde demais para se arrepender. Mesmo anjos podem fazer isso. Deixe-me ouvir sua confissão.
— Ah, Baruch, ajude-me! — gritou Balthamos desesperado, dando as costas para o padre.
E no instante em que ele gritou, o Padre Gomez saltou em cima dele. Seu ombro acertou o ombro do anjo e desequilibrou Balthamos, e, ao estender a mão para se salvar, o anjo soltou o dimon inseto. O besouro imediatamente saiu voando e o Padre Gomez sentiu uma onda de alívio e de força. Na verdade, foi isso que o matou, para sua grande surpresa. Ele se atirou com tanta força contra a frágil silhueta do anjo e esperava encontrar uma resistência tão maior que a que encontrou, que não conseguiu manter o equilíbrio. Seu pé escorregou, o impulso o levou para baixo em direção ao riacho, e Balthamos, pensando no que Baruch teria feito, chutou a mão do padre para o lado, quando ele a estendeu para se segurar.
O Padre Gomez caiu com violência. Sua cabeça bateu numa pedra e ele ficou caído, atordoado, com o rosto na água. O choque da água fria o reanimou imediatamente, mas enquanto engasgava e, enfraquecido, tentava se levantar, Balthamos, desesperado, ignorou o dimon picando-lhe o rosto, os olhos e a boca, e usou todo o pouco peso que tinha para manter a cabeça do homem enfiada na água, e a manteve lá.
Quando o dimon desapareceu de repente, Balthamos o largou. O homem estava morto. Tão logo teve certeza disso, Balthamos tirou o corpo do riacho e deitou-o cuidadosamente sobre a relva, cruzando as mãos do homem sobre o peito e fechando-lhe os olhos.
Então Balthamos se levantou, nauseado, exausto e cheio de dor.
— Baruch — disse. — Ah, Baruch, meu querido, não há mais nada que eu possa fazer. Will e a menina estão salvos e tudo vai correr bem, mas isto é o fim para mim, embora eu tenha realmente morrido quando você morreu, Baruch, meu amado.
Um instante depois, ele havia desaparecido.


Na plantação de feijão, sonolenta, no final da tarde, Mary ouviu a voz de Atai e não soube distinguir entre entusiasmo e preocupação: será que outra árvore tinha caído? Será que o homem do rifle tinha aparecido?
Olhe! Olhe!, dizia Atai, puxando o bolso de Mary com a tromba, de maneira que Mary pegou a luneta e fez o que sua amiga mandava, apontando a luneta para o céu.
Diga-me o que ele está fazendo, pediu Atai. Estou sentindo que está diferente, mas não consigo ver.
A terrível torrente de Pó jorrando no céu havia parado de fluir. Não estava parada, de forma alguma, Mary vasculhou o céu inteiro com as lentes âmbar, vendo uma corrente aqui, um redemoinho ali, um vórtice mais adiante, estava em perpétuo movimento, mas não estava mais fluindo para longe. Na verdade, muito pelo contrário, estava caindo como flocos de neve.
Ela pensou nas árvores-das-rodas: as flores que se abriam para cima estariam absorvendo aquela chuva dourada. Mary quase podia senti-las recebendo-a satisfeitas em suas pobres gargantas sedentas, que eram tão perfeitamente moldadas para isso e que tinham sido privadas dela por tanto tempo.
As crianças, disse Atai.
Mary virou-se, de luneta em punho e viu Will e Lyra voltando. Eles ainda estavam a alguma distância, não vinham andando depressa. Estavam de mãos dadas, conversando, as cabeças bem juntas, sem dar atenção a nada do que os cercava, mesmo de longe ela podia ver isso.
Ela quase pôs a luneta no olho, mas se conteve e a colocou de volta no bolso. Não havia necessidade de usar a luneta, ela sabia o que veria, eles pareceriam feitos de ouro vivo. Eles pareceriam a imagem verdadeira do que seres humanos sempre poderiam ser, depois que tivessem descoberto sua herança.
O Pó descendo como uma chuva vinda das estrelas havia encontrado novamente um lar para viver, e aquelas crianças-que-não-eram-mais-crianças, embebidas e transbordando de amor, eram a causa de tudo aquilo.

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