17 de fevereiro de 2017

33. Marzipã

Doce primavera cheia de doces dias e rosas, na caixa se escondem os doces lado a lado.
George Herbert

Na manhã seguinte, Lyra despertou de um sonho em que Pantalaimon tinha voltado para ela e revelado sua forma definitiva, e ela a havia adorado, mas agora não tinha mais nenhuma ideia de qual fosse.
Não fazia muito tempo que o sol havia raiado e a atmosfera estava carregada de uma fresca florescência. Podia ver a luz do sol através da porta aberta da pequena choupana de teto de colmo onde havia dormido, a casa de Mary. Ficou deitada por algum tempo, escutando. Havia passarinhos lá fora e alguma espécie de grilo cantando, e Mary respirava suave e compassadamente dormindo ali perto.
Lyra se sentou e descobriu que estava nua. Ficou indignada por um instante e depois viu uma pilha de roupas limpas dobradas a seu lado no chão: uma camisa de Mary, um pedaço de tecido macio, estampado com cores claras, que poderia amarrar na cintura e usar como saia. Ela os vestiu, sentindo-se engolida pela camisa, mas pelo menos estava decente. Saiu da choupana. Pantalaimon estava por perto: tinha certeza disso. Quase podia ouvi-lo falar e rir. Isso devia significar que estava bem, em segurança, e que eles de alguma forma ainda estavam ligados. E quando ele a perdoasse e voltasse — as horas que passariam juntos conversando, apenas contando tudo o que havia acontecido um para o outro...
Will ainda estava dormindo debaixo da árvore, o preguiçoso. Lyra pensou em acordá-lo, mas se estivesse sozinha poderia nadar nua no rio. Costumava nadar nua, feliz da vida, no rio Cherwell, com todas as outras crianças de Oxford, mas seria bastante diferente com Will e ela corou só de pensar naquilo. De modo que desceu até a beira da água, sozinha, na manhã cor de pérola. Entre os juncos na margem havia um pássaro, grande como uma garça, de pé, perfeitamente imóvel sobre uma perna. Ela foi andando silenciosa e lentamente para não assustá-lo, mas o pássaro não lhe deu nenhuma atenção, como se não fosse nada mais que um galho na água.
— Bem — disse ela.
Deixou as roupas na margem e deslizou para as águas do rio. Nadou vigorosamente para aquecer o corpo, depois saiu e sentou-se encolhida na margem, tremendo. Normalmente, Pan a ajudaria a se secar: será que estava sob a forma de um peixe, rindo às suas custas debaixo d’água? Ou de um besouro, se enfiando no meio das roupas para lhe fazer cócegas, ou de um pássaro? Ou será que estava em algum outro lugar totalmente diferente, com o outro dimon e sem nem sequer pensar em Lyra?
O sol agora estava mais quente e em pouco tempo ela se secou. Vestiu a camisa larga de Mary novamente e, vendo algumas pedras achatadas na margem, foi buscar suas próprias roupas para lavá-las. Mas descobriu que alguém já tinha feito isso: as roupas dela e também as de Will estavam estendidas nos galhos recurvados de um arbusto perfumado, quase secas. Will estava começando a se mexer. Ela sentou perto dele e chamou baixinho.
— Will! Acorde!
— Onde estamos? — perguntou ele de imediato e se levantou apoiado no cotovelo, e pegou a faca.
— Estamos em segurança — respondeu ela, desviando o olhar. — E eles também lavaram nossas roupas, ou talvez tenha sido a Dra. Malone. Vou buscar as suas. Estão quase secas...
Ela passou-lhe as roupas e sentou de costas para ele até estar vestido.
— Eu nadei no rio — contou. — Fui procurar Pan, mas acho que ele está se escondendo.
— Isso é uma boa ideia. Dar uma nadada. Tenho a sensação de ter anos e anos de sujeira grudada em mim... Vou descer e me lavar.
Enquanto ele se afastava, Lyra começou a passear pelo povoado, sem examinar muito detalhadamente coisa nenhuma, caso aquilo violasse algum código de boas maneiras, mas curiosa com relação a tudo que via. Algumas das casas eram muito velhas e outras bastante novas, mas eram todas construídas mais ou menos da mesma maneira, de madeira, barro e colmo. Não havia nada de tosco na construção das casas, cada porta, esquadria de janela e verga de porta era decorada com desenhos sutis, mas os padrões não eram entalhados na madeira: era como se eles tivessem persuadido a madeira a crescer naturalmente naquela forma.
Quanto mais ela olhava, mais via ordem e cuidados de todos os tipos na aldeia, como as camadas de significado no aletiômetro. Parte de sua mente estava ávida para decifrar tudo aquilo, para saltar ligeira de similaridade em similaridade, de um significado para outro, como ela fazia com o instrumento, mas uma outra parte estava se perguntando quanto tempo eles poderiam ficar ali antes de ter que seguir adiante.
“Bem, não vou a lugar nenhum enquanto Pan não voltar”, disse para consigo mesma.
Pouco depois Will voltou do rio e então Mary saiu de sua casa e lhes ofereceu um café da manhã, e logo em seguida Atai também apareceu e o povoado começou a despertar em torno deles. As duas crianças mulefas, sem rodas, ficavam espiando escondidas atrás dos cantos das casas para observá-los e Lyra de repente se virava e os encarava abertamente para fazê-los pular e rir assustados.
— Ora, muito bem — disse Mary, depois de terem comido pão, frutas e bebido uma infusão escaldante de algo parecido com menta. — Ontem vocês estavam cansados demais e precisavam descansar. Mas hoje estão me parecendo muito mais animados, todos os dois, e acho que precisamos contar uns aos outros tudo o que descobrimos. E isso vai levar um bom tempo, de modo que poderíamos aproveitar e manter nossas mãos ocupadas enquanto fazemos isso, de modo que vamos tratar de nos tornar úteis e consertar algumas redes.
Eles carregaram a pilha de redes enrijecidas, alcatroadas, até a margem do rio e as estenderam na relva, e Mary mostrou a eles como dar o nó em um novo pedaço de linha onde havia uma esgarçada. Ela estava vigilante, porque Atai lhe tinha dito que as famílias que viviam mais abaixo na costa tinham visto um grande número de tualapi, os pássaros brancos, se reunindo no mar e todo mundo estava preparado para um alarme para partir imediatamente, mas enquanto isso o trabalho tinha que continuar.
De modo que eles ficaram sentados ao sol, trabalhando, na margem das águas plácidas do rio, e Lyra contou sua história, a partir do momento, tanto tempo atrás, em que ela e Pan haviam decidido dar uma espiada na Sala Privativa da Faculdade Jordan.
A maré encheu, subiu pelo rio e começou a baixar, e mesmo depois disso não houve sinal dos tualapi. No final da tarde, Mary conduziu Will e Lyra pela margem do rio, passando pelos pilares de pesca onde as redes ficavam amarradas e atravessando o amplo terreno que era inundado pelas águas salgadas, na maré cheia, usado para salinação, em direção ao mar. Era seguro ir até lá quando a maré estava vazante, porque os pássaros brancos só vinham para a terra quando a maré estava alta. Mary foi seguindo na frente, por um caminho compacto acima da lama, como tantas coisas que os mulefas haviam feito, era antigo, mas perfeitamente bem conservado, mais como algo que fosse parte da natureza que algo imposto a ela.
— Eles também construíram as estradas de pedra? — perguntou Will.
— Não. Acho que, de certa forma, foram as estradas que os fizeram — comentou Mary. — O que estou querendo dizer é que eles nunca teriam desenvolvido o uso de rodas se não existisse essa profusão de superfícies duras e lisas para usá-las. Acho que são derramamentos de lavas de vulcões antiquíssimos. De modo que as estradas tornaram possível que eles usassem as rodas. E outras coisas contribuíram para isso também. Como as próprias árvores-das-rodas e a maneira como seus corpos são formados: eles não são vertebrados, não têm espinha dorsal. Alguma casualidade feliz em nosso mundo, muito tempo atrás, deve ter feito com que seres com espinha dorsal tivessem mais facilidade de sobreviver e assim uma enorme variedade de outras formas se desenvolveram, todas baseadas na espinha dorsal. Neste mundo, a sorte seguiu um caminho diferente, e a estrutura losangular foi bem-sucedida. Existem animais vertebrados, é claro, mas não muitos. Existem serpentes, por exemplo. As serpentes aqui são importantes. As pessoas cuidam delas e tentam não lhes fazer mal. De qualquer maneira, a combinação da estrutura deles, das estradas e das árvores-das-rodas reunidas tornou tudo possível. Uma porção de felizes casualidades todas se juntando e se encaixando. Quando começou sua parte na história, Will?
— Uma porção de pequenas casualidades para mim, também — começou ele, pensando na gata debaixo dos galhos das bétulas. Se ele tivesse chegado lá 30 segundos antes ou depois, nunca teria visto a gata, nunca teria encontrado a janela, nunca teria descoberto Cittàgazze e Lyra, nada de tudo aquilo teria acontecido.
Ele começou bem do princípio, e elas ouviram enquanto ele falava. Quando alcançaram os baixios de argila, Will já tinha chegado ao ponto em que ele e seu pai estavam lutando no cume da montanha.
— E então a bruxa o matou...
Will nunca tinha realmente conseguido compreender aquilo. Ele explicou o que ela lhe dissera antes de se matar: que amava John Parry e que ele a tinha rejeitado.
— Mas as bruxas são ferozes — comentou Lyra.
— Mas se ela o amava...
— Bem — argumentou Mary — o amor também é feroz.
— Mas ele amava minha mãe — disse Will. — E posso dizer a ela que ele nunca lhe foi infiel.
Lyra, olhando para Will, pensou que se ele se apaixonasse seria assim. Por toda parte ao redor deles os ruídos serenos da tarde pairavam no ar quente: o escorrer e sugar incessante do pântano, o cricrilar dos insetos, os gritos das gaivotas. A maré já havia baixado totalmente, de modo que toda a extensão da praia estava descoberta e reluzindo sob o sol forte. Um bilhão de minúsculos seres da lama viviam, se alimentavam e morriam na camada superior da areia, e os pequeninos moldes e buracos para respirar e movimentos invisíveis mostravam que a paisagem inteira estava tremulante de vida.
Sem dizer aos outros por que, Mary examinou minuciosamente o mar distante, vasculhando o horizonte em busca de velas brancas. Mas havia apenas um brilho enevoado onde o azul do céu empalidecia na borda do mar, e o mar refletia a claridade e fazia cora que faiscasse no ar cintilante. Ela mostrou a Will e Lyra como apanhar um tipo especial de molusco, encontrando seus tubos de respiração pouco acima da areia. Os mulefas adoravam comê-los, mas para eles era difícil se movimentar na areia e apanhá-los. Sempre que Mary vinha até a beira do mar, colhia tantos quantos podia e agora, com três pares de mãos e de olhos para trabalhar, haveria um banquete.
Ela deu a cada um uma bolsa de pano e eles trabalharam enquanto ouviam a parte seguinte da história. Pouco a pouco foram enchendo as sacolas e Mary os levou discretamente de volta para a margem do pântano porque a maré estava novamente virando.
A história estava levando um longo tempo, eles não chegariam ao mundo dos mortos naquele dia. À medida que se aproximavam do povoado, Will estava contando a Mary a conclusão a que ele e Lyra haviam chegado com relação à constituição em três partes da natureza dos seres humanos.
— Vocês sabem — comentou Mary — a igreja, a Igreja Católica à qual eu pertencia, não usaria a palavra dimon, mas São Paulo fala a respeito de espírito e alma e corpo. De maneira que a ideia da natureza humana ser constituída de três partes não é tão estranha.
— Mas a melhor parte é o corpo — disse Will. — Foi isso que Baruch e Balthamos me disseram. Os anjos desejariam ter corpos. Eles me disseram que não conseguiam compreender por que nós não aproveitamos melhor o mundo. Para eles, seria uma espécie de êxtase ter nossa carne e nossos sentidos. No mundo dos mortos...
— Conte isso quando chegar a essa parte da história — interveio Lyra e deu-lhe um sorriso, um sorriso de tão doce compreensão e alegria que os sentidos dele ficaram confusos. Ele retribuiu o sorriso, e Mary constatou que a expressão no rosto dele revelava a mais perfeita confiança que jamais tinha visto num rosto humano.
A essa altura tinham chegado ao povoado e estava na hora de preparar a refeição da noite. De modo que Mary deixou os dois junto da margem do rio, onde sentaram para ver a maré cheia subir, e foi se juntar a Atai ao lado da fogueira. Sua amiga ficou radiante com a farta coleta de moluscos.
Mas Mary, disse ela, os tualapi destruíram um povoado mais acima na costa e depois outro e mais outro. Eles nunca fizeram isso antes. Geralmente atacam um e depois voltam para o mar. E mais três foram destruídos hoje...
Não! Onde?
Atai mencionou um bosque não muito longe de uma fonte de águas termais. Mary tinha estado lá apenas três dias antes e nada parecera errado. Ela pegou a luneta e olhou para o céu, e, exatamente como havia esperado, a grande corrente de partículas de Sombra estava fluindo com mais intensidade ainda, com velocidade e volume incomparavelmente maiores que a maré montante que subia entre as margens do rio.
O que você pode fazer?, perguntou Atai.
Mary sentiu o peso da responsabilidade como uma pesada mão descendo entre suas omoplatas, mas obrigou-se a sentar ereta sem demonstrar abatimento.
Contar-lhes histórias, respondeu.
Depois que o jantar acabou, os três humanos e Atai sentaram em mantas do lado de fora da casa de Mary, debaixo do céu cálido e estrelado. Eles se deitaram, se sentindo bem alimentados e confortáveis na noite perfumada pela fragrância de flores, e ouviram Mary contar sua história.
Ela começou pouco antes de ter conhecido Lyra, falando sobre o trabalho que estivera fazendo na Unidade de Pesquisa de Matéria Escura, e sobre a crise por causa da recusa de renovação de fundos para a bolsa de pesquisa. Quanto tempo ela tinha tido que passar pedindo dinheiro e como isso lhe deixara pouco tempo para trabalhar na pesquisa!
Mas a visita de Lyra tinha mudado tudo e tão rapidamente: numa questão de dias ela havia, de fato, abandonado seu mundo.
— Fiz o que você me disse para fazer — prosseguiu. — Fiz um programa, isto é, um conjunto de instruções, para deixar as Sombras falarem comigo através do computador. Elas me disseram o que eu deveria fazer. Disseram que havia anjos e... bem...
— Se era uma cientista — observou Will — não imagino que fosse uma coisa boa elas dizerem isso. Você poderia não ter acreditado em anjos.
— Ah, mas eu sabia da existência de anjos. Sabe, eu tinha sido freira. Eu achava que se poderia trabalhar no campo da física para a glória de Deus, até que me dei conta de que não existia Deus nenhum e que, de qualquer maneira, todo aquele campo de estudos de física era muito mais interessante. A religião cristã é um erro muito poderoso e convincente, é só isso.
— Quando deixou de ser freira? — quis saber Lyra.
— Eu me lembro exatamente — respondeu Mary — até mesmo da hora do dia. Como era boa em física, eles me deram permissão para continuar minha carreira universitária, sabe, de modo que concluí meu doutorado e estava pronta para ensinar. Não era uma daquelas ordens em que você é totalmente afastado do mundo. Na verdade, nós nem sequer usávamos hábito, apenas tínhamos que nos vestir com simplicidade, discretamente, e usar um crucifixo. De modo que eu frequentava uma universidade para ensinar e fazer pesquisa na área de partículas elementares. E então houve uma conferência tratando de meu tema de pesquisa e fui convidada para ir e apresentar um estudo. A conferência era em Lisboa e eu nunca tinha estado lá antes, na verdade, nunca tinha saído da Inglaterra. A coisa toda... a viagem de avião, o hotel, o sol forte, as línguas estrangeiras por toda parte ao meu redor as pessoas famosas que iriam apresentar trabalhos e a ideia de apresentar minha própria tese, a dúvida se alguém iria aparecer para ouvir minha exposição e se eu estaria nervosa demais para conseguir falar... Ah, estava tão tensa e cheia de animação, que não consigo descrever. E eu era tão inocente, vocês têm que se lembrar disso. Sempre tinha sido tão boa menina, sempre indo regularmente à missa, eu acreditava que tinha uma vocação para a vida espiritual. Queria de todo o coração servir a Deus. Queria pegar minha vida inteira e oferecê-la, assim — disse ela, levantando as mãos juntas em concha — e colocá-la diante de Jesus para que ele fizesse o que quisesse com ela. E suponho que estivesse satisfeita comigo mesma. Satisfeita demais. Eu me sentia pura, correta e dedicada à religião e era inteligente. Ah! Isso durou até, ah, nove e meia da noite do dia dez de agosto, sete anos atrás.
Lyra se sentou e abraçou os joelhos, ouvindo com muita atenção.
— Foi na noite depois que apresentei minha tese — continuou Mary — e tudo tinha corrido bem, algumas pessoas famosas e respeitadas ouviram minha apresentação e me saí bem depois, durante as perguntas, sem me confundir, sem dizer nenhuma besteira e, de maneira geral, me sentia cheia de alívio e de prazer... E de orgulho também, sem dúvida. De qualquer maneira, alguns de meus colegas tinham combinado de ir a um restaurante, um pouco mais abaixo na costa, e me perguntaram se eu não gostaria de ir. Normalmente, eu teria inventado alguma desculpa, mas daquela vez pensei: ora, sou uma mulher adulta, apresentei uma tese sobre um tema importante e ela foi bem recebida, e estou entre bons amigos... E foi tão agradável, a conversa era a respeito de todas as coisas que mais me interessavam, e todos nós estávamos tão felizes e confiantes, achei que devia relaxar um pouco. Eu estava descobrindo uma nova faceta de mim mesma, entendem, uma faceta que gostava do sabor do vinho e das sardinhas grelhadas, da sensação do ar quente na minha pele e do ritmo da música ao fundo. Eu estava me deliciando com aquilo. De modo que nos sentamos para comer no jardim. Eu estava na cabeceira de uma mesa comprida debaixo de um limoeiro e havia uma espécie de caramanchão ao meu lado com flores-da-paixão e meu vizinho estava falando com a pessoa do outro lado, e... Bem, sentado defronte a mim havia um homem que eu tinha visto uma ou duas vezes durante a conferência. Não o conhecia nem de cumprimentar, ele era italiano e tinha feito pesquisas a respeito das quais as pessoas estavam falando, e achei que seria interessante conversar sobre o assunto. Resumindo. Ele era apenas um pouco mais velho do que eu e tinha cabelos pretos lisos, macios, e uma pele morena bonita, olhos escuros. O cabelo dele ficava caindo sobre a testa e ele o tempo todo o empurrava para trás assim, lentamente...
Mary mostrou a eles. Will achou que ela parecia se lembrar muito bem.
— Não era um homem bonito — prosseguiu. — Ele não era um mulherengo, nem um sedutor. Se tivesse sido, eu teria ficado acanhada, não teria sabido como conversar com ele. Mas era uma pessoa simpática, inteligente e divertida, e foi a coisa mais fácil do mundo ficar sentada ali, sob a luz do lampião, debaixo do limoeiro, com o perfume das flores, o cheiro da comida na grelha e do vinho, e conversar, rir e me sentir tendo a esperança de que ele me achasse atraente. A Irmã Mary Malone, flertando! E os votos que eu tinha feito? E o que dizer de minha decisão de dedicar a vida a Jesus e todo o resto? Bem, não sei se foi o vinho ou minha própria tolice, o ar quente gostoso ou o limoeiro, ou sei lá o quê... Mas, gradualmente, me pareceu que eu havia me convencido de uma coisa que não era verdade. Tinha me levado a acreditar que estava bem, feliz e realizada, sozinha, sem o amor de nenhuma outra pessoa. Para mim, estar apaixonada era como a China: sabia que existia, que sem dúvida devia ser muito interessante e que algumas pessoas iam até lá, mas eu nunca iria. Eu passaria toda a minha vida sem nunca ir à China, mas isso não teria importância porque havia o resto do mundo para visitar. E então alguém me passou um pedaço de alguma coisa doce e, de repente, me dei conta de que eu tinha ido à China. Por assim dizer. E que tinha me esquecido disso. Foi o gosto do doce que trouxe tudo de volta... acho que era marzipã... uma pasta doce de amêndoas — explicou a Lyra, que olhava para ela sem entender.
— Ah! Marchpane! — exclamou Lyra e se acomodou de volta mais confortavelmente para ouvir o que aconteceu depois.
— De qualquer maneira — prosseguiu Mary — eu me lembrei do gosto e, imediatamente, voltei ao passado, à ocasião em que provei aquele doce pela primeira vez, quando era garota. Eu tinha 12 anos. Foi numa festa na casa de uma de minhas amigas, uma festa de aniversário, e havia uma discoteca, isso é quando tocam música numa espécie de máquina de gravação e as pessoas dançam — ela explicou, percebendo a expressão de incompreensão de Lyra. — Geralmente as garotas dançam juntas porque os garotos são tímidos demais para convidá-las para dançar. Mas esse garoto, eu não o conhecia, mas ele me convidou para dançar e assim dançamos a primeira música, depois a seguinte e naquela altura estávamos conversando... E sabem como é, quando a gente gosta de alguém, você sabe imediatamente, bem, eu gostei tanto, gostei muito dele. E continuamos dançando e então veio a hora do bolo de aniversário. E ele pegou um pedaço de marzipã e, delicadamente, o colocou em minha boca... eu me lembro de tentar sorrir e de corar, depois de me sentir tão tola, e me apaixonei por ele só por causa disso, por causa da maneira delicada com que tocou meus lábios com o marzipã.
Enquanto Mary dizia isso, Lyra sentiu uma coisa estranha acontecer com seu corpo. Ela sentiu uma agitação nas raízes de seus cabelos: descobriu que sua respiração estava acelerada. Lyra nunca tinha andado de montanha russa, nem nada parecido, mas se tivesse, teria reconhecido as sensações em seu peito: eram de excitação e medo ao mesmo tempo, e ela não tinha a menor ideia do porquê.
A sensação continuou e se tornou mais intensa, depois mudou, à medida que mais partes de seu corpo também foram sendo afetadas por ela. Sentia como se tivessem lhe dado a chave de uma casa enorme que não sabia que existia, uma casa que de alguma maneira estava dentro dela e, à medida que girava a chave, lá nas profundezas da escuridão do prédio, sentisse outras portas se abrindo também, e luzes se acendendo. Ficou sentada tremendo, abraçando os joelhos, mal ousando respirar, enquanto Mary continuava:
— E acho que foi naquela festa, ou pode ter sido numa outra, que nós nos beijamos pela primeira vez. Foi no jardim e havia o som de música vindo de dentro da casa e o silêncio e o ar fresco entre as árvores, e eu o queria muito, meu corpo inteiro o queria tanto que doía e percebia claramente que ele estava sentindo a mesma coisa... e que nós dois estávamos quase acanhados demais para conseguir nos mexer. Quase. Mas um de nós se mexeu e então, sem nenhum intervalo, foi como um salto quântico, de repente estávamos nos beijando e, ah, era mais que a China, era o paraíso. Nós nos vimos cerca de meia dúzia de vezes, não mais que isso. Então os pais dele se mudaram para longe e nunca mais o vi de novo. Foi uma época tão boa, tão gostosa, passou tão depressa, durou tão pouco... Mas existiu, a recordação estava lá. Eu tinha conhecido. Eu tinha ido à China.
Foi a mais estranha das coisas: Lyra sabia exatamente do que Mary estava falando e, meia hora antes, não teria tido absolutamente nenhuma ideia. E em seu íntimo, aquela casa rica com todas as suas portas abertas e todos os seus aposentos iluminados estava esperando, silenciosa, esperançosa.
— E às nove e meia da noite, naquela mesa de restaurante em Portugal — prosseguiu Mary, sem perceber absolutamente o drama silencioso que se desenrolava no íntimo de Lyra — alguém me deu um pedaço de marzipã e eu me lembrei de tudo. E pensei: será que realmente vou passar o resto de minha vida sem nunca mais sentir aquilo de novo? E pensei: eu quero ir à China. É cheia de tesouros e de coisas estranhas, desconhecidas, de mistério e de felicidade. E pensei: será que vai ser melhor para alguém se eu voltar direto para o meu hotel, disser minhas orações, me confessar ao padre e prometer nunca mais voltar a cair em tentação? Será que alguém vai se tornar uma pessoa melhor se eu tornar minha vida miserável e infeliz? E a resposta veio: não. Ninguém vai ficar melhor. Não há ninguém para se atormentar, ninguém para condenar, ninguém para me abençoar por ser uma boa moça, ninguém vai me punir por ser má. O céu estava vazio. Eu não sabia se Deus tinha morrido, ou se Deus nunca tinha absolutamente existido. De qualquer maneira, me senti livre e solitária, e não sabia se estava feliz ou infeliz, mas algo de muito estranho havia acontecido. E toda aquela enorme mudança tinha ocorrido no momento em que o marzipã tocou em minha boca, antes mesmo que eu o tivesse engolido. Um gosto, uma lembrança, um desmoronamento sob meus pés... Quando afinal o engoli e olhei para o homem do outro lado da mesa, percebi que ele sabia que alguma coisa tinha acontecido. Não pude contar a ele naquela hora, naquele lugar, ainda era estranho demais e quase pessoal demais para mim. Mas depois, saímos para dar uma caminhada pela praia no escuro e a brisa tépida da noite agitava meus cabelos, e o Atlântico estava muito bem-comportado, ondas pequeninas e suaves acariciavam nossos pés... E tirei o crucifixo de meu pescoço e o atirei no mar. Isso foi tudo. Estava tudo acabado. Tinha sumido. De maneira que foi assim que deixei de ser freira — concluiu ela.
— Esse homem foi o mesmo que descobriu sobre os crânios? — perguntou Lyra, muito atenta.
— Ah... não. O homem dos crânios era o Dr. Payne, Oliver Payne. Ele apareceu muito depois disso. Não, o homem na conferência se chamava Alfredo Montale. Era um homem muito diferente.
— Você o beijou?
— Bem — disse Mary , sorrindo — beijei, mas não naquela noite.
— Foi difícil deixar a igreja? — perguntou Will.
— De certa maneira foi, porque todo mundo ficou decepcionado. Todo mundo, da Madre Superiora aos padres e a meus pais. Ficaram tão aborrecidos e me censuraram tanto... Eu sentia que algo em que eles todos acreditavam fervorosamente dependia de que eu continuasse a fazer algo em que eu não acreditava. Mas de certa maneira foi fácil, porque fazia sentido. Pela primeira vez na minha vida senti que estava fazendo alguma coisa com todos os elementos que constituíam minha natureza e não com apenas uma parte dela. De modo que foi solitário durante algum tempo, mas depois me habituei.
— Você se casou com ele? — perguntou Lyra.
— Não. Não me casei com ninguém. Vivi com uma pessoa... não o Alfredo, uma outra pessoa, Vivi com ele durante quase quatro anos. Minha família ficou escandalizada. Mas depois decidimos que seríamos mais felizes não vivendo juntos. De modo que estou sozinha. O homem com quem eu vivia gostava de escalar montanhas e me ensinou a praticar alpinismo, e costumo fazer caminhadas nas montanhas e... E tenho meu trabalho. Bem, eu tinha o meu trabalho. De maneira que sou solitária, mas sou feliz, se é que me entendem.
— Como se chamava o garoto? — perguntou Lyra. — O da festa?
— Tim.
— E como era ele?
— Ah... era gentil, atraente. Isso é tudo de que me lembro.
— Quando vi você pela primeira vez, em Oxford — recordou Lyra — você disse que um dos motivos pelos quais tinha se tornado cientista era que não teria que pensar a respeito do bem e do mal. Pensava a respeito disso quando era freira?
— Humm. Não. Mas eu sabia que deveria pensar: era só nisso que a igreja tinha me ensinado a pensar. E quando trabalhava em ciência, tinha que pensar a respeito de outras coisas completamente diferentes. De maneira que nunca tive que pensar a respeito do bem e do mal por mim mesma.
— Mas agora pensa? — quis saber Will.
— Eu acho que tenho que pensar — respondeu Mary, tentando ser precisa.
— Quando deixou de acreditar em Deus — prosseguiu ele — você deixou de acreditar no bem e no mal?
— Não. Mas deixei de acreditar que havia uma força do bem e uma força do mal que existissem fora de nós. E passei a acreditar que bem e mal são nomes que se dá ao que as pessoas fazem, não para o que elas são. Tudo o que podemos dizer é que uma ação é boa porque ajuda alguém, ou que é má porque prejudica. As pessoas são complicadas demais para terem rótulos simples.
— É verdade — concordou Lyra com firmeza.
— Sentiu falta de Deus? — perguntou Will.
— Senti — admitiu Mary — uma falta terrível. E ainda sinto. A coisa de que sinto mais falta é a sensação de estar conectada com o universo inteiro. Eu costumava me sentir ligada a Deus desse modo, e como ele estava lá, eu estava ligada e em contato com toda a sua criação. Mas se ele não está lá...
Lá longe no pântano, um pássaro gritou com uma série de sons melancólicos que foram decrescendo. As brasas se assentaram na fogueira, a relva estava se agitando ligeiramente sob a brisa noturna. Atai parecia estar cochilando como um gato, as rodas deitadas na relva a seu lado, as pernas dobradas sob seu corpo, os olhos semicerrados, a atenção metade aqui e metade em outro lugar. Will estava deitado de costas, os olhos abertos para as estrelas.
Quanto a Lyra, ela não havia movido um único músculo desde que aquela coisa estranha tinha acontecido e guardava a lembrança daquelas sensações em seu íntimo como um vaso frágil, cheio até a borda de novos conhecimentos, que ela mal ousava tocar por temor de derramá-los. Não sabia o que eram, nem o que significavam, nem de onde tinham vindo: de modo que ficou sentada imóvel, abraçando os joelhos, e tentou se obrigar a parar de tremer de excitação. Dentro de pouco tempo, pensou, daqui a pouco tempo eu saberei. Eu saberei dentro de muito pouco tempo.
Mary estava cansada: não tinha mais histórias para contar. Certamente se lembraria de outras amanhã.

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Boa leitura :)