17 de fevereiro de 2017

32. Manhã

Nasce a manhã, a morte se desfaz, os guardas deixam para trás os postos de vigia...
Willian Blake

A vasta pradaria dourada que o fantasma de Lee Scoresby tinha avistado, por um breve momento pela janela, estendia-se tranquila sob os primeiros raios de sol da manhã.
Dourada, mas também amarela, marrom, verde e com cada um de todos os milhares de matizes de cor entre eles, e negra, em certos pontos, com linhas e faixas de piche reluzente, e prateada também, onde o sol refletia as pontas de um tipo particular de relva, começando a florir, e azul, onde um amplo lago a alguma distância e um laguinho bem menor, mais próximo, refletiam a amplitude do azul do céu.
E tranquila, mas não silenciosa, pois uma brisa suave fazia farfalhar os bilhões de pequenas hastes, e um bilhão de insetos e outras pequenas criaturas arranhavam, zumbiam e cricrilavam na relva, e um passarinho voando em círculos, alto demais no azul para ser visto, cantava pequenas notas musicais como a cadência de sinos repicando, ora bem próximo, ora lá longe e nunca igual.
Em toda aquela vasta paisagem, as únicas coisas vivas que estavam silenciosas e imóveis eram o menino e a menina deitados dormindo, de costas um para o outro, à sombra de uma protuberância de rocha no alto de uma pequena escarpa.
Estavam tão quietos, tão pálidos, que poderiam estar mortos. A fome havia esticado a pele sobre os ossos de suas faces, o sofrimento deixado marcas em torno de seus olhos e eles estavam cobertos de poeira, lama e de uma boa quantidade de sangue. E, pela absoluta passividade dos membros de seus corpos, pareciam estar nos últimos estágios de exaustão. Lyra foi a primeira a acordar.
À medida que o sol foi subindo no céu, ultrapassou a rocha acima e tocou seus cabelos, ela começou a se mexer ligeiramente e, quando a luz do sol alcançou suas pálpebras, ela sentiu ser puxada das profundezas do sono como um peixe: devagar, pesada, resistindo. Mas não havia como discutir com o sol e, pouco depois, ela virou a cabeça, jogou o braço sobre os olhos e murmurou:
— Pan... Pan...
Sob a sombra do braço, ela abriu os olhos e, de fato, despertou. Durante algum tempo não se mexeu, porque seus braços e pernas estavam tão doloridos e sentia todas as partes de seu corpo pesadas e sem forças por causa da exaustão, mas, ainda assim, estava acordada e sentiu a brisa suave, e o calor do sol, ouviu os ruídos dos pequenos insetos e o canto como um repicar de sino daquele passarinho voando bem alto. Tudo aquilo era delicioso. Tinha se esquecido de como o mundo era bom.
Pouco depois, virou-se para o lado e viu Will, ainda profundamente adormecido.
A mão dele tinha sangrado muito, sua camisa estava rasgada e imunda, o cabelo duro de poeira e suor. Ficou olhando para ele durante muito tempo, para a pequena pulsação em sua garganta, para o peito que subia e descia lentamente, para as sombras delicadas que seus cílios criaram quando o sol finalmente os alcançou.
Ele murmurou alguma coisa e se mexeu de leve. Não querendo ser apanhada olhando para ele, ela olhou para o outro lado, para a pequena cova que tinham aberto na noite anterior, com apenas uns dois palmos de largura, onde os corpos do Cavaleiro Tialys e de Lady Salmakia agora repousavam. Havia uma pedra achatada ali perto: ela se levantou sobre o cotovelo, desprendeu-a do solo e a enfiou verticalmente na parte de cima da cova, então se sentou ereta e protegeu os olhos do sol com a mão para contemplar a planície.
Parecia sem fim, se estendendo interminavelmente. Em nenhum ponto era inteiramente plana, ondulações suaves e pequenas elevações e vales tornavam a superfície diferente para onde quer que olhasse e, aqui e ali, via grupos de árvores, tão altas que pareciam mais ser construções do que árvores que haviam crescido: seus troncos retos e copas verde-escuras pareciam desafiar a distância, estando tão claramente visíveis no que deveria ser uma extensão de muitos quilômetros.
Mais perto, no entanto — na verdade, na base da escarpa, a não mais de 90 metros — havia um laguinho alimentado por uma corrente de água que vinha de uma nascente na rocha e Lyra se deu conta de como estava com sede. Ela se levantou com as pernas trêmulas e foi andando devagar naquela direção. A nascente brotava gorgolejando e corria em meio às rochas cobertas de musgo, ela enfiou as mãos na corrente d’água uma porção de vezes, lavando-as e limpando a lama e fuligem antes de levá-las à boca para beber. A água estava gelada de doer os dentes e Lyra bebeu deliciando-se. As margens do laguinho eram orladas de juncos, onde um sapo coaxava. Suas águas eram rasas e mais quentes que as da nascente, como descobriu quando tirou os sapatos e foi entrando nele. Ficou parada ali por um longo tempo, com o sol na cabeça e seu corpo deliciando-se com a lama fresca sob seus pés e o fluxo das águas frias da nascente correndo em volta de suas pernas.
Ela se abaixou para mergulhar o rosto na água e molhar o cabelo todo, deixando-o boiar e depois mergulhando de novo, esfregando-o com os dedos para limpar a poeira e fuligem.
Quando se sentiu um pouco mais limpa e a sede estava saciada, olhou para o alto da escarpa de novo, para ver se Will havia acordado. Ele estava sentado com os joelhos encolhidos e os braços apoiados neles, observando a amplidão da planície como ela havia feito e maravilhando-se com sua extensão. E com a luz, o calor e a tranquilidade.
Ela subiu de volta devagar para se juntar a ele e o encontrou gravando os nomes dos galivespianos na pequena lápide, depois enfiando-a mais firmemente no solo.
— Eles estão...? — perguntou ele, e Lyra soube que se referia aos dimons.
— Não sei. Ainda não vi Pan. Tenho a sensação de que ele não está longe, mas não sei. Você se lembra do que aconteceu?
Ele esfregou os olhos e deu um bocejo tão grande que ela ouviu suas mandíbulas estalarem. Depois piscou os olhos e sacudiu a cabeça.
— Não muito bem — respondeu. — Eu peguei Pan e você pegou... a outra, atravessamos a janela e estava tudo iluminado pelo luar e eu o botei no chão perto da janela.
— E a sua... o outro dimon simplesmente saiu pulando dos meus braços — disse ela. — E eu estava tentando ver o Sr. Scoresby pela janela, e Iorek, e para onde Pan tinha ido, e quando olhei em volta eles não estavam mais lá.
— Mas não tenho mais aquela sensação que tive quando entramos no mundo dos mortos. Quando ficamos realmente separados.
— Não — concordou ela. — Eles com certeza estão em algum lugar por perto. Eu me lembro de quando éramos pequenos e costumávamos brincar de esconder, só que nunca realmente funcionava, porque eu era grande demais para me esconder dele e sempre sabia exatamente onde ele estava, mesmo que se camuflasse de mariposa ou coisa assim. Mas isto é esquisito — observou, passando a mão sobre a cabeça involuntariamente, como se estivesse tentando desfazer algum encantamento — ele não está aqui, mas não me sinto como se estivesse faltando um pedaço, me sinto segura e não sei onde ele está.
— Acho que eles estão juntos — disse Will.
— É, devem estar.
Ele se levantou de repente.
— Olhe — mostrou — ali adiante...
Will estava sombreando os olhos e apontando. Ela seguiu a direção de seu olhar e viu um tremor distante de movimento, bem diferente do tremeluzir da névoa de calor.
— Animais? — perguntou ela em tom de dúvida.
— E ouça — disse ele, pondo a mão em concha atrás da orelha. Agora que Will tinha chamado sua atenção, Lyra ouviu o som de um ribombar baixo, contínuo, quase como uma trovoada, vindo de muito longe.
— Eles desapareceram — disse Will, apontando.
A pequena mancha de sombras em movimento havia desaparecido, mas o som de trovoada se prolongou por alguns instantes. Então tudo ficou repentinamente mais tranquilo, embora já tivesse estado muito tranquilo antes. Os dois ainda estavam olhando para a mesma direção e, pouco depois, viram o movimento começar de novo. E alguns momentos depois veio o som.
— Eles entraram atrás de uma elevação ou coisa assim — comentou Will. — Acha que estão mais perto?
— Sinceramente não consigo ver. Sim, estão se virando, olhe, eles estão vindo para cá.
— Bem, se tivermos que lutar com eles, quero beber água antes — disse Will e levou a mochila até a nascente, onde bebeu bastante água e se lavou, limpando a maior parte da sujeira.
Seu ferimento tinha sangrado muito. Ele estava imundo, louco por um banho de chuveiro quente com muito sabão e roupas limpas para vestir depois.
Lyra estava observando os... lá o que fossem, eram realmente muito estranhos.
— Will — chamou ela — eles estão montados em rodas...
Mas ela disse isso em tom incerto. Ele subiu um pouco mais acima na encosta e sombreou os olhos para olhar. Agora era possível ver indivíduos. O grupo ou rebanho ou bando era de cerca de uma dúzia e eles estavam se movendo, como Lyra dissera, sobre rodas. Pareciam um cruzamento de antílopes com motocicletas, mas eram ainda mais estranhos que isso: tinham trombas como pequenos elefantes.
E estavam vindo na direção de Will e Lyra, com um ar de determinação. Will puxou a faca, mas Lyra, sentada na relva a seu lado, já estava girando os ponteiros do aletiômetro.
O instrumento respondeu depressa, enquanto as criaturas ainda estavam a uns 90 metros de distância. O ponteiro girou rapidamente para a esquerda e para a direita, e Lyra o observou ansiosamente, pois suas últimas leituras tinham sido tão difíceis e sua mente se sentia desajeitada e hesitante enquanto ia descendo pelas ramificações de compreensão. Em vez de voar rapidamente como um pássaro, ela seguiu se segurando com as mãos em busca de apoio, mas o significado estava lá, sólido como sempre, e logo compreendeu o que estava dizendo.
— Eles são amigos — declarou — está tudo bem, Will, estão procurando por nós, sabem onde estávamos... E, é muito estranho, não consigo entender muito bem... a Dra. Malone?
Ela disse o nome meio que para si mesma, porque não conseguia acreditar que a Dra. Malone estivesse naquele mundo. No entanto, o aletiômetro a havia indicado claramente, embora, é claro, não pudesse dizer seu nome. Lyra guardou o instrumento e se levantou lentamente ao lado de Will.
— Acho que deveríamos descer para encontrá-los — disse. — Não vão nos fazer mal.
Alguns deles tinham parado, esperando. O líder se adiantou um pouco, com a tromba erguida, e eles puderam ver como se impulsionava, com fortes empurrões para trás com os membros laterais. Alguns dos seres tinham ido até o laguinho para beber água, outros esperavam, mas não com a curiosidade passiva de vacas reunidas junto de uma porteira. Aqueles seres eram indivíduos, animados por inteligência e propósito. Eles eram gente.
Will e Lyra desceram pela encosta até estarem perto o bastante para falar com eles. A despeito do que Lyra tinha dito, Will manteve a mão na faca.
— Não sei se vocês me compreendem — disse Lyra cautelosamente — mas sei que são amigos. Acho que deveríamos...
O líder moveu a tromba e disse:
— Venha ver Mary. Vocês montam. Nós levamos. Venha ver Mary.
— Ah! — exclamou ela e virou-se para Will, sorrindo cheia de satisfação.
Dois dos seres estavam equipados com rédeas e estribos de corda trançada. Sem selas, mas seus dorsos em forma de losango se revelaram bastante confortáveis sem elas. Lyra havia montado num urso e Will andava de bicicleta, mas nenhum deles havia montado a cavalo, que era a comparação mais próxima. Contudo, os cavaleiros que montam cavalos geralmente estão no comando, e as crianças logo descobriram que não estavam: as rédeas e estribos estavam lá simplesmente para dar-lhes alguma coisa em que se segurar e se equilibrar. Os seres é que tomavam todas as decisões.
— Onde estão... — Will começou a falar, mas teve que parar e recuperar o equilíbrio quando o ser se moveu.
O grupo fez meia-volta e desceu a encosta suave, seguindo devagar pela relva. O movimento era sacolejante, mas não desconfortável, porque os seres não tinham coluna dorsal: Will e Lyra tinham a impressão de estarem sentados em cadeiras com assentos macios de mola.
Logo chegaram ao que não tinham visto claramente da escarpa: um daqueles trechos de solo negros ou marrom-escuros. A estrada se parecia mais com um curso d’água que com uma via expressa, porque em certos lugares se alargava em áreas amplas como pequenos lagos e em outros se dividia em canais estreitos só para se unir mais adiante imprevisivelmente. Era completamente diferente da maneira racional e brutal com que as estradas cortavam as encostas de colinas e se estendiam em pontes de concreto. Aqui aquilo era parte integrante da paisagem, não algo imposto a ela. Estavam seguindo em velocidade cada vez maior. Will e Lyra levaram algum tempo para se habituar ao impulso vivo dos músculos e ao rugido trepidante das rodas duras sobre a pedra dura. Lyra inicialmente teve mais dificuldade que Will, pois nunca tinha andado de bicicleta e não conhecia o truque de se inclinar para o lado, mas observou como ele fazia e logo estava achando a velocidade deliciosa.
As rodas faziam barulho demais para que pudessem conversar. Em vez disso, tinham que apontar para as árvores, com espanto diante de seu tamanho e esplendor, para um bando de passarinhos, os mais estranhos que já tinham visto, as asas à frente e atrás dando-lhes um movimento em espiral no ar, para um gordo lagarto azul do comprimento de um cavalo, tomando banho de sol bem no meio da estrada (os seres de rodas se dividiram para passar pelos lados dele e o lagarto não deu a menor bola).
O sol estava alto no céu quando começaram a reduzir a velocidade. E no ar pairava o cheiro salgado inconfundível do mar. A estrada estava subindo para uma encosta e pouco depois estavam se movendo na mesma velocidade de alguém andando a pé. Dolorida e com os músculos enrijecidos, Lyra disse:
— Pode parar? Quero desmontar e andar.
O ser que a transportava sentiu o puxão nas rédeas e quer tenha compreendido ou não suas palavras, ele se deteve. O de Will também parou e as duas crianças desmontaram, sentindo-se doloridas e com os músculos enrijecidos depois da trepidação e tensão constantes.
Os seres viraram-se para falar uns com os outros, suas trombas se movendo elegantemente no mesmo compasso dos sons que faziam. Depois de um minuto seguiram adiante, e Will e Lyra ficaram satisfeitos de caminhar em meio aos seres com cheiro de feno e relva cálida que iam rolando sobre suas rodas ao lado deles. Um ou dois tinham seguido à frente para o topo da elevação e as crianças, agora que não precisavam mais se concentrar em se segurar, puderam observar como eles se moviam, e admirar a graça e a força com que se propeliam para frente e se inclinavam para fazer curvas. Quando chegaram ao alto da encosta, pararam e Will e Lyra ouviram o líder dizer:
— Mary perto. Mary lá.
Olharam para baixo. No horizonte havia o reflexo azul do mar. Um rio largo de curso lento serpenteava em meio ao pasto a meia distância e na base da longa encosta, entre capoeiras de pequenas árvores e fileiras de plantações de verduras, havia um povoado de casas com teto de colmo. Mais seres iguais àqueles se movimentavam entre as casas ou cuidavam das plantações ou trabalhavam entre as árvores.
— Agora, montem de novo — disse o líder.
Não faltava muito para chegarem. Will e Lyra montaram novamente e os outros seres examinaram meticulosamente se estavam bem equilibrados e verificaram os estribos com suas trombas, como se estivessem assegurando-se de que estavam em segurança. Então eles partiram, batendo na estrada com os membros laterais, e se impulsionando para frente para descer a encosta até estarem se movendo numa velocidade assombrosa. Will e Lyra seguraram-se firme com mãos e joelhos e sentiram o ar passar chicoteando por seus rostos, lançando seus cabelos para trás e fazendo pressão em seus olhos. O trovejar das rodas, o passar rápido do pasto dos dois lados, a inclinação certeira e poderosa na curva ampla adiante, o deleite lúcido da velocidade — aqueles seres adoravam aquilo e Will e Lyra sentiram o contentamento deles e riram felizes em resposta.
Eles pararam no centro do povoado e os outros que os tinham visto a caminho se reuniram levantando as trombas e dizendo palavras de boas vindas. E então Lyra exclamou:
— Dra. Malone!
Mary tinha saído de uma das choupanas, a camisa azul desbotada, seu corpo forte, as faces coradas e calorosas, ao mesmo tempo estranhas e familiares.
Lyra correu e a abraçou e a mulher lhe deu um abraço apertado e Will ficou para trás, cauteloso e hesitante.
Mary beijou Lyra carinhosamente e depois se adiantou para dar as boas-vindas a Will. E então houve uma curiosa dança mental de simpatia e acanhamento, que ocorreu em um segundo ou menos.
Movida pela compaixão pelo estado em que eles estavam, Mary inicialmente quis abraçá-lo como a Lyra. Mas Mary era uma adulta e Will era quase adulto e ela percebeu que aquele tipo de reação teria feito dele uma criança, porque ela poderia ter abraçado e beijado um menino, mas nunca teria feito isso com um homem que não conhecesse, de modo que recuou mentalmente, querendo sobretudo demonstrar respeito por aquele amigo de Lyra e não fazer com que ele se sentisse diminuído.
De modo que, em vez disso, estendeu a mão, ele a apertou e uma corrente tão poderosa de compreensão e de respeito fluiu entre os dois que imediatamente tornou-se uma afeição, e cada um dos dois sentiu que tinha feito um amigo para o resto da vida, como de fato fizeram.
— Este é Will — disse Lyra — ele vem de seu mundo, lembra-se, eu falei dele...
— Sou Mary Malone — apresentou-se — e vocês estão com fome, todos os dois, parecem estar morrendo de fome.
Ela se virou para o ser a seu lado e pronunciou alguns daqueles sons cantados, apitados, movendo o braço enquanto o fazia.
Imediatamente os seres se afastaram e alguns deles trouxeram almofadas e tapetes da casa mais próxima e os colocaram na terra firme debaixo de uma árvore próxima, cujas folhas densas e galhos baixos ofereciam uma sombra fresca e perfumada.
Tão logo eles estavam confortavelmente acomodados, os anfitriões trouxeram tigelas cheias até a borda de leite que tinha uma leve adstringência de limão e era maravilhosamente refrescante, e pequenas nozes semelhantes a avelãs, mas com um sabor mais forte, amanteigado, e salada feita com verduras frescas acabadas de ser colhidas, folhas crocantes de sabor forte, apimentado, misturadas com outras macias e grossas que escorriam uma seiva cremosa, e pequenas raízes do tamanho de cerejas, com sabor de cenouras doces. Mas eles não conseguiram comer muito. Era tudo forte e suculento demais. Will queria fazer justiça à generosidade deles, mas a única coisa que conseguiu engolir com facilidade, além da bebida, foi um pão achatado, de farinha ligeiramente tostada, parecendo chapatis ou tortilhas. Era simples e nutritivo e foi tudo o que Will conseguiu comer. Lyra provou um pouco de tudo, mas como Will, logo descobriu que um pouquinho era mais que o suficiente. Mary conseguiu evitar fazer perguntas. Aqueles dois tinham passado por uma experiência que os havia marcado profundamente: ainda não queriam falar a respeito dela.
De modo que respondeu às perguntas deles sobre os mulefas e relatou brevemente como havia chegado àquele mundo, então ela os deixou à sombra da árvore, porque podia ver que estavam com as pálpebras pesadas e cabeceando de sono.
— Agora vocês não precisam fazer nada, só dormir — declarou.
A tarde estava agradável e calma, e a sombra da árvore era modorrenta e murmurante com o som de grilos. Menos de cinco minutos depois de terem tomado o último gole da bebida, tanto Will como Lyra dormiam profundamente.
Eles são de dois sexos diferentes?, perguntou Atai, surpreendida. Mas como pode distinguir?
É fácil, disse Mary. Seus corpos têm formas diferentes. Eles se mexem de maneiras diferentes.
Eles não são muito menores que você. Mas têm menos sraf. Quando isso chegará para eles?
Não sei, respondeu Mary. Imagino que dentro de muito pouco tempo. Não sei quando acontece conosco.
Não têm rodas, comentou Atai em tom de simpatia.
Elas estavam limpando a horta. Mary tinha feito uma enxada para evitar ter que se agachar, Atai usava sua tromba, de modo que a conversa era intermitente.
Mas você sabia que eles estavam vindo, disse Atai.
Sabia.
Foram os palitos que disseram?
Não, respondeu Mary, corando. Ela era uma cientista, já era bastante mau ter que admitir que consultava o I Ching, mas isso era ainda mais constrangedor. Foi uma imagem-noite, confessou.
Os mulefas não tinham uma palavra determinada, específica para sonho. Contudo, eles sonhavam vividamente e levavam muito a sério seus sonhos.
Você não gosta de imagens-noite, disse Atai.
Sim, eu gosto. Mas não acreditava nelas até agora. Vi o menino e a menina tão claramente, e uma voz me disse que eu me preparasse para a vinda deles.
Que tipo de voz? Como falou com você se não podia ver?
Era difícil para Atai imaginar a fala sem os movimentos da tromba que a esclareciam e a definiam. Ela havia parado no meio de uma fileira de pés de feijão e se virado para encarar Mary com uma curiosidade fascinada.
Bem, mas eu vi, respondeu Mary. Era uma mulher, ou uma voz feminina, como a nossa, como a de meu povo. Mas muito idosa e ao mesmo tempo nada idosa.
Pessoa de saber, era assim que os mulefas chamavam seus líderes. Ela viu que Atai a estava olhando intensamente interessada. Como ela podia ser velha e também não velha?, perguntou Atai.
É um faz-parece, respondeu Mary.
Atai balançou a tromba, tranquilizada.
Mary prosseguiu tentando explicar o melhor que podia.
Ela me disse que eu deveria esperar as crianças, quando eles apareceriam e onde. Mas não por quê. Devo cuidar deles, protegê-los.
Estão feridos e cansados, disse Atai. Eles vão fazer o sraf parar de ir embora?
Mary olhou para cima inquieta. Sabia, sem precisar confirmar olhando pela luneta, que as partículas de Sombra estavam fluindo para longe mais rapidamente que nunca.
Espero que sim, respondeu. Mas não sei como.


Ao cair da tarde, quando as fogueiras para cozinhar foram acesas e as primeiras estrelas estavam surgindo, chegou um grupo de estranhos. Mary estava se lavando, ouviu o trovoar de suas rodas e o murmúrio agitado da conversa, e se apressou em sair de sua casa, se enxugando.
Will e Lyra tinham dormido a tarde inteira e só agora estavam começando a se mexer, ao ouvir o barulho. Lyra se levantou, ainda meio tonta, para ver Mary falando com cinco ou seis mulefas que a rodeavam, claramente excitados, mas se estavam aborrecidos ou contentes, não sabia dizer. Mary a viu e se afastou do grupo.
— Lyra — disse — aconteceu alguma coisa... eles descobriram uma coisa que não sabem explicar e é... eu não sei o que é... tenho que ir até lá e olhar. Fica a mais ou menos uma hora daqui. Volto assim que puder. Pode pegar e usar tudo o que precisar em minha casa... não posso demorar, eles estão muito nervosos.
— Tudo bem — respondeu Lyra, ainda atordoada pelo longo tempo de sono.
Mary olhou para a sombra da árvore. Will estava esfregando os olhos.
— Realmente não vou demorar muito — prometeu ela. — Atai vai ficar com vocês.
O líder estava impaciente. Rapidamente, Mary colocou as rédeas e os estribos no dorso dele, desculpando-se pela falta de jeito, e montou imediatamente. Eles circularam, tomando impulso, depois se viraram e se afastaram sob a luz do anoitecer.
Seguiram numa nova direção, acompanhando a cadeia de colinas que se elevava acima da costa em direção ao norte. Mary nunca tinha viajado no escuro antes e achou a velocidade ainda mais assustadora do que de dia. À medida que iam subindo, Mary podia ver o brilho do luar refletindo no mar a alguma distância à esquerda e sua luz sépia-prateada parecia envolvê-la num encantamento fresco e cético. O encantamento estava dentro dela e o ceticismo estava no mundo que a cercava, o frescor estava presente nos dois. Olhava para o alto de vez em quando e tocava na luneta em seu bolso, mas não podia usá-la enquanto não tivessem parado. E aqueles mulefas estavam se movendo com grande velocidade, com o ar de que não quereriam parar para nada. Depois de uma hora de percurso veloz, eles viraram em direção ao interior, deixando a estrada de pedra e seguindo lentamente por uma trilha de terra batida que se estendia entre o pasto de relva alta, passando por um grupo de árvores-das-rodas, e subia para uma cadeia de colinas. A paisagem reluzia sob a luz do luar: amplas colinas nuas com pequenos vales ocasionais onde correntes d’água desciam, borbulhando, entre as árvores que se aglomeravam às suas margens.
Foi em direção a um desses vales que eles a conduziram. Mary tinha desmontado quando eles deixaram a estrada e caminhou em ritmo constante, acompanhando o ritmo deles até o alto da colina, e desceu para o vale. Ouviu o borbulhar da nascente e o vento noturno soprando na relva. Ouviu o som suave das rodas girando sobre a terra bem batida e ouviu os mulefas mais adiante dela murmurando uns com os outros, e então eles pararam.
Na encosta da colina, a apenas uns poucos metros de distância, havia uma daquelas aberturas feitas pela faca sutil. Era como a boca de uma caverna, pois o luar iluminava um pequeno trecho de sua parte interna, como se o interior da abertura fosse o interior da colina: mas não era. E da abertura estava saindo uma procissão de fantasmas.
Mary teve a sensação de que o chão tinha se aberto sob sua mente. Ela se controlou sobressaltada, agarrou-se ao galho mais próximo, para se assegurar de que ainda havia um mundo físico e que fazia parte dele. Ela se aproximou. Homens e mulheres idosos, crianças, bebês de colo, seres humanos e também outros seres, cada vez em grupos mais compactos, saíam da escuridão para o mundo do luar sólido — e desapareciam. Era a mais estranha das coisas. Eles davam alguns passos no mundo de relva, ar e luz prateada, olhavam ao redor, seus rostos transfigurados de felicidade — Mary nunca tinha visto tamanha felicidade — e estendiam os braços abertos para o alto como se estivessem abraçando o universo inteiro, e então, como se fossem feitos de neblina ou de fumaça, simplesmente saíam flutuando, se desfazendo, tornando-se parte da terra, do orvalho e da brisa noturna.
Alguns deles se aproximaram de Mary, como se quisessem dizer alguma coisa a ela, e estenderam as mãos, e ela sentiu o toque deles como pequenos choques de frio. Um dos fantasmas — de uma mulher idosa — acenou, insistindo para que ela se aproximasse.
Então ela falou e Mary a ouviu dizer:
— Temos que contar histórias a elas. Era disso que não sabíamos. Todo esse tempo e nunca soubemos! Mas elas precisam da verdade. É isso que as alimenta. Você tem que contar histórias verdadeiras e tudo fica bem, tudo. É só contar-lhes as histórias.
E isso foi tudo. Foi um daqueles momentos como quando nos recordamos, de repente, de um sonho que, inexplicavelmente, havíamos esquecido, e numa torrente toda a emoção que havíamos sentido durante o sono volta. Era o sonho que ela tinha tentado explicar a Atai, a imagem-noite, mas quando Mary tentou encontrá-la de novo, ela se dissolveu e se afastou, exatamente como aquelas presenças estavam fazendo ao chegar ao ar livre. O sonho havia desaparecido.
Tudo o que restou foi a doçura do sentimento e a recomendação insistente de contar-lhes histórias. Ela olhou para a escuridão. Até onde podia enxergar naquele silêncio infinito, mais daqueles fantasmas estavam se aproximando, milhares e mais milhares, como refugiados voltando para sua terra natal.
— Contar-lhes histórias — disse para consigo mesma.

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